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Fábrica de Histórias

por Closet, em 23.01.11

 

«Cartas são papéis, letras são sinais»

 

Um dia olhamos para cima e vemos o mesmo céu”.

Escreveste com mel sobre o papel. E talvez por ser doce, acreditei que todas as noites veríamos as mesmas estrelas. Assim desenhando as mesmas formas no tecto, imenso, pincelado a azul-escuro.

E em todas a noites abandonadas a tons de negro e cinzento eu perguntava-me se, naquele momento, estarias a ver brilhar estrelas num céu azul diferente. Aquelas que eu não conseguia ver, talvez por não estar contigo.

Um dia vemos o mesmo céu”.

Escreveste com a certeza de um cruzado que parte confiante para uma missão. Entregaste-me o corpo em palavras, destemido, invencível. E eu abracei-o desesperada, como se fosse a ultima vez. Apertei-o com os braços trémulos, com a força da fé.

Quando li, pensei que as palavras estariam bordadas a uma linha grossa indestrutível. Presas num tecido de estopa espesso, uma napa rija. Palavras firmes e convictas. Que rasgavam como uma lâmina por dentro, num espaço que fugia entre nós infinito. Um tempo que passava num plano lento, deixando o tecido envelhecido.

Todos estes anos, olhei para o céu à procura de ti. Talvez uma estrela cadente trouxesse a resposta para tudo o que não entendi. A ausência que amarga o tempo, numa ferida que nunca se cura. Um golpe que sangra abundante numa hemorragia profunda. Pensei que morria aos poucos. Ou talvez simplesmente deixasse de sentir. Por vezes olhava para o céu e via turvo, sem cor, e sentia o chão a fugir. As tonturas dos dias que passaram por mim marcando um caminho sem rumo. Paralelo às palavras tatuadas na pele, cravadas no peito, alheias à vida.

Só hoje percebi que aquelas palavras eram sinais do tempo. Daquele que existia, batia e pulsava, nos sonhos de adolescente. Em palavras que eram melodia, mas efémeras como algodão doce. Palavras com a magia do primeiro beijo, que nos arrepia por todo o corpo.

Olhei para o céu esta noite e ainda não vi o caminho. Mas vejo um brilho ao fundo que me faz sentir viva de novo. A carta não sei onde está, é apenas um pedaço de papel. As letras são estrelas em mim, coordenadas para me encontrar. Não sei onde vou, quando vou, nem que estrada seguir, mas sei que vou olhar para o céu em qualquer lugar.

 

texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:10


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