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«Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, irremediavelmente afastados« Haruki Murakami
Beleza morta
Era uma vez um homem que vivia sozinho, num 7º andar de um apartamento sombrio. Passava os dias enterrado em papéis no seu trabalho e quando voltava para casa, já a noite tingia o céu de negro, fechava-se no seu quarto e devorava livros antigos.
Numa sexta-feira, no final de um dia quente de verão, ao passar por uma loja já fechada, um pássaro de cabeça laranja e penas verdes vivas prendeu-lhe visão. Ficou lá a observá-lo, fixaram-se longamente e, por entre a vitrina de vidro grosso ele fascinou-o com os seus movimentos e alegria. A sua beleza encantou-o e, mesmo por entre o vidro grosso ele até imaginava como aquela ave cantaria. Naquele instante ele teve a certeza que o queria, que tinha de o possuir.
No dia seguinte, dirigiu-se à loja logo pela manhã e disse que queria aquele pássaro da vitrina. Não um qualquer, era aquele em especial, de cabeça totalmente laranja e bico pequeno avermelhado e patas azuis. A vendedora perguntou-lhe se ele conhecia aquela espécie rara, uma fêmea Agapornis, conhecida vulgarmente por pássaro-do-amor. Se ele sabia todas as suas necessidades.
O homem abanou a cabeça e disse-lhe que não precisava, que queria leva-lo com um saco de sementes numa gaiola, naquele mesmo dia.
A Agapornis foi então separada dos seus companheiros, fecharam-na numa gaiola redonda, de gradeamento dourado, com um poleiro e um bebedouro. Tinha tudo e não tinha nada.
O homem levou-a para casa e colocou-a no seu quarto escuro, que raramente conhecia a luz do dia. Um dia que ele próprio mal via a passar. Agora distraía-se todas as noites contemplando a beleza do seu pássaro, admirando as suas penas coloridas. Era dele e por isso olhava-o fixamente, um olhar que ele estranhamente retribuía, enquanto o seu canto melodioso parecia cada vez mais um laivo de sofrimento.
Certo dia o homem chegou a casa e viu o seu Agapornis deitado, inerte no chão da gaiola. Abriu a janela e as persianas do quarto para entrar ar e tentou reanimar pássaro estendido. O seu corpo tinha peladas e o verde já não era vivo. Do seu bico também já não saiam melodias há algum tempo. Furioso, o homem foi à loja devolver o pássaro, que já não era bonito, que não cantava, queria devolve-lo.
A vendedora desesperada disse-lhe que o pássaro estava a morrer, mas a causa não era uma doença, nem a comida errada. Era unicamente a tristeza. A tristeza de ter sido separada do seu par, de não ver a rua que tanto gostava, de cantar num monólogo gasto. Explicou-lhe que um pássaro é um ser vivo, não é um quadro para se contemplar. Precisa da luz do dia, de vozes, de companhia... e a sua beleza é fruto da sua alegria.
Nesse dia o homem levou outro Agapornis para sua casa, colocou a gaiola junto da janela da cozinha. Desde esse dia, todas as manhãs ao acordar ele colocava uma musica clássica na sua aparelhagem e antes de sair para o trabalho deixava a porta da gaiola aberta para que os dois pudessem voar por toda a casa. De dia para dia a Agapornis foi recuperando a sua cor viva e aos poucos já vinha até à mesa da cozinha depenicar umas migalhas de pão que eram deixadas lá propositadamente. A sua beleza voltou a brilhar, chilreando as melodias que pareciam ambos partilhar durante os voos à solta pela casa.
O homem aprendeu que a beleza não se compra, é volátil, impossível de possuir ou controlar. Apenas se pode apreciar, de coração aberto, e compreender a sua essência, a sua alma, para a conseguir acompanhar.
Texto escrito para a Fábrica de Histórias