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O bilhete usado

por Closet, em 09.11.10

Era um átrio apertado de gente. Confuso, estridente.

Cambaleava arrastada pela multidão. Entre um ruído feliz de gente agitada que esbracejava entre malas cuspidas para o tapete que serpenteava num ritmo fúnebre rasteiro ao chão. Repetitivo, como uma imagem holográfica. Havia naquele vai e vem um pesar triste. Doloroso. Como um filme antigo, que passa em câmara lenta, sem cor. Naquele rodopio, abandonada, via a minha mala enorme, de um plástico castanho riscado, despojada no tapete outrora preto brilhante e agora negro baço. Amolgada de dor, empurrada. Eu olhava-a com compaixão e sentia-me como ela, desamparada, aos trambolhões. Carregada de sonhos mortos, desejos frustrados, egoístas. Parecia cheia, mas por dentro não trazia nada, vinha esventrada, órfã de vida.

Peguei nela, como quem levanta o caixão de um familiar morto, muito querido. Arrastei-a pelo passadiço cinzento do corredor, encardido de passos apressados, até às portas que nos inundavam de uma outra multidão, ainda mais barulhenta e incómoda.

Lá ao fundo, uma cabeleira de canudos dourados dos seus 90 cm esperava-me com os olhos verdes cintilantes. Acenava, agarrada pela mão do pai, quase levantava os pés do chão para me chamar.

Tremi num choque a que a realidade obriga. Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos que me assaltavam e cortei com os dedos trémulos as lágrimas que teimavam deslizar. Num reflexo incontido, meti a mão no bolso.

Não media mais de 6 centímetros.

Apertava-o constantemente entre os dedos, dentro do bolso do casaco. Como para me certificar que ainda lá estava, que não tinha sonhado. Consumido e dilacerado, aquele pedaço velho de papel usado. Que foi tudo e já não era nada.

Não durou mais de 4 horas.

O tempo suficiente da viagem para deixar uma vida estilhaçada. Também ele estava amputado, incompleto, de cantos revirados.

Falava comigo numa língua que não percebia e trazia com ele o aroma ensombrado do passado. Até a tinta fugia do seu corpo azul sujo e branco gasto, alimentando apenas memórias suadas, inscritas na pele a tinta negra esborratada. Percorria-o por entre os dedos, angustiada.

Não pesava mais de 1 grama.

Mas carregava com ele o poderoso ruído do arrependimento. Da insanidade. Gritava, cobardemente entre os meus dedos, o desejo insaciado de uma felicidade abandonada. Das mãos que deslizavam sobre a pele sedenta, do corpo quente que cobria o meu por completo num abraço. Das palavras, mágicas, que beijavam com a doçura do mel. Era um paraíso perdido, como uma ilha esquecida num mapa, a salvação para um barco a naufragar. Embati nessa costa macia em hipotermia, ferida por uma outra vida. Abrigou-me no seu refúgio translúcido, deu-me paz, alimento e calor. Um nova vida, diferente, tão perfeita quanto impossível.

Hoje sei que podia ter afundado com o barco em alto mar. Deixei de respirar, apenas, o movimento monótono de entrada e saída de ar. E viver era mais do aquele espasmo respiratório, aquela estúpida corrente de ar. Encontrei-me em mim naquele abrigo. Voltei a sentir e a pensar.

Era só uma a decisão. Só um o caminho.

Sinuoso, sangrento. Como uma hemorragia que não estanca a brotar dum golpe profundo infectado, um latejar permanente. Olhei para a frente.

 

Os meus olhos seguiam-na enquanto descia o passadiço e as pernas tremiam cada vez mais. Fazia cinco semanas que não a via. Tanto tempo, pensei, e ao mesmo tempo, corre tão rápida a vida.

A minha pequenina, largada da mão do pai correu no meu encalço, entrelaçando-se ao meu pescoço com os seus bracinhos delgados vestidos com uma blusa de flores miudinhas rosa e lilás.

Levantei-a no ar, ainda enrolada em mim como uma écharpe. Encaixada com as pernas à volta da minha cintura como se fizesse parte do meu corpo novamente. O perfume cítrico Tartine et Chocolat e as unhas pintalgadas de rosa com purpurinas brilhantes. Mostrava-me orgulhosa como ela tinha conseguido pintá-las sozinha, lembrando-me das brincadeiras que tínhamos às manicuras.

- «Vês mamã, pareço uma princesa». E os meus olhos enchiam-se de lágrimas enquanto lhe sorria.

Tinha apenas 4 anos, vestidos de alegria numa saia de ganga com uns sapatinhos rosa de fivela. A voz ecoava num timbre fininho inconfundível, demasiado alto, próprio da sua idade. Apertava-a contra o meu peito sem a conseguir largar. Precisava tanto daquele abraço forte ancorado no meu pescoço. Ela também precisava do meu.

Caminhei com ela nos braços até ao carro com a certeza de que tinha comigo o maior tesouro do mundo. Segurei-o bem, a sua mão pequenina que me agarrava com força.

Pelo caminho, perdi o bilhete do passado. A mala ficou esquecida no hall das chegadas.

 

(texto para o curso de escrita sobre um bilhete de avião). 

 

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