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Fábrica de Histórias

por Closet, em 20.11.11

 

 

 

 Blind date diferente

 

O frio do Inverno corrompia-me o corpo ainda quente do sofá. Arrastara-o naquela noite, com uma força que desconhecia, para o vazio da rua, escura, desabrigada, onde a humidade entranhava-se na pele enregelada.

Aconcheguei a parka no pescoço enrolado por um cachecol que subia quase até ao queixo, enterrei ainda mais a boina na cabeça de tal forma que apenas os olhos, o nariz e a boca se viam. Era assim que me sentia tranquila, quase invisível. Gostava da noite, como uma espécie de vida paralela e só minha. Ultimamente recolhia-me sofregamente nela para estar comigo, e vivia-a no silêncio de casa.

 

Mas ali estava eu, naquela noite de final de Novembro, debaixo de um cadeeiro de luz fraca, junto à minha porta na rua mal iluminada. Tinha chamado um táxi. Nunca gostei de táxis, mas devo admitir que aquela foi a ideia mais brilhante que tive nos últimos dias. Não conhecia a zona combinada do Bairro Alto e quando cheguei, acreditei que jamais conseguiria encontrar aquela ruela escondida, muito menos estacionar por lá.

 

O Bar passava completamente despercebido, entre as casas antigas de uma rua estreita sem qualquer movimento. Era pequeno, uma única sala hexagonal com paredes forrada de quadros variados e com cerca de sete mesas. Tinha um balcão ao fundo onde um empregado preparava um shot para um cliente enquanto conversavam. Junto às paredes do lado direito havia dois sofás de veludo azul escuro, com mesas baixas redondas e pequenas velas dentro de cinzeiros. Havia apenas duas vazias, as restantes estavam ocupadas por grupos de 4 e 6 pessoas com aspecto de estudantes, que conversavam e fumavam alegremente. A iluminação era ténue, feita por candeeiros pendurados no tecto escuro. Ao fundo, um homem negro com talvez sessenta anos tocava ao piano algo que me pareceu jazz. Não era entendida em música, mas fez-me lembrar Nat King Cole, ou algo do género.

 

Tinha conseguido o feito histórico de chegar antes da hora marcada, faltavam 15 minutos para as 22 horas. Pedi um Gin tónico no bar e sentei-me num sofá, de frente para a porta. Aumentava dentro de mim uma sensação absurda de ansiedade. Pensei que devia ser esta a sensação de um blind date, porque na verdade combinámos o “encontro” por telefone de uma forma quase surreal.

- Olá, estou a falar com a Sofia?

- Sim… - Respondi.

- Eu sou o vizinho da Carla, quer dizer, o ex-vizinho … Eu fiquei com o seu contacto para lhe entregar uma encomenda de que ela estava à espera... – Continuou numa voz grave, estupidamente calma.

- Sim, sim – Lembrei-me de repente - O do 3º Direito, certo?

- Vasco.

- Certo – Confirmei - O do 3º Direito.

- Como queira, mas prefiro que me tratem por Vasco – Respondeu já com pouca paciência.

- Ai, desculpe, não era isso que eu queria dizer… - Tentei desculpar-me atabalhoadamente - A Carla avisou-me sim, que estava à espera de uma encomenda, deduzo que já chegou.

- Exacto! Não trabalho em nenhum call center nem quero vender-lhe o novo pacote da ZON. Estou mesmo a telefonar-lhe porque tenho aqui uma caixa em nome dela, penso que seja isto – Resmungou impaciente - Como posso fazer para entregar-lhe?

- Humm… Deixe ver. Eu trabalho em Paço de Arcos, fica longe para si?

- Sim, completamente. Eu estou o dia todo em Lisboa.

- Então… - Fiquei a pensar o que fazer com aquela rapidez de raciocínio que, nos momentos necessários, foge-me cobardemente.

Ainda hesitei, balbuciando uns “humm, ãaa,…” obtendo do outro lado um silêncio tão profundo que cheguei a pensar que o sujeito teria desligado o telefone ou simplesmente pousado em qualquer lugar deixando-me a falar sozinha. Até que arranquei decidida.

Bom, não faz mal. Eu vou ter consigo a Lisboa, mas tem de ser ao fim do dia, pode ser?

- Depende. Eu trabalho até às 21h30, só se combinarmos a essa hora num bar aqui perto do meu trabalho.

- Num bar? – Apanhou-me de surpresa.

- Calma, é um local público, no Bairro Alto. Fica perto do meu trabalho e consigo chegar lá a pé. Chama-se Nuts, na Rua da Vitória. Conhece?

- Não, nunca ouvi falar – Reagi ainda indecisa sentindo-me uma adolescente ridiculamente nervosa a combinar o primeiro encontro - Pode ser… Não conheço mas não se preocupe que eu chego lá. Pode ser esta 5ªfeira?

- Combinado, então marcamos às 22h, fique com o meu telefone se estiver perdida. Até 5ª! – Rematou desligando imediatamente.

Nem tive tempo de perguntar como ele era fisicamente, como o iria reconhecer, ou ele a mim. Telefonei à Carla e seguida. Avisei-a que a encomenda tinha chegado e pedi-lhe uma descrição do seu simpático e prestável vizinho.

- Olha Sofia, é assim – Começou algo indecisa, o que me fez pensar que só o tinha visto um par de vezes ou o seu aspecto seria de tal forma arrepiante que não me queria assustar.

- Não é loiro nem moreno, é um bocado alto e magro, acho que é magro demais, não sei bem, e anda sempre meio curvado porque é alto …Tem um ar assim meio estranho, sabes? Mas é educado – Apressou-se a dizer - Só que parece, sei lá? Tem sempre a camisa meio aberta assim por fora, descaída, calças sem bainha a roçar o chão…Olha, tem ar de artista, sim, acho que é isso e dá aulas de qualquer coisa relacionada com arte.

Admito que depois daquele telefonema esclarecedor, a minha já pouca vontade de encontrar-me com aquele sujeito diminuiu drasticamente.

 

Ainda assim lá fui, naquela noite gelada arranquei o corpo quente do meu sofá, onde devorava séries americanas junto à lareira e me empanturrava em chá e scones. Deixei mais um serão tranquilo no conforto da minha casa. Foi uma batalha difícil, quase a roçar o impossível. Estava numa fase introspectiva, não queria conhecer ninguém, nem queria ninguém na minha vida. Tinha-me obrigado a uma espécie de retiro, uma solidão forçada para pensar. Sentia que precisava de encontrar-me. Compreender-me. Para então poder compreender e aceitar novamente alguém na minha vida. Tinha decidido que nesse Inverno iria hibernar de gente, de encontros e eventos sociais.

 

Por ironia do destino, lá estava eu, empurrada naquela 5ª feira à noite, para um bar desconhecido, sozinha a beber um Gin Tónico e sem fazer a mínima ideia de como seria a criatura que iria encontrar-se comigo. Tentei animar-me ao pensar que, quem quer que fosse, deveria entrar pela porta a transportar uma caixa debaixo do braço. Acreditei que assim seria fácil de reconhecê-lo e relaxei um pouco.

 

Sem dar conta, os meus olhos viajavam pelos dedos do pianista, acalentados pela melodia que tocava, alheios às vozes que tagarelavam nas mesas ao lado e esquecendo por completo a razão que me trouxe ali. Quando de repente o toque do telemóvel despertou-me num salto. Vasculhei na minha mala atafulhada, sem o conseguir encontrar. É nestas ocasiões em que nos apercebemos de que as malas são demasiado grandes e mandamos para lá um monte de coisas inúteis e desnecessárias.

- Raios parta! - Resmunguei quando ele parou de tocar.

Foi nessa altura em que ele apareceu na minha frente como num filme de cinema a sorrir:

- Olá, eu sou o 3º Direito, posso sentar-me?

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias 

publicado às 23:36


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