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Fábrica de Histórias

por Closet, em 30.10.11

Com Poucas Linhas

 

Podia ser uma linha apenas. Curta e a tinta fina.

Podia ser só um risco, a tracejado. Desde que me indicasse o caminho.

Podia ser um rabisco, daqueles que sempre fizeste em pedaços de papel para encontrar-me contigo. Esboços de mapas com estradas e atalhos, plantas de espaços clandestinos.

Sim, uma linha apenas bastava para localizar-te, perseguir o rumo do vazio que deixaste num branco incompreensível. Farejar o rasto. E talvez mesmo essa linha fosse suficiente para apaziguar as dores que causaste com mais uma desilusão, mais uma partida. A última, repito, e obrigo-me a aceita-la, ao contemplar as linhas que envias a tinta invisível.

Na cegueira que é hoje encontrar-te, é com poucas linhas que desenho tudo o que desejo para a tua vida. As palavras revelam-se parcas, insuficientes, inúteis...

Mas abro, de repente, o coração e sai a voar um traço. Firme, decidido. Traz com ele a tranquilidade que só uma pomba branca transporta nas asas imaculadas, esvoaçando pelos céus, invencível. Largo-a e ela leva-te, em apenas uma linha, tudo o que aspiras e precisas: a Paz, para que os teus dias sejam alegria. 

 

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Historias

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publicado às 20:41

Colo

por Closet, em 27.10.11

 

Porque todos precisamos de um colo de vez em quando.

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publicado às 00:41

Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.10.11

 

 Clemência e a Imperatriz

 

Era enquanto passeavam no jardim que Maria Teresa lhe confidenciava as suas aventuras secretas. Clemência sentava-se a seu lado num banco rodeado de sebes altas e absorvia cada palavra, memorizava cada nome, cada lugar, cada gesto da imperatriz. Maria Teresa descrevia-lhe com pormenor os corpos musculados dos generais com quem se encontrava secretamente, as suas conversas e as mentiras que lhes contava.

- Alguns não prestam para nada! – Maria Teresa ria-se descontrolada – Uns corpos fortes e robustos mas depois parecem uns tolos, coitados, sem saber por onde começar e mal começam, não aguentam, está tudo terminado – Riam-se as duas cúmplices.

Clemência apaixonou-se pela primeira vez aos 16 anos. Percebeu-o quando numa tarde quente de Verão foi levada pelos jardins do Palácio até à imperatriz Maria Teresa para ser a sua nova Aia. A imperatriz encontrava-se num local reservado do jardim, deitada sobre uma manta bordada de linho e com apenas uma túnica branca que lhe contornava o corpo. Uma jovem desenhava-a a carvão. As suas formas perfeitas, os lábios carnudos, os cabelos longos que lhe caiam em canudos pelo peito exuberante. Nunca Clemência tinha visto tamanha beleza.

- Que tal? – Perguntou Maria Teresa fazendo-lhe um gesto para se aproximar - Gostas?

Clemência, nervosa, acenou que sim, murmurando “muito, senhora”.

- Então este fica para ti, como presente de recém-chegada – sorriu, percorrendo Clemência com os olhos, levando-a a corar.

Depois dessa tarde, muitas outras surgiram, em que as duas passeavam pelo jardim, numa cumplicidade desinibida. Partilhavam histórias, medos e segredos. Clemência vibrava com as confidências da imperatriz, de tal forma considerava ser ela o seu verdadeiro amor.

Quando completou 18 anos, um general, amigo do imperador, quis casar com Clemência. Mesmo contra a vontade de Maria Teresa e da própria Clemência, casaram e foram viver para uma província que ficava a um dia de distância.

Certa noite Clemência tinha combinado com Duarte, um criado da corte que era também o mensageiro de Maria Teresa, encontrar-se nas cavalariças, junto à adega, para lhe entregar cartas da imperatriz. Providenciara aquele chá especial ao seu marido que lhe garantia um sono pesado toda a noite e vestiu uma capa por cima da combinação de dormir. Saiu, atravessando descalça o pátio empedrado. Duarte ainda não se encontrava, por isso entrou na adega para se abrigar da humidade da noite. Com a ajuda de um archote iluminou a adega abandonada, repleta de grandes pipas de madeira e lagares de pedra encardida. Também não havia sinal do Duarte por lá. Voltou para trás à sua procura quando percebeu que a porta se tinha fechado. Rodou a maçaneta redonda de ferro mas ela não cedia. Fechada naquele lugar frio e sem saída possível, Clemência pensava aterrorizada que explicações daria ao seu marido na manhã seguinte. Isto se a encontrassem na manhã seguinte. Poderia ficar ali a apodrecer para o resto da sua vida. Mas disso não tinha receio, Clemência apenas lamentava as cartas que não tinha lido.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 17:41

Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.10.11

Aqui vai um parêntiesis antes... 

[esta é uma das minhas histórias preferidas, confesso, dormir durante 100 anos é algo assim de... brutal, e mais, sem uma ruga!! depois acordar com um principe encantado e viver feliz para sempre?? ... what else???]

 

 

A Bela Adormecida

 

Era uma vez uma menina de  longos cabelos dourados e enormes olhos verdes. Todos lhe chamavam Bela pela beleza natural que emanava, ela era uma criança graciosa e encantadora. Mas Bela tinha também outras virtudes, era inteligente e bondosa, de tal forma simples e generosa que todas as crianças queriam ser amigos dela.

Na festa dos seus 8 anos Bela tropeçou numas escadas íngremes perto de sua casa. Levada de imediato para o hospital, Bela foi submetida a vários exames médicos que lhe detectaram um derrame cerebral estranho, provavelmente derivado da queda. 

Os seus pais, donos de uma fortuna imensa, levaram a filha aos melhores médicos do mundo para averiguarem a gravidade do problema. Bela foi observada no estrangeiro por uma conceituada médica neurologista que aconselhou opera-la de imediato, sob pena de não resistir mais do que 10 anos de vida. Contudo a operação era arriscada e os pais, assustados, regressaram ao seu país, indecisos. A médica que acompanhara Bela desde o inicio da queda, que não tinha qualquer diploma internacional nem experiência em casos semelhantes, não concordava com a intervenção cirúrgica, acreditando que Bela poderia viver uma vida longa e saudável. 

Os pais, apreensivos com a saúde da sua menina, mas também com receio de perde-la, decidiram não opera-la mas mante-la resguardada do mundo exterior. Bela deixou de frequentar a escola e passou a ter um professor em casa, aprendeu a tocar piano e harpa e cresceu na quietude da sua casa sem expor-se aos perigos da rua e da vida lá fora.

Ao completar 18 anos, Bela pediu aos pais, como presente, sair de casa no dia seguinte para visitar os seus amigos. Perante os olhos sedentos da filha, os pais não a contrariaram e aceitaram o seu pedido.

Na manhã seguinte, quando a mãe bateu à porta do seu quarto para a acordar, Bela não reagiu. A mãe desistiu de chama-la e cercou-se dela, abanando-a de seguida. Primeiro devagar, depois mais bruscamente. Bela não reagia, mantinha os seus olhos presos num sono profundo, o corpo inerte, movimentado pelas mãos da mãe como uma marionete que a puxava para cima. O pai correu ao quarto ao ouvir os gritos de desespero da sua mulher, pegando Bela ao colo aflito. A filha respirava, o coração batia, sentia-lhe a pulsação, mas os olhos e a boca mantinham-se fechados para o mundo. Isolada como uma lha inacessível.

Levada para o Hospital, para a unidade de Cuidados Intensivos, foi-lhe diagnosticado um coma profundo de origem desconhecida. Bela foi transferida para um Hospital de especialidade neurológica e durante 6 meses foram submetida a diversos estudos e tratamentos, vieram médicos do estrangeiro para observa-la, mas nenhum conseguia encontrar a origem do problema e muito menos a cura.

Durante todos estes meses, Ricardo, um auxiliar médico do turno nocturno, foi acompanhando a triste história de Bela, ao mesmo tempo que era seduzido dia após dia pelo seu encanto mágico. Pelo rosto imóvel pálido que era, ao mesmo tempo, perfeito. Os lábios bem delineados, o contorno dos olhos rasgados e a forma redonda do nariz, Bela parecia ter sido desenhada por um pintor. Assim, todas as noites, durante o intervalo do seu turno, Ricardo sentava-se ao lado da cama de Bela, pegava-lhe na mão e acariciava-lhe o braço frio que enlaçava no seu. Na maioria das vezes ficava apenas ali sentado a seu lado a olha-la enquanto conversava em monólogos no escuro, outras vezes recitava-lhe poesia. Ricardo acreditava que Bela o escutava, de alguma forma, e sentia uma paz imensa na sua companhia. 

Certa noite de lua cheia, o rosto de Bela foi iluminado pela janela com tal intensidade que Ricardo ficou paralisado, fascinado com a extraordinária beleza que dela luzia. Como se o mundo inteiro parasse naquele instante e os dois vivessem um momento impossível. Sem pensar, debruçou-se sobre Bela e beijou-a. Primeiro na testa, percorreu-lhe os olhos, depois os lábios macios. Num acto inconsciente, abriu-lhe os botões da camisa e desceu pelo pescoço até ao peito. Beijou demoradamente o seu coração, que batia agora acelerado. Demasiado do rápido, pensou, quando as máquinas dispararam um sinal sonoro, assustando Ricardo que endireitou-se imediatamente. Foi nessa altura que viu à sua frente uns olhos enormes verdes a olhar para ele, perdendo-se neles como num mar das Caraíbas. Bela sorria e, na sua voz suave e doce, disse «podes repetir o último poema?».

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 00:34

Fábrica de Histórias

por Closet, em 08.10.11

 

História sem final

 

Este é um livro que eu comecei mas não sei se vou terminar. 

 

Eu durmo na cama 13, da ala Norte de um Hospital Psiquiátrico abandonado no meio de um mato a perder de vista. Não sei há quanto tempo aqui estou, nem como ou porquê aqui vim parar. Não me lembro da última vez que alguém me veio visitar e, a par das enfermeiras de batas brancas e dos médicos que me vêm medicar, apenas tenho por companhia os indivíduos das camas a meu lado.

 

Esta é uma ala mista e suspeito que é onde são largados os casos sem qualquer possibilidade de recuperação. Do meu lado direito, na cama 12, está uma mulher de trinta e tal anos que passa o dia com phones nos ouvidos. Esse pormenor não teria relevância se os phones estivessem ligados a algum aparelho de rádio ou música. Mas não, o fio está solto. A maioria das vezes está de olhos fechados e penso seriamente se estará sob efeitos de drogas.

Do lado esquerdo, na cama 14, está um homem também de trinta e tal anos, talvez um pouco mais velho do que ela, pela maneira coloquial como fala. Tem ao seu lado uma espécie de flauta artesanal que ele insiste em chamar de didgeridoo e que toca por vezes, a meio de uma noite insónia, sem qualquer justificação.

São os dois muito estranhos, mas o mais estranho ainda é a relação dos dois. Eles chegaram quase seguidos, primeiro chegou ela e instalou-se, duas semanas depois chegou ele, com ar saudável e bronzeado que até parecia que vinha de férias.  

Este livro que estou a escrever, as páginas que escondo por debaixo da minha cama, é sobre eles, sobre as conversas que têm à noite quando eu finjo estar a dormir.

 

De um dia para o outro, durante a noite, comecei a ouvir as vozes deles cruzadas por cima do meu sono. A dele grave e calma, a dela mais agitada, atropelava as palavras ao falar. Se não se encontrassem também ali como eu, na ala dos que já não têm saída possível, teria achado as suas conversas esquisitas, a proximidade e intimidade do rumo que tomaram. Mas ali era tudo normal.

 

São estas conversas invisuais, vividas no escuro, que transcrevo, aqui neste livro, já com mais de 150 páginas. Desde assuntos mal resolvidos da vida deles lá fora, experiências do passado, até ao dissecar de sentimentos e sensações, abertamente, sem vergonha ou pudor. Eles conversam sobre tudo, de tal forma que me atrevo a afirmar que fizeram amor em palavras de tanto que as desejaram, e acabaram por se desejar mutuamente também. Pude sentir-lhes as respirações aceleradas, ofegantes, a voz trémula, os suspiros contidos e as palavras mais inebriantes. Senti-lhes o cheiro do amor.  

E finalmente um odor do suor dos corpos. Os mesmos que se escaparam, uma única noite, para uma cama no fundo do quarto. Uma noite onde as palavras passaram a actos e, na escuridão, ouvi a língua mágica do prazer, em gemidos abafados entre o movimento frenético dos corpos que se entregam e fundem.

Depois dessa noite não se encontraram mais. As conversas tomaram um rumo cada vez mais intenso, viciado, delirante, de tal forma que se esqueceram completamente da minha presença e passaram a conversar em voz alta, noite e dia. Um diálogo repleto de contradições e dúvidas, divagações, próprias de quem está obviamente em tratamento e sob o efeito de vários comprimidos.

 

Até ao dia em que se confrontaram com uma corrosiva discussão. Voaram almofadas por cima da minha cabeça, garrafas de água rasaram o meu corpo. Algum mal entendido ou incompreensão. Ou a causa mais natural, a instabilidade que um doente desta ala sofre naturalmente, e por isso mesmo diz coisas que nunca devia dizer. Nesse dia ele saiu do quarto irado e, até agora, não regressou.

Ela voltou a colocar os phones soltos nos ouvidos, a entregar-se à tristeza do seu sono profundo, isolada de tudo.

 

Agora tenho aqui esta história decepada sem final. Um livro inacabado, à espera dele voltar.

 

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publicado às 02:19

Fábrica de Histórias

por Closet, em 02.10.11

 

Noite sem Fim

 

Como se cada ponto de luz fosse alguém que os olhava no céu agitado de azuis. Olhares intensos, serpenteiam para seguir os seus movimentos e espiar os seus segredos.

 

Ele tinha entrado pela janela do quarto, trepando o tronco robusto que desagua junto ao parapeito. Tinha entrado com passos mágicos, e sem a acordar, sussurrou «minha doce mariana». Não imaginava que ela fingia dormir só para sentir o roçar dos seus lábios devagar, a respiração quente no seu pescoço e a voz suave para não a assustar. Porque era verdadeiramente assim que ela sonhava todos os dias acordar.

 

Tinham apenas as horas da noite, onde todos dormiam. Horas de noite, escura, pincelada de magia e sedução, enquanto os olhares de luz penetram pela janela e incendeiam-se os corpos de paixão.

 

Ela volta-se, ainda de olhos fechados, roça o nariz pelo seu rosto (como se o farejasse para se certificar que era ele), brinca com o seu nariz e encontra a sua boca quente, sedenta. Mordisca-lhe o lábio inferior, para que perceba que está acordada, para que saiba que o quer hoje, ainda mais do que ontem. Um beijo que se desenlaça, primeiro num tocar suave de lábios para depois envolve-los, molha-los, entregarem-se as línguas. Numa espécie de dança, os corpos encontram-se, tacteiam-se no escuro e encaixam-se de forma sublime. Como se cada um fosse a parte que faltava do outro. Tão juntos que as peles colam-se, fundem-se, tornando impossível separar-se. Ele segura-lhe a cabeça, afaga-lhe o cabelo e percorre-lhe o pescoço com os lábios, com a língua, com os dentes. Enquanto os corpos avançam ao ritmo do desejo que os queima, que imprime cada espasmo, rasga cada gemido abafado entre o prazer e a dor. Um ondular constante dos corpos entranhados, suados, iluminado pelos olhares que ondulam ao mesmo ritmo pelo céu. Pinceladas de azuis, bruscamente invadidas por labaredas gigantes, que se esvaiam do fogo libertado pelo êxtase profundo, simultâneo, dos dois.

 

Exaustos, os corpos adormecem no deleite do abraço entrelaçado, indiferentes ao serpentear agitado da noite escura, aos clarões dos olhares que os perseguem, como se cada um fosse alguém que os observava no céu agitado de azuis.

 

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publicado às 00:19


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