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Fábrica de Histórias

por Closet, em 12.03.12

 

 

 

Arco-íris de alguém

 

Clara tem pele clara, cabelo comprido castanho e uns olhos cor de mel. Do seu lugar, por detrás de um monitor, estremece sempre que as portas do elevador abrem-se às 9h30.

David é alto de cabelo loiro desalinhado e olhos grandes azuis. Chega sempre às 9h30 despreocupado e estreme quando vê Clara.

Clara é casada, tem uma filha e uma vida vulgar, padronizada, onde ainda não encontrou um lugar para David.

David tem uma relação de 7 anos, vai casar e tem uma carreira profissional de sucesso. Ainda não conseguiu encaixar Clara na sua vida.

Ambos trabalham no 5º andar de um edifício com mais de 400 pessoas. Na agitação matinal cruzam olhares de pânico apetecidos.

 

Clara encontrou em David um novo motivo para sorrir, sentir-se atraente, viva. David encontrou em Clara a força para vencer o mundo, a auto confiança e a segurança adormecida.

Encontraram-se os dois, sem perceber, orfãos de tempo e abrigo. Sôfregos de paixão e encantamento, mortos pelo cansaço da rotina, deslumbraram-se num labirinto sem saída. Vidas cruzadas, ocupadas, perdidas, pelo destino embargadas na alfândega da vida.

 

Clara e David já foram um só, num fim de tarde clandestino. Os olhos, incontroláveis, fixaram-se. Os lábios atraíram-se magneticamente e os corpos, deambulando à deriva, sedentos de atenção e desejo, naufragaram um no outro. Amaram-se sofregamente, num segredo contido. A felicidade imaginada, por momentos sentida, trazia um travo amargo consigo.

Separaram-se. Como era o destino. Continuaram, perdidos, as suas vidas.

 

Às 9h30 ela ainda estremece quando o elevador se abre. Ele ainda estremece quando os seus olhos se cruzam com os dela no caminho.

Estremecem os dois, incontrolavelmente. E aquele breve momento é como um arco-íris. Num dia de chuva, um crepúsculo de cores invade o céu cinzento e triste, a sensação que é efémero, vai desaparecer a qualquer momento, mas é tão bom enquanto dura.

 

 

Texto (re)escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 00:19

Fábrica de Histórias

por Closet, em 04.03.12

 

 

Cumplicidade

 

- O que achas que me falta?

 

Sara estava sentada com os pés enterrados na areia enquanto olhava fixamente a linha do horizonte. Amparando as suas costas, Afonso envolvia-lhe o corpo com os braços, como se a segurasse de um abismo. Com os lábios, percorria-lhe suavemente o pescoço e aquecia-a com a sua respiração que a acalmava.

 

Sara repetiu a pergunta, voltando a cabeça e olhando-o nos olhos:
- A mim, o que achas que me falta?
- Cumplicidade - Sussurrou numa voz grave, junto ao seu ouvido. 
- Cum-pli-ci-da-de.
Soletrava como se fosse uma palavra desconhecida.

Recostou-se de novo, encaixando-se no seu tronco como numa concha. E nesse calor, por momentos, quase se esquecia que existia.
- Talvez seja isso, Cumplicidade. Como num assalto por exemplo, cumplicidade é... Confiar no outro? Planear em conjunto, ser especialista em algo que falte ao outro? Não estou a conseguir chegar a lado nenhum, acho que não é nada disto...

 

Afonso enrolou-a nos seus braços, como uma onda do mar. Beijou-a sofregamente, não lhe dando qualquer hipótese de se afastar. Era um beijo tão intenso, como inesperado, parecia devora-la, tirar-lhe completamente o fôlego.

- És sempre assim violento, como a beijar? – Perguntou-lhe entre o seduzida e o assustada -  Tenho a sensação que eu sou um rio calmo e tu um mar agitado, com ondas altas e correntes fortes que me impedem de nadar em qualquer direcção.

Afonso sorria atrapalhado:

- Sabes que todos os rios desaguam no mar?

 

Sara abrigou-se novamente no seu corpo quente, enrolando-se nos braços que a envolviam. Fixava o olhar no horizonte onde as estrelas já povoavam o céu com pontinhos brilhantes e o mar espelhava o brilho da lua.

- Acho que Cumplicidade é…partilhar segredos, desejos, frustrações... É esse "partilhar" espontâneo não é? Que se alimenta dele próprio, incapaz de se esgotar. Num filme ouvi que a maior magia no mundo é o pequeno espaço criado entre duas pessoas, a tentativa de se compreenderem e de partilharem algo.

- Acho que sabes o que é cumplicidade. Pode também ser energia, ou uma química, aquela parecida à do prazer, a vida é simples Sara. E seja um beijo doce do rio, ou salgado do mar, podes agora beijar-me?

 

- CORTA! Acho que ficou bem, temos só de repetir a cena do beijo, quase lhe arrancavas um lábio Pedro!

 

 

Escrito para a Fábrica de Histórias

 

 

publicado às 23:54

Fábrica de Histórias

por Closet, em 24.02.12

Desta vez não vai ser bem uma história. Quero dizer, vai ser talvez um prólogo, a história de uma história, na pior das hipóteses, o sonho de uma história. Desta vez conto uma história diferente, mas como já fiz rir, e eu própria já chorei a rir com ela, espero que sirva para o tema da semana "Façam-nos rir!".

 

 

 

Eu na città più bella


Já há algum tempo que ando com vontade de conhecer Itália. Sou uma verdadeira nódoa a geografia mas pensei assim numa viagem de comboio pelo sul de Espanha, passando lá por umas montanhas conhecidas de França que se chamam…. Google Google ok, Pirinéus (não sei se os comboios passam por lá mas isso não interessa para nada), depois um bocadinhozinho mais à frente (com um desviozinho pelo Mónaco para cumprimentar os Grimaldi) e chegava a Itália! Era por ali de certeza, quando ouvisse uns mafiosos a chamarem-me de bambina!


Bom, mas esqueçam, não vai ser nada disto. A ideia mesmo é ir de avião, de outra forma tenho sérias dúvidas que chegasse a Itália…

Como este ano não vou aos Alpes, fiquei excluída do grupo onde o meu marido está incluído, pensei que também merecia umas férias “minhas” em Abril. É justo! A propósito, estou a convencer uma amiga a vir comigo a Itália, mas se ela não quiser, eu vou na mesma. A ideia é ir de avião até Roma e alugar lá uma pensão para dormir nas duas primeiras noites para depois ir à aventura (claro que esta parte não conto à minha amiga, só assim para ser… emocionante!).


E perguntam-me entusiasmadas as minhas amigas, o que quero ver em Roma…

«Tutti!» Sei lá. A cultura não é o meu forte e só me saía o Vaticano (não tenho grande esperança que o Papa me queira receber, mas …), e vou ver Fontes, acho que há fontes lindas lá por todo o lado (se não é em Roma é noutra cidade qualquer conhecida). Eu gosto de água, por isso fontes parece-me bem!

Comunque, « o meu sonho mesmo é conhecer Roma e arredores de… vespa!» digo radiante.  

E neste momento as minhas amigas olhavam desesperadas para o chão à procura do último parafuso que tinha caído da minha cabeça… Não encontraram, che peccato!

«Sim, motocicletta vrummm vrummm, isso mesmo. Lá toda a gente anda de vespa! E andam na maior confusão, em sentidos proibidos, por cima de passeios, descem escadas, é o máximo! E eu não sou a única a fazer transgressões!» Continuava eufórica ignorando o seu ar alarmado. Claro que este pormenor da vespa eu também não preciso revelar para já à minha companheira de viagem… outra emoçãozinha!

 

Só há um piccolo problema: eu nunca conduzi uma vespa… Na verdade não faço ideia como se anda de vespa, ou de qualquer moto. Mas posso praticar cá antes de ir, certo? E se sei andar de bicicleta, patins em linha e fazer ski, também me hei-de desenrascar a andar de vespa, sono sicuro! Neste pormenorzinho o meu marido ficou ligeiramente preocupado e começou rapidamente a procurar seguros de responsabilidade civil no estrangeiro. Adiante.

Eu quero ir lá, ver a città più bella de … vespa! Sim! Eu quero andar de vespa em Roma. Pronto, já enfiei na cabeça. Onde vou dormir as outras noites e o que vou visitar decido lá depois, aceitando os conselhos dos amici italiani que se cruzarem comigo parlando quella língua meravigliosa!


E nos últimos dias vou um pouco à praia.

«Roma não tem praia» diz o meu marido pacientemente. «Ahh, não? Não interessa, vou na mesma, não é em Roma há-de ser nas redondezas, eu encontro!» Não sei é se vou de vespa, com a mala às costas não dá… Alugo um carro. «Como se diz carro em italiano?» pergunto-lhe. «Auto…» responde. «Ok, boa, essa eu decoro!»

 

E anche ora, tenho de praticar o puí bello italino! Vou arranjar uns amigos italianos no Facebook para praticar e se me arranjarem estadia em Roma ou na praia lá perto (e não me venham dizer que Roma não tem praia, non voglio sapere), ancora meglio per me!

 

 

(relaxem que já tenho uma lista de monumentos, museus e locais para visitar! E não perco a oportunidade de mandar uma moeda para a Fontana di Trevi ou de jantar uma Pizza fininha e crocante na Piazza Navona).

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

publicado às 00:01

Fábrica de Histórias

por Closet, em 19.02.12

 

Faz quase um ano que a Fábrica pediu explicitamente para "não contar uma história de amor" e eu, obediente, não contei, aqui

Hoje pedem-me para contar uma história de amor... então eu vou desvendar o resto da história que ficou por contar!

 

 

 

A história de amor por contar

 

Porque a vida não é uma história de amor, ela preferia não contar.

Guardava para si o abalroar de recordações do acidente que a atropelou. O passado que se fez presente, de repente. O destino que o trouxe nos abraços novamente, para o levar pouco tempo depois.

Numa avalanche de emoções, ele voltou sem avisar, jorrando a loucura dos improváveis, desejos de insatisfações. Como antes, a intensidade dos instantes impossíveis, a tortura das despedidas. Tudo outra vez, em ebulição.

 

Recostava-se para trás no velho cadeirão, puxava a manta de xadrez vermelho e bebia mais um golo do chá, já frio. Sente um arrepio, do tempo que faz lá fora, ou seria dos quilómetros de tempo que os separava agora. O silêncio mórbido que o destino lhe impôs.

Recordava os seus olhos meigos avelã e a sua voz aveludada. Sentia-se aconchegada. As pernas compridas e desengonçadas que nas dela entrelaçava. O sorriso espontâneo, que lhe rasgava o olhar, as músicas que lhe cantava ao ouvido sem parar. Tantas memórias de noites ao relento acordados, onde o céu era tão perto quanto o calor dos corpos abraçados.

 

«Onde estás?» perguntava agora, perdida num labirinto de contradições, angustiada.

Ali, longe de tudo, no tecto do mundo, sentia-se simultaneamente prisioneira e abandonada. Das horas que perpetuavam o espaço, as que antes lhe esculpiram o corpo com lábios quentes e a envolveram num eterno abraço. Respirava com dificuldade. Porque a realidade e a tristeza galopavam ao mesmo passo, lado a lado. E o caminho que escolhera era irreversível, para sempre enevoado.

Tudo era tão pouco, tão efémero. A frustração de perder de novo, a sensação que nunca o teve, antes de o deixar. Era uma triste história de amor, partida em mil pedaços por colar.

 

«Doí-me o peito viver sem ti, sabendo que existes, aí » solta em palavras humedecidas pelo frio do ar.

E sente que ele um dia vai voltar, sem dizer nada, sem avisar. Mesmo sem compreender, sabe que lhe abrirá os braços, cansados, de procurar refúgios para o vazio que só ele pode preencher.

 

 

Escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 18:34

Fábrica de Histórias

por Closet, em 05.02.12

 

 "Automat" de Edward Hopper

 

Café curto 

 

Talvez faltasse música naquele bar. Quer dizer, havia música, mas tocava baixinho numa melodia triste e apagada.

Faltavam risos de conversas, o trocar de beijos e abraços. Até os amuos e birras de um casal ao lado. Nada. O bar estava sozinho. 

 

Podia ouvir o bater da colher na chávena enquanto mexia. Um ruído metálico, agressivo, como se alguém discutisse consigo. O tilintar da colher dizia-lhe para parar, mas como que enfeitiçada continuava a mexer o café, repetidamente, por castigo. Como se quisesse ouvir um pouco mais aquela voz que a perfurava, no silêncio abrupto que ocupava aquele espaço vazio.

 

Envolvia o café, já sem a espuma à superfície que a iludia. Reconhecia, naquele líquido curto escuro, o caminho sinuoso que percorria. O açúcar, que rapidamente desaparecera, o doce que fora engolido pelo amargo, como a sua vida.

 

Parou subitamente de remexer todos aqueles pensamentos que a incomodavam, as memórias que a confundiam. A respiração no seu pescoço, os braços pelas suas costas, a despedida. Queria afoga-las a todas no café que fumegava à sua frente. Mas não conseguia.

Bebeu-o de um só trago, esperando que o líquido ardente pudesse queimar tudo o que sentia.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 22:56

Fábrica de Histórias

por Closet, em 30.01.12

 

Os Sapatos feiticeiros

Arya percorria as ruas íngremes de calçada de pedra escura. Mais uma vez, deambulava sem rumo, pensativa, por caminhos da vila que desconhecia. Deu por si perdida, como num labirinto, onde já não encontrava o caminho de regresso.
Estava um fim de tarde frio e o seu corpo, cansado e faminto, procurava desesperado um abrigo. Ao fundo da rua, uma montra emanava uma luz ténue, ainda assim capaz de iluminar aquele beco escuro. Parecia uma loja de velharias,  daquelas onde se vende por tostões objectos de que nos queremos desfazer.
Bateu na porta que se abriu de repente. O calor do interior aconchegou-a de imediato, e numa mesa ao fundo um senhor de cabelos e barba branca, bebia um chá que fumegava. Com a sua mão trémula fez-lhe sinal para se sentar. Sem lhe dizer uma palavra, estendeu-lhe uns biscoitos e uma chávena de chá.
Arya agradeceu e saciou a fome, o chá quente aqueceu-lhe o corpo e, rompendo o silêncio, confessou ao ancião que estava perdida e não sabia que caminho tomar para voltar a casa.
O velho sorriu. Era um sorriso calmo de quem já viveu tudo e nada o preocupava. 
Então falou-lhe numa voz rouca, sumida, sobre a sua loja. Disse que não vendia nada, tudo o que ali tinha era especial para quem ousasse lá entrar.
Arya perguntou-lhe se teria algo que a ajudasse a regressar a casa.
O velho estendeu-lhe a mão sobre um balcão empoeirado. Havia um relógio antigo de corda, uma caixa de música com uma bailarina em cima, uma boneca careca que chorava se lhe tirassem a chucha e um par de sapatos com aspecto antigo mas delicados.
Arya olhou os objectos espantada, não compreendendo como algum deles a poderia ajudar.
O velho disse-lhe que o relógio era o guardião do tempo, da ordem e da estabilidade; 
A caixa de música trazia com ela a beleza eterna, sempre constante e repetitiva; 
A boneca que chorava era a fonte de juventude, da imortalidade e ingenuidade.;
E os sapatos eram feiticeiros de personalidade, regentes do seu próprio mundo.
O velho disse-lhe para pensar bem, pois todos eles poderiam ser dela, mas apenas um seria o que verdadeiramente necessitava.
Arya estava confusa, não compreendia as palavras do velho e, de todos os objectos, o que mais a fascinava era o par de sapatos.
Consciente que nada do que o estranho velho lhe dissesse a iria ajudar, desistiu de o compreender e tentar a sua sorte a voltar a casa.
Perante a sua insistência, escolheu o objecto que mais gostara, os sapatos feiticeiros, como o velho lhes chamava.
O velho pediu-lhe para calça-los, ali mesmo na loja, garantindo que lhe serviriam de certeza, que eles tinham sido feitos para ela. Já assustada Arya decidiu não o contrariar, descalçou as suas botas castanhas velhas e enfiou os pés nos sapatos. Incrédula, verificou que lhe serviam como uma luva, na perfeição. O velho disse-lhe então para seguir sem medo, que encontraria o caminho.
Ela caminhou até à porta com as suas botas na mão, abriu e sentiu o vento frio do exterior.
Quando a porta se fechou atrás de si, Arya viu em frente a porta de sua casa. Era mesmo a sua casa, sem dúvida, a porta verde com um puxador dourado. Estava entreaberta e Arya entrou feliz, embora atordoada com o que se passara. Entrou na cozinha de rompante onde a mãe se encontrava ao fogão a cozinhar o jantar. Arya disse-lhe ainda esbaforida "mãe, não imaginas o que me aconteceu esta tarde" e contou-lhe toda a história, sem a mãe uma única vez a questionar. Efectivamente a mãe não olhara para ela uma única vez, o que a entristeceu e fez recolher ao seu quarto. Antes de entrar, entrou no quarto da irmã que estava a ler um livro e perguntou-lhe se podia por uma música a tocar. A irmã não lhe respondia. Nem a olhava. Arya chegou-se bem perto dela e tocou-lhe no braço. Ela não reagiu.
Foi então que Arya percebeu que algo de estranho se passava. Aqueles sapatos eram o seu desejo mais íntimo de desaparecer por momentos da realidade. A fuga que fazia de tudo e todos, o isolamento que diariamente procurava. 
Foi para o seu quarto e descalçou os sapatos, colocando-os no seu armário debaixo de uma almofada. Voltou ao quarto da irmã e fez a mesma pergunta, ela balbuciou um sim contrariado. Arya respirou fundo e voltou para o quarto, olhou deslumbrada os sapatos. O seu segredo estaria para sempre bem guardado. 


Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 00:52

Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.01.12

 

 

Passar do Tempo

 

Não é o medo da morte, nem o receio da dor.
Não é o horror da pele fina e engelhada. Tão pouco as rugas de expressão a marcar o rosto.
Não são os cabelos a nascerem brancos e fracos. Ou as pernas a cansarem-se, os pés dormentes, por subir um lance de escadas só. Nem é o facto de me darem lugar nos transportes, ou sequer o eco da palavrinha quando me chamarem avó.
Nada disso me assusta, tira o sono ou faz tremer.
É muito mais.

É saber, a cada instante que passa, que ele já passou. Morreu. Não volta atrás. Que certos momentos não vão repetir-se, que na verdade todos eles são já memórias de sensações. Imagens cada vez menos nítidas com que constantemente sonhamos, gravadas a ferro no nosso inconsciente. Sentimos-lhe o cheiro, e o ardor no peito como antes, mas a certa altura há uma névoa que nos atordoa. Já não sabemos se os imaginamos, se os vivemos efectivamente. 
Mas ainda não é isto, ou não é só isto. É mais profunda a tortura que sinto.
É a angústia permanente de que o tempo passa por mim a correr, que não o consigo agarrar, nunca o alcanço como desejaria.
Pior, que nem sei o que agarrar, se o que verdadeiramente procuro existe ou é mera fantasia.
Como se me arrastasse com o vento sem direcção, envolta numa imensa neblina. Os ponteiros vão rodando rapidamente, como uma bomba relógio que se aproxima. Há a explosão, sempre, a esperada, consequente. 
A eterna insatisfação que se apodera de mim e agita o mundo encrespado onde habito e isolo sem fugir. A ânsia permanente de chegar a qualquer parte, para logo depois querer partir.
A indecisão premente. O impulso que não sucumbe. Do pânico, claustrofóbico, de não encontrar o que me complete, me deslumbre.
A paz que me acalme a alma e sacie a chama do corpo ardente.
Existir apenas, uma vida inteira, sem partilhar o silêncio translúcido que me envolva, num colo abraçado de conforto.
O medo, sufocante, de saltar o fogo crepitante para deixar-me planar até à morte num equilíbrio morno. E nessa apatia que me assusta, do tempo que tenho pela frente, só peço que o sorriso não me doa a face, triste, por ser apenas adorno.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias 

 

 

 

 

publicado às 23:52

Fábrica de Histórias

por Closet, em 15.01.12

 

 

Debaixo de Fobos e Deimos

 

Aqui a terra é vermelha, porque pulsa vida.

Do chão vem o calor que nos aquece. Não temos frio, andamos descalços e não usamos roupas. Quando temos fome, colhemos os alimentos das estufas que construímos e onde cultivámos. Se temos sede retiramos água do fosso que escavámos. Quando estamos cansados, deitamo-nos na primeira cratera que acolhedoramente nos recebe. Não temos um lugar fixo para dormir, para comer, não precisamos de possuir nada. Somos nómadas, deslocamo-nos em grupo, com o tempo, perseguindo sempre a primavera e evitando as tempestades.

Não somos muitos, mas os suficientes para compreender que a vida é limitada, que um dia o nosso coração deixa de bater e o sangue deixa de pulsar. Nas minhas primaveras, já vi alguns morrer na minha frente. Mas nunca chorei. Acreditamos que eles renascem nos outros que vimos nascer com felicidade.

Somos verdadeiramente uns dos outros, vivemos uns para os outros, sem nenhum ser apenas de alguém. Não conhecemos outra forma de viver. Nem compreendemos aquelas de que nos falam os anciões. De violência, ambição, ganância, medo, ódio, mentiras, falsas intenções.

Somos naturalmente simples.

Se estamos felizes dançamos descontrolados ao vento até cair de exaustão. Se nos apetecer falar, falamos. Numa linguagem que sai da boca, dos olhos, do coração e das mãos. Outros são os momentos que reservamos ao silêncio puro de quem não precisa dizer nada, noites em que olhamos extasiados Fobos e Deimos, os deuses inseparáveis que nos acompanham e nos guardam. Fazemos amor, debaixo dos seus olhos, com os corpos colados junto à terra, porque é nela que encontramos o ardor e a magia da paixão. Depois descansamos em abraços prolongados, numa entrega serena, de quem não esconde nada de ninguém.

Dizem, os anciãos, que este era um planeta virgem e foi colonizado. Que descendemos de seres de outro planeta, que aqui, não existia ninguém. Dizem ainda, que quem aterrou cá sentiu uma espécie de chamamento e nunca mais quis voltar. Mesmo com dificuldades de adaptação, largaram a ciência, a cultura, a tecnologia. Deixaram tudo o que os prendia na outra vida. Aqui não tinham qualquer utilidade, nem justificação. Ainda encontramos por cá algumas naves, agora enferrujadas, empoeiradas. Olhamos para elas, atónitos, nem nos atrevemos a entrar. São de ferro, cinzentas, geladas. Como puderam lá habitar? Dizem que esses nossos antepassados encontraram aqui a verdadeira liberdade. Do tempo que contavam pelo sol, do pedaço de terra pelo qual lutavam escravizados. Perceberam aqui, neste planeta deserto e desabitado, que a liberdade é não ter nada, é tão simples como enterrar os pés na terra e caminhar.

Ultimamente tenho acordado com o barulho de naves que sobrevoam o nosso céu, não sei ao certo de que lado vêm, não imagino se vão aterrar. Tenho acordado sempre em sobressalto, porque dizem, os mais velhos e sábios, que o meu planeta vai acabar.

 

História escrita para a Fábrica de Histórias

publicado às 22:27

Fábrica de Histórias

por Closet, em 08.01.12
se não conseguirem visualizar, está aqui
Linguagem do amor

Era ali que o seu dia ganhava vida.

No exacto momento em que ela chegava, com os seus vestidinhos curtos, o cabelo apanhado de lado com dois ganchos e um rosto que iluminava tudo à sua volta. Sentava-se na outra ponta do banco de jardim e lia um livro com os phones nos ouvidos. Não falava, não o ouvia, apenas sorria.

Ele voltava todos os dias à mesma hora, esperava ansioso a sua companhia, e a cada dia sentava-se um pouco mais perto. Gesticulava qualquer coisa, muitas vezes sem sentido, para chamar a atenção dela. Ela sorria sempre, e ele percebia que aquele sorriso o estremecia, que o mundo ficava diferente, ela trazia-lhe uma nova melodia.

Na impossibilidade de arrancar uma palavra que fosse de resposta, ou de sequer ser ouvido, ele arranjou uma forma de lhe transmitir tudo o que sentia. Palavras escritas num post it, colados em cima uns dos outros, ele perguntava e ela respondia.

gostava de te ver outra vez

se quiseres eu volto sempre à mesma hora

Eram palavras escritas, que brotavam entre olhares cúmplices e risos, tão simples como verdadeiras, transmitiam o que mais intenso sentiam. A atracção que os seus sorrisos provocavam, a magia que os envolvia.

Um dia ela mostrou-lhe a música que ouvia sempre. Um som diferente do que ele imaginava, era o silêncio profundo onde ela vivia, que a rodeava. Ele ficou confuso, mas o sorriso dela, aquele que o fascinava, permanecia ali diante dos seus olhos. O calor do seu corpo ainda o estremecia. Na verdade, nada do que sentia tinha mudado. Eles comunicavam por uma linguagem que não precisava de ser falada ou ouvida.

continuas a ser bonita

Escreveu de imediato num post-it que colou, firme, por cima de tudo o que já antes tinha escrito.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

[The Jubilee Project makes films for good causes. This film was produced to raise awareness and support for the American Society for Deaf Children. www.jubileeproject.org]

publicado às 23:07

Fábrica de Histórias

por Closet, em 31.12.11

Viver o que somos

 

Ricardo e Sara conheceram-se ainda adolescentes, numa noite embriagada. Ao primeiro encontro os lábios cruzaram-se por instinto, ébrios e impacientes. Jovens, entregaram-se um ao outro deslumbrados, sedentos.

Quis o destino que as suas bocas, ávidas de perigo, se aventurassem por mares distantes e, no alvoroço da juventude, naufragassem. Perdessem o rumo uma da outra. «Para sempre», pensaram. Como uma morte ancorada numa história incompleta, como um livro com as últimas páginas em branco, sem o capítulo final.

 

Puro engano. Estava escrito a tinta mágica, invisível aos olhos menos atentos, que dez anos depois, numa noite fria de Inverno, Ricardo encontrasse o caminho de regresso, numa viagem sinuosa, insegura.

Era Janeiro. Sara procurou um álbum antigo de Cat Stevens. Colocou “Wild World” a tocar baixinho como um calmante, acompanhado de chá de tília. Preparava-se para ler espreguiçada no seu velho sofá castanho, junto à lareira, quando a campainha estridente irrompeu do escuro do corredor. Levantou-se, a arrastar o corpo e a resmungar sozinha, abrindo a porta sem perguntar julgando ser a sua amiga.

Do outro lado, um vulto alto abalroou inesperadamente a porta, como se lhe fosse saquear a alma. Por instinto, Sara tentou fechá-la de imediato, assustada. Debateu-se contra o pé dele que a impedia de fechar o trinco, empurrando-a com o seu corpo.

- Olá! – Soprou por entre a nesga da porta.

Aquela voz arrepiou-lhe o corpo adormecido. Sara abriu renitente. Remexia os cabelos mal apanhados num rabo-de-cavalo de onde descaíam alguns fios pelo rosto, enquanto mordia os lábios trémulos, abanando a cabeça confusa. Os seus olhos verdes, outrora transparentes, estavam agora embaciados em lágrimas que ameaçavam emergir a qualquer instante.

- Olá? Olá? – Pestanejava – É só o que tens para me dizer?

Ricardo olhava-a de cima a baixo maravilhado, entre a ternura de um amor antigo, e a inquietação da paixão a fervilhar-lhe novamente no corpo. Uma tempestade violenta de sentimentos desconexos que o atordoavam de forma inesperada.

- Olá - Gaguejou - Sim, acho que as conversas começam assim… Podemos recomeçar?

As bocas entregaram-se como no primeiro beijo, descontroladas, sequiosas. Como se a terra parasse de girar naquele momento, para ali se entrelaçarem os dois corpos, enquanto a vida pulsava desassossegada ao acaso, noutro lugar. Sofregamente, fizeram amor com o tempo, aquele que os tinha há muito abandonado.

Sara encontrou novamente a sua voz, ainda embargada, como se acordasse de repente de um sonho profundo, em tumulto.

- A vida corre depressa Ricardo. Não se pode voltar atrás, mesmo que quiséssemos. Somos outros, diferentes. Vê! Cada uma construiu a sua vida…

- Podemos agarrá-la, começar de novo no ponto onde a deixámos.

 

Podia dizer-se que a vida deles tinha parado aqui, neste preciso momento. Ou melhor, que tinha recomeçado. Que as suas almas gémeas, torturadas pela distância, tinham-se reencontrado e tomado as rédeas do destino. Renascido juntas.

 

Mas há uma linha ténue, quase invisível, entre voltar atrás e começar de novo. E é nessa linha que pode estar o ponto crítico da vida.

Começar de novo não significa sempre voltar atrás. E, por vezes, voltar atrás não significa que se comece de novo, há uma probabilidade imensa de repetir as mesmas tentações.

Para recomeçar é preciso renascer.

E renascer não implica apagar toda uma vida para trás, mas conseguir pôr-lhe um ponto final. Decisivo. Para que seja possível construir, de raiz, com uma base sólida, toda uma nova vida. Que pode até nem ser melhor, mais feliz ou mais rica. Mas será a que agora lateja por dentro, irrompe a pele, transpira pelos poros.

Renasce-se para viver o que somos, de forma verdadeira.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias 

 

Votos de um BOM ANO, INSPIRADO, COM PROSA E POESIA!

2012 ABRAÇOS, mesmo mesmo apertadinhos para os meus colegas DA FÁBRICA E DA ESCRITA ;)

 

 

 

 

publicado às 00:18


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