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Fábrica de Histórias

por Closet, em 26.11.11

Il telescopio de Magritte

 

Corrente de ar

 

Há pessoas que entram na nossa vida como uma enorme corrente de ar.

Atiram-nos com violência contra a parede, sacodem o nosso corpo inerte, arrepiam-nos a pele fria.

Como um vento forte que nos atinge assim de repente, nem percebemos como chegou ou de onde vem. Mas, ao fim de algum tempo, sentimos que ele nos liberta os pulmões numa lufada de ar fresco. São as palavras que se trocam num latejar permanente do que mais profundo existe em nós latente. As dúvidas, os segredos, as angústias e frustrações. Abrimos o peito sem medo e inspiramos devagar, cada partícula de ar que nos invade. Cada incerteza que afogámos nas entranhas do corpo descrente. Cada desejo que abafámos, amarrámos em cordas de gesso opaco e duro. E no cubículo escuro onde solitariamente nos fechamos, vemos novamente cor.

Respiramos tão sofregamente aquele ar que nos trespassa a alma e abana o corpo frágil como uma folha de papel. Sem notar, deixamo-nos levar por essas pessoas mágicas que nos enlaçam em doces fantasias, pinceladas de mel. Num arrastar suave, como num compasso de dança, deslizamos sugados pelo vento na direcção do parapeito da janela. Para decidir se queremos partir ou ficar. Tão assustados como atraídos, ficamos ali paralisados a contemplar, numa espécie de vertigem, tudo o que para além daquele limite podemos alcançar.

Até que uma nova rajada de vento atira-nos brutalmente ao chão, desprevenidos. E ficamos eternamente na dúvida, se a deixamos aberta, ou se a devemos fechar.

Há pessoas que entram, acidentalmente, pela nossa janela e nos atravessam como uma enorme corrente de ar.

 

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