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Fábrica de Histórias

por Closet, em 26.09.10

As instruções da semana são de continuar a história de outro operário da fábrica. Leituras feitas, escolhi a história da Marta.

A primeira parte está aqui.

 

2ª parte

 

Mas é nas alturas de maior pânico que temos verdadeira consciência dos nossos sentimentos mais íntimos. Aqueles que até por vezes desconhecíamos que habitavam na nossa alma e acabam por revelar-se no corpo nas situações mais inesperadas. Não podia vê-la naquela agonia, não podia deixa-la assim partir… Bastou-me um segundo desse desespero para uma certeza espelhar-se à minha frente como a luz mais nítida. Posso dizer hoje que ela era, aliás, que é, preciosa demais. Mais do que qualquer jóia ou obra de arte cujo rasto meticulosamente farejávamos. Assim é ela, um diamante em bruto, impossível de lapidar, incapaz de se perder.

Quando vi aquele homem agarra-la por um braço e depois o outro aparecer do outro lado, eu não consegui fugir. As minhas pernas não responderam à minha razão o coração comandou-me os movimentos. Ainda não sei como o consegui, como tive a coragem e a perícia. Mas penso que é nestes momentos que conseguimos derrotar gigantes. Num segundo saquei da arma que tinha escondido na perna, nem ela sabia que a carregava, e disparei. Rápido e certeiro. Como o fazia em miúdo quando ía caçar com o meu pai. Bumm. O tirou acertou-a perfurando o fino vestido vermelho que lhe cobria o corpo. Ainda vi-a cair desamparada no chão e os dois homens a debruçarem-se sobre ela. Não vi mais nada. Fuji no meio da confusão, percorrendo os corredores embrulhado no histerismo de mulheres que me levaram à porta de saída.

Era agora a minha vez de arquitectar o plano a solo, sem parceira, sem outra opinião. Era um plano só meu, que me surgiu num milésimo de segundo, como relâmpago, quando julguei que a perderia para sempre. Acompanhei a sua entrada no hospital e, através dos meus informadores, soube como a operação tinha corrido. A perna estava salva, tinha acertado exactamente no local certo da coxa, onde não apresentava perigo de lesão grave. Tinha conseguido, pensei feliz no dia em que a fui visitar. Não foi difícil passar-me por um enfermeiro e entrar pelo quarto mesmo nas barbas do polícia que vigiava a sua porta. Lembro-me de com ela ficou espantada quando me viu. Nem o bigode, nem os óculos e o cabelo curto escuro, ao contrário dos meus habituais caracóis claros, foram suficientes, ela reconheceu-me mal entrei naquele quarto, diz que pelo jeito de andar.

Contei-lhe o meu plano, que era infalível. Que ela não tinha de fazer nada, apenas teria de confiar. Olhou-me com o seu ar ainda apagado pelas dores, revoltado pelo tiro que lhe dei, mas consegui ver-lhe um brilho no canto do olhar. Éramos demasiados iguais. E ela percebeu que teria feito algo muito semelhante, que eu tinha sido genial.

Arranjei identidades falsas, tudo se compra neste mundo, sei-o muito bem. Vim para aqui de onde vos escrevo. Vivo neste pequeno Paraíso banhado pelo Mediterrâneo e onde todos me chamam de José. Eu até gosto e já me estou a habituar. Com o nosso dinheiro aplicado em bancos na Suíça julgo que dará para vivermos para sempre aqui.

Ela desapareceu do hospital uns dias depois de ser operada, foi até notícia de jornal. E eu, aqui, a tantos quilómetros de distância sem lhe poder falar. Foi levada para Espanha nesse mesmo dia, esteve a recuperar nos arredores de Madrid assistida por um médico que contratei. Ficaria lá um ou dois meses até as buscas acalmarem. Até eu dar indicação para a trazerem até cá.

Hoje encontro-me na varanda a olhar o azul profundo do mar. Sei que ela pode estar a chegar a qualquer momento, e essa ansiedade provoca-me arrepios pelo corpo. De tal forma que me voltava sempre que pensava ouvir um estalar ritmado de saltos altos no soalho. Mas desta vez ela chegou de mansinho, com umas sabrinas rasas que a faziam deslizar com pés de lã. Veio por detrás de mim e tapou-me os olhos. Percebi que também as suas mãos eram impossíveis de esquecer - esguias e suaves.

- Olá, então o que se faz por aqui? – Sussurrou-me ao ouvidos, com a sua voz sensual rouca.

Puxei-a para o meu colo de rompante e abracei-a. Estava visivelmente mais magra, mais franzina, menos voluptuosa. Os seus caracóis longos foram substituídos por um cabelo liso pelo pescoço. Envergava uns jeans justos com uma simples túnica por cima. Tinha um ar ainda mais jovem assim descontraída, e lembrei-me que nunca a tinha visto antes de jeans. Tive de me beliscar para ver se não estava a sonhar. Os seus olhos exibiam uma doçura que nunca experimentei ao confrontarem os meus. Era a altura de deixaremos os planos de lado, as regras e os impeditivos. Pensei se eu estaria tão mudado quanto ela. Acho que sim, por vezes o que mais procuramos está mesmo à nossa frente e vale mais que todo o ouro do mundo. Ela sentiu isso na pele também. Respondi-lhe, depois de um beijo demorado.

- Aqui, darling, vive-se! O que dizes de ficares comigo por cá?

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:11


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