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Love Language

por Closet, em 29.04.11

 

Desliguem o som do Mix Pod e oiçam esta Música «Peaches» dos New Heights.

 

 

E aqui está algo (e digo algo porque não sei bem definir o que é) que me deixou de sorriso no rosto inesperadamente (obrigada NL!).

 

«This is the story of a boy who meets a girl and falls in love.

There are moments in life when we feel a connection so deep words can hardly describe it. But how do we know that it's real?»

A minha resposta: You don't

«Relationships don't always have a fairytale ending»

 

Ainda assim, talvez até por isso mesmo, pela coragem do desafio, deve-se a lutar por sentir, sentir mais, muito e sempre. Há tantas formas de amar e ser amado. Há tanto de nós para dar, se quisermos. Cada um de nós é um mundo tão diferente, a língua pode parecer a mesma, mas na verdade somos seres incompreensíveis uns para os outros. Será que é preciso falar?

 

 

(The Jubilee Project makes films for good causes. This film was produced to raise awareness and support for the American Society for Deaf Children. www.jubileeproject.org)

 

 

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publicado às 01:12

Traço de giz

por Closet, em 28.04.11

 

 

Foi na escuridão do silêncio que ele morreu.

Ela assitiu à sua morte anunciada e viu-o cair a seu lado. Inerte. Jazia arrasado. 

O corpo delineado a um traço de giz no chão. Sem o sorriso nos olhos, a voz quente aveludada, sem nada.

Como o corpo morto a seu lado, também o chão era frio e o desenho vazio.

Um esboço tosco de alguém que nem sabe se existiu.

Ou se foi inventado. Se o sangue lhe corria nas veias, pulsava-lhe o coração no peito,

ou se fora sempre um traço a giz no chão por si própria desenhado.

Morreu. Largou-lhe a mão que o prendia e decidiu naquele dia apaga-lo.

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publicado às 23:28

Serenatas em barcos de papel

por Closet, em 25.04.11

 

Fizeste-me serenatas em barcos de papel. 

Tão frágeis, quanto loucos, deixei-me levar sem perceber. Eram serenatas de amor, à deriva num oceano imenso, embebidas em promessas vãs. E, mais uma vez, sonhadora acreditei. Perdi-me. Perdi-te. Entre mares de contradições, afoguei o meu coração. 

Eu já devia conhecer essas palavras ridículas com que encantas e incendeias desejos. Não mudaram, são as mesmas promessas, a desmesurada paixão. Já devia esperar o final sem medo, a tua fuga e a minha desilusão.

Eu sei que não mudaram essas palavras poéticas, efémeras, que ouvi novamente, sedenta desse amor que nunca apaguei.

Ainda não sei porquê, mas precisei de ouvi-las. As serenatas em barcos de papel, onde, mais uma vez, naufraguei.

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publicado às 22:57

to be alive

por Closet, em 21.04.11

 

"Lost opportunities, lost possibilities, feelings we can never get back. That's part of what it means to be alive. But inside our heads - at least that's where I imagine it - there's a little room where we store those memories. A room like the stacks in this library. And to understand the workings of our own heart we have to keep on making new reference cards. We have to dust things off every once in awhile, let in fresh air, change the water in the flower vases. In other words, you'll live forever in your own private library."
Haruki Murakami, Kafka on the Shore

 

 

E muito poderia escrever sobre isto... e escreverei, ou talvez não. Sou mesmo assim, indecisa. Mas fica aqui uma das mais marcantes frases deste livro fantástico.



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publicado às 12:19

Descalça

por Closet, em 19.04.11

 

«Nunca te deixarei» disse-lhe um dia a voz aveludada que a embalava. E ela acreditou, com a inocência e doçura como só num primeiro amor se acredita. Acreditou nos abraços que a envolviam, nas palavras que sufocavam beijos.

Depois ele deixou-a de repente, numa manhã triste incolor. Não se recorda o porquê, apenas tem tatuado a dor. O golpe no peito selvagem assustado, a desilusão e o medo. O coração que transbordava ingenuidade, agora frio e estragado, gritava «Gosto tanto dele». Vagueava angustiada sem saber o que fazer. Por onde seguiriam os seus pés, que caminhos iriam percorrer?

Andaram descalços, pisaram ruas abandonadas, sangraram a saudade que só o primeiro amor rasga na pele e a deixa para sempre cicatrizada. Choraram mágoas e silenciaram incompreensões. Calejados, encontraram um caminho numa estrada firme que os acolheu.

E foi descalça, anos depois, que ela o reencontrou. Não se lembra se num vão de uma escada perdida, ou num beco sem saída, num qualquer lugar recôndito do mapa. Encontraram-se no impossível e com lâminas afiadas dilaceraram corpos, sedentos do tempo perdido, confusos, carentes. Magoados. E no impossível, amaram-se outra vez. Descalços, ambos frágeis de sorte e de tempo.

«Nunca te deixarei» repetiu-lhe a voz que, todos aqueles anos, adoçava-lhe os sonhos ao adormecer.

Mas partiu outra vez. Numa tarde embrulhada em novelos de raiva, tristeza e amor. Partiu, com a mesma violência com que chegou. Na tempestade de emoções, inusitada, que só um grande amor pode causar. Ele deixou-a, uma vez mais. Descalça de angústia e medo. Deixou-lhe o sabor na boca, o cheiro do corpo quente e o vazio dos braços que ocupavam todo o seu mundo em qualquer lugar. Deixou um silêncio profundo e descalço. «Gosto tanto dele» repete ainda, pulsando-lhe no peito uma insanidade incontrolável.

O silêncio tem destas coisas, traz consigo as dúvidas que pisam, num círculo repetitivo, o corpo dormente e indomável.

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publicado às 18:01

Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.04.11

 

Um casal do futuro

 

João chegou por volta das 19h00 de mais um dia estafante. Era engenheiro civil e estava a supervisionar uma obra de grande envergadura, responsável por muitos fins-de-semana estragados. Carregou no detector digital e entrou.

- Querida, cheguei – gritou da porta enquanto pousava o iSpeed.

A casa estava silenciosa e apenas o gato cinzento de pêlo comprido lustroso, resultado de inseminação especial de um cruzamento entre Gato dos bosques e Persa, veio cumprimenta-lo com um ronronar dengoso, semicerrando os olhos bicolores.

- Olá Ricky, estás sozinho? – perguntou enquanto lhe afagava o pescoço.

Continuou pelo corredor até ao quarto, despindo a camisa suada, entrando na ampla suite de móveis minimalistas rectilíneos, com uma cama quadrada no centro ao nível do chão. Atirou-se para cima dela de braços esticados quando ouve a porta da rua a abrir-se. Um toc toc ritmado de saltos finos percorria o chão de cerâmica, chamando à sua atenção.

- Susana! – chamou intrigado, já que a mulher nunca usava aqueles saltos durante o dia, mas apenas em noites especiais – Estou no quarto.

Susana entrou no quarto com um sorriso a iluminar-lhe o rosto. Vestia um vestido curto e justo de padrão floral, realçando-lhe o peito redondo e delineando-lhe a cintura fina. As suas longas pernas terminavam nos sapatos de saltos agulha que lhe tinha oferecido o Natal passado.

- Uauuuu – exclamou com um ligeiro assobio – hoje arrasaste na empresa, não? Alguma reunião especial?

- Não querido – murmurou Susana dando-lhe um beijo e descendo dos 7 cm de salto – Eu disse-te, hoje não fui trabalhar.

- Não foste? – perguntou João admirado – não me lembro, disseste?

- Sim querido – resmungou Susana, apanhando o cabelo e virando-se de costas para que ele lhe abrisse o fecho do vestido – nunca ouves o que eu digo… olha, preciso de um banho…

Dirigiu-se para a banheira programando um banho de espuma com massagem drenante nas coxas.

João seguiu-a como um cachorrinho de rabo entre as pernas, agarrando o seu Ironberry que acabava de apitar uma mensagem.

- Quem é? – perguntou Susana já enfiada na banheira – olha que temos de marcar aquelas duas noites naquele hotel que me ofereceram, daqui a pouco vem a época alta e está tudo esgotado…

- Humm… é do trabalho – mentiu dedilhando no teclado. Era a Rita, a arquitecta ruiva de 28 anos com quem tinha saído a semana anterior.

- Mas já viste quando é que podes tirar uma sexta-feira para aproveitarmos os três dias fora? – continuou Susana recostada na banheira de olhos fechados.

- Deixa ver – procurava no calendário do seu telemóvel – no dia 23 dá, daqui a 2 semanas, já terminou a fase 4.

- Isso calha no fim-de-semana de 24 não é? Não, esse não posso, já te tinha dito, marquei com o Rui

- O Rui? Qual Rui? – inquiriu João entrando na casa-debanho.

- Já te falei dele, o piloto que gosta de cavalos e de comida japonesa, lembras-te?

- Ahhh… já sei, vi o perfil dele contigo, mas não achas que o podes desmarcar, combinas no fim-de-semana seguinte por exemplo.

Susana abriu os olhos enormes cor de mel em sinal de amuo.

- Querido, eu ainda nem o conheço… E depois ele passa a vida fora, faz longo curso e está sempre nas Caraíbas. Nós somos 92% , tu é que me ensinaste a fazer esse teste… queria mesmo conhece-lo… - e simulou aquele beicinho que deixava João sem jeito – mas podemos ir no outro, vê lá se podes.

João procurou no seu telemóvel ,abanando de seguida  a cabeça, desolado.

- Não. No seguinte já marquei no Sábado com a Márcia.

- A Márcia? – perguntou Susana novamente de olhos arregalados – A enfermeira?

- Marcámos a 31, e como ela tem aqueles horários complicados, por turnos, não posso mesmo desmarcar – disse continuando a consultar o telemóvel.

- Não entendo porque repetes essa… - protestou Susana saindo da banheira e enrolando-se num roupão que João lhe estendeu – afinal só tinham 63% de compatibilidade…

João esgueirou-se para o quarto para se descalçar, fugindo à pergunta constrangedora com outra pergunta.

- Mas afinal onde foste tu hoje?

- Eu tinha-te dito, fui almoçar com o Rodrigo.

Susana penteava o cabelo já solto, que lhe descaía pelo roupão.

- Rodrigo… O mecânico? – perguntou João atónito aparecendo de novo na casa-de banho.

- Sim, esse mesmo. O mecânico de automóveis, de Loures e que gosta de snooker.

- Tu foste assim vestida para um mecânico? – João soltava agora uma gargalhada.

- Fui, e então? – perguntou Susana olhando o marido através do espelho.

- Então? – ripostou – é um disparate… É assim como dar pérolas a porcos! - E seguiu para o quarto abanando a cabeça descrente.

Susana seguiu-o com um sorriso rasgado nos lábios.

- Pensa o que quiseres, mas foi uma tarde maravilhosa. De tal forma que já marquei com ele esta sexta-feira.

- Esta sexta-feira? Mas, mas… - gaguejou João – Nós já tínhamos combinado ir ao cinema, é a estreia do Faraway Galaxy.

- Querido, já sabes que não suporto esses filmes… olha, vai ao site e arranjas uma companheira com esses gostos de certeza, tu safas-te bem!

- Susana, tu sabes bem que as mulheres que gostam destes filmes são todas horrorosas, peludas e de aspecto assustador… até para uma sala escura… - gritou João irado.

- Então põe lá que queres companhia para um filme romântico e depois nas bilheteiras inventas uma desculpa qualquer… João, tu safas-te! – insistia Susana passando-lhe a mão pelas costas – Tu é que me ensinaste a utilizar aquilo, vais ver que resulta.

- Sim, assim a mentir claro que consigo… - acenava João enquanto lhe desapertava o roupão com entusiasmo e beijava o pescoço – mas já te disse que não é suposto mentir…

Susana mordiscava-lhe a orelha sussurrando-lhe ao ouvido:

- Amor, o que é que isso importa? Achas que eu hoje passei a tarde a jogar snooker?

 ´

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:22

Love... is the question

por Closet, em 15.04.11

E eis que no dia do meu 11º aniversário de casamento surge em Portugal, assim em jeito de ironia, o site second love.

Calma... a quem conhece as minhas aventuras e curiosidades e mediocricidade cibernauta (leia-se oh God... o que é isto?? delete delete, sou uma nódoa)... eu não me vou inscrever!

A notícia apareceu nos jornais que leio online Expresso e Público e chamou-me à atenção. Confesso que pensei que se destinasse a divorciados... tststs... nãaaa... aquilo é mesmo para casado ou comprometidos em relacionamentos sérios (definam "sérios")... Ok.. vejo então as coisas assim... este é um site/rede whatever... para "futuros divorciados" aha, deve ser isso!! Pronto, e percebi pelos comentários aos artigos dos mais variados cidadãos que as opiniões divergiam (aconselho-vos o expresso) e fiquei a perceber, ou talvez não, o âmbito da coisa... é asim... digamos... muito á frente!

E não quero criticar, de todo (até porque não é de hoje que existe inumeros sites e redes online explícitas de encontros), esta é apenas mais explícita e directa, quiça até romântica "procura romance?aqui é o lugar"... what else?? Numa excelente jogada de marketing, consegue até entrar no campo da psicologia "às vezes acontece consigo: blábláblá Quebre a rotina e seja audaciosa! A vida é tão curta. Ofereça-se um romance!".

Sinceramente estou para aqui a escrever isto e a rir ao mesmo tempo, sem conseguir perceber muito bem o intuito da coisa... e pior... agora o meu iphone acabou de ficar todo preto apenas com a maçã da apple no ecrã (deve estar horrorizado com o que estou para aqui a escrever, ou quem sabe a maçã é para me lembrar de Adão e Eva...) whatever...espero que recupere rapidamente e dê para atender a chamada que estou à espera.... adiante. Estava a dizer que não estou a escrever em tom de crítica, não me apareçam para aqui os liberais a criticar, este é o meu espaço, OK??... sinceramente nem tenho opinião sobre esta nova rede nem o porquê de existir redes destas e o seu efectivo sucesso. Sei que a infidelidade existe ás resmas, charters dela, como diria o Futre. Não me considero púdica, nem santa, nem preconceituosa, nem gosto de fazer juízos de valor... só me questiono efectivamente se, com este tipo de redes a proliferar, e se, como diz uma psicóloga no Público "A forma como encaramos as relações amorosas está a mudar", para quê então o casamento? Dá tantas despesas a casar e aínda mais a divorciar se lhe acrescentarmos as chatices e amarguras colaterais...Será esta a forma futura de arranjar uma "aventura emocionante capaz de quebrar a rotina e monotonia de um casamento"??

Então onde estará no futuro a magia de encontrar, num qualquer café, olhares que se cruzam de tal forma que o coração de repente bate desassossegado?... será que este tipo de paixão imediata que desafia os sentidos, seja second, terceira ou quarta... irá acabar??

 

Olhem, sem me alongar mais.... e sabendo que me abilito a comentários duros neste post... acho que já arranjei tema para a próxima história da Fábrica de Histórias - Um dia no futuro ... Amor - o que é isso?

 

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publicado às 19:04

O Beijo proíbido

por Closet, em 13.04.11

 

"O Beijo é um procedimento inteligentemente produzido para interrupção mútua da fala quando as palavras tornam-se desnecessárias."

 

E foi assim que te beijei. Desprevenido. Sem eu própria perceber o que não queria dizer. Talvez não encontrasse as palavras certas, ou não quisesse mesmo falar. Era beijar que eu queria. Os teus lábios grossos que me desafiavam a cada segundo. O Beijo dizia tudo e, ao mesmo tempo, deixava no ar o perfume inebriante da dúvida e do ciúme. Queria-te e não te queria. Aquele beijo que ardia desejo arrancou de mim descontrolado. Foi um beijo roubado. Queria provar-te. Sim, queria. O sabor da tua língua. Deslizar nos teus lábios molhados, trincar-te levezinho. Era só mesmo isso que eu queria. Beijar-te, de forma louca e incompreensível. Sem fugas ou receios, sem perguntas. Provocar-te com o roçar da pele, contornar a tua boca com a minha língua. Até que os teus lábios entregaram-se esventrados nos meus, quentes, húmidos. Carregados de insegurança e nervosismo, depois violentos e destemidos. Falámos beijos de lábios sedentos, pressionados pelas palavras proíbidas.

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publicado às 23:15

Não te vejo

por Closet, em 12.04.11

 

Não te vejo, tu não me vês.

Os nossos mundos não se tocam.

Procuramos exaustos um rumo ou explicação.

Um caminho.

Não me vês, eu não te vejo.

Apenas um crespusculo de luz que rompe no escuro. 

com a nitidez capaz de ofuscar a desilusão.

Levantar o corpo rígido, desprevenido.

Seguir em frente, sem medo.

Há a dor que transpira saudade

Com a violência de um sismo.

Quer destapar a mágoa.

Quebrar de novo, se for preciso.

Ver-te a ti. Veres-me a mim.

Onde estás que não te vejo?

 

 

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publicado às 18:45

Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.04.11

Nada como o amor no espaço

O meu lugar era a meio do avião, junto à janela, como tinham garantido no check-in. Tirei o livro da mochila e coloquei-a no compartimento por cima do meu lugar. Preparava-me para começar a ler quando um sujeito, ainda com ar esgazeado de sono, interrompeu-me.

- Sou aqui ao seu lado, importa-se que passe a sua mala para o compartimento ao lado, que está quase vazio, para a minha mochila caber aqui?

Ora mochila dele, com ar sebento e aspecto proveniente da 2ª Guerra Mundial, era, de facto, enorme. Mas mesmo assim achei que coubessem lá as duas com jeitinho, afinal a minha 'mala', como ele lhe chamou, era uma mochila pequena e citadina.

- Penso que cabem as duas - respondi-lhe a sorrir - Eu não me importo que a minha 'mochila' fique apertada.

- Bem, sendo assim.... – interrompeu com a voz rouca e sorriso trocista - vão ter mais intimidade que a maioria das pessoas casadas há mais de uma ano… - e continuou com aquele ar alucinado – imagine, 8 horas seguidas entrelaçadas, alças a penetrarem umas nas outras, fechos a roçarem, bolsas a tocarem-se impunemente. Hummm... E tudo isto no escuro, quase sem respirar, mesmo por cima das nossas cabeças… Uma orgia invejável, não te parece?

E agora já era "te parece". Como se fossemos amigos de longa data... Fingi não achar graça, controlando o riso com uma tosse seca.

Ele fechou o compartimento com uma certa dificuldade e deixou-se cair pesadamente a meu lado. Podia jurar que não dormia há mais de três noites seguidas. O cabelo, cor de palha, um pouco comprido e ondulado, não conhecia um pente há semanas, e a pele, demasiado morena para aquela altura do ano, denunciava uma vida ao ar livre. Cheguei a pensar que tinha passado os últimos dias a dormir ao relento na praia. Os olhos escondiam-se por trás de óculos escuros espelhados, tirando-os apenas para colocar as mochilas. Não percebi bem o seu tom, estavam inchados, mas reparei que tinham uma cor indefinida, talvez um verde mesclado. Mesmo assim, eram expressivos, a maneira como os abria e fechava, como ziguezagueavam enquanto proferia aquela enxurrada de disparates.

Tinha um corpo alto e esguio por baixo das calças de ganga russas, descaídas e largas e uma sweat preta deslavada com uma qualquer banda de música estampada. A barba de 3 dias por fazer, e o cheiro a tabaco e gin faziam-me acreditar que tinha vindo directo de um bar de frequência duvidosa.

Mesmo assim, não lhe consegui ficar indiferente, por isso retomei a conversa paranormal com a maior naturalidade:

- Sim, sem dúvida vão divertir-se muito mais do que nós.

- Bem... não seja por isso – esticou o pescoço e colocou os óculos na cabeça mostrando-se muito interessado – Olha, há ali ao fundo do corredor uma casa-de-banho, estás a ver? – e aponta para o fundo do corredor – um pouco desconfortável eu sei, mas acho que cabemos lá os dois, assim também apertadinhos!

Ao ver o meu ar enfadado apressou-se a colocar um ar sério, enquanto os olhos espelhavam gozo – Ah, pois... lá não dá para desligar as luzes, não tinha a mesma graça.

E recostou-se colocando novamente os óculos escuros. Acreditei seguramente que o sujeito ainda vinha com efeitos da noite a percorrer-lhe o sangue. Coloquei o cinto e o meu livro por cima das pernas para lhe mostrar que não ia existir qualquer espaço para conversa. Ele reparou, levantou os óculos e lançou um olhar trocista entortando o pescoço para ler o título 'Sputnik meu amor'.

- Uiii…. Nada como o amor no espaço… - Escapou-lhe de imediato, revirando os olhos de riso.

Arrependi-me naquele segundo de ter trazido aquele livro. O tipo não perdia uma e eu até tinha de admitir que tinha graça. Estupidamente com graça, mas não consegui evitar um sorriso, mesmo sabendo que ele me podia custar atura-lo com mais disparates o resto da viagem.

Finalmente descolámos e nesse momento ainda ouvi um ridículo “Iuhuuuu... Sputnik, cá vamos nós”.

Como seria de esperar, o tipo não estava só de ressaca, mas também com a noite em branco. Ainda não tinham passado 20 minutos e já ele estava a dormir como uma pedra, descaindo constantemente a cabeça para o meu ombro. Por mais que o empurrasse nada o fazia acordar. “Era só o que me faltava” pensei, “com sorte tenho de passar 8 horas com um tresloucado desconhecido, a tresandar a cigarros e álcool, estatelado a roncar e a babar no meu ombro”.

E assim foi a viagem inteira. Com uma breve pausa para almoçar (que tenho a impressão que o fez de olhos fechados) e uma ida à casa-de-banho numa espécie de sonambulismo atrás de mim (e nessa altura ainda receei que estivesse com a ideia parva de partilha-la comigo, experimentando a mesma intimidade das nossas mochilas…). Mas ele esperou e entrou só depois. Confesso que tive algumas esperanças que adormecesse por lá ou não conseguisse voltar ao lugar, qualquer coisa servia desde que me livrasse dele. Para azar voltou, ajudado por uma hospedeira de lábios grossos pintados de vermelho vivo, e apenas balbuciou antes de continuar no seu sono de belo adormecido em cima de mim.

- Esta não dava pica… muito escanzelada.

Faltavam 30 minutos para aterrarmos quando resolveu acordar do seu sono profundo. Espreguiçou-se ruidosamente e ainda teve o desplante de dizer:

- Que bela viagem - continuando a bocejar.

- Só se foi para ti – resmunguei - eu tenho um hematoma no ombro com toda a certeza... Pela primeira vez ele pareceu-me um ser humano e não o allien que tinha passado 8 horas a meu lado, e vi nele algo semelhante a um rosto envergonhado.

- Peço desculpa - olhou para o meu ombro de camisa amarrotada tocando-lhe ao de leve – sinceramente não tinha intenção de massacrar-te a viagem toda.

A sua voz, de repente, parecia educada e sincera, longe dos gracejos anteriores, sobressaindo um tom rouco aveludado, quase sensual.

- Esquece, devem existir pomadas em qualquer farmácia de Nova Iorque.

De certa forma aliviado com a minha reacção, comportou-se de forma normal até aterrarmos. Quando nos levantámos cumprimentou-me como se estivesse a ver-me pela primeira vez, assim à laia de balconista de hotel:

- “Welcome to New York!

E esticou-se abrindo o compartimento das mochilas para voltar a fechá-lo de repente. De óculos na cabeça, olhou-me horrorizado.

- Ainda não estavam vestidas - e desatou a rir.

Soltei uma gargalhada incontrolada. Afinal os disparates não eram resultado do sono ou do que tinha ingerido, ele era mesmo louco. Abriu novamente o compartimento, teatralizando gestos de receio a espreitar e finalmente entregou-me a mochila.

- Hummm… - olhei-a atentamente – deve ter sido bom…parece, como hei-de dizer?

 – Satisfeita? - Piscou-me o olho, rasgando um sorriso mágico - E haverá algo melhor que fazer amor nas nuvens?

Não consegui evitar sorrir.

Separámo-nos no aeroporto com “até um dia” e vi-o desaparecer no meio da multidão. Um andar calmo e a sua velha mochila às costas pendurada com uma só asa. Não parou para levantar bagagem de porão e eu fiquei ali estática, por segundos estranhos, incompreensíveis, a acenar-lhe com o olhar. Aquele homem alucinado, de voz rouca aveludada, ridiculamente louco e adorável. O que faria ele ali? E dei por mim a abraçar a mochila contra o peito, como se estivesse a abraça-lo, numa espécie de despedida de um sonho do qual se acorda ainda com imagens nítidas, mas confusas e desordenadas.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias (reescrito a partir de um texto meu, dos meus Retalhos)


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