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Fábrica de Histórias

por Closet, em 29.03.09

Escolha programada

Tiiiiii. O meu cronómetro avisava-me. Estava na hora. Abri a janela e sentei-me na minha skymoto. Em 10 segundos cheguei ao local. Tinha recebido a mensagem há duas semanas e desde então não pensava noutra coisa. Pesquisei nos perfis disponíveis o que me interessava. Não sabia bem. A minha mãe dizia-me que antes não era assim. Que se conheciam na rua, na escola, num café. Agora tudo era diferente, para uma saudável evolução humana éramos separados na escola, não era permitido frequentarmos os mesmos locais. Só a partir dos 18 anos é que podíamos ter contacto. Fazíamos o registo na rede, enviámos a impressão digital e um scanner óptico e, depois de aceites, marcávamos tudo através do nosso User. Eu tinha escolhido um homem de cabelo loiro, olhos azuis, 1,80cm e 75kg. Dos 20 compatíveis com o meu perfil escolhi um ao acaso. Era hoje o dia tão esperado.Chamavam-lhe o Casulo, um lugar privado onde homens e mulheres podiam conhecer o seu par.
Encostei a mão e olhei para o visor. A porta abriu-se e entrei ansiosa numa sala ampla. Um holograma de uma senhora sorridente apareceu “Bem-Vinda ao Meeting Point, suba para a plataforma e será teletransportada para o casulo durante 42 horas ”. Num ecrã pendurado no tecto passavam imagens de Dhepa. Era lá o casulo. Subi para aquele cubículo de 3m2. Ficou escuro por segundos. Voltou a luz. Olhei maravilhada a imagem de uma praia ao fundo. Abri o fecho do meu fato branco de vinil. Estava calor. Subi para o jetboard e fui levada em direcção a um edifício espelhado. O meu intra-auricular dizia-me para seguir em direcção à porta YB7. Entrei.
O quarto tinha uma cama redonda suspensa e um ecrã na parede. Da janela via-se a imagem da praia. Ele estava junto à janela, alto, de blusão azul. Mas o seu cabelo era escuro e desgrenhado. Voltou-se, olhou para mim com uns olhos castanhos profundos e sorriu. Fiquei deslumbrada com a espontaneidade do seu sorriso, com o brilho dos olhos na sua face morena. Tive a certeza que, se pudesse voltar atrás, escolheria exactamente um homem assim.
- Devemos estar trocados – disse-lhe a sorrir.
- Achas? Porquê?
- Eu escolhi um homem loiro de olhos azuis, deve haver um engano.
Os olhos dele deixaram de sorrir e perderam-se de novo na imagem da praia.
- Que pena… Eu escolhi exactamente uma pessoa como tu, de cabelos castanhos, olhos escuros e pele clara. Escolhi uma pessoa doce e meiga. Pensei mesmo que eras tu…
Fiquei com um nó no estômago.
- Desculpa…fui bruta. Acho que devem ter-se enganado e vão descobrir a qualquer hora... Mas já que aqui estamos, podemos conhecer-nos?
- Conhecer? Para quê? Se eu não estou no teu destino. Tu não me escolheste. Mas tenho a certeza que eu escolhi-te a ti. Que confusão é tudo… e agora não sei como irei esquecer-te.
Ele tinha despido o blusão e apercebi-me da estrutura perfeita do seu corpo… que burra não ter escolhido um homem exactamente como ele… se soubesse… se pudesse escolher de novo. Mas só podemos escolher uma vez. Este encontro é o nosso futuro, um óvulo fecundado para, no momento certo, gerar-se um filho. Mas só nasceria quando fosse necessário. Havia uma ordem. Tudo estava programado. Só não estava programado aquele encontro trocado. E agora, o que fazíamos?
Respondi-lhe com a sinceridade com que tinha sido programada.
- Sabes, agora que olho para ti, gostava mesmo de ter-te escolhido.
- Porque não o fizeste? resmungou baixinho.
- Talvez seja mesmo assim. Talvez nem sempre se encontre o nosso par ideal. Ou então o ideal não existe e vivemos todos numa enorme mentira.
- Mas tu és o meu ideal...
- E tu também és o meu, mas eu não sabia...Nós estamos aqui agora, este momento é nosso, só nosso...não queres arriscar?
Voltou-me a sorrir, encolhia os ombros e piscava-me o olho.
Talvez o nosso destino seja esse mesmo, não ser programado.
Colocou os braços à volta da minha cintura e puxou-me para ele. Enfeitiçou-me com o olhar, invadiu-me com o seu cheiro, golpeou-me com o seu beijo. Tudo nele era perfeito. Programámos a luz para ser noite e a cama para flutuar junto à janela. Programámos uma melodia para embalar os nossos risos. Programámos os nossos corpos para se entregarem sem fronteiras. Adormecemos exaustos nos braços um do outro, sem saber onde começava a minha perna e onde a dele acabava. Tudo era tão pouco. Percebi, naquele instante, que o amor não está programado, na sua essência ele é inesperado.
Acordei com o ecrã a piscar, a lembrar que o tempo tinha terminado. Abri os olhos e vi, atordoada,  que tinha um homem loiro sorrindo ao meu lado.

(Texto escrito para a Fábrica de Histórias).

 

 

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publicado às 22:58


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