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Fábrica de Histórias

por Closet, em 26.11.11

Il telescopio de Magritte

 

Corrente de ar

 

Há pessoas que entram na nossa vida como uma enorme corrente de ar.

Atiram-nos com violência contra a parede, sacodem o nosso corpo inerte, arrepiam-nos a pele fria.

Como um vento forte que nos atinge assim de repente, nem percebemos como chegou ou de onde vem. Mas, ao fim de algum tempo, sentimos que ele nos liberta os pulmões numa lufada de ar fresco. São as palavras que se trocam num latejar permanente do que mais profundo existe em nós latente. As dúvidas, os segredos, as angústias e frustrações. Abrimos o peito sem medo e inspiramos devagar, cada partícula de ar que nos invade. Cada incerteza que afogámos nas entranhas do corpo descrente. Cada desejo que abafámos, amarrámos em cordas de gesso opaco e duro. E no cubículo escuro onde solitariamente nos fechamos, vemos novamente cor.

Respiramos tão sofregamente aquele ar que nos trespassa a alma e abana o corpo frágil como uma folha de papel. Sem notar, deixamo-nos levar por essas pessoas mágicas que nos enlaçam em doces fantasias, pinceladas de mel. Num arrastar suave, como num compasso de dança, deslizamos sugados pelo vento na direcção do parapeito da janela. Para decidir se queremos partir ou ficar. Tão assustados como atraídos, ficamos ali paralisados a contemplar, numa espécie de vertigem, tudo o que para além daquele limite podemos alcançar.

Até que uma nova rajada de vento atira-nos brutalmente ao chão, desprevenidos. E ficamos eternamente na dúvida, se a deixamos aberta, ou se a devemos fechar.

Há pessoas que entram, acidentalmente, pela nossa janela e nos atravessam como uma enorme corrente de ar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 00:02

Fábrica de Histórias

por Closet, em 20.11.11

 

 

 

 Blind date diferente

 

O frio do Inverno corrompia-me o corpo ainda quente do sofá. Arrastara-o naquela noite, com uma força que desconhecia, para o vazio da rua, escura, desabrigada, onde a humidade entranhava-se na pele enregelada.

Aconcheguei a parka no pescoço enrolado por um cachecol que subia quase até ao queixo, enterrei ainda mais a boina na cabeça de tal forma que apenas os olhos, o nariz e a boca se viam. Era assim que me sentia tranquila, quase invisível. Gostava da noite, como uma espécie de vida paralela e só minha. Ultimamente recolhia-me sofregamente nela para estar comigo, e vivia-a no silêncio de casa.

 

Mas ali estava eu, naquela noite de final de Novembro, debaixo de um cadeeiro de luz fraca, junto à minha porta na rua mal iluminada. Tinha chamado um táxi. Nunca gostei de táxis, mas devo admitir que aquela foi a ideia mais brilhante que tive nos últimos dias. Não conhecia a zona combinada do Bairro Alto e quando cheguei, acreditei que jamais conseguiria encontrar aquela ruela escondida, muito menos estacionar por lá.

 

O Bar passava completamente despercebido, entre as casas antigas de uma rua estreita sem qualquer movimento. Era pequeno, uma única sala hexagonal com paredes forrada de quadros variados e com cerca de sete mesas. Tinha um balcão ao fundo onde um empregado preparava um shot para um cliente enquanto conversavam. Junto às paredes do lado direito havia dois sofás de veludo azul escuro, com mesas baixas redondas e pequenas velas dentro de cinzeiros. Havia apenas duas vazias, as restantes estavam ocupadas por grupos de 4 e 6 pessoas com aspecto de estudantes, que conversavam e fumavam alegremente. A iluminação era ténue, feita por candeeiros pendurados no tecto escuro. Ao fundo, um homem negro com talvez sessenta anos tocava ao piano algo que me pareceu jazz. Não era entendida em música, mas fez-me lembrar Nat King Cole, ou algo do género.

 

Tinha conseguido o feito histórico de chegar antes da hora marcada, faltavam 15 minutos para as 22 horas. Pedi um Gin tónico no bar e sentei-me num sofá, de frente para a porta. Aumentava dentro de mim uma sensação absurda de ansiedade. Pensei que devia ser esta a sensação de um blind date, porque na verdade combinámos o “encontro” por telefone de uma forma quase surreal.

- Olá, estou a falar com a Sofia?

- Sim… - Respondi.

- Eu sou o vizinho da Carla, quer dizer, o ex-vizinho … Eu fiquei com o seu contacto para lhe entregar uma encomenda de que ela estava à espera... – Continuou numa voz grave, estupidamente calma.

- Sim, sim – Lembrei-me de repente - O do 3º Direito, certo?

- Vasco.

- Certo – Confirmei - O do 3º Direito.

- Como queira, mas prefiro que me tratem por Vasco – Respondeu já com pouca paciência.

- Ai, desculpe, não era isso que eu queria dizer… - Tentei desculpar-me atabalhoadamente - A Carla avisou-me sim, que estava à espera de uma encomenda, deduzo que já chegou.

- Exacto! Não trabalho em nenhum call center nem quero vender-lhe o novo pacote da ZON. Estou mesmo a telefonar-lhe porque tenho aqui uma caixa em nome dela, penso que seja isto – Resmungou impaciente - Como posso fazer para entregar-lhe?

- Humm… Deixe ver. Eu trabalho em Paço de Arcos, fica longe para si?

- Sim, completamente. Eu estou o dia todo em Lisboa.

- Então… - Fiquei a pensar o que fazer com aquela rapidez de raciocínio que, nos momentos necessários, foge-me cobardemente.

Ainda hesitei, balbuciando uns “humm, ãaa,…” obtendo do outro lado um silêncio tão profundo que cheguei a pensar que o sujeito teria desligado o telefone ou simplesmente pousado em qualquer lugar deixando-me a falar sozinha. Até que arranquei decidida.

Bom, não faz mal. Eu vou ter consigo a Lisboa, mas tem de ser ao fim do dia, pode ser?

- Depende. Eu trabalho até às 21h30, só se combinarmos a essa hora num bar aqui perto do meu trabalho.

- Num bar? – Apanhou-me de surpresa.

- Calma, é um local público, no Bairro Alto. Fica perto do meu trabalho e consigo chegar lá a pé. Chama-se Nuts, na Rua da Vitória. Conhece?

- Não, nunca ouvi falar – Reagi ainda indecisa sentindo-me uma adolescente ridiculamente nervosa a combinar o primeiro encontro - Pode ser… Não conheço mas não se preocupe que eu chego lá. Pode ser esta 5ªfeira?

- Combinado, então marcamos às 22h, fique com o meu telefone se estiver perdida. Até 5ª! – Rematou desligando imediatamente.

Nem tive tempo de perguntar como ele era fisicamente, como o iria reconhecer, ou ele a mim. Telefonei à Carla e seguida. Avisei-a que a encomenda tinha chegado e pedi-lhe uma descrição do seu simpático e prestável vizinho.

- Olha Sofia, é assim – Começou algo indecisa, o que me fez pensar que só o tinha visto um par de vezes ou o seu aspecto seria de tal forma arrepiante que não me queria assustar.

- Não é loiro nem moreno, é um bocado alto e magro, acho que é magro demais, não sei bem, e anda sempre meio curvado porque é alto …Tem um ar assim meio estranho, sabes? Mas é educado – Apressou-se a dizer - Só que parece, sei lá? Tem sempre a camisa meio aberta assim por fora, descaída, calças sem bainha a roçar o chão…Olha, tem ar de artista, sim, acho que é isso e dá aulas de qualquer coisa relacionada com arte.

Admito que depois daquele telefonema esclarecedor, a minha já pouca vontade de encontrar-me com aquele sujeito diminuiu drasticamente.

 

Ainda assim lá fui, naquela noite gelada arranquei o corpo quente do meu sofá, onde devorava séries americanas junto à lareira e me empanturrava em chá e scones. Deixei mais um serão tranquilo no conforto da minha casa. Foi uma batalha difícil, quase a roçar o impossível. Estava numa fase introspectiva, não queria conhecer ninguém, nem queria ninguém na minha vida. Tinha-me obrigado a uma espécie de retiro, uma solidão forçada para pensar. Sentia que precisava de encontrar-me. Compreender-me. Para então poder compreender e aceitar novamente alguém na minha vida. Tinha decidido que nesse Inverno iria hibernar de gente, de encontros e eventos sociais.

 

Por ironia do destino, lá estava eu, empurrada naquela 5ª feira à noite, para um bar desconhecido, sozinha a beber um Gin Tónico e sem fazer a mínima ideia de como seria a criatura que iria encontrar-se comigo. Tentei animar-me ao pensar que, quem quer que fosse, deveria entrar pela porta a transportar uma caixa debaixo do braço. Acreditei que assim seria fácil de reconhecê-lo e relaxei um pouco.

 

Sem dar conta, os meus olhos viajavam pelos dedos do pianista, acalentados pela melodia que tocava, alheios às vozes que tagarelavam nas mesas ao lado e esquecendo por completo a razão que me trouxe ali. Quando de repente o toque do telemóvel despertou-me num salto. Vasculhei na minha mala atafulhada, sem o conseguir encontrar. É nestas ocasiões em que nos apercebemos de que as malas são demasiado grandes e mandamos para lá um monte de coisas inúteis e desnecessárias.

- Raios parta! - Resmunguei quando ele parou de tocar.

Foi nessa altura em que ele apareceu na minha frente como num filme de cinema a sorrir:

- Olá, eu sou o 3º Direito, posso sentar-me?

 

 

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publicado às 23:36

Fábrica de Histórias

por Closet, em 13.11.11

 

 

 

Uma casa em frente à praia

 

O tecto era de vigas de madeira que se cruzavam por cima de mim de forma irregular.

Abri e fechei os olhos por duas vezes, incrédula. Lembrava-me de tropeçar em algo numa esquina a caminho do trabalho. Sim, ía a caminho do trabalho, ía na rua e era de manhã.

 

Voltei a fechar os olhos. Abri novamente e continuava ali. Deitada numa cama larga quase rente ao chão, com um lençol à minha volta. Tinha apenas uma túnica de alças vestida, comprida. Reparei nas paredes coloridas com pinceladas grossas e finas, como um quadro gigante do Kandinsky, faziam-me sentir agradavelmente em casa. Levantei-me curiosa, percorrendo com os olhos aquele espaço térreo, sem divisões e com a luz do sol a entrar de rompante pelas janelas que circundavam a pequena a casa. Ao fundo, um balcão de cozinha com um fogão e lava loiças, uma mesa redonda de jantar e um sofá largo em frente a uma lareira. Uma porta dava para uma casa de banho da largura de uma banheira. Verifiquei com alívio que tinha torneiras onde corria água. Em cima da mesa um PC ligado a uma ficha. Sorri ao perceber que afinal não estava no fim do mundo, tinha água e electricidade, já era alguma coisa com que podia contar.

 

Quando abri a porta da rua emudeci maravilhada com a abundante vegetação que envolvia a casa caiada de cores garridas. Ao fundo espreguiçava-se uma praia de areia branca engolida por um mar, de tal forma transparente, que parecia irreal. Em frente à casa, entre duas árvores, uma cama de rede baloiçava com a brisa da manhã e uma bicicleta antiga convidava a um passeio matinal.

 

Onde estaria? Como fui ali parar? Perguntava-me enquanto caminhava descalça em direcção ao mar. Adorava aquela sensação da areia a entranhar-se nos meus pés, como se entre mim e a natureza não houvesse nada que nos pudesse separar. Senti-la, como parte de mim e eu dela, daquela paisagem inebriante que se estendia pela minha frente e onde eu queria entrar.

 

Em cima de um rochedo, que ladeava a praia, estava um homem moreno que não reconheci. Tinha talvez um 1,80 e vestia uns calções de pano e uma t-shirt russa. Não era nem gordo nem magro, corpo atlético e braços peludos. Fiquei a observar os movimentos e a sua paz enquanto pescava. De repente viu-me e acenou-me como se me conhecesse perfeitamente. Com um enorme sorriso gritou que tinha pescado um peixe enorme para o almoço. Confusa, sorri também arrepiada com a estranha sensação de o reconhecer de alguma forma, de algum lado, mas não sabia onde ou como.

 

Voltei para casa e sentei-me na mesa com o PC. Estava ligado e vi aberto um documento já com 70 páginas com o título no cabeçalho “Uma gaivota sem mar?” e o meu nome no rodapé de todas as páginas. Interroguei-me se seria o nome de um livro, se eu o estaria a escrever. Mais uma vez nao sabia responder. Ao lado encontrei revistas com páginas marcadas. Abri uma, depois outra e mais outra. “Uma vida sem rumo”, “A descoberta da identidade” e “Decisões imperfeitas” eram artigos assinados com o meu nome, mas não me lembrava de os ter escrito, embora os temas me soassem familiares.

 

Tremi quando o homem moreno entrou em casa, descalço, com a t-shirt molhada colada ao tronco. Colocou o peixe na bancada da cozinha e veio para junto de mim abraçando-me por trás. Cheirava a peixe e a maresia. Os seus braços quentes envolviam-me, enquanto os seus lábios perdiam-se no meu pescoço, provocando-me uma tontura em deixei de raciocinar.

 

Onde estava e o que fazia, já não me interessava para nada. Naquele momento, em que o corpo era transportado em silêncio para o chão de madeira e as roupas arrancadas sem hesitar, fechei os olhos e deixei-me embalar pelo rebentar das ondas do mar. Aquele instante de fantasia ou realidade, aquele universo à parte, era tudo o que queria, tudo o que sonhava. Até o homem, que agora amava no chão sem o estranhar, completava o mundo que ali me sorria, num paraíso de liberdade.

 

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publicado às 22:15

Fábrica de Histórias

por Closet, em 06.11.11

 

«Bilhete premiado na lotaria esquecido no frigorífico

Um norte-americano de Portland, no Oregon, tinha-se esquecido de um bilhete da lotaria na porta do frigorífico da sua casa. Ganhou assim 15,3 milhões de euros.

Quando se preparava para pagar uma conta do veterinário, Leland Hanson decidiu rever uma série de bilhetes de jogos que estavam colados na porta do electrodoméstico.
Foi então que se deparou com o prémio milionário, três meses depois do sorteio – que tinha ocorrido a 30 de Julho.»

Fonte: Correio da Manhã

 

 

Leland Hanson era um homem modesto. Com 42 anos e filho único, trabalhava como chefe de turno num fábrica de parafusos e ainda não tinha encontrado a felicidade. Namorou os últimos 3 anos com Dasy, a empregada do café trintona de silicone no peito e ancas roliças, até à noite em que houve uma inesperada pararem na fábrica e Leland ao regressar a casa encontrou-a enrolada nos braços de Eddie, de 28 anos, filho do dono da mercearia do bairro. Depois de explicações vagas e contraditórias, entre as quais que Eddie seria gay e queria converter-se ou de que era virgem e pretendia impressionar a namorada, Leland decidiu por termo ao namoro. Voltou a viver sozinho com o seu cão Rex, um rafeiro branco com uma mancha preta no olho esquerdo que lhe foi deixado com 3 meses à porta pela sua vizinha que desapareceu sem deixar rasto. Trazia consigo um bilhete na cesta «o amor vence todas as barreiras». E a prova disso é que venceu. Apesar da alergia crónica que Leland tinha ao pêlo de animais, afeiçoou-se de tal forma ao bicho que suportou tudo. Hoje, passados 4 anos, a irritação cutânea já diminuiu significativamente, ao ponto de não fazer crostas na borbulhagem e os espirros são menos intensos e frequentes.

 

Até Dasy embirrava com o animal só porque ele lhe enchia a lingerie de baba ou porque lhe roía os saltos sapatos, mas Leland nunca se quis desfazer do seu companheiro que até lhe fazia companhia na retrete, não se importando com o cheiro.

Uma manha, depois de mais um telefonema, que foi para a caixa de mensagens, da clínica veterinária, Leland decidiu por fim pagar a conta que estava em atraso. Não que costumasse deixar contas por pagar. Aliás, colocava seguro num íman da estátua da Liberdade, por ordem de prioridade, todos os seus recibos, a conta da água, da electricidade, do gás... Mas naquela consulta o seu Rex tinha sido mal tratado a um corte que fez numa pata por um estagiário bruto que pensava que o cão era de borracha.

 

Quando ía para tirar o recibo caíram-lhe ao chão os papéis todos, tudo espalhado no chão de pedra da cozinha. Foi então que Leland descobriu, entre os recibos e facturas, um talão ou bilhete. Olhou para ele e lembrou-se que era o bilhete da lotaria que um velhote chato lhe impingira num dia em que estava à porta do cabeleireiro à espera de Dasy. Ela saiu no momento em que ele estava a pôr o velhote a andar, mas disse-lhe naquela vozinha esganiçada que lhe arrepiava os ouvidos «compra amorzinho, pode ser que nos saia a sorte grande».

E saiu. Leland abriu o computador e procurou na internet o resultado daquele concurso que datava de 3 meses atrás. E, para sua surpresa, o bilhete tinha sido premiado com a módica quantia de 15,3 milhões de euros. Atónito, quando se refez do choque, Leland telefonou a confirmar o prémio. No mesmo dia em que foi recebê-lo despediu-se, fez as malas e decidiu mudar de vida. Ía para o Brasil viver numa casa junto ao mar com o seu Rex, não queria saber de mais nada, muito menos de parafusos. Mas antes passou pelo café da Dasy para se despedir, segredando-lhe ao ouvido «Obrigada amorzinho, foi um prazer conhecer-te».

 

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publicado às 23:40

Eram muitas vezes...

por Closet, em 01.11.11

 

 

Já uma vez escrevi sobre isto... mas agora vem a propósito repeti-lo, já vão ver porquê.

 

Cresci a pensar que todas as histórias começavam com “Era uma vez…” e, invariavelmente, terminavam com “ viveram felizes para sempre”.

Na verdade acho que bem cedo comecei a desconfiar deste chavão “era uma vez”, quando eu própria me desdobrava em múltiplas personalidades e estados de espírito. Nunca me contentei em ser apenas o meu nome, sempre detestei rótulos, como poderia aceitar o “era uma vez…”? Uma única vez? E o meu Eu-viajante? E o meu Eu-actriz? E o meu Eu-escritora? E o meu Eu-pintora? ... Demasiados Eu(s) conviviam dentro de mim e ainda considero que a necessidade de optar é cruel e inútil.

 

Também depressa fui percebendo que, na vida real, os finais não são assim tão lineares, que as histórias não são simples e que o próprio conceito “feliz” é ambíguo, diria mesmo híbrido.

Se é porque as pessoas mudam, transformam-se, querem outras coisas… a verdade é que não existe uma explicação clara de como será possível uma história real desenrolar-se com a certeza de que o final será “foram felizes para sempre”. E mesmo nessas histórias que nos contavam em pequenos, a história acaba exactamente aí, e pergunto-me eu “mas como é ser feliz para sempre?”… e não existiam páginas a contar essa parte. Desilusão e descrença total, claro!

Por isso também desde cedo evitei planear a longo prazo e convivi alegremente na minha organizada desorganização diária, nas surpresas que me reservava o dia-a-dia, as pessoas que ía conhecendo, receptiva ao mundo que se abria aos meus olhos.

 

Percebi que todas as histórias são inventadas. Se não fossem inventadas não seriam histórias. A partir do momento em que são contadas, reinventam-se, crescem, tomam vida incontrolável. A vida de uma história. E o final pode ficar indefinido ou ficar na cabeça de cada um decidi-lo.

 

Eu sempre gostei de inventar histórias. Transpira-las por todos os poros do meu corpo. Ausentar-me de mim por instantes e vive-las. Sonha-las, alimentar-me delas, sorve-las. Mas nunca pensei em escrever livros. Na minha cabeça sempre acreditei que ía aborrecer-me rapidamente das personagens ao fim do 3º capítulo. Ía fartar-me da história a meio. Um livro tem muitas páginas para uma história minha. Preciso constantemente da novidade, e essa particularidade, ou essa minha idiossincrasia, deita por terra qualquer projecto com mais de 20 páginas, com mais de 3 capítulos...

 

O tempo deu-me a calma que permite alguma paciência e hoje já não vejo assim tão estranho um dia, leia-se bem, Um Dia, escrever um livro. Que será essencialmente para mim, e para imprimir para quem me quiser ler. Uma história que terá de ser suada de paixão em cada linha para fazer sentido eu partilha-la com alguém.

 

Tenho uma história encalhada na prateleira, é uma história fragmentada, típica da minha cabeça, e ainda não sei como juntar as peças do puzzle. Mas afeiçoei-me aos personagens e quero muito escreve-la. Este ano vou participar no Nanowrimo e esforçar-me para dar um bom avanço a esta história. Não quero ganhar nada, apenas participar e superar as minhas expectativas.

 

A história é sobre Sofia, uma jornalista desiludida com o trabalho rotineiro de uma redacção de jornal e que vê longínquo o sonho de correr o mundo como repórter fotográfico. Prática e racional, tudo para ela é preto ou branco, é verdade ou mentira.

Pedro, Vasco, Miguel e João são quatro homens bastante diferentes que deixam marcas na sua vida, destronando o seu sentido mais apurado – a visão – e despertando-lhe os outros sentidos adormecidos. Através da voz, do toque, do paladar e o olfacto, Sofia encontra um rumo diferente do que perseguia.

 

Bom… é mais ou menos isto a que me proponho… lamechas qb, I know!

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publicado às 00:38


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