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Rádio antigo

por Closet, em 30.03.11

 

Pediu um chocolate quente, com natas e sentou-se numa mesa de madeira lá no canto junto à janela enquanto via nevar. 

Uma mesa pequena e tosca. Com um banco de tábua corrida apertado.

Os olhos prenderam-se de repente naquele rádio antigo, junto à mesa. Mudo, calado. Prenderam-se os olhos e o coração bateu desassossegado.

O empregado chegou com o chocolate quente, ela bebeu um golo apressada, como para derreter o que por dentro tinha gelado. 

«Onde estás?» perguntava-se agora , num labirinto de contradições, angustiada. 

Longe de tudo, no céu do mundo, sentia-se simultaneamente prisioseira e abandonada. Das horas que marcaram um espaço, que lhe esculpiram o corpo com lábios quentes e a envolveram num eterno abraço. Recordava e respirava com dificuldade. Porque a ansiedade e a tristeza galopavam ao mesmo passo, lado a lado. E o caminho que escolhera era distrcido e enevoado.

Teve de sair de repente, apanhar ar. Como a notícia que, recorda, recebera sem esperar. No momento, na hora exacta. Uma lança afiada que a atravessou por dentro... tudo era tão pouco, tão efémero, tão sangrento. A raiva de não arriscar, a frustação de perder de novo, a sensação de que nunca teve antes de deixar. 

Eram uma estranha história de amor, partida em mil pedaços por colar. Um passado que se repetiu triste, um sonho antigo. Antigo como o rádio que ele tinha na mesa de cabeceira, testemunha muda de desejos sufocados, impossíveis de enterrar. 

 

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publicado às 00:59

Neve e não só!

por Closet, em 29.03.11

Val Thorens, Alpes - visto cá de cima

 

da minha varanda, o nosso hotel

 

uma pista

... Me :)

 

O meu professor ex-atleta profissional de ski-acrobático!

 

Os chocolates quentes...hummmm

 

Aqui ficam algumas fotos das minhas férias em Val Thorens. Apesar dos 4 dias de nevões, ventos e pouca visibildade para apenas 2 dias de sol... A neve estava boa (leia-se, para as quedas!!)! 

Os ingredientes estavam lá todos: paisagens brancas de perder de vista, amigos fantásticos, estância e hotel maravilhosos (com direito a SPA ao final do dia)... What else?

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publicado às 22:42

Fábrica de Histórias

por Closet, em 26.03.11

 

 

Primavera inventada

 

Foi ali, naquele lugar mágico, que foi inventada.

Onde as flores brotavam sorrisos fora dos canteiros, as árvores curvavam os braços para oferecer sombra e as conversas dos pássaros embalavam os nossos corpos espreguiçados na relva. O aroma de felicidade era disseminado num arco-íris de cores inebriantes, povoando os campos até perder e vista.

 

Foi inventada numa manhã onde se abria as portadas verdes ao céu imenso e o sol rompia brilhante pelos vidros da janela, aquecendo os nossos corpos desarrumados na cama. Beijavas-me o ombro suavemente e depois subias pelo pescoço. Como quem desbrava uma floresta densa, afastavas os meus cabelos para continuar, num trilho que percorrias demoradamente para me enlouquecer. E eu abria os olhos devagar, com medo que fosse um sonho do qual não queria acordar. Depois sorria extasiada, quando os meus olhos viam os teus. Agarrava o teu braço que me envolvia e abrigava-me no teu corpo como numa concha. Prisioneira de ti, onde eu sempre quis estar.

 

Foi assim que foi inventada, num alpendre soalheiro de jardim, quando bebíamos uma limonada fresca e falávamos entre risos e gargalhadas. Com aquele ar sério que tu não conseguias convencer ninguém, dizias que ias pescar um peixe enorme «assim, deste tamanho… o maior de sempre». E eu ria, fingindo acreditar que conseguias. Caminhávamos descalços na terra, pisando os trevos que cresciam em tufos pelo jardim. Procuravas sempre um de quatro folhas para mim «um dia encontro» sorrias. Depois, encostados a uma árvore gigante, deitava a minha cabeça no teu colo e olhava o céu deliciada. Não dizíamos nada, mas pensávamos como seria triste se tudo aquilo não existisse.

 

Foi inventada ao som dos pássaros a brincar entre os ramos, enquanto apanhávamos as maçãs já maduras para uma cesta de verga escura. Pegavas-me ao colo para eu chegar lá bem alto, àquela maçã que eu tanto queria e, quando estava quase, quase sempre caíamos. De propósito, eu sabia. E amuava zangada, só para me roubares aquele beijo apaixonado que não me deixasse qualquer dúvida do que sentias.

 

Foi num abraço mágico que ela foi inventada. Um abraço quente, apertado. Depois deslumbrou-se no olhar carente que se prendeu no meu. «Para sempre» pensei, tremendo, mas nunca te cheguei a dizer. As bocas renderam-se viciadas no ardor dos lábios, as línguas embriagadas, o sabor da pele. Desfloraram-se os corpos milímetro por milímetro. Amámos para além do prazer.

 

Chegou o Verão de repente e tu deixaste-me com um «Adeus» sumido, que me derrubou sem avisar. Partiste, sem eu perceber, e levaste as manhãs ancoradas no teu sorriso, na voz doce e quente, como o Verão que acabava de chegar. Num calor sufocante, aceitei sem questionar. A Primavera, a nossa, tinha acabado, para sempre, no dia exacto em que desististe de me amar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

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publicado às 22:32

Desabituar-me

por Closet, em 24.03.11

 

 

 

Vejo ao fundo um corpo à deriva, desabrigado.

Ruma dia após dia, num oceano imenso de frustração. Inerte, abandonado e sozinho, navega sem direcção.

Na maioria do tempo dorme. Não pensa, não sente.

Embriagado numa realidade crua e distorcida. Prefere o sono confortante e profundo.

Isola-se do mundo.

Diz-me que já o esqueceu, mas sonha, em vão, que não o perdeu.

Sonha o calor dos braços compridos à volta dos seus. 

Num recorte perfeito, simétrico, corpos encaixados, um homem e uma mulher. Entrelaçados.

Diz-me que já não o quer. Num ranger de desejos ancorados, despedidas repetidas, beijos demorados.

Incendeia recordações, dúvidas e medos. 

Não quer acordar, em pânico emocional, não o consegue largar.

«Tenho de me desabituar dele» repete num sonambolismo demente. Não sabe se sente. Se apenas existe.

Se encontra a felicidade entre os espinhos da dor. Se é feliz ou triste.

Repete «Desabituar-me dele». 

Olho-a para a compreender. Mas ela foge, empurrada pelos ventos,

Entregue aos seus pensamentos, sonha tudo o que não viveu.

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publicado às 23:10

Olhares

por Closet, em 22.03.11

 

Raspamos olhares tristes, fugidos

orgulhos de palavras encravadas na garganta,

nós embaraçados de desejos frustrados, ridiculos.

Porquê? Não me lembro.

Mas os olhos ainda se raspam, cúmplices de um segredo.

Sedentos e profundos, os olhos vagueiam tristes

fingindo-se alheios, desinteressados.

Ainda se raspam, e prendem-se por segundos um no outro,

os olhos, sequiosos de atenção.

Hesitam. Desviam-se envergonhados.

Morde-se o lábio, como para sentir um beijo imaginado

O corpo gelado, do vazio entre os dois

Raspam-se os olhos silenciosos, distantes,

rasgam-se de dúvidas e incompreenssões

Sei que não te sou indiferente. Tu ainda me roubas emoções.

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publicado às 23:53

Fábrica de Histórias

por Closet, em 20.03.11

Desenhos perigosos

 

Naquela terça-feira, uma noite escura e de nevoeiro, dei por mim perdida pelas ruelas do Bairro Alto.

Regressava para o carro ao fim dum jantar de aniversário entediante de uma colega do trabalho e estava desejosa de chegar a casa. Os saltos finos prendiam-se irritantemente entre as pedras da calçada, quando dei conta que tinha perdido o meu caderno pequeno de argolas. Devia ter-me caído da mala quando tirei as chaves do carro pelo caminho. Tentei fazer o percurso inverso mas as ruas apareciam-me como espelhos labirínticos de onde perdi completamente a orientação.

Ao fim duma rua, quase na curva, uma porta com um candeeiro por cima chamou-me a atenção. Entrei sem pensar em mais nada. Afastei as cortinas vermelhas da entrada, invadindo-me um bafo quente e apertado de fumo a cigarro ou cigarrilha. Arrastei-me exausta até ao balcão de tábua de madeira corrida, onde um empregado de cabelo rapado e tatuagem no braço olhou-me de cima a baixo desconfiado.

Pedi-lhe um shot “qualquer coisa servia, B52, Ti Maria,…”.

Sentei-me no banco de pé alto e de pele gasta e rasgada, desconfortável com o vestido justo que trazia. Olhei em volta e a sala estava praticamente vazia. Havia um casal de meia idade ao fundo recostado num sofá russo de aspecto bolorento. Ambos bebiam whisky e pareciam embalar as cabeças ao ritmo dos acordes tristes do piano tocado por um senhor negro. As suas feições marcadas pela avançada idade eram angustiadas e personalizavam a música que parecia despir-lhe a alma.

Veio o B52 num copo estreito a arder. Estendeu-me uma palhinha curta e esboçou-me um sorriso que me paralisou. Lembrou-me do meu caderno perdido. Eu já tinha desenhado aquele sorriso, ou outro sorriso de outro homem qualquer.

Bebi de um trago, deixando o álcool percorrer-me todo o corpo, queimando-me numa espécie de masoquismo que me agradava. Senti uma ligeira tontura, estava a surtir efeito. Devolvi-lhe o sorriso e pedi-lhe piscando-lhe o olho:

- Outro.

- Para mim também – insurgiu por trás de mim uma voz rouca familiar

- Por aqui? – Perguntei espantada enquanto ele se sentava a meu lado.

Ricardo é um solteirão de 32 anos que gasta todo o dinheiro em viagens pelo mundo e saídas com os amigos. Mora sozinho na Expo com o seu cão, um Huskie com 3 anos, num apartamento sofisticado no 10º andar, mobilado com pouco móveis, todos rectilíneos e modernos. Pára pouco em casa e a cozinha parecia ainda por estrear. Conhece gente de todos os cantos do mundo, fala inglês, francês, espanhol, italiano e alemão e ganha a qualquer pessoa num concurso sobre capitais.

Disse-me que era programador informático e que passa o dia inteiro numa secretária em frente a um monitor. Nunca o consegui imaginar em tal emprego. O seu corpo alto e bem delineado, de quem frequenta regularmente o ginásio, numa pele morena, torna-o popular entre as mulheres. Talvez por isso não simpatizei com o seu ar convencido quando a minha amiga Leonor nos apresentou. Aos poucos aprendi a gostar dele. De tal forma que, de um dia para o outro, foi como se passasse um furacão e não resisti mais ao seu charme.

- É verdade. Vê lá tu o que eu encontrei por ali na rua… - colocou em cima do balcão o meu caderno de argolas preto, esboçando um sorriso hipocritamente desinteressado.

Ricardo sentou-se no banco do lado segurando o meu caderno repleto de desenhos esboços do seu corpo, traços do seu sorriso.

- Onde o encontraste? – perguntei-lhe irritada.

- Ali caído numa berma da estrada. Alguém deve tê-lo deitado fora – respondeu com desdém bebendo o B52 de uma só vez.

- É meu. Sabes bem… quero-o de volta.

- E posso saber porquê? O que é que está aqui que te interessa? Ah… espera… os desenhos parecem-se comigo, serei eu Joana?

- Deixa de ser ridículo – o fogo do B52 assustou-me mas não me impediu de engolir rapidamente o shot que o empregado colocou-me à afrente.

- Ridícula é a tua reacção, és tu, tudo entre nós… Eu nunca te prometi nada. Ou prometi? Porque fugiste naquela noite pela calada e nunca mais atendeste o telefone?

Enfrentou-me com os olhos que faiscavam. Inspirei fundo na tentativa de disfarçar a voz trémula.

- Porque, porque… - hesitei -  tu assustas-me, entendes? Não te compreendo e estou farta de esperar coisas normais de ti…

- Não sei o que são coisas normais Joana, nem me interessa... mas já que estamos aqui hoje, por destino ou não, vamos aproveitar! Brindamos a isso pode ser? – e levantou o braço para o empregado - Olhe, mais dois por favor.

De repente senti um vulto passar-me pelas costas, enfiando algo no bolso do casaco. Com o susto até tossi mas apenas lhe vi as costas desaparecerem pelas cortinas vermelhas da porta, um sobretudo preto até aos joelhos e um cabelo castanho vulgar apanhado num rabo cavalo ao fim da nuca. Foi tudo. Meti a mão no bolso e encontrei um pedaço de papel dobrado que consegui ler de esguelha enquanto Ricardo pedia ao empregado se tinha algo para petiscar.

«A sua vida corre perigo. Fuja. Uma amiga» Manuscrito a esferográfica preta. E era tudo. Estupefacta escondi novamente o bilhete no bolso.

“Quem teria escrito aquela estupidez “ pensava atravessando-me todas as ideias mais estapafúrdias pela cabeça. … O Ricardo perigoso? Ou seria o empregado? Todo aquele cenário mirabolante começava a enervar-me, até o piano que chorava baixinho queixoso… Levantei-me de repente e pedi ao empregado a minha conta.

- Pensas que vais embora assim, sem mais nem menos? – Ripostou Ricardo enfurecido.

- Deixa-me. E podes ficar com o caderno se quiseres – respondi impaciente caminhando em direcção da porta.

- Nem penses que é como tu queres – dizia empurrando-me para trás com gestos violentos que eu desconhecia.

"E se fosse verdade? E se ele fosse mesmo alguem perigoso?" Afinal só o conhecia há meses e a sua vida era um pouco enigmática.

Voltei-me para trás e assustada desci umas escadas à minha esquerda. Os dois lances de madeira, desembocavam numa cave escura, de cheiro a bafio, apenas iluminada por uma luz tímida e amarelada no tecto, e onde um corredor pequeno terminava numa janela com gradeamento. Nas paredes de lado, apenas as casas de banho.

Senti passos atrás de mim pelas escadas e nesse momento o meu coração galopava como um cavalo assustado. Encostada ao fim do corredor, vi primeiro uma sombra que foi ganhando aos poucos nitidez. Era o empregado que parou no fim das escadas, fitando-me de olhos semi-cerrados. Sem mais nem menos, começou a despir a camisa, botão, por botão, devagar. Por momentos senti o meu sangue congelar. Passava-me tudo pela cabeça, que ele era um assassino, que as bebidas tinham droga? Provavelmente ele queria violar-me e depois traficar os meus orgãos.

No seu peito depilado apercebi-me de outra tatuagem do lado esquerdo que ao princípio não consegui ler. “Amo-te Octávio”.

Comecei a ter tonturas, as mãos suavam e a parede atrás de mim gelava-me as costas. Ele continuava a caminhar na minha direcção e quando já estava a dois passos de mim, esticou-me do bolso traseiro das calças o meu caderno de desenhos.

- Será que pode desenhar-me também? – Perguntou de sobrolho levantado ainda com cara de poucos amigos.

Fiquei perplexa sem saber o que dizer. Agarrei o caderno, confusa, e num acto de desespero balbuciei que sim.

- Agora a sério – levantou a voz num tom ríspido enquanto abotoava a camisa – pague se faz favor a despesa do bar porque o seu amigo pirou-se sem pagar.

 

 

Escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 22:32

Aqui do alto

por Closet, em 15.03.11

 


Isto não é uma história.

Estou aqui mesmo! Nos Alpes, em Val Thorens.

Não que seja grande fã de ski, na verdade é a terceira vez que faço férias de neve e a última vez foi há 4 anos... (uiii como o tempo passa!) Mas a companhia dos amigos aliada às paisagens fantásticas fazem-me regressar com um grande sorriso (ainda que vá pensando… ah e tal, o bikini e as havaianas são muito mais confortáveis que as botas e respectivos adereços, e a toalha de praia pesa muito menos que os skis, aqueles monstros que ao final do dia pesam toneladas, but…ok!).

A minha performance neste desporto também não é assim… muito boa… é vá, razoável, safo-me e lá vou descendo com o medo a gelar-me o cérebro!! Já tinha feito aulas da primeira vez e por isso decidi este ano inscrever-me para melhorar qualquer coisinha. E lá vou eu sozinha no primeiro dia para uma aula dos que já sabem esquiar, para duas horas depois ser escorraçada para a turminha dos Beginers por ser “slowly”… pffff so what? Na verdade o tempo está um horror, com ventos fortes, pistas encerradas e nevoeiros, para quê a pressa??… e a turma dos beginers afinal eram mais ou menos do meu nível, not bad. Com um pequeno problemazinho de serem 5 holandeses que acreditam veemente que eu percebo holandês… ya ya e lá vou acenando com a cabeça com o meu sorriso 33. O professor chama-se Alan e não, não é o actor, mas é um ex-atleta de ski acrobático… just great! Bom, e só posso dizer que com ele aprende-se coisas, como hei-de dizer, diferentes. Como andar de costas, saltar com os dois skis, andar só com um ski em equilibrismo, andar de olhos fechados (e acreditem que se acaba invariavelmente no chão, mas é normal, é mesmo para isso… pfff orientação, diz ele!) e, a melhor e digna de circo, ele põe-se em pontas com os skis e com as mãos apoiadas nos bastões, assim no ar, horizontal e paralelo à montanha e nós temos de passar por baixo dele agachados na posição de ovo ( na verdade o Alan tem uma predilecção por esta bela posição e apela-nos à nossa faceta mais oculta de prazer pelo contorcionismo… well well, está a ser giro!

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publicado às 22:43

Fábrica de Histórias

por Closet, em 11.03.11

 

 

Isto não é uma história

 

Isto não é uma história de amor.

Não há um príncipe encantado, uma paixão arrebatadora ou um coração destroçado. Não há magia, emoção, nem dor. Porque então seria, muito provavelmente, uma história de amor.

Há um espírito inquieto, confuso. Num corpo solitário que foge de si mesmo, incompreendido. Porque nunca se encontra pleno. Porque se questiona sempre insatisfeito e dividido.

Isola-se numa cabana de montanha e contempla a paisagem em redor de um branco imaculado. E pensa, como seria se tudo fosse assim tão claro e límpido como a neve. Sem outras cores misturadas. Um cinzento que a invade naqueles dias em que decide pensar. Depois desmaia num castanho lamacento que lhe bloqueia a razão e um negro persistente, que a corroi por dentro, incapacitando-a de tomar uma decisão. 

Se tudo à roda fosse sempre assim tão claro como a neve, tão brilhante como o reflexo do sol.

Aconchega o corpo à manta de xadrez vermelho e apoia o cotovelo no parapeito da janela. Com a palma da mão segura a cabeça cansada e suspira por algo inexistente. Sonhado. Talvez mesmo sem sentido, inusitado.

Bebe mais um golo do chá de lúcia lima quente. O líquido percorre-lhe o corpo frio. Como o frio que está lá fora. O seu corpo é frio, admite triste. Belisca-o sem medo. Nada. Não sente dor. Já há muito que se tornara insensível.

Recosta-se para trás no cadeirão velho de tecido de flores e contempla o céu virgem azul claro da janela. Depois o tecto da cabana atravessado por uma viga escura de madeira onde uma teia de aranha envolve o candeeiro de ferro suspenso. Também assim está  ela. Pendurada por fios, frágeis e transparentes, de loucura, de irritação e medo. Teias de indecisão, que a estrangulam em segredo. Como a viga robusta que sustenta a cabana, o seu tronco sustenta a sua alma quando vagueia perdida por entre outros corpos na rua. Há dias em que não dorme, com medo da desilusão de acordar. Os sonhos viciam. Não se quer questionar. Abana a cabeça em sonolência e nega tudo o que quer evitar. 

A vida não é uma história de amor, e por isso ela prefere não contar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 22:07

Where are You?

por Closet, em 10.03.11

 

 

Assim é a vida, estradas embrulhadas sem a certeza do destino. Caminhos que se percorrem, cegos e confusos. Partidas constantes, chegadas impevisíveis. Assim é a vida, riscos num mapa amarrotado de alguém por encontrar. Uma procura incessante. Um labirinto onde não podemos parar.

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publicado às 22:25

Jardim

por Closet, em 09.03.11

 

«Quantas vezes a vida dá-nos uma segunda oportunidade?» pergunta-lhe baixinho. Apoiando acabeça no seu ombro, aconchegando-se naquele abraço.

... 

«As vezes que for preciso» responde-lhe a sorrir, afagando-lhe o rosto.

 

E ela espera por ele, naquele banco de jardim, onde juntos partilharam o mesmo sonho .

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publicado às 22:58

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