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Fábrica de Histórias

por Closet, em 28.05.12

 Safari

 

África sempre foi o Continente que mais nos fascinou. Ambos nutríamos uma paixão pelas suas paisagens infindáveis, pela imponência dos perigosos animais selvagens, pelas tribos que o povoavam e os seus hábitos. Tudo naquele Continente causava emoção e, por esse motivo, ano após ano, íamos conhecendo um novo país, partíamos numa nova aventura.

Já tínhamos programado aquela viagem ao Botswana há muito tempo mas, por qualquer razão, esta tinha sido sempre adiada.

Finalmente lá estávamos nós, munidos da máquina fotográfica e câmara de filmar, cada vez mais sofisticadas, garantindo-nos de regresso a casa um testemunho vivo das cores de África.

O Guia esperava-nos pontualmente, às 8h no átrio do hotel, no dia marcado para o tão aguardado Safari ao Chobe National Park. Era um passeio de 3 dias onde iríamos pernoitar duas noites num Lodge exótico no meio da savana. Um sujeito alto, magro, com a pele negra escura, e de camisa impecavelmente branca, aparentava uns 40 e poucos anos e apresentou-se num inglês coloquial. Pediu-nos para esperar por um casal que estava atrasado.

O nosso grupo era de apenas 6 pessoas que estavam hospedados no nosso hotel, um casal inglês de meia idade e um casal de cerca de 35 anos francês, e faríamos a viagem num jipe preparado para esta lotação. 

Apesar dos 33º que se faziam sentir já aquela hora do dia, e sem correr uma única aragem, a viagem correu bem. O Guia ía descrevendo como iria ser o nosso dia, as precauções que deveríamos ter, o percurso e respectivas paragens.

Foi um dia inesquecível, conseguimos ver de perto animais como elefantes de grande porte, búfalos, girafas e zebras. 

Por volta das 18h chegámos ao Chobe Park. O hotel era composto por luxuosos bungalows de madeira e tectos exóticos, com uma casa de campo central que servia simultaneamente de lounge e de refeições. Estávamos exaustos e pegajosos do bafo quente colado à nossa pele empoeirada, emanando um odor insuportável de terra misturada com o suor. A miragem do banho revelava-se cada vez mais um paraíso apetecido. 

Jantámos no restaurante com outros turistas que também lá se encontravam em expedições Fomos deitar-nos pelas 23h00. Estávamos efectivamente cansados e tínhamos de acordar novamente  cedo na manhã seguinte.

A noite estava quente, talvez uns 26º, e não corria uma brisa. A lua parecia desenhada num círculo perfeito e iluminava, como um candeeiro gigante, o céu azul-escuro repleto de estrelas brilhantes. O único barulho que se ouvia provinha dos pequenos animais escondidos por entre as ervas do mato, grilos e gafanhotos falavam entre si, tornando aquele lugar verdadeiramente mágico.

A cama em dossel acolheu os nossos corpos fatigados , de tal forma confortável que me deixei adormecer mal caí na cama.

 

A meio da noite acordámos sobressaltados. Um grito agudo, histérico, que não cessava. Um grito de mulher em pânico, aflita. Corremos para fora do bungalow, à semelhança de outros tantos turistas, mas era impossível detectar de onde vinha o grito. O nosso Guia também apareceu assustado perguntando-nos se estava tudo bem.

Ao fundo apareceu a inglesa, por detrás de uns arbustos com a camisa de noite manchada de sangue. O seu rosto pálido exibia um estado de choque e paralisia, o cabelo estava desgrenhado e as mãos tremiam esticadas também sujas de terra e de sangue.

Corremos até ela, que não conseguia pronunciar qualquer palavra, gemendo algo imperceptível enquanto apontava assustada na direcção do mato….

- Alguma criatura atacou-a? – perguntei-lhe sem receber qualquer resposta. Apenas consegui perceber “Charles”. Uma senhora da recepção agarrou-a e conduziu-a ao Lodge.

Seguimos o nosso Guia que empunhava uma lanterna e deparámo-nos com o Charles no chão, agachado, de roupa rasgada, com as mãos e cara cobertas de sangue. Pierre, o francês, encontrava-se junto dele com uma arma comprida pousada no chão e prendia as suas mãos e pés com cordas grossas.

Ao ver-nos fez sinal para nos afastarmos, “ne vous approchez pas”, dizia de semblante carregado mas com um ar vitorioso. O Guia transpirava de nervoso e a medo fez-lhe sinal para se aproximar. Trocaram palavras enquanto Pierre colocava uma rede grossa em volta do corpo de Charles que jazia imóvel no chão.

O Guia ajudou Pierre a transportar o corpo enredado com a ajuda de um tronco, como se de um animal se tratasse. Pediu-nos para regressarmos ao hotel que já nos explicaria tudo.

Quase uma hora depois o grupo de cerca de 20 turistas hospedados no Chobe Park reuniu-se no átrio do Lodge e ficámos a saber que Charles era um assassino perigoso, perseguido internacionalmente.

Chocados nem queríamos acreditar. Ainda perguntámos ao nosso Guia:

- Mas ele vinha matar o quê aqui?

Foi quando o Guia nos fez sinal para esperarmos e ficarmos mais um pouco. Quando todos se recolheram aos bungalows ficámos apenas nós, a loira inglesa amparada pela senhora da recepção que a abraçava, Pierre e a sua mulher.

Pierre explicou-nos no seu inglês, soletrando devagar cada palavra para ter a certeza que estávamos a compreender tudo o que dizia.

Disse-nos que era um agente secreto, caçador especializado de Lobisomens, e que já há algum tempo andava no encalço de Charles. Naquela noite apanhou-o em plena transformação, tal predador em caça de alimento. Tinha caçado uma gazela e não sabia o que poderia suceder a seguir.

A sua mulher desta vez seguiu-o e assistiu a tudo, horrorizada. Pierre explicou-nos que os lobisomens não têm sempre consciência do seu estado, apenas quando se aproxima uma noite de lua cheia sentem a necessidade de caçar. Na maioria das vezes nem sequer têm memória de quando foram atacados e transformados e passam a conviver com a sua condição da melhor maneira que conseguem. Pierre acreditava que Charles devia ter sido mordido há cerca de 10 anos, altura a partir da qual começou a fazer frequentes safaris e expedições aventura.

- E agora? – Perguntei em pânico – está morto?

- Não – respondeu Pierre sorrindo – ele não tem culpa do que lhe aconteceu. Esta bala apenas o adormeceu e o sangue que ele tem é da gazela que matou com os próprios dentes.

 

 

Texto escrito para a Fábica de Histórias

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publicado às 00:46

Fábrica de Histórias

por Closet, em 06.05.12

 

 

Escadas

 

Costumo pensar que ser mãe é estar sempre a subir escadas.

 

Sou mãe há 10 anos e tenhos dois rapazes. Tem sido uma boa escalada, admito!

Não pelo cançado, que não me vence, mas raros são os dias em que não me questiono sobre a minha capacidade de ser mãe. Talvez porque a minha mãe tenha morrido cedo e eu não tenha dela qualquer imagem, talvez porque olho em redor e percebo que nem todas nós, mães, sabemos o que ser mãe significa. Esta capacidade que me aterroriza ultrapassa a genética, o ADN ou o grupo sanguíneo. Ser mãe é tão mais do que isso...

Quando me falam do parto, das primeiras semanas, das noites em branco por dormir ou dos choros a fio, eu sorrio. Nada, nessa altura, me assustava. Ainda estava nos primeiros degraus, demasiado concentrada na sua sobrevivência, em dar-lhes de comer, pô-los a dormir, pega-los ao colo horas a fio para não chorarem. Chamam-lhe instinto, e talvez seja, não existiu em mim uma racionalidade efectiva, não precisei de balanço, posso dizer que eles apoderaram-se de mim e me puxaram. 

 

Hoje são autónomos, ou quase. E até parece, por vezes, que fazem tudo melhor do que eu. Verdadeiros perfeccionistas, saltam degraus sem avisar, e eu, nem sempre preparada, tenho de correr, para os alcançar.

Agora, e cada vez mais, assumo a minha maior fragilidade em ser mãe. As exigências são muitas, demasiadas. Detectam cada erro, reclamam cada falha. Ou porque estou atrasada, ou porque não consegui ligar a nova box XPTO da televisão, ou porque não percebo as instruções de um jogo da consola, ou porque não sei ligar o quadro da electricidade... Um universo de dificuldades onde me sinto tantas vezes apavorada. «Sou só uma, não sei fazer isso, não consegui chegar antes...» justifico-me com uma aparente calma, mas de quem no interior se sente pressionada. Por vezes mesmo aprisonada, da necessidade de saber fazer, de conseguir chegar. E aproveito cada momento em que abrandam o passo para respirar fundo, descansar o corpo que treme e focar-me novamente na escalada.

 

Porque no meio dessa luta vem outra ainda mais íngreme, sim, porque ser mãe é mesmo isso, é estar sempre a subir escadas. 

 

E agora que já decidem, têm opinião, força e vontade? Como os irei conquistar? Será que me vão ouvir? Porque não acredito em regras autoritárias para educar. E é nessa brincadeira que levo com eles, em que falho tanto ou mais do que eles, que me sinto muitas vezes uma criança. De mamy, passo a nany e sou uma espécie de irmã, companheira de gargalhadas, de danças e músicas esquisitas, de festas com os amigos cá em casa, de passeios onde vai um, outro e depois já são vinte, de trambolhões em patins em linha no meio da estrada. Eu e eles, não somos diferentes e peço-lhes tantas vezes para não se afastarem, acompanharem-me lado a lado. 

 

Eles estão sempre lá, vejo-os no degrau acima do meu, persigo-os desenfreada no pânico de os perder de vista. E sei que nada me vai arrastar daquela caminhada. Quais ventos fortes? Qual  piso escorregadio? Seguro-me firme, porque a minha vida é agora aquela escada onde subo, passo a passo, os degraus prioritários de os fazer felizes.

 

Costumo dizer que ser mãe, é subir escadas. Por vezes ando triste, cansada, mas tudo se evapora quando abraço os seus sorrisos.

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

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publicado às 23:16


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