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Fábrica de Histórias

por Closet, em 13.02.11

 

Trina e as bolas de sabão

 

Trina olhava a noite chegar pela janela do seu quarto, tingindo o céu de negro, onde as nuvens pesadas não permitiam ver o brilho das estrelas. Trina gostava de noites assim, inspiravam-na. Acreditava que era em noites escuras e assustadoras que concebia as poções mágicas mais fantásticas. Que o barulho das tempestades a embalavam e os raios no céu davam-lhe a energia necessária.

Há muito que Trina aguardava o momento certo, aquele onde a sua feitiçaria seria perfeita. Impossível de não resultar.

«Se correr mal eles perder-se-ão para sempre» dissera-lhe a tia uma vez, quando Trina falou deste seu segredo. E desde então tinha estudado todos livros de feitiçaria, procurado nos diários mais antigos dos seus ancestrais. Mas nenhum feitiço revelava a poção para o que Trina ambicionava.

Há muito que flutuavam encarcerados em bolas gigantes, transparentes e belas, como bolas de sabão. Aqueles dois que se contemplavam viciados num amor impossível. Apenas Trina os via da sua janela. Todos os dias. As bolas tocavam-se como por magia. Coladas uma à outra pendiam no céu, balançavam com o vento, mas nunca se separavam. Invisíveis ao comum dos mortais. As mãos encaixavam uma na outra. A dela, mais pequena, cabia na palma da mão dele. Os rostos separados pelo tecido elástico grosso que não rompia. Olhavam-se nos olhos, os lábios beijavam o vazio num desejo intenso insatisfeito. Tocavam-se, sem sentir a pele um do outro. Os corpos eram vultos de uma tristeza antiga.

Trina apaixonou-se por aqueles dois amantes, queria libertá-los do feitiço, entregá-los nos braços um do outro.

Naquela noite escura preparou uma poção mágica que  iria espalhar por cima dos dois. De purpurinas brilhantes e aromas silvestres, Trina estava preparada, lançando-se na sua vassoura do alto do seu quarto.

Percorreu os dois, girando à sua volta. Eles não a viam. Mais uma vez não a viam. Apenas viam-se um ao outro, como num espelho, e sorriam.

Quando a poção cobriu as suas redomas por inteiro, elas começaram a derreter como se consumidas por uma chama gigante... Os amantes desamparados abraçaram-se enquanto descaiam, ate tocar no chão, aterrando numa imensa plantação de milho. Tocaram-se pela primeira vez, os corpos nus inquietos deitados, os lábios quentes roçaram, trincaram-se. Percorreram os pescoços, o odor da pele, confusos, de uma ansiedade fulminante. Encaixaram-se um num outro, perfeitos. Primeiro as mãos deslizavam perdidas, encontraram-se, depois os braços entrelaçados, as pernas envolvidas, as línguas percorriam-se, queimavam-se ardentes da paixão que os consumia.

Trina lá em cima ficou a vê-los deliciada, tudo neles fazia sentido, só podia ser magia.

 

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