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Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.01.10

Mistura de sabores

Abriste a porta e com uma vénia teatral fizeste sinal para entrar. Fitei-te por segundos eternos. Não te via há algum tempo e, admito, estavas incrivelmente atraente, com o cabelo mais comprido meio desalinhado. Mas ainda assim entrei com a sensação de um vazio a percorrer-me por dentro, o vazio que também mergulhava a tua casa. Fiquei parada, sem proferir palavra, enquanto me atiraste o casaco que tinha na mão para o sofá e perguntaste "queres beber alguma coisa?". Confesso que me interroguei se seria mera gentileza ou porque não sabias de facto mais o que dizer. Fitei-te novamente, desta vez raspei apenas os meus olhos nos teus para que não mos aprisonasses e acenei que sim. Voltei as costas contemplando as paredes nuas e aquela estranha sensação de ausência que me incomodava. "Posso escolher?" perguntaste timidamente. Volto a acenar que sim e sigo-te os passos para a cozinha. Uma divisão moderna, em tons frios de inox, dou por mim a pensar se alguma vez aquela placa encastrada terá conhecido a chama do fogo. Abano a cabeça indiferente ao que possas pensar, tenho a certeza que não. O fogo não arde naquela casa. Abres o congelador do teu elegante combinado em inox e retiras uma couvette de gelo. Reparo que as duas ultimas gavetas se encontram vazias, e na primeira apenas uma refeição pronta, lasanha talvez, e gelo, vários sacos de cubos de gelo... não pude deixar de pensar em como o nosso meio é um espelho de nós...

Colocas os cubos de gelo num aparelho em inox que decorava a bancada. E num barulho que arrepia picas o gelo bem fino durante segundos assutadores. Depois retiras uma lima dentro de um recipiente para fruta, que apenas continha limas e limões. Partes a lima em 4 partes com uma faca afiada. Reparo que saltam uns esguinchos de sumo para a tua mão que imediatamente absorves com os lábios e, curiosamente, pareces gostar. Lembro-me do sabor dos teus lábios, ou talvez já não, e não acho estranho gostares daquele sabor acído... colocas 2 metades em cada um dos dois copos de vidro largos e baixos dispostos lado a lado na bancada. Estavam tão juntos que se roçavam, como já estivemos nós em tempos. Perco-me a pensar, mas limito-me a comtemplar-te ao longe.

Abres um armário e retiras uma embalagem já aberta de açucar de cana. Nem sabia que conhecias tal ingrediente. Colocas 2 colheres de sopa de açucar em cada copo e retiras de uma gaveta um pilão de madeira. Esmagas em cada copo as limas e o açucar, deixando o sumo amargo dissolver os grãos doces de açucar. Os teus movimentos são ritmados, precisos, como se os tivesses ensaiado vezes sem conta. O resultado é perfeito e o açucar rende-se, disolve-se, mistura-se. Naquele momento, como em flash back, vivi aquela nossa estranha noite e percebi que a vida nos empurra para as misturas mais impossiveis.

Abres uma garrafa de cachaça que já vai a meio e colocas a olho o que corresponde a 1 cálice em cada copo. Depois vertes o gelo picado e mexes bem com a ajuda de uma palhinha.

Fico a olhar-te colocar 2 palhinhas baixas em cada copo, envolveres um deles com um guardanapo e estenderes-me com um sorriso triunfal nos lábios. Procurei o mesmo sorriso nos teus olhos e não o encontrei, mas aceitei na mesma o copo que me estendias. Devolvi-te uma palhinha. "Já só preciso de uma" respondi sem mais justificações. Pegaste no teu copo e fizeste um sinal de brinde. Não percebi bem porquê mas sorri por cortesia e provei a bebida. Estava tristemente amarga e gelada, aliás...como tu. Na verdade não gosto de cachaça, tem algo para mim de azedo.

Pousei o copo e disse "Desculpa, mas prefiro caipiroska, o vodka torna a bebida mais doce e quente, a cachaça arrepia-me, azeda-me". Ficaste parado, sem saber o que dizer ou fazer... gaguejaste algo como "posso fazer outra", mas eu já tinha virado as costas. Ter ído a tua casa foi um erro tão inevitável com inexplicável, como um julgamento de um assassino que sempre admitiu a sua culpa.

A verdade é que o teu sabor e o meu já não se misturam. Talvez nunca se tenham mesmo misturado. E talvez naquela noite, em que já não sei se foi sonho ou realidade, tu tenhas bebido cachaça e eu tenha bebido vodka.

 

Caipirinha

 

Caipirinha

 

Ingredientes

Gelo
Cachaça 1 cálice por copo
lima: 1 por cada 2 copos
Açucar de cana: 2 colheres de sopa por copo
 

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

publicado às 22:38


4 comentários

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De Dina a 11.01.2010 às 18:31

Olá gostei de passar por aqui e ver um post novo,confesso que já tinha saudades.
Quanto ás caipirinhas.....................a bebida é tramada nem sempre temos o mesmo gosto e há bebidas que se tornam amargas quando o ingrediente não é o mais adequado para nósImage

Beijocas
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De Closet a 12.01.2010 às 00:49

pois amiga, a 1ª semana de trabalho, aliada ao frio...acho que gelou uma preguiça de escrever...mas começarei um curso de escrita para a semana, para não perder o ritmo!! beijocas!
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De BF a 11.01.2010 às 22:39

PERFEITO AMIGA!!!!

Adorei!
Está fantástico como conseguiste a simbiose entre uma simples receita e a receita de uma relação!! fantástico!!!
beijos,
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De Closet a 12.01.2010 às 00:58

Neste caso... receita de uma Não-relação...como diz Cathy "diz-se relação por ser preciso esta sempre a refazê-la"...
É para ver que há receitas que misturam ingredientes opostos, o ácido e o doce, e mesmo assim... quase todos gostamos! Mas depois há aquele ingrediente que se acrescenta, que pode fazer a diferença...apetecível aos olhos, mas que ao provarmos não é o que pensávamos... tinha a mesma cor, o mesmo aspecto... mas não era o "the one"... dá que pensar!
Beijos grandes querida!

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