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Fábrica de Histórias

por Closet, em 07.02.10

São Nunca..é tarde

Conceição acordou de repente. O despertador não tinha tocado e já eram 8h00...

Ainda na penumbra do quarto, apalpou o despertador para ver melhor e agarrou um papel qualquer que estava por cima. Acendeu a luz do candeeiro da cabeceira e esfregando os olhos, ainda encadeados com a luz súbita, viu espantada que se tratava de um bilhete de comboio. Dizia "Lisboa-Coimbra, 30 de Fevereiro 2010, Partida 9h30".

«Não podia ser» pensou, esfregando os olhos, «este ano Fevereiro só tem 28 dias, que raio de bilhete é este?». Levantou-se rapidamente da cama, abriu o estore e procurou na mesa de cabeceira o telemóvel. Lá estava ele por debaixo do livro. Ligou-o e atónita viu no visor "8h05, Sábado, 30 Fevereiro 2010". Sacudiu a cabeça como que para organizar as ideias.... que se lembrasse não tinha dado nenhuma pancada que lhe provocasse nem amnésia, nem loucura, e hoje deveria ser sexta-feira... Dirigiu-se ainda incrédula à sala e acendeu a TV, ligou o teletexto e caiu redonda no sofá "30 Fevereiro 2010". «Pronto, desisto, pelo menos é Sábado, e sei lá porquê decidi ir até Coimbra».

O som de uma mensagem tocava no seu telemóvel. "Espero-te cá, no café do costume". Conceição leu e releu a mensagem, não conhecia o número de telefone e nesse momento questionava-se se realmente tinha batido com a cabeça algures durante a noite. Estava em branco... «que dia era aquele? de onde apareceu aquele bilhete? Mas pelo menos era Sábado e tinha um programa em Coimbra, seja com quem for, tanto se me dá» pensava enquanto tomava um banho com a água quente e se entregava ao seu pensamento mais imediato, o que ía vestir, «quem quer que seja que estiver à minha espera não ficará desiludido».

Conceição escolheu um vestido curto com umas leggings e umas bota altas, secou o seu cabelo longo preto liso e brilhante, um pouco de base, eyeliner e rimel completaram a maquilhagem. Borrifou o seu Dolce Gabanna e enfiou na mala o seu livro e o inseparável i-pod. «Enough» pensou enquanto vestia o casaco acintado e saía de casa no seu Golf em direcção a Santa Apolónia.

Entrou na estação e reparou o quanto estava diferente desde a última vez que tinha ali estado. Na verdade, ir de comboio para Coimbra trazia-lhe recordações antigas. De um passado já distante mas que agora se atravessava como flashes pela sua memória. Mas aquela mensagem não podia ser dele. Naquela altura tinham 16 anos, nem sequer tinham telemóvel, e perderam completamente o contacto.Conceição fez o seu curso, começou a trabalhar numa consultora e, com excepção de viagens que fazia com duas amigas, pouco mais fazia. Tinha a sua casa e era uma mulher de 28 anos independente, com uma carreira profissional ascendente e com fins-de-semana bem passados entre amigos.

Sentindo-se a verdareira Alice a entrar no País das Maravilhas, entrou no comboio Intercidades Lisboa-Coimbra à hora marcada. Reparou apenas nesse momento que o bilhete era só de ída. «Estranho» pensou «querem ver que é para lá ficar e não trouxe mais nada?»... Afastou aqueles pensamentos da sua cabeça, «qual ficar? chego lá e compro logo o bilhete de regresso e pronto».

À medida que se aproximava mais de Coimbra a curiosidade sobre quem estaria à sua espera agudizou-se mais do esperava... ainda pensou enviar um sms a dizer "estou a caminho, onde é que estás mesmo?" para ver se percebia quem era... mas decidiu deixar-se levar pela loucura daquele dia inesperado. «Se tinha o bilhete na minha mesa de cabeceira foi porque o pus lá, embora não me lembre quando nem porquê». E ouviu repetidas vezes a música "Just say Yes" inebriada em lembranças antigas de momentos bons que passou naquela cidade na sua adolescência.

Chegou a Coimbra e sentiu repentinamente o seu coração bater acelerado, aliás, esta era também uma sensação estranhamente familiar naquele lugar. Por momentos Conceição sentiu-se viajar no tempo e ficou paralizada à saída do Comboio. «E agora?»

Inconsientemente dirigiu-se ao café que ficava mesmo na rua abaixo da estação. Estava diferente, um toldo novo, vitrinas mais modernas. O interior estava cheio e sentiu-se perdida. «Afinal estou à procura de quem já não existe». Voltou-se para a porta quando o seu telefone tocou. Atendeu e uma voz familiar disse "Vira-te, na última mesa no canto à direita". Conceição voltou-se e viu ao longe um homem com a barba por fazer a levantar-se e a acenar-lhe. O sorriso dos seus olhos castanhos avelã eram inconfundíveis. Era ele, alto, despenteado, desengonçado, não tinha dúvidas. Avançou até à mesa e não sabia sequer como cumprimentá-lo. Ele abraçou-a, com aqueles braços enormes que desvanecem qualquer dúvida. Olhou-a nos olhos e segredou-lhe ao ouvido

"You're lost little girl, You're lost little girl
You're lost, Tell me who are you?

I think that you know what to do,
Impossible? Yes, but it's true.
I think that you know what to do, girl
I'm sure that you know what to do
."

Conceição não conseguiu esconder uma lágrima que lhe escorreu pela face e que ele rapidamente beijou. Afastou-o, sacudindo a cabeça, baralhada. Deixou-se cair na cadeira, ainda de pernas a tremer, só conseguiu dizer "Mas como? Nunca mais soube de ti..."

Ele entregou-lhe a útima carta que lhe escreveu, a mesma que ela lhe devolveu. A carta estava amarrotada mas no final tinha uns riscos por cima da letra da música que a terminava

Love me two times, baby
Love me twice today
Love me two times, girl
I'm goin' away  stay

Love me two times, girl
One for tomorrow
One just for today
Love me two times
I'm goin' away stay

- "São, Nunca... é Tarde".

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 21:15


6 comentários

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De Closet a 11.02.2010 às 01:48

sabes que eu e o tempo temos dificuldades de relacionamento :P olha, é quando for, que tal? játe enviei anyway!

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