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Ideias Vagas

por Closet, em 21.10.10

 

(imagem da Internet)

 

Ando a aprender a trabalhar ideias vagas. Que surgem em pensamentos com emoção, mesmo que inconscientes e dificeis de concretizar. Não importa! São ideias vagas, frases soltas, que se penduram no nosso cérebro como num estendal ao sol. Devemos prende-las com molas e deixa-las secar. Para as vestir depois, mais enxutas, bem passadas com a emoção com que nos brindaram da primeira vez.

Bem... e ideias vagas tenho tantas... precisava de andar com um gravador para apanha-las todas! Vou anotando algumas e, um dia, de alguma forma acabo por concretiza-las numa imagem com emoção.

 

E, no cansaço do momento, tenho esta ideia vaga na minha cabeça.

 

Tudo começa como acaba.

Acaba num corte gelado que queima a pele e cicatriza a carne. Num abandono de si.

Tudo acaba, de forma expectável e cheiro moribundo. Enterrado numa sombra fria do passado.

Num vazio que ecoa profundo, vindo do Nada.

Torna-nos tristes, amargos de dor, vagabundos de vida.

Para depois, começar novamente a cada oportunidade fugaz,

num novo dia, arrepia-se a pele rasgada com um sopro de luz,

invade-nos a esperança desnorteada dum arriscar,

reinventar de nós mesmos, de matar o Nada.

Esse Nada onde se começa e acaba.

Faze-lo renascer das cinzas, atordoado, e esculpi-lo docemente,

Limpando as lágrimas de mágoa e acreditando que é Tudo, outra vez.

 

(disparates vagos, anyway!)

publicado às 02:14

Bilhete usado

por Closet, em 18.10.10

Estava eu ontem a escrever uma história sobre uma viagem de avião e hoje calha-me nas mãos um bilhete de avião, ou melhor, um bilhete usado. Assim foi um dos exercícios da aula de escrita, a partir de um objecto que nos foi distribuído aleatoriamente, tinhamos de descreve-lo com alma, pormenorizadamente, com o sentimento de DOR... ahhh... e em 5 minutos, sim?? é sempre a abrir...!!

 

 

«Não media mais de 6 centímetros.

Apertava-o constantemente entre os dedos, dentro do bolso do casaco. Como que para me certificar que ainda lá estava, que não tinha sonhado. Consumido e dilacerado, aquele pedaço velho de papel usado. Que foi tudo e já não era nada.

Não durava mais de 4 horas.

O tempo suficiente da viagem para deixar uma vida estilhaçada. Também ele amputado, incompleto, de cantos revirados.

Falava comigo noutra língua, que não percebo, e traz com ele o aroma ensombrado do passado. Abandonado. Até a tinta fugia do seu corpo azul sujo e branco gasto, alimentando apenas memórias suadas, inscritas na sua pele, a tinta negra esborratada. Percorria-a por entre os dedos cansada.

Não pesava mais de 1 grama.

Mas carregava o poderoso ruído do arrependimento. Gritava, cobardemente entre os meus dedos, o desejo egoísta, insaciado, de voltar atrás, mais uma vez.»

publicado às 23:37

Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.10.10

Outono acordado

 

Este Outono tinha chegado com uma surpresa inesperada, uma bomba que tinha explodido na sua vida. Uma bomba que ela procurara tantos anos, por toda a parte, mas que já julgava perdida, desactivada. E, de repente, ela surge e estilhaça, mais uma vez, a sua alma fragmentada. Espalha a magia por todo o seu corpo que reage mecanicamente, sem saber. Tinha de ir.

- Leva só bagagem de mão?

- Certo – respondeu sem desviar os olhos do bilhete que segurava.

- Mas o seu bilhete é só de ida? Vai ficar pouco tempo? - Continuou a funcionária magrinha de voz esganiçada e olhar provocador.

- Não sei. Logo se vê – respondeu agarrando os documentos e voltando as costas.

“Passar os seguranças, entrar no avião, não pensar em nada” era este o percurso, uma coisa a seguir a outra. Não podia distrair-se a pensar em mais nada. Não podia voltar atrás. Estava ali agora, tinha de ir.

Era para Veneza, mas podia ser para outro sítio qualquer. Nunca tinha ido a Itália, mas isso também não a preocupava. O lugar era irrelevante. Desde que ele estivesse lá para a receber. Desde que ele estivesse lá. Desde que ele estivesse. Repetia.

Este era um Outono de esperança, apesar da batalha sangrenta de sentimentos com que se debatia no interior. Ao contrário do Outono de há muitos anos atrás, onde a esperança foi substituída por uma lágrima grossa de tristeza que lhe inundou o rosto durante os Outonos seguintes. O Outono onde os seus planos de vida foram destruídos e a desilusão apoderou-se de si, esvaindo-se lentamente até não restar um pingo de emoção. Até a pele transformar-se num tom pálido frio e não distinguir o aroma de um perfume primaveril. Esse Outono, de há muito tempo atrás, levou com ele tudo o que ela acreditava, os sonhos mais inocentes e puros, tudo pelo qual ela corria.

Nunca mais tinha corrido assim atrás de nada, nem de ninguém. Nem tinha amado alguém sequer, talvez porque passou a acreditar que amar era apenas um verbo do dicionário. Uma palavra, que se escreve ou fala, e que ela julgara ter cicatrizado na sua pele quando pensava ser muito mais que uma palavra, que um verbo para conjugar.

Quinze anos depois, ou talvez mais, perdera a conta, o Outono rompera novamente na sua vida, pedindo uma nova oportunidade. Levava-a a Veneza, por ironia ou destino, uma cidade povoada de amor. O amor que perdera e que, agora, como um boomerang voltava para trás. Sedento. Ousado. Um amor mais velho, marcado pelo tempo que as fotografias não escondem. Um amor doente de louco, demente, de quem não pensa antes de falar. Encontrou inesperadamente o amor de sempre, como se o tempo não tivesse passado, como se os ponteiros não tivessem avançado do lugar. E agora não sabia como voltar atrás. Como ignora-lo? Fingir que não existe? Tinha de o ver, tinha de o abraçar, tinha. Repetia.

Agora que estava a poucas horas de chegar, os 900km/hora era uma velocidade ridicula, insignificante, comparada com o batimento descompassado do seu coração. Nervosa, como uma criança no primeiro dia de escola, como uma adolescente no primeiro beijo. Ansiosa, questionava-se se o Amor que estava adormecido, enterrado, podia acordar. E como seria, neste Outono, o aperto desse abraço, o sabor desse beijar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 21:52

What's life for?

por Closet, em 17.10.10

publicado às 01:01

Esqueço

por Closet, em 16.10.10

 

«Esqueço o tempo. O tempo esquece-me. As palavras descem dos céus e banham-me. Lembro-me de ti. Enquanto escrevo, o tempo derrama a tinta da tua pele na folha vazia. E o meu peito que dantes ardia volta a ser teu. Só teu. O meu coração volta a ser teu. Poisa novamente nas tuas mãos para tu o abrires. Para tu o dilacerares. E então beijas-me. Os teus lábios são a folha de papel. E eu bebo o teu sal, o teu mel, lentamente, nos meus lábios gretados, nos meus olhos cerrados, eu vejo-te nos braços do vento a dançar para mim. E a noite não tem fim.(...) Esqueço o tempo. O tempo esquece-me em ti. Abraça-me nos teus laços apertados, na tua casa sem portas nem janelas. Sem paredes nem telhados. Abraça-me nesse tua casa cheia de sonhos mal fadados, onde eu tantas vezes sonhei. Onde eu teantas vezes me perdi, tantas vezes nos teus braços compridos e quentes me encontrei. Onde te amei. Onde te encontrei demoradamente no tempo. Como se ama sem se ver. E se cega de tanto olhar.(...).

Pedro Lucas in Contos da Casa da Imaginação

publicado às 22:20

Attempt

por Closet, em 14.10.10
 
O amor não reside na outra pessoa mas naquele pequeno espaço que existe entre as duas, na tentativa de compreender e de partilhar.

 

 

 

publicado às 23:17

Inspiração

por Closet, em 14.10.10

Sempre fui uma contadora de histórias.

Quando a vida me passa rasteiras, esquece-se de mim ou tenta derrubar-me, eu troco-lhe as voltas. Dou a volta à história.

Acho que fui assim a vida inteira. E de tantas histórias que conto às vezes não sei distinguir se alguma é verdadeira, ou se é tudo a fingir. E entro nelas como por magia, num turbilhão de emoções. Misturo caras, corpos e corações.

Sempre gostei de inventar histórias. 

As que me fazem sorrir, ou preenchem a minha alma, romântica, anarca, instável. Histórias que transportam para outras vidas, impossíveis de viver. Envolvo-me nas minhas histórias, livremente, às vezes um pouco a correr. Porque a cabeça já voou para outra história, uma ideia que se atravesou na minha mente de repente. Assim, sem dar por isso coloca-me logo num rebuliço. Um agitação enorme que é ter uma ideia a fervilhar, e depois... a dficuldade em dar-lhe corpo e pernas para andar. Com estrutura bem definida. A história não precisa ser esticada, ser comprida. Mas tem de ser bem contada. Estou cada vez mais exigente, não quero que lhe falte nada. Que a compreendam do principio ao fim quando a lerem, e não fiquem embasbacados a olhar para mim...

 

Psssttt... vou contar-vos uma historia. Ele era louco por ela, ou era só louco, mas eu mudei a história. Ela gostava dele, adorava-o na verdade, mas eu conto de outra maneira. Amaram-se de forma desumana, insana, com sofreguidão. Como numa bebedeira descomunal, perderam-se um do outro, correu tudo mal. Ou bem, depende do que vem a seguir. Anos depois ele apareceu à porta dela a sorrir. E agora que o mote está lançado, fico tonta ao vê-lo girar. Para um lado ou para o outro, será que ela o vai aceitar?

publicado às 00:03

alma gémea

por Closet, em 12.10.10

 

Hoje à noite perdi-me da lua.

Procurei-a na escuridão por entre os passos apressados da calçada. Varrida por becos sombrios, despidos de vida.

Deparei-me de repente com duas almas gémeas. De corpos entrelaçados num banco tímido de jardim, transpiravam o luar.

Absortos, nem deram conta que eu me aproximava.

Não sei se furiosa ou espantada, perguntei-lhes se eram almas gémeas. Que sim, acenaram, atrapalhados, por eu ter descoberto o segredo que guardavam.

Roída de inveja por terem roubado a lua, sentei-me no banco do lado e resolvi explicar.

- Sei que são almas gémeas e que têm convosco o luar. Transpiram o seu odor nos corpos de prazer exaustos.

A pele entranhada, funde-se e confunde-vos, sem saberem exactamente quem é um e o outro. O olhos irrompem-se violentamente, como se estivessem a lutar. As palavras puras soltam-se embriagadas no silêncio dos braços que deslizam estridentes e alvoraçados. Pernas que rasgam os restos de tecidos gastos, ansiosos, por se abandonar. E os lábios, trémulos, impacientes, esbarram onde o início não tem fim. Deleitam-se demoradamente, tropeçam, tincam-se, amarram-se. Tudo em vosso redor brilha num magnetismo partilhado e imortal. Seguro, encondido entre o peito, apertado, bate desassossegado o luar.

publicado às 23:15

Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.10.10

Sabor do Verão

Julho era o seu mês preferido. Calor, dias compridos e ainda muitos dias de férias antes de começar as aulas. Naquele ano ia passar duas semanas com a sua amiga Sofia à terra dos avós maternos, perto de Viseu. Pouco ou nada conhecia daquela zona, mas ir para um local totalmente novo era acima de tudo entusiasmante para os seus 16 anos.

Quando chegaram viu que afinal "a terra" pouco tinha para fazer. Um único café-restaurante-bar servia aquela população e acabaram por passar os primeiros dias enfiadas em casa a ouvir música e televisão.

Uma certa noite mais quente decidiram dar uma volta pela aldeia, "apanhar gambuzinos" disseram aos avós a rir, conscientes que os senhores não tinham sequer percebido a piada. Deram a voltinha do costume até ao café transformado agora em bar, com meia dezena de homens a jogar cartas enquanto bebiam cerveja pelo gargalo da garrafa com um cigarro adormecido no canto da boca. Já estavam de volta quando ouviram umas gargalhadas ao fundo, numa ruela sem saída.

- O que é aquilo - perguntou Joana à sua amiga.

- Sei lá, nunca fui para ali, pensei que fossem currais.

- Vamos ver? - Joana puxou Sofia pelo braço divertida com a aventura.

Sofia não era tão aventureira e talvez fosse até mesmo medrosa, por isso puxou-a para trás assustada.

- Estás louca? e se é alguém?

Joana já não a ouvia e continuava em frente, pé ante pé, para não fazer barulho, em direcção a uma porta baixa do que parecia uma casinhota antiga com apenas uma janelinha alta. Fez sinal para amiga:

- Anda, claro que é alguém, de preferência pessoas, habitantes da terra, o que é que achas?

 Colocou dois tijolos que estavam a um canto no chão e empoleirou-se na janela, apoiando um pé num buraco da parede de pedra. Lá dentro um grupo de quatro rapazes, dois deviam ter a sua idade e os outros talvez um pouco mais velhos, com cerca de 18 ou 19 anos, bebiam vinho nuns copos de vidro baixos que abasteciam directamente de uma pipa. Riam-se efusivamente e, pelas suas cores, adivinhava uma enorme bebedeira a instalar-se.

- É uma adega - disse, continuando empoleirada a espreitar.

Joana não conseguiu deixar de reparar num rapaz alto mas com um rosto ainda de miúdo, que andava em pé desengonçado, provavelmente a imitar algo ou alguém enquanto os outros riam. Tinha uns olhos redondos, imensos, numa cor avelã que sorria. Quando se preparava para descer Sofia assustou-a com um grito estridente que a fez desequilibrar e cair estatelada no chão.

Quando ergueu a cabeça já se encontravam dois rapazes à sua volta.

- Olha, um meteorito! - disse o rapaz de olhos avelã para o outro, mais velho, soltando uma gargalhada.

- Não te disse que hoje ainda íamos ter sorte Tomás - respondeu o outro a rir também.

Sofia estava em cima de um tronco de árvore caído no chão com ar assustado. Ainda gaguejou.

- tátátás bem Joana?

Joana rosnou um "estou" entre dentes sacudindo a mão dos rapazes que já a estavam a içar.

- Foi um rato, Joana, tenho a certeza, era uma ratazana enorme...

Joana continuou a sacudir as calças de ganga irritada por ter sido descoberta daquela forma vergonhosa.

- Onde está essa malvada? - perguntou Tomás apontando uma lanterna de bolso em vária direcções como se fosse um detective em pleno rasto de um criminoso. - Será que também caiu do céu com vocês?

- Olha, vamos esperar um bocadinho aqui fora, quem sabe hoje seja noite de cair meteoritos destes para alegrar as vistas - gracejou o mais velho olhando a Sofia de cima a baixo.

- Sim, fiquem aqui e acabem de beber aquela pipa. Tenho a certeza que vão ver cair meteoritos, assim às paletes mesmo - resmungou Joana indo para junto de Sofia e puxando-a para o chão.

Tomás sorriu subitamente com os olhos, transparecendo um trejeito meigo, algo envergonhado, que atingiu Joana como um raio. O olhar dele entranhou-se-lhe na pele, perfurou-lhe os sentidos e bloqueou-lhe a razão. Talvez por isso não hesitou quando ele lhe perguntou piscando um olho desajeitado:

- E se em vez de meteoritos, cairem pipas de vinho? Acompanhas-me num copo?

- Seria um fenómeno cientifico importante, acho que vale a pena arriscar...

Nem o arregalar de olhos de Sofia, seguido de uma cotovelada, impressionou Joana, que entrou na adega ladeada de Tomás a fazer-lhe vénias como se fosse a rainha de Inglaterra.

Aquele foi o vinho mais amargo que alguma vez tinha provado, assim naquele copo bafiento, isolado. Mais tarde percebeu que o vinho se tornara quente e doce e que deixava os labios agradavelmente dormentes. Saboreou-o directamente dos lábios carnudos de Tomás e teve a certeza que o sabor do Verão seria para sempre aquele. Um doce quente dormente. Inesquecível. Sem margem para dúvidas. 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 23:19

Beijo na cara é que não!

por Closet, em 08.10.10

 

Fazemos assim: tu chegas primeiro e eu depois. Ou chegamos ao memo tempo os dois. Tanto faz. E quando chegarmos, seja em que lugar for, olhamos-nos nos olhos e sorrimos. Aproximamo-nos devagar, ou talvez seja a correr, não vou prometer nada... logo se vê. Mas não te dou um beijo na cara. Desculpa, mas não consigo. É... estranho. Nunca te dei um beijo na cara, nem saberei como fazê-lo contigo.

Os narizes iriam andar a bater um no outro para o mesmo lado e os lábios perseguiriam-se desvairados. Não, a sério, não consigo.

Pode ser um abraço apertado, um aperto de mão demorado, uma palmada nas costas...sei lá, o que quiseres. Pode ser que até te derrube com a excitação e acabamos os dois a rebolar no chão. Ou na água. Em qualquer lado. Desde que caiamos juntos tanto se me dá a confusão. Agora, um beijo na cara é que não! Desculpa, não consigo!

publicado às 00:47



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