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Fábrica de Histórias

por Closet, em 30.04.12

 

Não te entendo

 

"Não te entendo" repetias desesperado.

Eu repetia novamente, soletrava na minha língua. Repetia depois na tentativa de pronunciar a tua língua, ou noutra que poderíamos compreender os dois. 

Mas música abafava a voz rouca e as bocas entregavam-se desamparadas, sedentas, esquecendo as palavras que surgiam desconexas, sem sentido.

Ali estávamos nós, confusos, um em frente ao outro, deixando que os corpos traduzissem os sentidos. 

"Quem és tu?" pensava em breves segundos enquanto me perguntavas algo também ao ouvido.

 "Não te entendo", olhava-te encolhendo os ombros. Tu encolhias os teus e puxavas-me para os teus braços. Sorrias, e os olhos profundos abraçavam as palavras que não decifravas. Sorriam e vertiam o aroma do improvável, a certeza do impossível. As mãos cegas, deslizavam sôfregas, enfeitiçadas pelo ritmo que vibrava nos corpos incendiados. Corroía de desejo o espírito inquieto, talvez insatisfeito. "Infeliz?" percebi que perguntavas, num olhar penetrante que pedia muito mais do que palavras, num desenrolar de frases seguidas que eu já não compreendia. 

Mas tentava. Queria tanto comunicar contigo...

Como podia explicar-te a atracção que sentia naquele momento alucinante? 

Não podia. Nem na minha língua o conseguia. O inexplicável seduzia. Não me importava mais nada. Tu cantavas e rias. Enquanto me viravas e reviravas, sentia o teu peito a ferver nas minhas costas, os teus lábios no meu pescoço, perdiam-se na orelha que beijavas enquanto sussurravas ao meu ouvido. Não entendia uma palavra, mas acompanhava os teus passos, por instinto. Porque todos os teus gestos, surdos-mudos, desaguavam num imenso sorriso. 

"Desisto", pensei impotente, no cansaço de não me fazer compreender. O meu nome, quem sou, o que faço. Nada. Desisto! Decidi entregar-me em branco, vazia. Como se acabasse de nascer. Aceitaste-me. Aceitei-te. Num pacto gestual inconfundível, tacteámos no escuro. Despidos de quaisquer palavras que nos identificassem e restringissem.  Assim éramos um para o outro, dois corpos apenas, sem história, sem rumo, sem futuro.

Não sei como, nem quando, mas um dia procuro-te.

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

 

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publicado às 00:59

Fábrica de Histórias

por Closet, em 16.04.12

 

 

“Sputnik, meu amor”

 

“Sputnik, meu amor” foi o primeiro livro que li de Haruki Murakami (e depois casei-me com ele para a vida!!)

 

Perturbante é talvez a primeira palavra que me surge. Viciante é a sensação que deixou depois da última página.

Os ingredientes, misturados numa escrita cativante e repleta de simbolismos, resultam numa história envolvente com personagens de almas inquietantes e desencontradas.

 

Desde o início invade-me a estranha impressão de conhecer o narrador, como se estivesse sentada num sofá de um bar a conversar com um amigo que não vejo há muito. E é com a mesma indecisão que, ou se pega na bebida, ou se puxa do cigarro, que é trocada por vezes a ordem dos acontecimentos. Mas talvez a ordem aqui não interesse para nada.

 

Durante a conversa ele fala-me do conforto do amor, da intensidade do desejo e da amargura da solidão, tendo como ponto de partida e de chegada a sua amiga Sumire. Aquela que ama e deseja desmesuradamente. Aquela que lhe foge por entre os dedos, silenciando o seu mundo e roubando-lhe a cor.

Mas na história ele é apenas um, dos três seres solitários que orbitam como satélites uma rota paralela, ora em busca, ora em fuga, de si mesmos e uns dos outros.

Através das suas palavras vejo claramente, como se estivesse na minha frente, a fragilidade voraz de Sumire: uma figura delgada com orelhas perfeitas e de sobrolho franzido. E sinto, incomodada, a frustração do desejo que transpira por ela, como boomerang, vai e volta, em convulsões amordaçadas.

É pelas palavras de Sumire que primeiro conheço Miu, a mulher que a arrebata de paixão: um ser misterioso que é desbravado ao longo da história que me conta. Surpreende-me o retrato pintado dela pelas palavras apaixonadas de Sumire, um ser forte e sofisticado, em oposição à Miu que ele me descreve, um ser belo e simples mas ausente de vida, como “uma concha vazia”.

 

O pano de fundo da sua história é uma viagem onde ele acaba, imprevisivelmente, por entrar. E pelas suas palavras dou por mim a vaguear nas encostas da ilha grega, repleta de mistério e magia, onde descreve cada local, como se de um ser vivo se tratasse.

Tudo o que sente é reflectido em lugares quotidianos. Miu lembrou-lhe “um quarto vazio depois de toda a gente se ter ido embora”, eles aproximaram-se com cumplicidade “como qualquer jovem casal de amantes que se despe em conjunto”.

 

A certa altura, sou inesperadamente agredida pelo seu abandono da vida. Ele inflige-se numa morte interior, mergulhando no silêncio abrupto das recordações.

 

No final da história, fico com a sensação de quem bebeu a noite inteira e já não sabe onde está. Confusa, páro para pensar. Também o meu amigo já não se encontra no bar. É apenas um reflexo num espelho.

- De alguma forma conseguiu trespassá-lo, para encontrar-se novamente no outro lado, onde o mundo voltará a ter cor.

Foi isso que pensei quando saí pela porta do bar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

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publicado às 00:39

Fábrica de Histórias

por Closet, em 09.04.12

 

Um serão em família

 

Já estávamos em cima da hora para o jantar de anos do nosso amigo. Eu, a minha sogra e os miúdos agarrávamos os casacos, a mochila com as consolas, o presente e os ovos de chocolate e as amêndoas da Páscoa. De braços ocupados, fechámos a porta de casa num movimento firme e decidido. Pumm! Tenta-se dar a volta a chave para fechar. Nada. Novamente. Nada.

- O que se passa? – Pergunta a minha sogra intrigada tentando rodar a chave na ranhura.

- Upsss… Acho que a minha chave ficou lá dentro, na fechadura.

 

E assim começou um serão diferente.

O frio apertava e as nuvens ameaçavam chuva a qualquer instante. Os miúdos, sempre convenientes, gritavam em alto e bom som “agora vamos dormir na rua?”. E na verdade a perspectiva não era a melhor, já que as chaves da garagem também estavam no interior e toda a casa tinha as portadas fechadas.

 

Os meus vizinhos, sempre prestáveis, ofereceram-se logo para ajudar. Ele, dentista de profissão, apareceu com uma caixa de ferramentas em punho e conseguiu de facto desmontar o aro da fechadura. Mas a porta continuava fechada. Ao seu melhor estilo de assaltante-nas-horas-vagas também tentou abrir a porta com um cartão como se vê nos filmes, mas dado que não se tratava de caries e assuntos relacionados, o seu sucesso foi zero.

 

Entretanto chegavam familiares dos meus vizinhos com filhos, chega um, chega outro, e todos vão desfilando pela minha porta, dando sugestões de abertura. Optámos por ir para as traseiras tentar arrombar a janela da cozinha. Voltam as ferramentas e agora já mais 3 homens para ajudar à coisa. A minha vizinha, preocupada com o frio e a chuva que agora caía, fez questão que entrássemos para dentro de casa e onde deixei à entrada os sacos do presente, dos ovos e das amêndoas da Páscoa ocupando todo o hall de entrada. Os miúdos já corriam desaustinados com os outros miúdos, espezinhando o corredor, e eu fui conduzida para a sala. Lá, uma mesa enorme estava elegantemente posta para o que deveria ser um agradável jantar de família, isto se nós não aparecêssemos para estragar. Um irmão, ou cunhado, ou primo (não perguntei quem era), sentado ao meu lado no sofá mostrava-me a rir o filme que gravou no seu i-phone dos outros três a assaltarem a minha casa. Mostrei-lhe os dentes por delicadeza e continuei à procura do telefone dos bombeiros. As quatro mulheres irmãs, ou cunhadas, ou primas, circulavam pela sala olhando para mim de alto a baixo e questionando-se seriamente se eu ficaria para jantar, convite que gentilmente declinei da minha vizinha.

 

Telefonema para os bombeiros, lá os consegui convencer a vir a minha casa, ainda que teriam de trazer as autoridades. “Meus senhores, tragam quem quiserem, o Super-homem, o Sarkosy, o Cristiano Ronaldo, mas venham abrir-me a porta!”

E ali estávamos nós, na quinta-feira à noite, véspera de sexta-feira santa, em casa dos meus vizinhos. Eu, a minha sogra, os meus dois filhos e finalmente o meu marido (que chegou com aquele ar de quem espuma “o que é que fizeste agora?”).

 

Os bombeiros chegaram num carro enorme e, num ápice, um sujeito fininho empurrou a portada para cima e com um jeitinhozinho… Tchanan! Abriu a janela da cozinha, perante o espanto dos familiares do meu vizinho, irmãos, cunhados ou primos, que tinham experimentado quase todas as ferramentas existentes no mercado (menos o jeito-para-a-coisa).

 

As autoridades foram canceladas e estávamos novamente dentro de casa com satisfação, nossa e dos nossos vizinhos que puderam finalmente jantar em família sossegados, ainda que com uma hora de atraso. Ainda nos perguntaram amavelmente se desejámos jantar com eles e quase, quase pensei em aceitar passar aquele serão em família, dos outros!

 

 

Testo escrito para a Fábrica de Histórias (baseado em acontecimentos reais!)

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publicado às 00:41

Páscoa Feliz!

por Closet, em 08.04.12

 

(by Cila, a super-avó!)

 

 

DESEJOS DE UMA PÁSCOA FELIZ!

 

 

 

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publicado às 00:43

Fabrica de Histórias

por Closet, em 01.04.12

 

Moulin de la Galette (1889), Toulouse-Lautrec 

 

Nos teus braços

 

- A menina dança?

A tua voz aveludada percorria-me a pele. Não conseguia evitar estremecer, arrepiada.

Queria dizer-te que sim, que dançava. Claro que dançava! Contigo fazia qualquer loucura, saltava do cume de uma montanha para o abismo. De olhos vendados, nem hesitava. Mas não disse nada.

A música tocava alegre e os corpos à nossa volta balançavam como os pendões de um relógio, ritmados. E nós aqui, sentados, a olhar um para o outro. Imóveis, encantados.

Os risos ecoavam pela noite, iluminando os rostos nervosos, apaixonados, de quem dançava uma valsa por instinto, sem pensar. Um passo para o lado, outro para o outro. Tão simples. Era assim que dançavam os comuns mortais. Era uma valsa, nada mais.

Olhavas-me. Fixamente. Sei que tentavas descobrir exactamente o que estaria a sentir naquele momento. Se desejaria mais do que uma valsa quando as nossas mãos se tocassem para me conduzires? O que aconteceria quando me enlaçasses a cintura, segurando-me junto ao calor do teu corpo? Sim, sei que pensavas como conseguiria evitar tremer com a tua respiração no meu pescoço, os teus lábios a centímetros dos meus.

Desafiavas-me. Com impetuosidade.

O teu sorriso rasgado enfrentava o meu. Empurrava-me, como um vento forte que de repente soprava, de tal forma era o seu poder. E a voz persistente, mágica, voltava à ribalta, deixando-me a tremer.

Nada quebrava aquele instante, enquanto a multidão dançava e os meus olhos perdiam-se nos teus.

Seduzias-me, numa espécie de compasso lento, sei que irias despir habilmente o meu vestido apertado naquela praça, irias romper violentamente a minha pele e furtar a minha alma agitada.

Iniciava agora uma nova valsa. Levavas-me na melodia que emanavam os teus braços, inconsciente, feliz.

Sei que morreria ali, aquela noite, nos teus braços.

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

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publicado às 23:37


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