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eclipse lunar

por Closet, em 15.06.11

 

 

 

Apetece-me eclipsar também... assim como a Lua, ficar invisível, encoberta. 

Ando exausta. De mim, de tudo um pouco, da correria, da rotina, das pessoas. E por fim da escrita. 

Este fim-de-semana agarrei-me a um livro às 14h30 e li-o de seguida até às 21h. Era um livro com 222 páginas só de e-mails trocados, de discurso indirecto. Incrivelmente viciante. Ou eu tinha uma estranha sede de ler, ou talvez uma vontade imensa de não escrever, de estar do lado de lá. Tenho pensado nisto nos últimos tempos, em como tenho feito um esforço por vir até aqui, outras vezes em não vir até aqui, para não escrever o que me apetece escrever. Cheia de condicionantes. Depois há quem não goste de posts tristes "é down, gosto mais quando escreves as tuas crónicas divertidas", há quem não goste de post divertidos "escreve uma história, assim de final feliz" e as pessoas que me conhecem ainda não perceberam que isto é MEU e eu escrevo o que me apetecer...

Bom, a verdade é que eu estou um pouco farta deste canto aqui, este Closet está a tornar-se clastrofóbico de alguma forma. As palavras andam confusas, chocam contra as paredes, incompreendidas, insultam-se, agridem-se. Estão bafientas, cheiram a naftalina, estão a ganhar bolor. Confesso que não ando a gostar delas. Preciso varre-las por uns tempos, ou abrir outro espaço mais arejado, com roupas novas. Começar do zero. É sempre bom recomeçar. Faz bem à alma.

 

Nunca primei por tomar decisões, por isso não quer dizer que isto aqui vá fechar, que ponha um cadeado à porta... Não sei, sinceramente, logo se vê. Não gosto de fazer planos. Por agora vou ficar por uns temos na sombra, numa espécie de eclipse lunar.

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publicado às 23:12

25 páginas e 3 narradores

por Closet, em 13.06.11

 

(...)

Margarida acabou por levar-me a casa de táxi. Acho que cambaleava quando ela me ajudou a sair do carro. Junto à entrada do prédio abracei-a como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Pelo menos o nosso mundo. Era sempre uma incógnita. Pensar em perde-la já era o primeiro passo para a perder. Talvez por isso tivesse sido tão difícil desatar aquele abraço apertado.

- E agora Guida, é até daqui a quantos anos? 20, 30? Já sei, vamos para o mesmo lar de idosos, boa?

Guida não queria discutir comigo naquele momento. Lia nos seus olhos os seus pensamentos, que não serviria para nada senão para nos agredirmos mutuamente. Em vez disso abotoou-me a camisa junto ao colarinho e afagou-me o cabelo desgrenhado. Segurou-me o rosto e beijou-me, primeiro a face, a barba rala e depois deslizou até aos lábios, roçando-os ao de leve nos meus. Por segundos ficámos assim suspensos, de olhos fechados, sem nada dizer.

Guida era uma como um bombom de chocolate, por fora robusto, mas por dentro vertia um licor doce. Sim, ela era doce, era deste sabor que eu me lembrava dela. Nunca lho disse.

(...)

 

Ficou em 25 páginas e 3 narradores, o Conto que ainda não tem título! 

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publicado às 23:11

Sarah e Botox

por Closet, em 11.06.11

Normalmente não me recordo dos meus sonhos. Não sei se o facto de dormir poucas horas contribui para isso, se é uma espécie de alzheimer da minha idade ... não sei, é provável.

Mas hoje, inesperadamente, acordei meia zonza a lembrar-me do sonho, no mínimo ridiculo, que acabava de ter. Nem mais nem menos que isto:

Eu tinha ído injectar botox nos meus lábios com a minha amiga Sarah Jessica Parker. (Isso mesmo, aquela do Sexo e da Cidade, somos amigas e eu não sabia). Continuando com o sonho, quando me disseram a módica quantia, eu já de lábios inchados de botox, disse "tirem tirem tirem" e eles (alguém, não vi mas deviam lá estar de batas brancas e seringas em punho) tiraram. Expliquei à minha amiga Sarah que não precisava... já ela coitadinha, com aqueles lábios fininhos, preciava mesmo, estava linda (embora mal conseguisse fechar a boca)... well...

Acordei atordoada, pudera, agarrada aos meus lábios para ver se estavam normais e fiquei descansada ao ver, ao meu lado na cama, não a Sarah, mas o meu marido... ok... respirei fundo, estava tudo "normal".

Agora pergunto-me se, por acaso, é fruto dos meus neurónios estarem a pifar com a reescrita do meu conto e todos os volte-faces que já lhe dei (para o complicar cada vez mais, note-se, que é uma proeza minha), ou se quererá dizer realmente algo tudo isto...

Entrando no ramo obscuro da psicanálise...vejamos:

1) Porquê a Sarah Jessica Parker? Confesso que adoro as roupas que costuma usar e ... NY... mas porquê ela e não alguém mais, interessante? Uma Madre Teresa de Calcutá ou uma Sophia de Mello Breyner Andersen (ok, estas provavelmente porque já não se encontram no mundo dos vivos... mas bolas, era um sonho, não há regras dessas... tragam-me a Agatha Christie para me sentir melhor!!)

2) Terei eu conhecido a Sarah Jessica Parker numa outra encarnação? hummm... escritora,vive em NY (ok, na série, não importa) ... hummm... será uma espécie de "ideal" meu, alma gémea...hummm 

3) Será que que eu, inconscientemente, penso que os meus lábios precisam de .. botox... ?? Oh God... nunca me tinha lembrado disso, pelo menos conscientemente, nem sei mesmo se o botox também se põe nos lábios... Na verdade, acho a Angelina Jolie o máximo, mas não me imagino com aquela boca inchada... no way...

4) O facto de eu sonhar com botox, pôr botox... é mau sinal, eu sei - negação da minha idade... (passo à seguinte rapidamente)

5) Isso do põe e tira botox, ou lá o que seja, é meu sim senhora..dou a mão à palmatória - indecisões é comigo!

E com esta dou por terminada a minha psicanálise e interacção com o mundo dos sonhos... espero não me lembrar de mais sonhos brevemente.

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publicado às 22:58

Delete

por Closet, em 07.06.11

 

Carregou no delete mais uma vez.

As palavras fugiam-lhe entre a incompreensão, a raiva e a mágoa.

Tinha tanto, violento, para lhe dizer, aprisionado dentro de um corpo, zombie, de desilusão.

Tantas perguntas que, de repente, já não tinham qualquer interesse ou justificação. Desfaziam-se, entre lágrimas perdidas, numa folha de papel branco, tão vazia como o que ela sentia naquele momento.

Nada. A estranha sensação que nunca mais o iria ver. Porque nada do que ele pudesse dizer-lhe a convencia a perdoa-lo, a acreditar nele outra vez.

Voltou a experimentar o sabor amargo do abandono. "será que sabes o que é ser abandonado por a pessoa que sempre se quis?" e as palavras gretavam-lhe a pele, por isso ela apagava-as rapidamente. Porque tudo aquilo a feria, esfaqueava brutalmente. 

Como se o destino se risse dela, sádico, ao vê-la sofrer. O destino que a colocara à prova no passado e a viu tombar com a ingenuidade própria de uma paixão pura, também a única capaz de se ter. Aquela que quebra o coração para sempre, depois dela passa-se a tratar o amor por tu, sem medo ou respeito. Sem devoção.

Esse mesmo destino, maquiavélico, que o devolveu tanto tempo depois aos seus braços só para que pudesse relembrar tudo o que há de violento no amor. O chão tremer enquanto o cérebro bloqueia, a respiração ofegante de quem corre sem sair do lugar, a cabeça a girar numa tontura constante. Para que pudesse sentir de novo o cheiro, o tacto e o sabor do desejo a queimar desmesurado e impotente. O corpo que reconhecia como seu, a cada raspar do olhar, dos lábios e da língua. A pele, as mãos, a voz e os beijos. Tudo. Tudo o que ela sempre quis resumia-se a alguém que a magoou de silêncio e mentiras, alguém que a abandonou "pela ultima vez" repetia.

Queria dizer-lhe exactamente isto, que nunca o esqueceu, nem acredita que algum dia o irá esquecer. Mas ainda assim, estilhaçada, riscou do destino a vontade de o voltar a ver.

Como as palavras eram ocas e dolorosas, apagou tudo, mais uma vez.

 

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publicado às 22:51

Vazio

por Closet, em 06.06.11

 

«Mas tudo o que sentia era uma solidão incomensurável. Sem me dar conta, o mundo que me rodeava perdera para sempre as cores (...) 

Ao perder Sumire muitas coisas morreram dentro de mim, como acontece quando a maré recua, levando com ela tudo o que estava depositado na areia. » Haruki Murakami 

 

Porque às vezes a maré recua e sentimos um deserto imenso à nossa volta. Um vazio clastrofóbico, ensurdecedor. Como se, de repente, o mundo inteiro desaparecesse. Só nós e um areal extenso. Árido. Um preto e branco desconfortável, distante. Somos morte mais do que vida.

Às vezes a maré recua, de repente, como se nos puxasse o tapete, apanhando-nos desprevenidos. Caímos, quase morremos. Choramos enraivecidos. Gritamos. Mas estamos inutilmente sozinhos num areal imenso, ninguém nos ouve. Falamos em silêncio e acreditamos num caminho possível. Qualquer um que se desenhe à nossa frente. De pé, embrutecidos, caminhamos. Seguimos instintivamente, até encontrar de novo a praia de ondas batidas, de pessoas, toalhas e chapéus de sol.

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publicado às 23:01

Sonho

por Closet, em 03.06.11

 

 

E se tudo não passasse de um sonho?

Eu estaria eternamente deitada no teu colo, adormecida no teu olhar.

A tua voz soprada aos meus ouvidos como a brisa do vento, embalava os meus pensamentos. As mãos enormes, seguravam-me a cabeça para eu não acordar.

E se tudo não passasse de um sonho, gigante? 

Eu e tu estaríamos juntos naquele banco de jardim, como tantas vezes antes.

Perco-me, entre a a realidade e o sonho, num limbo onde é penoso o acordar.

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publicado às 23:50

Amar no impossível

por Closet, em 02.06.11

 

Era no impossível que ela amava.

Como mandar cartas de amor a um cego, cantar serenatas a um surdo e desejar palavras arrebatadoras de um mudo. Era assim que ela o amava, de forma inútil, ingrata e deficiente.

Como um relógio desacertado no tempo, onde os ponteiros se encravaram. O relógio, já não servia para nada. Mas os ponteiros atraíram-se, como dois corpos perdidos enferrujados. Pensava que era isso que lhe faltava. O físico para além do som das palavras, do riso dos gestos, para além dos beijos ardentes, da língua e das mãos a deslizar pelos corpos arrepiados. Possui-lo por instantes cegos-surdos-mudos, o corpo dele ser dela, um desejo antigo, perdido, por concretizar. Pensava que esses instantes de posse eram tudo o que faltava, como se possui-lo por instantes sôfregos e carnais fosse muito mais do que isso. Como se bastasse para deixar de senti-lo por dentro, de pensá-lo e deseja-lo.

Era no impossível que ela amava. E é nele que continua a mandar cartas a cegos, cantar serenatas a surdos e a esperar que surjam da boca de um mudo as palavras mágicas, aquelas que tornem possível ela voltar a amar.

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publicado às 19:38

Dá-me cores

por Closet, em 01.06.11

- Pinta-me de todas as cores - pedia-lhe quando a brisa lhe soltava os cabelos e sentia uma incrivel vontade de voar.

 Pinta-me de verde como os campos de relva macia onde nos sentámos naquela tarde em que nos conhecemos. 

Depois de amarelo, como os raios do sol que nos acordou de manhã, quando adormecemos naquela praia escondida.

Pinta-me de azul, escuro e brilhante, como era o mar nessa noite pincelada de loucura e magia. Os corpos despidos na areia, por detrás de um rochedo, isso pinta-me desse castanho-areia, onde deixei de distinguir o teu corpo do meu. 

Pinta-me de rosa, a cor do vestido sem costas, que elogiaste no nosso primeiro jantar romântico, depois pinta o branco das estrelas que brilhavam através da janela do teu sotão, lá ao fundo, no céu distante.

Pinta o vermelho do baton que insistes em devorar nos meus labios com a desculpa que eles já têm cor. Pinta o laranja quente e sófrego do nosso por-do sol. Pinta-me de roxo como a capa do caderno onde escreveste aqueles versos de amor. "nunca te vou deixar" as palavras pinceladas, secas, embriagadas. Pinta-me, peço-te. Mesmo que seja de mentiras, dá-me cores.

O vento parava de repente e ela largava ao mar a tela, escura, como uma coroa de flores.

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publicado às 22:49


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