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Descolorido

por Closet, em 30.09.10

 

Há dias mortos. Chamo-lhes mortos porque não tiveram vida. Como se não tivessem cor.

Hoje foi um dia morto. Desprovido de sentido. Com excepção dos momentos que passo de manhã com os meus filhos até ao colégio, em que subimos o parque e apanhamos folhas secas pelo caminho e falamos dos pókemons e das musicas que gostamos... todo o resto do dia foi como se não existisse. Não encontro uma cor para o definir. Durante horas e horas vivi incolor. E talvez isso mesmo se revele no exterior... mas, para meu espanto, todos me reconhecem. Até regressar a casa, já de noite, estive ausente. Deambulei pelo comboio, invariavelmente sentada de costas, e com bastante dificuldade consegui concentrar-me no meu Livro. "Quem me dera que estivesses aqui", assim se chama o que leio no comboio. (Tive de trocar o Dança, Dança, Dança do Haruki que era muito pesado...agora sempre posso compensar com cadernos e folhas que, basicamente, fica igualmente pesado, mas levo mais coisas!).

Estava a falar do livro, que fala de um homem que é abandonado pela noiva no seu 30º aniversário e que faz uma jornada até Paris para conhecer a cantora de um CD que uma amiga lhe ofereceu cujas letras refletem a sua vida. O livro é descontraído... e mesmo assim estava com dificuldade em le-lo... "quem dera que eu estivesse ali", pensava... mas estava a milhas de distância. Onde? Não sei. Ultimamente o marasmo do dia de trabalho provoca-me uma necessidade incontrolável de fugir de mim, de partir para parte incerta e viver outras vidas. Na verdade, as minhas histórias são muito mais divertidas, e refugio-me nelas constantemente. Chega a ser um vicío indomável. "Quem me dera não estar ali" percorre-me a mente a toda a hora... e olho pela janela e vejo gente a viver lá fora, e eu ali.

Folheio os capítulos do livro porque não consigo ler mais do que uma frase seguida. Os capítulos contemplam a minha indiferença, como elementos descontextualizados.  E dou por mim a escolher as frases, como se fosse com elas montar uma história (já é o vicio do curso de escrita criativa no sangue! os capítulos estão entre aspas):

 

Fui orientada por "Linhas rectas", que piso a ondular como numa "Festa de manequins". Esqueço as curvas que seduzem, os perigos que movem e os sonhos pairam abandonados no ar. Traço um "Plano impossível", sentada num "Baloiço para abraçar o céu". Dou balanço e parece que oiço ao longe um susurro "Alguem te espera em algum lugar". "Somos todos esquisitos" penso imediatamente, mas "Às vezes as raparigas tristes têm sorte". O que era outrora gelo, derrete-se num imenso "Céu líquido".  Nessa altura temos a certeza "O amor não tem fim". Rimos-nos dele, ignoramo-lo e acabamos por perceber que "Somos o tempo que nos resta". Apesar dos "Danos colaterais", assumo sem problemas "Tu és importante para mim". E ambos sabemos que não vamos "Viver para sempre", mesmo com "A promessa" que fizemos de nunca nos separarmos, nunca mais vivi "Dias tranquilos".

Não adianta sonhar com "Jardins secretos", um "Barco de cristal" e a "Flor do paraíso". Não basta sonhar. Tracei o "Plano de vôo" numa velocidade estonteante, como que a ultrapassar a "Barreira dos dez segundos", porque me sentia vazia sem ti, enclausurada "Entre as grades". Porque sem ti os "Quartos são tristes" e não consigo "Encontrar um sentido para o dia".

Por isso, "Digo-te a sério", por mais que procures : "O amor verdadeiro encontrar-te-á por fim"

publicado às 00:21

Life in Snapshots

por Closet, em 28.09.10

 

 

esta foto é daqui e levou-me a pensar...

 

Posso avançar com algumas, deste Verão!

 

Que tenho e sempre tive dúvidas. Mas que detesto questionar-me. (Nem sempre as conclusões nos agradam).

 

Que vão existir sempre pedras no caminho. Passo-lhes por cima, por vezes caio (muitas!), mas levanto-me sempre. E como até de pedras eu gosto, tenho o vicío de apanhar algumas para me acompanharem diariamente.

Que gosto de estranhos, do diferente e aceito-o sem preconceitos.

  

Que acredito que nada se resume aos que os olhos vêem e o exterior mostra sempre tão pouco de nós.

O escuro, o rijo e áspero com farpas não me assusta, e toco-lhes com a suavidade de um beijo.

 

Que sinto sempre que o tempo foge-me por entre os dedos. Que nada é eterno e tudo se perde. Por isso vou-me agarrando ao que quero e como posso, e acredito que tudo o que preciso cabe mesmo na minha mão.

 

 

Que um por-de-sol na praia faz-me ridiculamente FELIZ.

 

 

Que um abraço apertado faz-me sentir GIGANTE

 

 

E que afinal a vida é mesmo "esta viagem" louca, desgovernada, e que para sermos felizes apenas nos devemos deixar levar.

 

 

De coração aberto, e sem grandes mapas, talvez conseguiremos chegar lá.

E então penso... por um instante demente, que UM DIA... Talvez, eu consiga deixar de ser tão estupidamente insatisfeita.

 

 

publicado às 00:59

Fábrica de Histórias

por Closet, em 26.09.10

As instruções da semana são de continuar a história de outro operário da fábrica. Leituras feitas, escolhi a história da Marta.

A primeira parte está aqui.

 

2ª parte

 

Mas é nas alturas de maior pânico que temos verdadeira consciência dos nossos sentimentos mais íntimos. Aqueles que até por vezes desconhecíamos que habitavam na nossa alma e acabam por revelar-se no corpo nas situações mais inesperadas. Não podia vê-la naquela agonia, não podia deixa-la assim partir… Bastou-me um segundo desse desespero para uma certeza espelhar-se à minha frente como a luz mais nítida. Posso dizer hoje que ela era, aliás, que é, preciosa demais. Mais do que qualquer jóia ou obra de arte cujo rasto meticulosamente farejávamos. Assim é ela, um diamante em bruto, impossível de lapidar, incapaz de se perder.

Quando vi aquele homem agarra-la por um braço e depois o outro aparecer do outro lado, eu não consegui fugir. As minhas pernas não responderam à minha razão o coração comandou-me os movimentos. Ainda não sei como o consegui, como tive a coragem e a perícia. Mas penso que é nestes momentos que conseguimos derrotar gigantes. Num segundo saquei da arma que tinha escondido na perna, nem ela sabia que a carregava, e disparei. Rápido e certeiro. Como o fazia em miúdo quando ía caçar com o meu pai. Bumm. O tirou acertou-a perfurando o fino vestido vermelho que lhe cobria o corpo. Ainda vi-a cair desamparada no chão e os dois homens a debruçarem-se sobre ela. Não vi mais nada. Fuji no meio da confusão, percorrendo os corredores embrulhado no histerismo de mulheres que me levaram à porta de saída.

Era agora a minha vez de arquitectar o plano a solo, sem parceira, sem outra opinião. Era um plano só meu, que me surgiu num milésimo de segundo, como relâmpago, quando julguei que a perderia para sempre. Acompanhei a sua entrada no hospital e, através dos meus informadores, soube como a operação tinha corrido. A perna estava salva, tinha acertado exactamente no local certo da coxa, onde não apresentava perigo de lesão grave. Tinha conseguido, pensei feliz no dia em que a fui visitar. Não foi difícil passar-me por um enfermeiro e entrar pelo quarto mesmo nas barbas do polícia que vigiava a sua porta. Lembro-me de com ela ficou espantada quando me viu. Nem o bigode, nem os óculos e o cabelo curto escuro, ao contrário dos meus habituais caracóis claros, foram suficientes, ela reconheceu-me mal entrei naquele quarto, diz que pelo jeito de andar.

Contei-lhe o meu plano, que era infalível. Que ela não tinha de fazer nada, apenas teria de confiar. Olhou-me com o seu ar ainda apagado pelas dores, revoltado pelo tiro que lhe dei, mas consegui ver-lhe um brilho no canto do olhar. Éramos demasiados iguais. E ela percebeu que teria feito algo muito semelhante, que eu tinha sido genial.

Arranjei identidades falsas, tudo se compra neste mundo, sei-o muito bem. Vim para aqui de onde vos escrevo. Vivo neste pequeno Paraíso banhado pelo Mediterrâneo e onde todos me chamam de José. Eu até gosto e já me estou a habituar. Com o nosso dinheiro aplicado em bancos na Suíça julgo que dará para vivermos para sempre aqui.

Ela desapareceu do hospital uns dias depois de ser operada, foi até notícia de jornal. E eu, aqui, a tantos quilómetros de distância sem lhe poder falar. Foi levada para Espanha nesse mesmo dia, esteve a recuperar nos arredores de Madrid assistida por um médico que contratei. Ficaria lá um ou dois meses até as buscas acalmarem. Até eu dar indicação para a trazerem até cá.

Hoje encontro-me na varanda a olhar o azul profundo do mar. Sei que ela pode estar a chegar a qualquer momento, e essa ansiedade provoca-me arrepios pelo corpo. De tal forma que me voltava sempre que pensava ouvir um estalar ritmado de saltos altos no soalho. Mas desta vez ela chegou de mansinho, com umas sabrinas rasas que a faziam deslizar com pés de lã. Veio por detrás de mim e tapou-me os olhos. Percebi que também as suas mãos eram impossíveis de esquecer - esguias e suaves.

- Olá, então o que se faz por aqui? – Sussurrou-me ao ouvidos, com a sua voz sensual rouca.

Puxei-a para o meu colo de rompante e abracei-a. Estava visivelmente mais magra, mais franzina, menos voluptuosa. Os seus caracóis longos foram substituídos por um cabelo liso pelo pescoço. Envergava uns jeans justos com uma simples túnica por cima. Tinha um ar ainda mais jovem assim descontraída, e lembrei-me que nunca a tinha visto antes de jeans. Tive de me beliscar para ver se não estava a sonhar. Os seus olhos exibiam uma doçura que nunca experimentei ao confrontarem os meus. Era a altura de deixaremos os planos de lado, as regras e os impeditivos. Pensei se eu estaria tão mudado quanto ela. Acho que sim, por vezes o que mais procuramos está mesmo à nossa frente e vale mais que todo o ouro do mundo. Ela sentiu isso na pele também. Respondi-lhe, depois de um beijo demorado.

- Aqui, darling, vive-se! O que dizes de ficares comigo por cá?

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 23:11

Ponto de Vista

por Closet, em 24.09.10

Nas primeiras aulas do curso de escrita estamos a trabalhar o “Ponto de Vista”.

Na verdade não é mais do que olhar sobre uma mesma situação sobre diferentes prismas. Uma mesma cena é contada por cada um dos intervenientes. O lugar e a sequência é sempre igual, mas ao encarnarmos “o outro” jamais “a cena” será a mesma.

A história é simples: “eu” estou sentada num bar vazio num final de tarde. Entra uma pessoa que se dirige ao balcão e pede um whisky. Entra uma 2ª pessoa que transporta um livro e senta-se ao balcão ao lado da 1ª pessoa.

Os dados são assim lançados. Ficou na “minha pessoa” a possibilidade de descrever o bar ao detalhe e as duas pessoas que entram nele, como são, como se vestem, o que fazem e o que dizem. Longe de saber que, nas aulas seguintes, iria encarnar cada uma delas, entrar nas suas cabeças e nos seus corpos e contar exactamente a mesma cena. Já sem possibilidade de sair da descrição física daquele Bar, mas com a possibilidade de destituir-lhe todo o seu espírito. O ambiente que classifiquei como triste e de alma vazia, pode ser acolhedor a agradável para a pessoa que entra e pede o Whisky com ar derrotado. As frases são sempre as mesmas, mas assumem outro significado acompanhadas dos pensamentos de quem as profere. É uma espécie de “dança das cadeiras”, tudo muda de figura quando somos nós a narrar a história, sob o “nosso” ponto de vista. E também é assim na realidade.

By the way, devíamos tentar fazer este exercício de vez em quando, talvez a vida se vislumbrasse mas simples, talvez encarnar no “outro” fosse uma experiência útil. Porque não o fazemos? A resposta é óbvia: porque, muitas vezes, simplesmente não queremos.

Por mais cursos que tire, confesso e assumo, não sou diferente do comum dos mortais e a realidade é aquela que vejo ou quero ver aos meus olhos. Por vezes é demasiado triste e cruel e é nesses momentos que o “nosso ponto de vista”, ainda que incompleto, distorcido, sem sentido, é aquele que nos ampara o corpo e faz seguir em frente. Por vezes é necessário ver as coisas de pernas para o ar, pinta-las de cores, arruma-las à nossa maneira… e então, depois, acomoda-las numa caixinha de fundo esburacado com a esperança que a “nossa versão” da realidade se perpétue no tempo.

Anyway, vários pontos de vista… deixo este exercício para a escrita!

publicado às 11:57

Naufrágio

por Closet, em 22.09.10

 

Ele chegou de repente, sem avisar. Ela correu como louca para o encontrar.

Olhou-o nos olhos e não teve dúvida. Era ele. Sempre foi. Nunca o esqueceu. E o tempo que se perdeu, percorrido entre os dois, começou a afundar. Num oceano imenso, submerso de recordações.

Abraçaram-se, demoradamente. Esquecendo que à volta havia gente. Apertaram-se, para acreditar. O mundo ficou pequeno. Estavam juntos novamente. Olhos vidrados, a um palmo de distância. Sorriam sem falar. Sorriam de lábios rasgados. Não existiam palavras para explicar. Eram tão minusculas para tudo o que se estava a passar.

Mãos agarradas uma na outra tacteavam o destino, o que fazer a seguir. A um palmo de distância os olhos não conseguiam mentir. Engoliam em seco, de coração na boca, de lábios sedentos por se tocar. Talvez um , só um beijo quente, lento e doce. Envolto num abraço apertado que a deixa a levitar. Ele beijou-a, como sempre fez, de uma forma louca e um brilho no olhar. O chão tremeu violento, as paredes começaram a abanar. à volta um mar revolto. E naquele naufrágio, para sobreviver, ela teve de acordar.

 

publicado às 22:31

Oro..quê?

por Closet, em 22.09.10

Há dias em que nos sentimos em baixo... eu confesso que ultimamente me tenho sentido particularmente em baixo...

Por isso hoje, num daqueles acessos de fúria, lancei-me para o mais óbvio - se não podes mudar o interior, tenta pelo menos o exterior - e lá fui eu para o cabeleireiro.

Não que considere o local especialmente aprazível... na verdade tenho uma espécie de alergia aqueles locais onde gasto 2h30 do meu tempo e ainda tenho de pagar por isso... Mas pronto, confesso que no final sinto-e melhor, mais arranjadinha e de cabelo LISO...isso sim, gosto!!

Engana-se também quem pensar que frequento sempre o mesmo cabeleireiro... nãaaa.... até prefiro não conhecer ninguém para evitar aturar aquelas conversas tipicas de novelas mexicanas (bom, elas conversam na mesma!) e vou sempre esperançada que me deixem sossegada a ler o livro e ouvir os phones.

Desta vez fui experimentar um cabeleireiro novo perto de casa, assim de decoração muito moderna, muito à frente, onde basicamente a montra somos... Nós (com pratas no cabelo, claro... coisa mai-linda!).

Mal entrei fui logo conquistada pelo recepcionista magricela que simpaticamente disse "querida, precisa de dar um jeito neste cabelo" pffff e arrematou com "Adoooooro esse seu telemóvel"... e pronto, lá aceitei ficar na sua bendita companhia até às 21h30 , mostrei-lhe todos os menus do meu telemóvel tão smart, tão smart que só não faz as coisas mais básicas,...adiante... fiquei, pronto.

Arranquei-lhe o telemóvel das mãos e fui sentar-me ladeada por duas "técnicas" que me enfeitaram o cabelo de pratas enquanto praguejavam a cada movimento que eu fazia "ah e tal não pode por os óculos, não pode ler, não pode por os phones.." grrrrr... meia-hora depois lá me deixaram empratada e tipo manequim de loja na vitrina a ler o meu livro sossegada.

Depois seguiu-se a lavagem e o tratamento de creatinina..WHAT?? Ok, ok, façam o que quiserem, venha lá dita substância pegajosa... e sem dar conta lá estava eu entre perguntas pertinentes sobre "onde é que comprou esses seus sapatos tãooo giros", conversas interessantes "que ainda tinha de ir e vir a Coimbra porque era bombeira voluntária e ía levar um utente, blabláblá"... e uma demonstração exaustiva sobre cuidados capilares e os produtos milagrosos para cuidar do cabelo. Sim porque o cabelo dela era isto e aquilo, assim e assado (era um pavor na realidade, ela devia ter miopia, mas ía acenando com meu ar mais enfadonho)... ahhgggg... cheguei a pensar simular um desmaio, ou algo mais dramático, mas tive receio que ainda me levasse também na camioneta dos bombeiros com o dito utente... seria demasiado embaraçoso sair dali com aquela "nhanha tinina" na cabeça. E isto tudo, veja-se, envolta em radares quentes tipo ovnis que pairavam à minha volta como holofotes... no delírio, cheguei a pensar se estaria a ter alucinações ou se aquilo era a 5ª Dimensão... 

Depois de tantas explicações sobre os champôs, cremes, óleos e seruns milagrosos da marca XPTO, lá acabei por levar um Oro...qualquercoisa que, ao que parece, faz milagres... "um elixir de beleza", "luxuria pura" e "deliciosa fragrância misturada com um toque de baunilha transporta-a à fascinação dos perfumes orientais"... este "transporte" pareceu-me bem, lá para os orientes... quem sabe!

Na verdade aquilo é um 20 e 1, faz tudo, tem vitamina E para fortalecer, tem óleo de linho para suavizar, proporcionando uniformidade e controlo... enfim... quase lhe perguntei se podia levar duas embalagens, e by the way espalhar pelo corpo todo e até quem sabe engolir um bocadinho... afinal aquilo dava-me jeito em várias partes do corpo, incluindo cá por dentro!! 

 

Anyway... estou blond ... Closet Blond :)

 

publicado às 01:57

Fábrica de Histórias

por Closet, em 19.09.10

Tema Enredos (dado que não sei qual o objectivo de continuação... deixo sem título! Logo se vê!!)

 

Reparei nela assim que entrou na sala de espera. Foi o som que primeiro me chamou a atenção, o estalar ritmado e seguro de saltos altos na cerâmica que cobria o chão. Ainda hoje, quando penso nisso, não consigo perceber como a ouvi chegar.

- Margarida - disse com uma voz angelical - pode dizer a doutor que cheguei.

Fiquei a contempla-la estarrecido com a sua beleza. Um corpo esguio, de um cintura fina acentuada por vestido floral de alças que apertava com um cinto elástico largo. Perfeita, pensei. Os cabelos dourados, com jeitos encaracolados, que lhe caiam pelos ombros desnudados. Do decote sobressaia um peito elegante, sem exageros, mas perfeitamente delineado.

Sentou-se ao meu lado e senti desde logo embriagado pelo seu perfume quente, enquanto dedilhava no telemóvel com as unhas irrepreensívelmente pintadas de um vermelho escuro . 

A sua mala pequena caiu de repente para o chão, aterrando a meus pés,  e não consegui evitar debruçar-me para a apanhar, chocando atrapalhado contra ela.

- Desculpe -disse

- Obrigada - respondeu-me sorrindo com os olhos mesclados de azul e castanho, enquanto arrumava o telefone dentro da mala - desculpe eu.

Reparei na suas pestanas longas e nas sobrancelhas bem arranjadas. Os lábios eram pequenos e faziam lembrar-me um botão de rosa. Toda ela fazia lembrar uma flor.

- Não tem importância - Sorri-lhe também, passando a mão pelo cabelo que me caía desajeitado pela testa - é um prazer ser pisado pela sua mala - Gracejei.

Ela pareceu não compreender a piada. O seu rosto já estava imobilizado na porta do consultório que, entretanto, se abrira e ela levantava-se.

- Rita Coutinho - disse a recepcionista num tom de voz coloquial, dirigindo-lhe um olhar cauteloso.

Margarida voltou a sentar-se na cadeira, fitando com os olhos a porta do gabinete que novamente se fechara. Havia uma tristeza imensa no seu olhar que contrastava evidentemente com a firmeza dos seus passos quando entrara. 

Eu sentia-me invisível ao lado dela e, contudo, ela para mim enchera aquela sala por inteiro.

Nunca tinha sido um caso de sucesso junto do publico feminino. Na verdade, até ao 19 anos tive 2 namoradas que me lembre e o meu corpo ainda não tinha adquirido formas de homem. Agora com 29 era mais apreciado, o ginásio tinha-me beneficiado com um bíceps que, até ver, impressionavam a maioria das mulheres, e a minha timidez aos poucos foi sendo substituída por um sentido de oportunidade e humor que se tinham revelado qualidades vitais. Neste momento eu escolhia as minhas namoradas e não tinha qualquer problema em arranjar uma.

Contudo a Margarida fez-me de repente voltar à adolescência com a sua indiferença. Não reparou no meu piscar de olho infalível quando lhe entreguei a mala, nem sorriu com a minha piada. Parece que nem a ouviu. Vendo bem, acho que mal reparou em mim. 

E não era assim tão nova. Devia ter mais 3 ou 4 anos do que eu. Pelo menos pela forma como se vestia.

A porta do gabinete abriu-se novamente e a senhora que entrara saiu. Margarida levantou-se ansiosa.

- Margarida ... hã...  pode entrar - chamou a recepcionista roliça, de cabelo apanhado na nuca e de sobrolho carregado.

Ela deslizou da cadeira como se tivesse uma mola, e os saltos agulha bateram novamente no soalho num compasso apressado, fechando a porta mal entrou.

Olhei para a sua cadeira e espantei-me com um pedaço pequeno de papel branco. Era uma folha rasgada de uma agenda com uma morada escrita e por baixo "dia 12, às 15h".  

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

 

publicado às 23:44

Amnésia

por Closet, em 14.09.10

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Perguntei-te baixinho, debaixo da árvore "Porquê?".

Não me respondes e eu não me lembro da razão. Está frio, e sinto a falta do teu corpo contra o meu. "Porquê?" continuo a perguntar em vão. E oiço apenas os braços das árvores, numa dança louca, por cima da minha cabeça zonza. Sozinha, deito-me no chão. Fico ali imóvel e parada por tempo incerto. Os olhos inchados de lágrimas, o corpo inerte. Petrificada. Um Porquê persistente que lateja na minha cabeça cansada, confusa. E aos poucos já não sinto frio. Nem calor. Nem dor. Não sinto. É um estado dormente. Habituamos-nos a estar assim. Aos pouco parece normal,  e até mesmo natural. Não sei por quanto tempo fiquei ali. 

 

Sabes o que irrita? Realmente irrita? Eu nunca ter deixado de pensar em ti. Sentir a tua falta. Em momentos dementes largava-me ao vento e voava distante. E podia jurar que estavas ali comigo. Caminhavas, como fantasma, mascarado, errante. Aparecias nas curvas mais perigosas, nos becos sem saída. Não tinhas vida, mas vía o teu espectro desengonçado, e chegava a confundir-te com a pessoa ao meu lado. Procurava-lhe a tua mão enorme e quente. Para de repente, ver que não era a tua. E sentia-me novamente ferida, frágil e nua. Despida de vida. Não sei já quem era o espectro, e quem vivia.

 

Num enterro de mortos, encontramo-nos, agora, vivos. Amantes ou inimigos. Não sabemos. Sobreviventes de uma guerra maldita. Nas trevas sedentos, carentes. A cabeça range um compasso inquieto. Os lábios secos são apertados. E o silêncio cobre-nos os corpos, rígidos, no tempo embalsamados. Não sabemos ao certo se estamos vivos, ou se somos os mortos que são agora enterrados. 

publicado às 23:43

Coração na boca

por Closet, em 13.09.10

 

Tens o coração na boca.

Talvez por isso, quando falas, beijas sem notar.

Palavras que dançam, fogosas, deslumbrantes. Que percorrem-nos, gigantes pelo corpo todo.

Arrepiam e desaguam na alma, sem preconceito. Genuínas, puras.

Em deleite, sei que os teus olhos sorriem.

Sorriem, rasgados, como uma criança que lança ao céu um papagaio e fica a vê-lo voar.

Assim eles vagueiam pelo ar, livres, infinitos, deixando-me um sorriso nos lábios só de imaginar.

Invades-me, violentamente, com o coração da tua boca, com o sorriso do teu olhar.

 

 

bom... e este Blog precisa de umas férias... depois de ter Hoje a 1ª aulinha do curso, tenho apenas um trabalhinho, 4 a 5 páginas para entregar até ao fim-de-semana... oh God :S

publicado às 23:13

Selo

por Closet, em 12.09.10

Já há muito tempo não circulavam por aqui tais Grammys Awards :)

 

 

1º Identificar o blog que ofereceu o selo.

A miuda* com quem me estranho e entranho, na sua rebeldia e impulsividade, no seu carisma e fragilidade. Kiss, dos teus ***

  

2º Dizer o que te faz contar todas as tuas grandes “histórias” de (sobre)vivência no blog:

Porque a vida é feita de histórias, porque as vivemos num alvoroço, misturando a realidade com a imaginação. Porque não vivo sem esta última, a imaginação. Porque não me contento com a realidade e os factos, e quero sempre mais: quero as palavras que nunca ouvi mas sonhei, as palavras que nunca disse mas pensei, tudo o que não vi mas sei que desejo, o que não fiz mas queria ter feito... Porque a vida é muita mais que o dia-a-dia... preciso de histórias, enroladas em muitas outras histórias, para alimentar a minha alma sedenta e insatisfeita, que gita baixinho.

 

3º Passar a todos os blogues onde encontrares “histórias” que te fascinam:

Adoro ler historias por aqui, tornou-se mesmo uma rotina sem a qual estou certa que adoeço. Muitos nunca comentei, mas leio, imprimo para ler no camnho... leio tantoooosss...

Mas, dado à minha timidez bloguista (!!) vou colocar aqui apenas aqueles mais próximos e que sigo há mais tempo e qe ainda não receberam este Selo:

Miuda* és eleita, You know, recebe de volta! I see U *

'Na, sempre actual, interessante e versátil, são histórias que leio sempre e em qualquer lugar do planeta!

Talvezlivretalveznao , quando escreve, escreve!!

Tomás ... porque é bom contar histórias de dias que não voltam nunca mais :P

Marta, minha colega da Fábrica há... anos! e vou seguindo a sua escrita de vida!

 

Pronto... e para justificar ser merecedora do oscar, vou deixar uma historieta no outro Blog... mais daqui a pouco, tá??!!

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publicado às 22:26

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