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Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.10.10

Sabor do Verão

Julho era o seu mês preferido. Calor, dias compridos e ainda muitos dias de férias antes de começar as aulas. Naquele ano ia passar duas semanas com a sua amiga Sofia à terra dos avós maternos, perto de Viseu. Pouco ou nada conhecia daquela zona, mas ir para um local totalmente novo era acima de tudo entusiasmante para os seus 16 anos.

Quando chegaram viu que afinal "a terra" pouco tinha para fazer. Um único café-restaurante-bar servia aquela população e acabaram por passar os primeiros dias enfiadas em casa a ouvir música e televisão.

Uma certa noite mais quente decidiram dar uma volta pela aldeia, "apanhar gambuzinos" disseram aos avós a rir, conscientes que os senhores não tinham sequer percebido a piada. Deram a voltinha do costume até ao café transformado agora em bar, com meia dezena de homens a jogar cartas enquanto bebiam cerveja pelo gargalo da garrafa com um cigarro adormecido no canto da boca. Já estavam de volta quando ouviram umas gargalhadas ao fundo, numa ruela sem saída.

- O que é aquilo - perguntou Joana à sua amiga.

- Sei lá, nunca fui para ali, pensei que fossem currais.

- Vamos ver? - Joana puxou Sofia pelo braço divertida com a aventura.

Sofia não era tão aventureira e talvez fosse até mesmo medrosa, por isso puxou-a para trás assustada.

- Estás louca? e se é alguém?

Joana já não a ouvia e continuava em frente, pé ante pé, para não fazer barulho, em direcção a uma porta baixa do que parecia uma casinhota antiga com apenas uma janelinha alta. Fez sinal para amiga:

- Anda, claro que é alguém, de preferência pessoas, habitantes da terra, o que é que achas?

 Colocou dois tijolos que estavam a um canto no chão e empoleirou-se na janela, apoiando um pé num buraco da parede de pedra. Lá dentro um grupo de quatro rapazes, dois deviam ter a sua idade e os outros talvez um pouco mais velhos, com cerca de 18 ou 19 anos, bebiam vinho nuns copos de vidro baixos que abasteciam directamente de uma pipa. Riam-se efusivamente e, pelas suas cores, adivinhava uma enorme bebedeira a instalar-se.

- É uma adega - disse, continuando empoleirada a espreitar.

Joana não conseguiu deixar de reparar num rapaz alto mas com um rosto ainda de miúdo, que andava em pé desengonçado, provavelmente a imitar algo ou alguém enquanto os outros riam. Tinha uns olhos redondos, imensos, numa cor avelã que sorria. Quando se preparava para descer Sofia assustou-a com um grito estridente que a fez desequilibrar e cair estatelada no chão.

Quando ergueu a cabeça já se encontravam dois rapazes à sua volta.

- Olha, um meteorito! - disse o rapaz de olhos avelã para o outro, mais velho, soltando uma gargalhada.

- Não te disse que hoje ainda íamos ter sorte Tomás - respondeu o outro a rir também.

Sofia estava em cima de um tronco de árvore caído no chão com ar assustado. Ainda gaguejou.

- tátátás bem Joana?

Joana rosnou um "estou" entre dentes sacudindo a mão dos rapazes que já a estavam a içar.

- Foi um rato, Joana, tenho a certeza, era uma ratazana enorme...

Joana continuou a sacudir as calças de ganga irritada por ter sido descoberta daquela forma vergonhosa.

- Onde está essa malvada? - perguntou Tomás apontando uma lanterna de bolso em vária direcções como se fosse um detective em pleno rasto de um criminoso. - Será que também caiu do céu com vocês?

- Olha, vamos esperar um bocadinho aqui fora, quem sabe hoje seja noite de cair meteoritos destes para alegrar as vistas - gracejou o mais velho olhando a Sofia de cima a baixo.

- Sim, fiquem aqui e acabem de beber aquela pipa. Tenho a certeza que vão ver cair meteoritos, assim às paletes mesmo - resmungou Joana indo para junto de Sofia e puxando-a para o chão.

Tomás sorriu subitamente com os olhos, transparecendo um trejeito meigo, algo envergonhado, que atingiu Joana como um raio. O olhar dele entranhou-se-lhe na pele, perfurou-lhe os sentidos e bloqueou-lhe a razão. Talvez por isso não hesitou quando ele lhe perguntou piscando um olho desajeitado:

- E se em vez de meteoritos, cairem pipas de vinho? Acompanhas-me num copo?

- Seria um fenómeno cientifico importante, acho que vale a pena arriscar...

Nem o arregalar de olhos de Sofia, seguido de uma cotovelada, impressionou Joana, que entrou na adega ladeada de Tomás a fazer-lhe vénias como se fosse a rainha de Inglaterra.

Aquele foi o vinho mais amargo que alguma vez tinha provado, assim naquele copo bafiento, isolado. Mais tarde percebeu que o vinho se tornara quente e doce e que deixava os labios agradavelmente dormentes. Saboreou-o directamente dos lábios carnudos de Tomás e teve a certeza que o sabor do Verão seria para sempre aquele. Um doce quente dormente. Inesquecível. Sem margem para dúvidas. 

 

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