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Fábrica de Histórias

por Closet, em 28.02.11

 

Predestinados até acordar 

 

Quando acordava, revirada para  lado esquerdo, sentia um peso a cobrir as suas pernas entrelaçadas, como se algo estivesse enganchado a si. Não era um peso incómodo, pelo contrário, era uma sensação de conforto estranho. O corpo estava agradavelmente quente. Como se uma perna pousasse por cima a noite inteira e um braço contornasse as suas costas. Ficava assim todas as manhãs, por uns segundos, de olhos fechados, absorvendo a ilusão de um corpo ausente abraçado a seu lado.

 

Dormia sempre meio de lado, atravessado, com a perna esquerda encolhida, enganchada não percebia bem em quê, era macio e quente, deixava-se estar. O braço direito agarrava-se a algo que não via, mas o seu estado embriagado de sono não o permitia questionar. Sonhava feliz aquele momento em que abraçava a noite com uma paixão e onde era penoso o acordar. 

 

Em movimentos programados, ela arranjava-se e corria para mais um dia de trabalho. Seguia o caminho de sempre, com os olhos apontando o vazio, ausentes, não reparava em nada. No homem que distribua jornais, na senhora que vendia flores. Seguia o seu caminho e apenas parava no cais dos barcos enquanto bebia um café quente e sentava-se num rochedo a olhar o mar.

 

O despertador acordava-o às 7h00. Tomava banho, vestia-se e saía de carro para o trabalho. Ouvia as musicas da rádio distraído, os ohos fitavam o infinito. Não reparava em nada. No condutor da frente que lhe acenava pelo espelho, no homem que distribuía publicidade junto ao semáforo. Parava apenas uns minutos junto ao cais dos barcos, bebia um café quente e deixava-se ficar encostado a olhar o mar.

 

Por vezes o telefone dela tocava de um número desconhecido, uma voz quente e familiar. «Estou?»dizia «Sim?»perguntava «quem fala?» 

« João» respondia. Ela não conhecia.  «É engano» Lamentavam ambos desiludidos, desligando sem questionar. 

 

Ele tinha um número de telefone na cabeça, para o qual por vezes ligava sem pensar. «Estou?»ouvia numa voz que o enlouquecia «quem fala?» perguntava a voz doce e familiar. 

« João» respondia. Ela não o conhecia. Ele também não sabia quem seria. «É engano» lamentavam ambos desiludidos, desligando uma vez mais. 

 

Recolhiam-se, entre os risos dos amigos, esquecendo o rumo que a vida podia tomar. Deixavam seguir o curso, alheios num balcão de um bar.

«Um vodka com laranja» pedia ela ao empregado. Ele pedia «Um whisky cola» sentado ao balcão num banco alto. 

Bebiam de um trago, como se o líquido fosse um veneno fatal. Um bilhete para o espaço, para uma realidade virtual. 

 

Ela olhou para o banco ao lado e sorriu ébria. Ele devolveu-lhe o sorriso com um brinde a algo que não percebeu o significado. Não importava. Brindou enfeitiçada. Como se toda a gente à volta tivesse desaparecido de repente, até o empregado do bar. Apenas estava ele ali sentado ao lado. Apenas estava ela ali a sorrir descontrolada. 

«João» dsse-lhe numa voz quente aveludada. 

«Rita» sussurrou-lhe ao ouvido, mordiscando-lhe a orelha e rindo «eu não te conheço». Um diálogo que cedo ía acabar.

«Não. Nem eu» respondeu-lhe, roubando-lhe um beijo sem perguntar.

 

Levou-a a casa no seu carro, um 1º andar sem elevador, onde acabou por ficar. Entregaram os corpos embriagados e acabaram deitados, ele revirado de lado com a perna esquerda por cima das dela entrelaçadas e o braço a enlaça-la num abraço apertado invulgar. Acordaram com a boca seca do alcool e o corpo exausto. Enrolados, como um nó apertado, estranhamente familiar, os rostos prendiam-se um no outro, os olhos questionavam sobre o que se estaria a passar. Levantaram-se embaraçados. Ele vestiu-se e saiu apressado deixando-lhe o seu número de telefone. Ela sorriu e fingiu que lhe iria telefonar.

 

Junto ao cais, ele tinha aquele número na cabeça, a martelar.  «Estou?»ouviu a voz que o enlouquecia, e ao longe podia ouvir um marulhar «quem fala?» perguntou. «Rita» respondeu baixinho, confusa. «É o João, tenho de te encontrar». 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 01:37

Doce de travo a Sal

por Closet, em 25.02.11

 

O corpo deambulava, rígido, obedecia mecanicamente aos movimentos. Arrastava-se, pesado. Um passo, depois outro, num avançar lento e cego. Ritmado. O olhar pousado no chão de cimento sujo, percorria o caminho por instinto. Sabia-o de cor, enquanto a musica rasgava-lhe os ouvidos, impedindo as vozes de entrar. As outras e as suas. Procurava no barulho o silêncio ensurdecedor. Não lhe apetecia falar. As palavas queimavam em labaredas gigantes. Ecoavam um "também" doce, de travo a sal. 

Sentou-se, sem hesitar, de costas. Era assim que se despedia de tudo o que deixou para trás. Afogava lágrimas de angústia e frustração num rosto pálido, fechado e sem expressão. Os lábios comprimidos e trémulos, lutavam contra um choro abrupto, prestes a romper. Os olhos, inundados, controlavam uma tempestade invencível, inevitável. Desaba quando perdida na noite escura, sozinha, permitia-se chorar.

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publicado às 22:25

Outro lugar

por Closet, em 22.02.11

 

É onde se perde quando não está. Em si, dos outros.

Num horizonte lonquínquo de tempo. Num infinito pulsar.

Perde-se para não ser encontrada. Por vezes fugir é o mesmo que chegar. Num marulhar de palavras que confortam a alma da brisa cortante. A cabeça voa onde o corpo não pode alcançar. Distante, mas tão perto. O interior cansado pelo ruído ofegante da frustração, da impossibilidade, do questionar. São mais felizes aqueles que vivem sem pensar...

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publicado às 23:08

Here!

por Closet, em 21.02.11

 

Um de nós está no sítio errado!

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publicado às 23:58

Fábrica de Histórias

por Closet, em 20.02.11

 

A única excepção

 

(...)

Por isso digo-te de peito aberto: vai.

Corre o mundo.

Perde-te onde fores feliz.

 

P.S.: ...

todas as nossas cartas tinham um p.s. no fim, lembras-te?

Acabavam sempre com "p.s.: amo-te muito".

Era assim e, admito, vai ser dificil mudar. Vai soar, não sei... estranho.

Talvez consiga escrever o mesmo, mas de uma forma diferente. Ando aqui às voltas, a procurar uma maneira de dizer, por outras palavras, aquilo que nos habituámos a resumir em apenas duas "amo-te muito".

Mas assim é o destino. Por vezes obriga-nos a contornar e descobrir atalhos, quando os caminhos que temos pela frente são impossíveis de atravessar. Nem sempre é a direito. Há demasiadas pedras para enfrentar. Eu consigo e tu também.

Deixa-me tentar. Talvez assim:

"p.s.: nunca me cansarei de correr para os teus braços, estejas do outro lado da linha do comboio, ou na outra margem do oceano".

E aqui estou a ser eu mesma, sempre a correr atrás de ti, a pendurar-me no teu pescoço e a sufocar-te com a loucura que é perseguir-te constantemente. Prender-te a mim nos limites dos impossíveis.

Não, este p.s. não serve. Vou risca-lo. Quero risca-lo também para mim, convencer-me que é mentira. "ps: nunca me cansarei de correr para os teus braços, quer estejas do lado de lá da linha do comboio, ou na outra margem do oceano".

Pronto. Já está. Riscar é algo que se pode fazer numa carta. Basta uma caneta, um traço. Como seria fácil se pudessemos fazer o mesmo na vida. Riscar as partes que nos magoaram, que queremos esquecer, que nos incomodam a memória e apertam a alma. Simplesmente colocar um traço por cima, fechar os ouvidos ao vento e gritar «isso não aconteceu»...

Como seria?

Podia riscar a tua última carta. Aquela que rasgou a minha vida num turbilhão de contradições, gelou o meu corpo e o que restou dele no seu interior. Como seria se aquela carta fosse riscada das nossas vidas? Teríamos vivido juntos estes anos que passámos distantes? A paixão estaria ainda acesa? Não sei. Não sei se estaríamos hoje aqui nesta tempestade de emoções e desejos naufragados.Mais uma vez forçados a tomar decisões que trespassam como lanças o corpo exausto.

Não quero saber. Vou enterrar esse pedaço de memória, e deixar antes assim:

"p.s.: fazes-me rir como ninguém"

... porque rio-me tanto contigo, sempre. E sabes como rir é tão importante para mim como respirar. Toda essa tua loucura imprevisível, a tua maneira de falar, de andar, os gestos e a descontração. A forma de me olhar, com os olhos como se fossem mãos. Um olhar que sabe tocar.

Tudo isso eu reuno num riso só teu e meu. Que partilhamos os dois. A casa na montanha, a cabana junto ao mar. Tu fazes-me sonhar.

Por mais anos que passem, qualquer que seja a distância e os rumos que os nossos caminhos levarem. Com todas as descrenças que trago da vida, as inseguranças, a insatisfação constante que carrego e me cicatriza, num masoquismo visceral. Eu sei, que a única certeza que tenho é este p.s. que te deixo tatuado, ainda que não estejas a meu lado.

p.s.: tu és a única excepção

 

Texto escrito par a Fábrica de Histórias

(podem ouvir a musica inspiradora aqui no mixpod)

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publicado às 21:10

Eras tu

por Closet, em 17.02.11

 

Eu sabia que eras tu, aqui do meu lado. O teu cheiro, a respiração apressada. Um arrepiu de frio. Tremes. E a tua pele roça na minha sem percebermos. Primeiro devagar, como um cego que tacteia uma parede desconhecida. Depois os movimentos aceleram num ritmo perturbante. Ansioso de se entregar. Um braço que me envolve e puxa. Sim, és tu, não precisava sequer de abrir os olhos. A voz quente e intensa a percorrer-me, sussurrando desejos sufocados. Teus e meus.

Afago o teu cabelo e os rostos atraem-se num magnetismo insólito. Violam-se os lábios. Primeiro violentos, descontrolados. Depois mais calmos, saboreiam-se deliciados, um e outro. Tricando. O gosto da língua que queima. Enrolo a perna nas tuas, para te prender. E tu puxas-me o corpo com o teu braço mais um pouco. A melodia de uma viola triste, ao nosso lado, parada. Ficamos juntos naquele lugar mágico até amanhecer.

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publicado às 22:51

Há dias loucos

por Closet, em 15.02.11

Tenho andado em maré de azar. É que tenho mesmo... Mas quando se chega a um limite absurdo, faço o que é melhor para a saúde: RIR... e vá, pronto, escrever!!

 

Take 1) Eu e os comboios

Ultrapassada a minha guerra com o maquinista (que mudou de horários, provavelmente só para não me ver... é possível)... ganhei novas inimizades a semana passada junto dos colaboradores da mesma empresa de transportes ferroviários...

4ªf de manhã vou carregar o passe. Depois de pagar sou simpaticamente alertada "olhe que vai haver muitas greves este mês"... pfff sentido de oportunidade do rapazinho esganiçado das bilheteiras... Dirigi-me aos torniquetes (que verdade seja dita, foi a coisa mais irritante que inventaram) e... "cartão inválido"... tento no do lado e... "cartão inválido"... pffff

Volto às bilheteira e gesticulo para o rapazinho "isto não dá"... ao que ele me gesticula abanando-se todo "Não pode fazer assim" e acena como se estivesse a limpar o pó... pffff... Acenei-lhe, já com os phones fora dos ouvidos e a minha cara 33 "EU SEI"... Lá me deixou passar à frente das pessoas na fila que me rosnaram graciosamente e vê o meu cartão na sua maquineta "Olha, não funciona... está morto...tem de pedir uma 2ª via no Cais do Sodré"... pffff...

Conto a história ao segurança para abrir os torniquetes, chego ao Cais do Sodré conto a história ao segurança para me abrir outros torniquetes... vou ao Cais do Sodré e... "ahhh isto está partido... mas como foi carregado no comboio tem de ser lá que pede uma 2ª via"... pffff... chego aos torniquetes do metro e aceno para me vir alguém abrir os torniquetes. O funcionário arrasta os pés tão devagar que cheguei a suspeitar que tinha chumbo nos sapatos... pfff... mostro-lhe o comprovativo do pagamento, conto-lhe a história e ele ensina-me que há uma campainha numa coluna para chamar o segurança na estação... Ok, passei...

Chego à minha estação... não há segurança à vista e procuro a dita campainha milagrosa. Carrego e... "Yes, abriu-se a porta"... vem disparado um segurança baixote (provavelmente escondido em complô para me irritar) e ainda diz "Não pode fazer isso, sabe que pode ser multada?"... Era mesmo o que me faltava, depois de ter pago o passe e andar naquele virote...pfff... blablabla e ao que parece carreguei no botão errado e ainda tive de levar com aulas sobre os botões que existem na coluna dos torniquetes... pfff

À tarde repito a história 4 vezes aos seguranças para me abrirem a  porta e ainda ouvi graçolas quando disse que o cartão morreu "ai sim? onde está a certidão de óbito"... pffff

5ª f volto vou aos guichés dos comboios e "ah e tal era os serviços do Cais do Sodré mas dos comboios" ahhhh... pffff... volto a repetir a história 2 vezes aos seguranças para me abrirem os torniquetes (e sim, pensei seriamente em munir-me de uma gravação) e vou directa aos serviços de apoio do cais do sodré, mas afinal era nas bilheteiras... "ah e tal tem de preencher o papel e tirar uma fotografia, tem uma máquina ali atrás. Depois de o tentar convencer sem sucesso que podia tirar uma foto como o meu telefone e envia-la alizinho digitalizada "no way"... Lá fui eu lançada para um cubículo daqueles ridículos tapados por uma cortina, insiro 5 euros por 4 fotografias lindas de morrer e volto para a bilheteira e entrego tudo ao homem com ar sonolento. "Ahh não posso aceitar isto" diz enquanto olha para as minhas fotografias... "What??"... só podia estar a gozar comigo, pensei... não sou propriamente uma manequim mas... comecei a protestar com o homem a dizer que não tinha culpa que as cores fossem desmaiadas, que a culpa era da máquina, blablabla (mas porque raio eu não pus blush naquele dia?? ) ao que a criatura me interrompe "não vê que as fotografias estão riscadas?"... "what???"... puxo dos meus óculos e observo de perto as ditas fotos, efectivamente com riscos na minha cara... ao que respondi logo "Não tenho culpa, a máquina estava vandalizada com grafitis..."... tststs "não posso aceitar isto, lamento"... repondeu o simpático mesmo depois de eu lhe dizer que trazia uma foto ao fim do dia, que mandava por email e que lhe deixava o meu nº de telefone tststs... "não posso aceitar, ahhh e não venha cá amanhã que estamos de greve"... pffff... confesso que desci as escadas de tal forma enraivecida que já não consegui falar com o segurança e simplesmente ordenei "abra-me os torniquetes" e acenei-lhe com o comprovativo do pagamento... passo por outra máquina fotográfica... tststs... lá arrisco nova fotografia (e dou por mim a limpar o vidro com um lenço de papel), volto ao guiché do simpático e entrego a fotografia com desprezo "veja se esta serve"... lá consegui o cartão de subtituição... pfff

 

Take 2) eu e os policias

 

6ªf a greve prometida... e eu também já tinha prometida uma multa por fazer uma transgressão num lugarzinho que há não um, mas dois traços contínuos... sinceramente é ridículo, aquilo há uns tempos não estava ali e ainda tentei na minha cabeça brilhante arranjar uma justificação igualmente brilhante para a mulher-polícia... mas não consegui: multa de 49 euros... bom, poda ter sido pior...

 

Hoje, greve outra vez magnífica de comboios, confusão total para chegar a Lisboa... atrasada mas ... cheguei... ponho dinheiro no parquímetro e vou deitar fora o que restou do temporal de ontem do meu chapéu de chuva. Mandei o dito para dentro de um caixote de lixo perto do carro e sigo para o trabalho.

Ao almoço vou para o restaurante mesmo ao lado do meu trabalho, almoço tranquilamente e, quando vou a pagar, cadê a carteira??... procura, procura (e não, não é nada pequena apesar da minha mala XL)... e Nada! "Deve ter ficado em cima da minha secretário" pensei... e voltei para o trabalho... cadê a carteira? Nada! Pensei, pensei... "e se eu a deitei para dentro do caixote de lixo?"... quem me conhece menos bem abanava a cabeça "impossível", enquanto a minha amiga disse logo "vamos ver"... fomos em busca do Caixote de Lixo perdido. Chego ao local e... cadê o caixote?? "alguém o levou", nesta altura a minha amiga já olhava para mim "helloooo??" Perguntámos pelo caixote de tampa castanha (sim, porque era um caixote diferente, eu reparei...e sim, comecei a sentir-me a Alice no País das Maravilhas....) nos restaurantes e cafés à volta e indicaram-me um local onde guardam caixotes de lixo "Aha... há um local ali onde escondem caixotes de lixo, é sempre bom saber!!"... Lá estava ele de tampa castanha e uma pega vermelha. A minha felicidade ao vê-lo foi tão grande como ver um parente que não se vê há anos... Abri-o e lá estava o meu chapéu que mostrei triunfante à minha amiga que, naquele momento, já estava convencida que era desta que eu tinha perdido os pirolitos de vez...

Escavámos com o bico do chapéu por entre pasteis de nata, rins e  queques em miniatura do dia anterior e... nada... até que o meu cartão do trabalho cai dentro do caixote ... balanço-me para dentro do caixote e, por momentos, os meus pés deixam de tocar no chão e quase quase que caía de cabeça para dentro do caixote... pfff

Passei uma tarde agradável na esquadra a fazer uma participação, repetindo pormenorizadamente os passos que dei no meu dia, incluindo as ídas à casa-de-banho (e não, eu não levei para lá a minha carteira...) e, mesmo sem mostrar qualquer interesse, fiquei a saber as histórias mais mirabolantes sobre a actividade profissional e lucrativa de "carteirista"... pfff

 

Resta-me lembrar da minha cabeça quase a aterrar em pasteis de nata para me rir...

E sim, sem um único documento de identificação sinto-me ... livre! Chamem-se Scarlet Johanson sim??

 

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publicado às 23:34

Fábrica de Histórias

por Closet, em 13.02.11

 

Trina e as bolas de sabão

 

Trina olhava a noite chegar pela janela do seu quarto, tingindo o céu de negro, onde as nuvens pesadas não permitiam ver o brilho das estrelas. Trina gostava de noites assim, inspiravam-na. Acreditava que era em noites escuras e assustadoras que concebia as poções mágicas mais fantásticas. Que o barulho das tempestades a embalavam e os raios no céu davam-lhe a energia necessária.

Há muito que Trina aguardava o momento certo, aquele onde a sua feitiçaria seria perfeita. Impossível de não resultar.

«Se correr mal eles perder-se-ão para sempre» dissera-lhe a tia uma vez, quando Trina falou deste seu segredo. E desde então tinha estudado todos livros de feitiçaria, procurado nos diários mais antigos dos seus ancestrais. Mas nenhum feitiço revelava a poção para o que Trina ambicionava.

Há muito que flutuavam encarcerados em bolas gigantes, transparentes e belas, como bolas de sabão. Aqueles dois que se contemplavam viciados num amor impossível. Apenas Trina os via da sua janela. Todos os dias. As bolas tocavam-se como por magia. Coladas uma à outra pendiam no céu, balançavam com o vento, mas nunca se separavam. Invisíveis ao comum dos mortais. As mãos encaixavam uma na outra. A dela, mais pequena, cabia na palma da mão dele. Os rostos separados pelo tecido elástico grosso que não rompia. Olhavam-se nos olhos, os lábios beijavam o vazio num desejo intenso insatisfeito. Tocavam-se, sem sentir a pele um do outro. Os corpos eram vultos de uma tristeza antiga.

Trina apaixonou-se por aqueles dois amantes, queria libertá-los do feitiço, entregá-los nos braços um do outro.

Naquela noite escura preparou uma poção mágica que  iria espalhar por cima dos dois. De purpurinas brilhantes e aromas silvestres, Trina estava preparada, lançando-se na sua vassoura do alto do seu quarto.

Percorreu os dois, girando à sua volta. Eles não a viam. Mais uma vez não a viam. Apenas viam-se um ao outro, como num espelho, e sorriam.

Quando a poção cobriu as suas redomas por inteiro, elas começaram a derreter como se consumidas por uma chama gigante... Os amantes desamparados abraçaram-se enquanto descaiam, ate tocar no chão, aterrando numa imensa plantação de milho. Tocaram-se pela primeira vez, os corpos nus inquietos deitados, os lábios quentes roçaram, trincaram-se. Percorreram os pescoços, o odor da pele, confusos, de uma ansiedade fulminante. Encaixaram-se um num outro, perfeitos. Primeiro as mãos deslizavam perdidas, encontraram-se, depois os braços entrelaçados, as pernas envolvidas, as línguas percorriam-se, queimavam-se ardentes da paixão que os consumia.

Trina lá em cima ficou a vê-los deliciada, tudo neles fazia sentido, só podia ser magia.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:30

voa

por Closet, em 11.02.11

 

Voa entre os dois. Os segredos cúmplices.

Guardados entre as teias do tempo, asfixiados de impotência

embargados de incompreensões.

Disse-lhe «eras tu quem eu queria, para sempre»,

mas o vento levou-o, para longe.

Arrastou-o sem perceber porquê.

Diz-lhe agora baixinho «eu também quero-te tanto».

E não sabia. A névoa que tingiu o caminho, abafou-lhe a razão.

Desapareceu.

Voa entre os dois a conversa e o riso,

imparável, viciante, envolta em ilusões.

O mundo à volta deixa de fazer sentido, minusculo, perde a cor.

Deambulam confusos na realidade que evitam  e negam. 

Vivem fantasias que desenham em sombras na escuridão.

Voa o tempo sem rumo, 

onde um foco de luz gritante

aponta por um buraco a direcção.

Um raio de sol incómodo trespassa-o

Ilumina-o de prazer, queima-o de dor.

Desamparados, lambem as feridas, que ardem sem cura

e guiados por a luz esperam. Mais uma vez, esperam o destino,

aquele que os entreguerá um dia,

nos braços que apertam, um e outro, em solidão.

 

 

 

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publicado às 00:38

Partir

por Closet, em 09.02.11

 

Naquele dia ele tomou o café da manhã, como fazia sempre. Os gestos automatizados, com os olhos pousados na torrada e o pensamento ausente. Já não era ele que estava ali à sua frente. Era apenas um corpo frio, despojado de vida, inexpressivo. Sem sangue a bombear-lhe as veias, sem o perfume de uma noite ardente de prazer. Habitava nele um silêncio profundo, como se tivesse caído num abismo enorme rochoso. Talvez por isso não foi difícil vê-lo partir.

Os seus olhos cruzaram-se pela última vez à porta. Recorda, como se atravessasse um deserto imenso na sua memória, como antes esses olhos a invadiam insaciáveis, percorriam toda a sua pele, que arrepiada explodia de desejo. Desejo... ironicamente ele desejou, desejou «bom dia», por entre os lábios que asfixiavam uma vontade de partir. Uma vontade incontrolável, transparente e crua. «Porque não parte?» pensava enquanto acenava um adeus moribundo. Num ritual triste e fúnebre. «Talvez o último adeus», pensava ao vê-lo afastar-se pela janela.

Naquele dia ele não regressou. Não regressou mais. Como o sangue a jorrar num vermelho intenso, derramando pelo seu corpo inteiro, ele retomou a vida.

Ainda assim ela esperou. Ficou à espera. Porque tinha saudades daquele olhar antigo e penetrante, que sorria poesia.

Esperou pelas mãos que há muito não a tocavam, desapertando lentamente cada botão da sua camisa, numa respiração frenética e descontrolada. Esperou para saciar a fome de tê-lo de volta, voraz, improvisado.

Ele já não voltou. «Partiu» convenceu-se. «Desistiu cobardemente».

Partir sempre foi a forma mais fácil de desamar.

 

(um texto antigo aqui do Blog que reescrevi para o meu cursinho :)... à falta de tempo de escrever só textos para aqui...sorry ...)

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publicado às 01:45

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