Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O 1º amor

por Closet, em 27.08.10

 

- Humm… Olá..

- Sim?...

- Ãããã… quem fala?

- isso pergunto eu? Quer falar com quem?

- Ahh… bem, eu - gagueja - eu ando á procura do meu 1º amor

- E porque acha que sou eu?

- Tem o mesmo nome na lista telefónica… pensei que podia mas,... já vi que não é, desculpe.

 

Já passou tanto tempo, mais de metade da sua vida. E, de repente, sem pensar, decidiu procura-lo. Sem medos, sem receios. Nem porquês.

Mas percebe que há muito tempo se desfez de tudo o que tinha dele. Sobreviveu apenas um nome e um rosto na memória. Frases ébrias, soltas, enevoadas, enroladas numa bonita história. Sobreviveu a sua voz inconfundível, oriunda de lábios carnudos e quentes, um olhar inesquecível, olhos cor de mel, enormes e carentes. Mas tudo isto, sem ser fantasia, de nada lhe servia para o encontrar.

E com o tempo, endurecendo o corpo e a mente, acabou por o deixar. “Morreu”, repetia, convencendo-se do impossível: o 1º amor nunca morre, sobrevive como um fantasma toda a vida. Anda à sua volta como uma sombra, segue-a para todo o lado e, mesmo tendo-a derrotado, é nesse amor fantasma, na sua genuinidade e euforia que ela ainda hoje se abriga. Nos momentos de desilusão, abraça-o com força e sente-o como antes, a ocupa-la por inteiro, com a mesma paixão. O 1º amor é uma espécie de apagão, um estádio híbrido entre a morte e a vida.

Tantos anos depois, mais de metade do que já viveu, conseguiu o que só em sonhos previa. Encontrou-o, tem o seu contacto, viu-o numa fotografia. Sabe que está longe, mas não se importa. Mesmo distante, está vivo e feliz. Repete. Vivo. E sabe, nesse mesmo instante, alucinante, que voltará a vê-lo um dia.

 

Inspirado em:

 

“(…) O primeiro amor ocupa tudo. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada. (..) Não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado. (…) O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar á volta e não se consegue parar. (…)

O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. (…)

Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: não pensar, não resistir, não duvidar. (…) o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. (…)

Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças

Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».

É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro. “

Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas (1988)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:36


Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Agosto 2010

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031