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Fábrica de Histórias

por Closet, em 20.02.11

 

A única excepção

 

(...)

Por isso digo-te de peito aberto: vai.

Corre o mundo.

Perde-te onde fores feliz.

 

P.S.: ...

todas as nossas cartas tinham um p.s. no fim, lembras-te?

Acabavam sempre com "p.s.: amo-te muito".

Era assim e, admito, vai ser dificil mudar. Vai soar, não sei... estranho.

Talvez consiga escrever o mesmo, mas de uma forma diferente. Ando aqui às voltas, a procurar uma maneira de dizer, por outras palavras, aquilo que nos habituámos a resumir em apenas duas "amo-te muito".

Mas assim é o destino. Por vezes obriga-nos a contornar e descobrir atalhos, quando os caminhos que temos pela frente são impossíveis de atravessar. Nem sempre é a direito. Há demasiadas pedras para enfrentar. Eu consigo e tu também.

Deixa-me tentar. Talvez assim:

"p.s.: nunca me cansarei de correr para os teus braços, estejas do outro lado da linha do comboio, ou na outra margem do oceano".

E aqui estou a ser eu mesma, sempre a correr atrás de ti, a pendurar-me no teu pescoço e a sufocar-te com a loucura que é perseguir-te constantemente. Prender-te a mim nos limites dos impossíveis.

Não, este p.s. não serve. Vou risca-lo. Quero risca-lo também para mim, convencer-me que é mentira. "ps: nunca me cansarei de correr para os teus braços, quer estejas do lado de lá da linha do comboio, ou na outra margem do oceano".

Pronto. Já está. Riscar é algo que se pode fazer numa carta. Basta uma caneta, um traço. Como seria fácil se pudessemos fazer o mesmo na vida. Riscar as partes que nos magoaram, que queremos esquecer, que nos incomodam a memória e apertam a alma. Simplesmente colocar um traço por cima, fechar os ouvidos ao vento e gritar «isso não aconteceu»...

Como seria?

Podia riscar a tua última carta. Aquela que rasgou a minha vida num turbilhão de contradições, gelou o meu corpo e o que restou dele no seu interior. Como seria se aquela carta fosse riscada das nossas vidas? Teríamos vivido juntos estes anos que passámos distantes? A paixão estaria ainda acesa? Não sei. Não sei se estaríamos hoje aqui nesta tempestade de emoções e desejos naufragados.Mais uma vez forçados a tomar decisões que trespassam como lanças o corpo exausto.

Não quero saber. Vou enterrar esse pedaço de memória, e deixar antes assim:

"p.s.: fazes-me rir como ninguém"

... porque rio-me tanto contigo, sempre. E sabes como rir é tão importante para mim como respirar. Toda essa tua loucura imprevisível, a tua maneira de falar, de andar, os gestos e a descontração. A forma de me olhar, com os olhos como se fossem mãos. Um olhar que sabe tocar.

Tudo isso eu reuno num riso só teu e meu. Que partilhamos os dois. A casa na montanha, a cabana junto ao mar. Tu fazes-me sonhar.

Por mais anos que passem, qualquer que seja a distância e os rumos que os nossos caminhos levarem. Com todas as descrenças que trago da vida, as inseguranças, a insatisfação constante que carrego e me cicatriza, num masoquismo visceral. Eu sei, que a única certeza que tenho é este p.s. que te deixo tatuado, ainda que não estejas a meu lado.

p.s.: tu és a única excepção

 

Texto escrito par a Fábrica de Histórias

(podem ouvir a musica inspiradora aqui no mixpod)

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publicado às 21:10


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