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Fábrica de Histórias

por Closet, em 24.10.10

 

O Bar sozinho 

 

Estava um agradável fim de tarde de Setembro, correndo apenas uma brisa ligeira. O sol descia em direcção ao mar e os largos cadeirões de madeira branca almofadados pareciam ainda mais vazios. Até os alegres chapéus de palha naquele final do dia pareciam tristes. Talvez faltasse música naquele bar. Quero dizer, havia música, mas tocava baixinho. Talvez porque não se ouvia risos de pessoas a conversar, a trocar beijos e abraços. Não havia vida. O bar estava sozinho.

De repente a música fez-se ouvir mais alto, quando um rastejar de passos pesados pisaram o soalho de velhas tábuas de madeira seca pelo sol. Era um sujeito alto e corpulento, de fato escuro, que atravessava os cadeirões do átrio em direcção ao balcão do bar. Passou sem olhar em redor. Apoiou-se no balcão com mãos firmes.

Ordenou com uma voz grave forte - “Um whisky, se faz favor”.

A música acalmou novamente quando o whisky lhe foi servido num copo largo baixo. Sem hesitar, bebeu tudo de um só trago, pousando o copo no balcão e deixando cair o corpo cansado no banco de pé alto. O seu copo acompanhava a expressão derrotada do seu rosto. Devia ter cerca de 45 anos. Sobrancelhas fartas e carregadas, olhos escuros fixos no balcão, mas ausentes. O cabelo era um emaranhado desregrado, que puxava constantemente para trás, em movimentos repetidos.

A música subiu novamente de tom com o aproximar de uma sombra esguia. Um corpo feminino, elegante, percorreu o bar em passos suaves. Tinha um vestido azul de linho pelo joelho que esvoaçava enquanto andava. Um decote redondo denunciava um peito pequeno e bem delineado, sobre o qual baloiçavam longos cabelos lisos escuros. Tinha talvez uns 30 anos, não mais do que isso, mas o seu rosto sereno aparentava a calma de uma mulher mais madura.

Sentou-se ao lado do homem, sem dizer uma palavra, mas via-se que entre eles existia uma história antiga. Trazia consigo um livro de capa branca, não consegui ler-lhe o título. Pousou-o no balcão e, de costas para o bar, apoiando-se num cotovelo, ficou ali pensativa a olhar o mar fitando o infinito.

_____________________________

 

Desci as escadas de cimento em direcção à praia, já o sol se escondia sob o mar no horizonte. O bar estava visivelmente abandonado de gente, exactamente como eu precisava. Tropecei por entre os cadeirões de madeira branca que tantas vezes me acolheram, mas desta vez não parei a olha-los. Deixavam-me demasiadas recordações de fins de tarde ali passados, não sei se perdido se achado.

Segui em frente afastando da cabeça esses momentos que me perseguiam. Numa mesa ao longe encontrava-se apenas uma mulher que bebia uma imperial enquanto folheava um livro. Pressenti o seu olhar pousado nos meus passos a caminho do balcão.

O mesmo empregado de sempre recebeu-me esboçando um triste sorriso de simpatia, que mais me parecia de condolências. Lia nos meus olhos a agonia que me acompanhava.

- Um Whisky se faz favor – Pedi-lhe baixando os olhos para a tábua corrida do balcão. Não me apetecia conversar naquele dia.

Bebi o whisky de um só trago, esperando que o álcool pudesse queimar todo o desespero que sentia.

Dei conta que ela tinha chegado pela mudança de expressão no rosto do empregado que novamente sorria. Susana não tinha confirmado, mas ali estava ela ao meu lado, deslumbrante num simples vestido de alças azul pelo joelho e os cabelos maravilhosos, longos, a caírem-lhe pelos ombros despidos. Mal sentou-se ao meu lado, percebi para o que vinha. Trazia o livro que lhe tinha oferecido e pouso-o no balcão calmamente junto ao meu copo. Sem dizer uma palavra, ficou ali parada, com um braço encostado ao balcão, virada para trás, olhava o mar como se fitasse o infinito. Ela gostava de agir assim enigmática, para me perturbar, deixar-me à deriva sem saber o que dizer ou pensar. Eu não a queria deixar, nunca, arranjaria maneira de lhe provar que eu era o seu destino.

- Porque vieste? – Perguntei-lhe ao ouvido.

_____________________________________

 

Fiquei ali parada por momentos a observar o Rui. Ainda hesitei. Nem a brisa do mar era capaz de me empurrar para entrar. Vê-lo assim, a beber desorientado, decadente. “Acabado” pensei. Contornei os cadeirões de madeira branca passando os dedos pelas suas almofadas de tecido áspero, seco pelo sol do Verão. Também a nossa relação tinha secado, sabíamos bem.

Pensei nas tardes que passámos lá, espreguiçando os corpos, deliciados, ao final do dia. Ele não me deu ouvidos quando lhe disse que era só durante o Verão. Eu expliquei-lhe, vezes sem conta, e ele acenava que eu tinha razão. A vida, a minha e a dele, eram duas paralelas sem ligação possível, disse-lhe constantemente. Mesmo assim ali estava ele a beber como um desvairado, puxava para trás o cabelo que lhe caía desgrenhado pelo rosto. Há quanto tempo não cortaria o cabelo? Pensei naquele momento, vendo o seu ar desleixado.

Finalmente arranjei coragem para entrar, já o sol desaparecia engolido pelo mar e a noite fazia-se escura.

A sala estava vazia. Apenas uma mulher, talvez da minha idade, de cabelo claro ondulado, encontrava-se, a ler um livro e a beber uma imperial numa mesa ao fundo. Baixou os olhos quando entrei, mas senti que estava a observar cada passo que eu dava enquanto me dirigia ao balcão. Sentei-me ao lado de Rui, que amei e desamei no mesmo Verão, e agora me perseguia. Retribuí um leve sorriso para o empregado que o atendia. Não lhe disse nada, acho que não encontrava mais palavras para tudo aquilo. Apenas pousei o livro que me enviou no dia anterior, queria devolver-lhe, não estava interessada em ler sobre uma Ilha onde se vivia para amar, se ela na realidade não existia. Recostei-me de costas no balcão de madeira e fiquei a olhar o mar ao longe, perguntando-me quando acabaria tudo aquilo. O céu escuro caia sobre o mar calmo. A madeira estava fria e senti um ligeiro arrepio, acentuado quando ele me susurrou ao ouvido:

- Porque vieste?

Olhei-o nos olhos com um isto de desilusão e desalento

- Rui, a vida não é um conto de fadas. Isto tem de acabar, somos ambos casados e sabes que este amor só existe porque é um fruto proibido.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 17:38

«espero curarme de ti»

por Closet, em 24.10.10

Como ando numa onda de ler poesia em espanhol (cof cof)... bom, sempre gostei de poesia, muito mesmo... sorry quem não está habituado a vê-la por aqui! Deixo-vos o poeta mexicano Jaime Sabines com um dos seus mais românticos poemas. Mais uma vez, se quiserem ouvir desliguem a Lilly Allen, em baixo no MixPod (no worry, já a avisei que é por uma boa causa!!).

 

 

«Espero curarme de ti en unos días. Debo dejar de
fumarte, de beberte, de pensarte. Es posible.
Siguiendo las prescripciones de la moral en turno. Me
receto tiempo, abstinencia, soledad.

¿Te parece bien que te quiera nada más una semana?
No es mucho, mi es poco, es bastante. En una
semana se pueden reunir todas las palabras de amor
que se han pronunciado sobre la tierra y se les
puede prender fuego. Te voy a calentar con esa
hoguera del amor quemado. Y también el silencio.
Porque las mejores palabras del amor están están entre dos
gentes que no se dicen nada.

Hay que quemar también ese otro lenguaje lateral y
subversivo del que ama. (Tú saber cómo te digo que
te quiero cuando digo: "qué calor hace", "dame
agua", "¿sabes manejar?,"se hizo de noche"... Entre
las gentes, a un lado de tus gentes y las mías, te he
dicho "ya es tarde", y tú sabías que decía "te
quiero".)

Una semana más para reunir todo el amor del
tiempo. Para dártelo. Para que hagas con él lo que tú
quieras: guardarlo, acariciarlo, tirarlo a la basura. No
sirve, es cierto. Sólo quiero una semana para
entender las cosas. Porque esto es muy parecido a
estar saliendo de un manicomio para entrar a un
panteón.» Jaime Sabines

 

 

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publicado às 10:56


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