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Fábrica de Histórias

por Closet, em 28.06.09

 

Nas nossas mãos mudar

 

Arrastava os pés pelo caminho que conhecia de cor. Vasculhava um bolso vazio, depois o outro,  perdera as chaves, mais uma vez. Ou deixara-as no bar. Não se lembrava. Tinha ído lá só para beber um copo. Era sempre só um. E ía ficando. E ía bebendo, primeiro um, depois outro, e outro a seguir. A empregada sorria-lhe, lembrava-se. Só não se lembrava nunca como acabava num quarto lá do fundo. Deixava-lhe sempre uma nota na cabeceira. Tal como deixava à sua mulher para pagar uma conta qualquer. Qualquer era a mentira que inventava quando chegava, já não se lembrava o que tinha dito antes, arriscava. A mulher fingia que acreditava, abria-lhe a porta, uma vez, outra e mais outra. Não conseguia ver-lhe os olhos carregados de lágrimas, inchados, sofridos. Beijava-lhe a testa esperando que ela não sentisse o odor de whisky e deitava-se pesado na cama ainda vestido, envergonhado, arrependido. Está  nas suas mãos mudar o caminho.

 

Olhava-se ao espelho e não se reconhecia. A mãe encantada sorria. Acenava, dizia que estava linda. Ela olhava e sentia-se vazia. Percorria a lista de convidados e quando via um nome tremia. Lembrava-se da tarde em que o conhecera, e que nunca mais o esquecera. Os olhares fixaram-se e o corpo estremeceu. Algo nele a prendeu. Prendeu também o seu juízo. Um beijo inesperado atirou-a para o precipício, o desejo descontrolado marcou o início. Marcado estava tudo há muito tempo. A casa comprada, planos para o futuro, bebés e uma carreira brilhante. Brilhante era o seu vestido bordado a pérolas de água, opaco era o seu olhar perdido. Nada disto fazia sentido. Amava outro, que não ía ser seu marido. Está nas suas mãos mudar o destino.

 

Beijou a testa da sua filha desejando-lhe boa noite. Como sempre fazia. Ladeava a cama pelo outro lado e beijava a mais pequena que já dormia. Mais uma noite sozinha. Há muito que se habituou às constantes ausências do marido, trabalho, viagens, ou outra mentira qualquer. Há muito que se deixou de importar se era trabalho ou outra mulher. O seu coração foi arrebatado por outro homem, que se atravessou no seu caminho. Um homem diferente e meigo que a conquistou. Ela sorriu-lhe e negou o óbvio, que se apaixonou. Passa o tempo, como uma brisa do vento. E todas as noites ela entrega-se a ele na solidão da sua cama, fantasiando o impossível. Ele já mal se lembra dela, quase não se falam, e ela vive com ele um sonho incrível. Nesta anestesia insana ela alimenta os seus dias de monotonia. Vai sofrendo, vai sorrindo, vai fingindo, está nas suas mãos mudar a sua vida.

 

Tinha-lhe dito que não queria. Eram muito novos, ainda era cedo. Disse-lhe com agonia. Ela olhou-o aterrorizada, as lágrimas escorriam pela face fria. Ela acenou-lhe que sim e abandonou cabisbaixa o carro, caminhando devagar até à porta, parecia morta. Ele acompanhava os seus passos angustiado, arrependido, irado. Deixou de a ver, e de repente teve medo de a perder. Um bebé inesperado. Um filho mudaria a vida, uma vida no meio dos dois. E depois? Ligou o carro enquanto revolvia um turbilhão de sentimentos, emoções. Carregou no acelerador com uma fúria incontida. Aquela mulher era a sua vida e ele tinha-a desiludido. Cobarde, irreflectido. Guiou a noite toda com a raiva de um furacão, até que parou, está nas suas mãos mudar a direcção.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 22:51


4 comentários

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De Diogo a 30.06.2009 às 19:56

Que açorda que para aqui vai...

ainda estou a espera da Sara e do Ricardo menina...



bjinhos!!
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De Closet a 01.07.2009 às 22:31

ás vezes a vida é mesmo uma grande açorda :S
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De mafalda a 02.07.2009 às 11:39

"cobarde, irreflectido", que boa descrição de uma pessoa assim.
espero que seja só e apenas ficção.
beijinhos.
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De Closet a 05.07.2009 às 23:03

é sim, minha querida! Não conheço gente dessa!
beijocas

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