Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A nossa história

por Closet, em 07.10.10

 

Vou contar-te a nossa história mais uma vez.

Não sei bem como começou. Já não me lembro do inicio. Pode ser como todas as histórias, “era uma vez”, ou um “olá, tudo bem?”. Mas sei o final, obstinado, é reincidido. No final tu deixas-me.

Por mais voltas que dê à história, a vire ao contrário, por mais vezes que volte ao início, acabas sempre por deixar-me. De alguma forma e por motivos que desconheço. Desconexos, desventrados de sentido.

E é numa escuridão pertubante, com os ouvidos embriagados de vãs promessas de amor eterno, que dou por mim a procurar-te mais uma e outra vez. Num vício mórbido, errante… desenterro-te, novamente. Repetidamente.

Os inícios nunca sei bem, como se acontecessem por instinto, mas o final é sempre o mesmo, sei-o e cor: no fim tu deixas-me. Atordoada, perdida. Sem saber se estou morta ou viva.

Talvez seja essa a nossa história, que te conto. Triste e amarga, sem início definido...

Apenas o final está escrito: tu deixas-me sempre. Assim, sem eu saber porquê. Desapareces e mais uma vez eu fico a sangrar ferida. "Onde estás?" num eco sem resposta. Talvez seja esse o nosso destino.

publicado às 01:54

O 1º amor

por Closet, em 27.08.10

 

- Humm… Olá..

- Sim?...

- Ãããã… quem fala?

- isso pergunto eu? Quer falar com quem?

- Ahh… bem, eu - gagueja - eu ando á procura do meu 1º amor

- E porque acha que sou eu?

- Tem o mesmo nome na lista telefónica… pensei que podia mas,... já vi que não é, desculpe.

 

Já passou tanto tempo, mais de metade da sua vida. E, de repente, sem pensar, decidiu procura-lo. Sem medos, sem receios. Nem porquês.

Mas percebe que há muito tempo se desfez de tudo o que tinha dele. Sobreviveu apenas um nome e um rosto na memória. Frases ébrias, soltas, enevoadas, enroladas numa bonita história. Sobreviveu a sua voz inconfundível, oriunda de lábios carnudos e quentes, um olhar inesquecível, olhos cor de mel, enormes e carentes. Mas tudo isto, sem ser fantasia, de nada lhe servia para o encontrar.

E com o tempo, endurecendo o corpo e a mente, acabou por o deixar. “Morreu”, repetia, convencendo-se do impossível: o 1º amor nunca morre, sobrevive como um fantasma toda a vida. Anda à sua volta como uma sombra, segue-a para todo o lado e, mesmo tendo-a derrotado, é nesse amor fantasma, na sua genuinidade e euforia que ela ainda hoje se abriga. Nos momentos de desilusão, abraça-o com força e sente-o como antes, a ocupa-la por inteiro, com a mesma paixão. O 1º amor é uma espécie de apagão, um estádio híbrido entre a morte e a vida.

Tantos anos depois, mais de metade do que já viveu, conseguiu o que só em sonhos previa. Encontrou-o, tem o seu contacto, viu-o numa fotografia. Sabe que está longe, mas não se importa. Mesmo distante, está vivo e feliz. Repete. Vivo. E sabe, nesse mesmo instante, alucinante, que voltará a vê-lo um dia.

 

Inspirado em:

 

“(…) O primeiro amor ocupa tudo. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada. (..) Não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado. (…) O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar á volta e não se consegue parar. (…)

O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. (…)

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: não pensar, não resistir, não duvidar. (…) o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. (…)

Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças

Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».

É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro. “

Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas (1988)

 

publicado às 17:36

Girar ao contrário

por Closet, em 19.07.10

Um dia, se o mundo girar ao contrário, vou-te reencontrar naquele parque, à beira da estrada, de carros abandonados onde nos separámos.

Nesse dia, os olhares atrapalhados vão desembocar no beijo ileso, que ficou preso, amarrado ao verbo apetecer.

Se mudar o rumo, corro atrás do teu corpo que ondula abandonado por entre carros, testemunhas do desejo cego de orgulhos que nos separaram num ridículo corte fatal. E deixo soltar as palavras estancadas, de hemorragias que escorreram num percurso teatral. 

Às vezes ainda penso em ti, e tenho a vontade de fazer o mundo girar. Para um lado ou para o outro, não importa. Que gire! E volte ao dia onde nos abandonámos por entre os olhares intimistas dos carros, cúmplices de uma despedida tortuosa, corrosiva, de corpos desmembrados de um abraço perfeito. Num só corpo encaixados, o teu batimento junto ao meu peito. Um ritmo acelerado, num compasso acompanhado pelo meu. No meio dos carros parados, os rostos vacilaram, como por destino, automaticamente para o mesmo lado. O teu e o meu. Atraíram-se, os lábios procuraram-se magneticamente. Ainda assim, impedimos aquele momento que era só seu. Se pudesse girar o tempo, naqueles segundos largados ao vento, deixava-os fazer amor, encaixava os meus lábios nos teus, sem vacilar. Mordiscava-os lentamente, saboreava-os sem pressa. O prazer de um beijo sempre foi isento de pensar.

O mundo girou, girou tanto, tantas vezes, cada vez mais para o lado errado e por tempo demais. Já não sei onde estás. Amargamente, despojei-te de mim e nem me lembro da última vez em que te vi.

Mas se um dia, o mundo girar ao contrário, e eu encontrar-te novamente nos meus braços, vou mostrar-te, sem orgulhos, o quanto gostei de ti.

 

inspired by http://clandestinidades.blogs.sapo.pt/143131.html!

publicado às 00:25

Baralhar e voltar a dar

por Closet, em 13.07.10

Invadiu-a uma vontade imensa de baralhar e voltar a dar.

Começar de novo o jogo, com outras cartas, novos trunfos.

Conhece-lo de novo. Ou melhor, conhece-lo. De verdade.

Deitar as cartas na mesa e, sem orgulhos ridículos (porque todos os orgulhos são estupidamente ridículos), jogar limpo, sem bluffs. Apenas pelo prazer de jogar.

Se ela pudesse voltava atrás, e nas cartas que jogava enfrentava o seu olhar, provocante, felino, inquietante, naquela tarde em que anoiteceu rápido demais. Numa jogada irreflectida, violava os seus lábios sequiosos, ali mesmo na areia junto ao mar. Foi ali a primeira vez que os desejou saborear. Ambiciosa, guardou os trunfos, num jogo rotineiro, cansativo, cujo desfecho não tardava a chegar.

Se tivesse oportunidade, baralhava, tudo de novo, sem questionar.

E naquela tarde desencontrada esquecia as regras do jogo, dos trunfos, dos azes, dos reis ou rainhas. Dizia-lhe que o sonhava há demasiado tempo e que os seus braços eram o local onde mais ansiava ancorar.

Se baralhasse de novo, voltava novamente atrás depois de o deixar. Mas já não inventava desculpas para justificar. Beijava-o outra vez de rompante, com a mesma paixão fulminante, mostrando as cartas que tinha na mão. "Desejo-te" gritava-lhe nos olhos supensos, e rendia-se aquele momento, híbrido de loucura e paixão. Repetia aquele beijo embaralhado, desajeitado e violento de quem não pensa em ganhar. Jogava apenas para aquela noite, baralhava e voltava a dar, outras cartas que resistissem a pensar. Se baralhasse, ficaria enrolada no seu corpo apetecido, abrigada como um foragido que não tem onde ficar. Despia-o  por fora e por dentro, percorria-o num beijo demorado, lento, até o baralho acabar.

Se pudesse dar de novo, esquecia aquele jogo ridículo, já viciado antes de baralhar.

As cartas ficaram na mesa, tristes, perdidas, à espera que um deles volte a jogar.

publicado às 02:19

um pouco do pintor

por Closet, em 12.07.10

Retalhos...

(...)

Tinha chegado um pouco mais cedo, ainda faltavam 15 minutos para a hora marcada. Sentia a sensação absurda de ansiedade, combinámos o “encontro” por telefone, como num blind date,  de uma forma quase surreal.

- Olá, estou a falar com a Vera?

- Sim…

- Eu sou o vizinho da Carla, quer dizer, o ex-vizinho, … eu fiquei com o seu contacto para lhe entregar uma encomenda que ela estava à espera...

- sim, sim, o do 3º Dto, certo?

- Vasco.

- Certo, o do 3º Dto.

- Como queira, mas prefiro que me tratem por Vasco.

- Ai, desculpe, não era isso que queria dizer… a Carla contou-me sim, que estava à espera de uma encomenda… já chegou foi?

- Sim, tenho aqui uma caixa em nome dela, penso que seja isto. Como posso entregar-lhe?

- Humm… eu trabalho em Paço de Arcos, fica longe para si?

- Sim, fica completamente…eu estou o dia todo em Lisboa…

"Que simpático"pensei um ranger de dentes.

- Então, não faz mal. Eu vou ter consigo a Lisboa, mas tem de ser ao fim do dia, pode ser?

- Depende. Eu trabalho até às 21h30, só se combinarmos num bar aqui perto do meu trabalho.

"Cada vez mais simpático" espumava internamente.

- Num bar? Pode ser… e onde é esse bar?

- No Bairro Alto, chama-se Nuts e é na Rua da Vitória. Conhece?

- Não, mas não se preocupe, eu chego lá. Pode ser esta 5ªfeira?

- Combinado então. Às 22h.Até 5ª!

E desligou. Assim, na minha cara. Nem tive tempo de perguntar como ele era nem como o iria reconher… Telefonei à Carla, tinha mudado para Londres há duas semanas, e pedi-lhe uma descrição física do seu simpático e prestável vizinho… “não é loiro nem moreno, nem alto nem baixo, tem um ar assim… não sei, meio estranho... mas é educado!  … Sei lá…tem sempre a camisa aberta e por fora amarrotada, calças sem bainha a roçar o chão…tem ar de artista, sim, acho que é isso, dá aulas de qualquer coisa relacionada com arte”. Não ajudou muito, na verdade ainda contribuiu mais para eu não ter qualquer vontade de me encontrar com ele. Mas lá fui. Numa 5ª feira à noite saí do conforto da minha casa, onde devorava séries americanas no sofá junto à lareira, para a rua gelada de uma noite de Novembro.

Estava numa fase introspectiva. Não queria conhecer ninguém, nem queria ninguém na minha vida. A relação com o Pedro tinha-me deixado marcas que precisavam de sarar numa espécie de solidão forçada. De alguma forma sentia que precisava de me encontrar. Compreender-me, para então poder compreender e aceitar novamente alguém. Decidi que nesse Inverno iria hibernar, só saía para aniversários e o mínimo possível de eventos sociais.

Como por destino, lá estava eu, naquela 5ª feira à noite, sozinha num bar desconhecido a beber um Gin Tónico e sem fazer a mínima ideia de como seria a criatura que iria aparecer-me pela frente. “Pelo menos deveria transportar uma caixa debaixo do braço, talvez assim seria fácil de reconhecê-lo”, pensei.

Estava a viajar pela música quando o toque do meu telemóvel fez-me dar um salto. Vasculhei na minha mala, e é só nestas ocasiões em que não conseguimos encontrar o que procuramos é que nos apercebemos que é demasiado grande, quando ele parou de tocar. Foi nessa altura que apareceste na minha frente como num filme de cinema.

- Olá, eu sou o 3º Dto, posso me sentar?

Não consegui esconder um sorriso embaraçado, tirei a mala de cima do sofá e acenei.

Trazias umas calças largas de ganga russa e uma camisa em tons castanhos por fora. E por cima apenas um blusão de cabedal preto. O cabelo era de facto despenteado, num ondulado castanho-claro, com jeitos que pareciam nem tentar ser domados com um pente. Tive a certeza que o fazias com os dedos.

Pediste um Gin com limão para me acompanhar e perguntaste o que achava do bar.

- Simpático, acolhedor… não percebo muito de música mas estou a gostar.

- Toca-se vários estilos. Agora é Jazz. O bar é de um amigo meu. Ajudei-o a montar o espaço, e pintei os quadros que estão por aqui - e apontaste para um corredor estreito repleto de telas.

- Pintor, portanto?

Riste-te e abanaste a cabeça, furando a rodela de limão com uma colher de pé alto.

- Sou um arquitecto free-lancer explorado, professor de Desenho em horário pós-laboral e pinto por prazer.

Não pude deixar de simpatizar contigo, com a brutal e humilde sinceridade. Fisicamente não tinhas de facto nada de especial, nenhum traço evidente e atraente, olhos e cabelos castanhos, pele clara, já com algumas rugas de expressão na testa. “Tinhas talvez perto de 40 anos”, pensei…mas eras absolutamente normal. Contudo havia em ti algo que me fez olhar com mais atenção, Acho que eram as mãos, a maneira como falavas com elas. Compridas, de dedos esguios e bem cuidados. Elas pareciam falar também, dançando ao som das palavras.

A primeira vez, puxaste-me para ver de perto um quadro. Seguraste-me a mão como se fosse uma criança e não tive reacção senão acompanhar-te.

- Vou mostrar-te o meu preferido – e levaste-me por entre as mesas do bar.

No fim do corredor estava uma tela quadrada, talvez 90x90cm, com traços e relevos irregulares, “provavelmente uma mistura de técnicas”, pensei. À primeira vista parecia-me um jogo de sombras abstracto.

- O que vês? – Os teus olhos brilhavam de uma forma que até então desconhecia.

- Ahh… não sei bem… - Hesitei nervosa.

- Vê com atenção, podes tocar - E foi então que por trás de mim tapaste-me os olhos com uma mão e com a outra agarraste na minha mão esquerda e seguraste-a contra a tela. Nunca consegui esquecer aquele momento mágico, onde a pele suave das tuas mãos nos meus olhos fechados contrastava com o rugoso da tela que tocava ondulando com a tua mão por cima da minha.

 - O que viste? – Perguntaste novamente, destapando-me os olhos e largando-me a mão.

- Pele, pele suave. – Saiu-me assim sem pensar.  teu peito colado às minhas costas e a tua respiração junto ao meu pescoço.

 

Contemplaste-me por minutos que pareceram eternos.

- É isso mesmo. São corpos deitados, vestidos apenas de pele - sorriste deixando-me espantada com a minha capacidade de apreciação artística.

(...)

publicado às 01:03

Veneno sem antídoto

por Closet, em 06.07.10

 

Sentei-me numa cadeira vazia, receosa. Era a primeira vez que ali estava. Rodeavam-me outras pessoas, umas mais velhas outras mais novas, todas olhavam-me como uma intrusa que acabou de entrar num lugar secreto.

- Boa tarde - disse uma delas que liderava o grupo - temos uma nova amiga, querem dar-lhe as boas vindas?

Acenaram todos, uns com um ranger entre-lábios numa espécie de "olá", outros acenando com a cabeça e encolhendo os ombros, num gesto cúmplice de quem antecipadamente pecebe porque ali estou.

- Quer apresentar-se ao grupo e dizer porque aqui está? - continuou a líder do grupo, uma jovem de vinte e poucos anos, sorria e nitidamente aparentava poucas probabilidades de compreender as minhas razões. Olhei-a descrente.

- Vim saber como consigo deixar uma parte de mim...

- Tabaco, alcool, droga? - perguntou-me sem deixar-me responder - estamos aqui para isso, para enterrar o passado e construir o futuro.

- Não... - interrompi-a - Nada isso. Quero deixar uma paixão que me arrebatou a alma, tornou-se um veneno para o qual não encontro antídoto, um vício que não encontro forças para deixar.

- Humm... - olhavam-me todos horrorizados. Drogados, alcoolicos, fumadores compulsivos.

- Mas é sexo? - perguntou-me interessada uma mulher curvilinea que percebi ser ninfomaníaca.

- Não... é paixão, deslumbre, necessidade intensa de olhar, de impulsivamente falar e descontroladamente imagina-lo por toda a parte a todo o momento.

- E se o vês acalmas? - perguntou o fumador admirado.

- Por vezes sim, naquele preciso momento... para logo depois sentir o vaziu enorme da sua ausência doer-me pelas artérias do corpo.

- Tremuras? - perguntou o drogado.

- Sim, e irritação, também...

- Ressaca - confirmou o drogado acenando compreensivamente.

- Ressaca? de quê? - perguntei confusa.

- De não o teres, não o injectares no teu corpo, não o saboreares nos teus lábios e sentires o aroma do seu fumo -respondem-me quase em simultâneo.

- Mas ele é ... é como uma droga que se esvai em segundos pela corrente sanguínea, um whisky que se engole num trago, um cigarro que quando se está a tomar o gosto acaba... tive-o uma única vez e agora estou a...

- a ressacar - confirma o drogado esfregando o braço escurecido e inchado.

- Ok, estou a ressacar... de um momento de deslumbre apaixonado que agora dá-me tremuras e ansiedade... e o que faço para largar?

Foi a vez da líder do grupo encarar-me estarrecida, provavelmente era o caso de tratamento mais complicado que alguma vez teve..

- Sabe a morada dele?

- Já lá fui mas já não sei se conseguiria ir lá dar, nao me recordo do nº da porta nem do andar...

- E  telemóvel dele tem?

- Não. Apaguei-o vezes sem conta, depois acabei por decora-lo, até que puf... desvaneceu-se na minha memória.

- Vê-o diariamente?

- Nem sempre e tento evita-lo.

- E coisas dele, tem? Objectos, fotos, cartas, e-mails?

- Destrui o rasto. Rasguei. Dei. Apaguei tudo.

- Hum... parece-me no caminho certo, contrariou o impulso, desapegou-se de recordações, de bens materiais...perfeito! Então como é que ainda pensa nele? - perguntou-me incrédula.

- Não penso na casa, nem no telefone, nem nos objectos ou fotos... isso apenas constitui um cenário do delito... Penso em tudo o que podia ter dito e feito, no prazer que senti quando me invadia com os olhos arrepiando cada centímetro da minha pele. Penso nas suas mãos, suaves, a tocar na minha pele, deslizando devagar os dedos pelas costas, pelo meu queixo até aos lábios. Penso nos lábios e a tortura de não os poder mais beijar - fiz uma pausa observando uma plateia boquiaberta, de costas presas nas cadeiras - como é que eu faço para não pensar mais nisto tudo?

Um silêncio angustiante fazia ouvir-se o vento que abria uma janela a ranger.

- Sexo, sem medo, atira-te de cabeça - responde a ninfomaníaca - depois vais fartar-te dele.

- Injecta-te, overdose total - responde o drogado - nunca ninguém morreu apaixonado.

- Bebe, embriaga-te nele sem pensar - responde o alcoolico - a cirrose é mas fácil de tratar.

- Saboreia-o, calmamente com os lábios e deixa-o queimar devagar - responde o fumador - o fumo é menos tóxico que o olhar.

Ohei-os perplexa, vicíos com curas dificeis eram mais fáceis de tratar...

- E se vos disser que ele não quer?? É como ter de roubar para me drogar, de me prostituir por um copo de whisky, de viola-lo contra uma parede, de mendigar um cigarro a um estranho e depois ...

Tremeram todos das suas cadeiras, como se aqueles delitos lhes fossem familiares.

A líder do grupo foi ter comigo, abraçou-me e susurrou-me ao ouvido "Não há poções mágicas, nem antídotos para o veneno da paixão. O tempo encarrega-se de a matar".

publicado às 23:39

Cortou-o

por Closet, em 06.07.10

Naquele dia matou-o

dilacerou-o mais um pouco.

e viu-o num cambalear louco.

Como uma morte que se faz lenta e sombria

a gotas de veneno, uma morte fria.

Matou-o por fora e por dentro. Num sofrimento lento.

Doloroso.

Num apagão definitivo, penoso.

Desistiu e, num golpe fatal,

Enterrou-o vivo,

como se enterra um desejo carnal.

Inacabado. Perdido. Mal resolvido.

Num ritual satânico

incendiou

o corpo que tanto desejava, 

o sorriso que a fascinava,

cortou-o em mil pedaços.

Viu na fogueira todo ele arder

entre chamas de ironia

quem ganhava ou quem perdia

não sabia.

Matou-o

Decidiu naquele dia

Não o queria mais ver.

 

publicado às 00:17

olhos cor de mel

por Closet, em 30.06.10

Estava num dia em que tudo me corria mal. E para terminar dei por mim perdida naquelas ruas labirínticas, antigas, onde choquei de frente com um sujeito alto e entroncado.

- Desculpe – disse sem olhar nos olhos e quase continuava quando senti a mão dele a segurar-me no braço – João??

Bastou o sorriso e não tive dúvidas.

Conhecemo-nos quando tínhamos 17 anos. Fui passar um mês ao Porto a casa dos avós da Rita. Ele vivia no mesmo prédio com 8 andares, num bairro calmo. Eu praticamente não conhecia a cidade, tinha ido lá uma ou duas vezes de fugida e não fazia ideia para que lado era o centro, a Foz ou Gaia. Para ser sincera, nunca me interessei muito por aquela cidade e o que mais me animava era comer francesinhas e sair à noite com as primas da Rita que viviam lá.

A primeira vez que nos cruzámos foi no elevador.

- Para que andar? – perguntou abrindo os olhos enormes cor de mel. O cabelo desalinhado castanho, caindo-lhe ligeiramente sobre os olhos, dava-lhe um ar rebelde mas inofensivo.

- 5º…a… não, 6º - gaguejei atrapalhada. Tinha saído sozinha pela primeira vez para dar uma volta enquanto a Rita tinha ido visitar uma amiga da avó.

- hummm… e se pararmos a meio? – piscou o olho rasgando um sorriso que alongava os seus lábios carnudos. Escapou-me também um sorriso envergonhado e senti de repente o coração a bater acelerado. Não tive tempo sequer para me questionar, porque mal passámos o 5º andar ele carregou no Stop.

- Então? É aqui? – Rejubilava de gozo, tentando a todo o custo aguentar o riso.

O tipo estava a meter-se comigo à séria, disso não tinha dúvida. E na verdade começou a irritar-me aquele ar de quem tem a mania que manda. Quem é que ele pensava que era? Não devia ter mais do que 1 ou 2 anos que eu e lá por ter 3 palmos de cara não lhe dava o direito de gozar comigo. Decidi entrar no jogo e fingir-me em pânico, com claustrofobia e falta de ar.

- Pára com isso, estou a sentir-me mal, olha que se entro em pânico posso desmaiar. Foi o que aconteceu da última vez que atravessei paredes…

- Ahhh .... - mordeu os lábios de riso fingndo-se apreensivo - Nesse caso é melhor descermos e apanhares uma pouco de ar, beber uma água… o que achas? – e sem hesitar carregou novamente no r/c.

O rapaz tinha uma lata descomunal… E eu não sei se fui por ter sido apanhada de surpresa, se por apetecer-me de repente conhece-lo melhor. Como me inclinava mais para a segunda hipótese, não contra-argumentei e segui-o até à porta do prédio sem dizer palavra.

- Então e o que fazes para além de atravessares paredes? – perguntou apontando para uma esplanada ao fundo da rua, de aspecto simpático, com chapéus de sol brancos e cadeiras de verga redondas.

(...)

 

um cheirinho de uma das historietas que estou a construir ....

Hummm... Tell me, este personagem tem potencial? interessa explorar?? :) eu já lhe desenhei o percurso!

 

publicado às 01:39

Choque

por Closet, em 08.06.10

 

Embateram numa esquina qualquer, numa noite de chuva fria.

Estilhaçaram-se mutuamente nesse dia, num choque abrupto, frontal.

Primeiro com a força do corpo, depois a violência do olhar.

Confusos, respiraram rente à boca. Ofegantes. Atraídos por instantes num apetite voraz.

Baixam-se para apanhar as folhas caídas no chão. E deixaram-se cair também, descontrolados.

No piso empedrado, gelado. Por um tempo que os ponteiros do relógio não sabem contar, indeterminado, volátil, carnal.

Ela mordeu os lábios sequiosos, ele raspou os seus pelo seu pescoço. Sôfrego.

E os olhos voltaram a cruzar-se. Fixaram-se. Demoradamente. Enfeitiçados.

Os braços serpentearam enredados, as mãos despiram-se de prazer.

Caídos, debaixo da chuva fria, amaram-se sem se conhecer.

As bocas vazias de palavras, apenas sedentas de amar. No presente. Numa noite que se fez quente, o tronco suado contra o peito que bate acelerado. O passado é inexistente, o futuro indiferente.

Levantaram-se êxtasiados, de corpos molhados, viciados numa fome incerta. Assustados.

Dobraram a esquina separados. A noite era fria. A rua estava deserta.

publicado às 23:25

Deixo o desejo

por Closet, em 02.06.10

 

«Deixo-te porque te desejo»

e atirou a pedra contra o mar revolto, na fronteira do meridiano onde se encontrava. Podia vê-lo ao longe, noutro meridiano mais afastado.

Atirou-a com força, para a obrigar a afundar-se rapidamente, sem perdão. Atirou-a tão longe quanto conseguiu, que até o seu braço lhe doía. Doía também o peito por dentro, numa espécie de aperto, entre a memória e a solidão. O abandono de um desejo antigo, amarrado, reprimido, fulminante…que lentamente a consumia, desesperado.

Como chagas que se alastram devagar pelo seu corpo moribundo. Como a pedra que se afogava entre as correntes que a empurravam para o fundo. Perdida e esquecida naquele mar. Assim é o desejo que sente, escravo maltratado, numa eterna falta de ar.

«Deixo-te, porque não quero desejar-te mais». Chega! Repetia, enquanto as ondas embatiam raivosas contra as rochas. Iradas, nervosas, num movimento agreste acelerado. Como o seu coração batia, desorientado, ao vê-lo atravessar o meridiano mesmo ao lado.

Que ironia.

«Deixo-te porque não aguento, nem mais um dia, o teu olhar». O desejo híbrido, o impulso voraz, irreflectido, o desejo queima quando não se satisfaz.

«Deixo-te, porque ao ver-te desejo-te, loucamente» Como um golpe infectado, que sangra abundantemente. Precisa de se curar. E imagina a  pedra que se afoga no mar, quebrada, ferida. Morta de vida.

«Deixo-te hoje e enterro todo o desejo de uma noite tardia». Segue em frente. Rasga-se por dentro mas enfrenta-o, com uma frieza e distância que nela desconhecia.

Cruzam-se no meridiano de um olhar perdido. As palavras saem vazias, ecoam difusas, sem sentido. Num cortejo demente, num jogo ridículo encenado. Repete baixinho.

«Deixo-te hoje, e o desejo morre contigo, por ti mesmo envenenado».

publicado às 22:12


Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Setembro 2014

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930