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Fábrica de Histórias

por Closet, em 19.09.10

Tema Enredos (dado que não sei qual o objectivo de continuação... deixo sem título! Logo se vê!!)

 

Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar.

- Margarida - disse com uma voz angelical - pode dizer a doutor que cheguei.

Fiquei a contempla-la estarrecido com a sua beleza. Um corpo esguio, de um cintura fina acentuada por vestido floral de alças que apertava com um cinto elástico largo. Perfeita, pensei. Os cabelos dourados, com jeitos encaracolados, que lhe caiam pelos ombros desnudados. Do decote sobressaia um peito elegante, sem exageros, mas perfeitamente delineado.

Sentou-se ao meu lado e senti desde logo embriagado pelo seu perfume quente, enquanto dedilhava no telemóvel com as unhas irrepreensívelmente pintadas de um vermelho escuro . 

A sua mala pequena caiu de repente para o chão, aterrando a meus pés,  e não consegui evitar debruçar-me para a apanhar, chocando atrapalhado contra ela.

- Desculpe -disse

- Obrigada - respondeu-me sorrindo com os olhos mesclados de azul e castanho, enquanto arrumava o telefone dentro da mala - desculpe eu.

Reparei na suas pestanas longas e nas sobrancelhas bem arranjadas. Os lábios eram pequenos e faziam lembrar-me um botão de rosa. Toda ela fazia lembrar uma flor.

- Não tem importância - Sorri-lhe também, passando a mão pelo cabelo que me caía desajeitado pela testa - é um prazer ser pisado pela sua mala - Gracejei.

Ela pareceu não compreender a piada. O seu rosto já estava imobilizado na porta do consultório que, entretanto, se abrira e ela levantava-se.

- Rita Coutinho - disse a recepcionista num tom de voz coloquial, dirigindo-lhe um olhar cauteloso.

Margarida voltou a sentar-se na cadeira, fitando com os olhos a porta do gabinete que novamente se fechara. Havia uma tristeza imensa no seu olhar que contrastava evidentemente com a firmeza dos seus passos quando entrara. 

Eu sentia-me invisível ao lado dela e, contudo, ela para mim enchera aquela sala por inteiro.

Nunca tinha sido um caso de sucesso junto do publico feminino. Na verdade, até ao 19 anos tive 2 namoradas que me lembre e o meu corpo ainda não tinha adquirido formas de homem. Agora com 29 era mais apreciado, o ginásio tinha-me beneficiado com um bíceps que, até ver, impressionavam a maioria das mulheres, e a minha timidez aos poucos foi sendo substituída por um sentido de oportunidade e humor que se tinham revelado qualidades vitais. Neste momento eu escolhia as minhas namoradas e não tinha qualquer problema em arranjar uma.

Contudo a Margarida fez-me de repente voltar à adolescência com a sua indiferença. Não reparou no meu piscar de olho infalível quando lhe entreguei a mala, nem sorriu com a minha piada. Parece que nem a ouviu. Vendo bem, acho que mal reparou em mim. 

E não era assim tão nova. Devia ter mais 3 ou 4 anos do que eu. Pelo menos pela forma como se vestia.

A porta do gabinete abriu-se novamente e a senhora que entrara saiu. Margarida levantou-se ansiosa.

- Margarida ... hã...  pode entrar - chamou a recepcionista roliça, de cabelo apanhado na nuca e de sobrolho carregado.

Ela deslizou da cadeira como se tivesse uma mola, e os saltos agulha bateram novamente no soalho num compasso apressado, fechando a porta mal entrou.

Olhei para a sua cadeira e espantei-me com um pedaço pequeno de papel branco. Era uma folha rasgada de uma agenda com uma morada escrita e por baixo "dia 12, às 15h".  

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

 

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publicado às 23:44


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