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um pouco do pintor

por Closet, em 12.07.10

Retalhos...

(...)

Tinha chegado um pouco mais cedo, ainda faltavam 15 minutos para a hora marcada. Sentia a sensação absurda de ansiedade, combinámos o “encontro” por telefone, como num blind date,  de uma forma quase surreal.

- Olá, estou a falar com a Vera?

- Sim…

- Eu sou o vizinho da Carla, quer dizer, o ex-vizinho, … eu fiquei com o seu contacto para lhe entregar uma encomenda que ela estava à espera...

- sim, sim, o do 3º Dto, certo?

- Vasco.

- Certo, o do 3º Dto.

- Como queira, mas prefiro que me tratem por Vasco.

- Ai, desculpe, não era isso que queria dizer… a Carla contou-me sim, que estava à espera de uma encomenda… já chegou foi?

- Sim, tenho aqui uma caixa em nome dela, penso que seja isto. Como posso entregar-lhe?

- Humm… eu trabalho em Paço de Arcos, fica longe para si?

- Sim, fica completamente…eu estou o dia todo em Lisboa…

"Que simpático"pensei um ranger de dentes.

- Então, não faz mal. Eu vou ter consigo a Lisboa, mas tem de ser ao fim do dia, pode ser?

- Depende. Eu trabalho até às 21h30, só se combinarmos num bar aqui perto do meu trabalho.

"Cada vez mais simpático" espumava internamente.

- Num bar? Pode ser… e onde é esse bar?

- No Bairro Alto, chama-se Nuts e é na Rua da Vitória. Conhece?

- Não, mas não se preocupe, eu chego lá. Pode ser esta 5ªfeira?

- Combinado então. Às 22h.Até 5ª!

E desligou. Assim, na minha cara. Nem tive tempo de perguntar como ele era nem como o iria reconher… Telefonei à Carla, tinha mudado para Londres há duas semanas, e pedi-lhe uma descrição física do seu simpático e prestável vizinho… “não é loiro nem moreno, nem alto nem baixo, tem um ar assim… não sei, meio estranho... mas é educado!  … Sei lá…tem sempre a camisa aberta e por fora amarrotada, calças sem bainha a roçar o chão…tem ar de artista, sim, acho que é isso, dá aulas de qualquer coisa relacionada com arte”. Não ajudou muito, na verdade ainda contribuiu mais para eu não ter qualquer vontade de me encontrar com ele. Mas lá fui. Numa 5ª feira à noite saí do conforto da minha casa, onde devorava séries americanas no sofá junto à lareira, para a rua gelada de uma noite de Novembro.

Estava numa fase introspectiva. Não queria conhecer ninguém, nem queria ninguém na minha vida. A relação com o Pedro tinha-me deixado marcas que precisavam de sarar numa espécie de solidão forçada. De alguma forma sentia que precisava de me encontrar. Compreender-me, para então poder compreender e aceitar novamente alguém. Decidi que nesse Inverno iria hibernar, só saía para aniversários e o mínimo possível de eventos sociais.

Como por destino, lá estava eu, naquela 5ª feira à noite, sozinha num bar desconhecido a beber um Gin Tónico e sem fazer a mínima ideia de como seria a criatura que iria aparecer-me pela frente. “Pelo menos deveria transportar uma caixa debaixo do braço, talvez assim seria fácil de reconhecê-lo”, pensei.

Estava a viajar pela música quando o toque do meu telemóvel fez-me dar um salto. Vasculhei na minha mala, e é só nestas ocasiões em que não conseguimos encontrar o que procuramos é que nos apercebemos que é demasiado grande, quando ele parou de tocar. Foi nessa altura que apareceste na minha frente como num filme de cinema.

- Olá, eu sou o 3º Dto, posso me sentar?

Não consegui esconder um sorriso embaraçado, tirei a mala de cima do sofá e acenei.

Trazias umas calças largas de ganga russa e uma camisa em tons castanhos por fora. E por cima apenas um blusão de cabedal preto. O cabelo era de facto despenteado, num ondulado castanho-claro, com jeitos que pareciam nem tentar ser domados com um pente. Tive a certeza que o fazias com os dedos.

Pediste um Gin com limão para me acompanhar e perguntaste o que achava do bar.

- Simpático, acolhedor… não percebo muito de música mas estou a gostar.

- Toca-se vários estilos. Agora é Jazz. O bar é de um amigo meu. Ajudei-o a montar o espaço, e pintei os quadros que estão por aqui - e apontaste para um corredor estreito repleto de telas.

- Pintor, portanto?

Riste-te e abanaste a cabeça, furando a rodela de limão com uma colher de pé alto.

- Sou um arquitecto free-lancer explorado, professor de Desenho em horário pós-laboral e pinto por prazer.

Não pude deixar de simpatizar contigo, com a brutal e humilde sinceridade. Fisicamente não tinhas de facto nada de especial, nenhum traço evidente e atraente, olhos e cabelos castanhos, pele clara, já com algumas rugas de expressão na testa. “Tinhas talvez perto de 40 anos”, pensei…mas eras absolutamente normal. Contudo havia em ti algo que me fez olhar com mais atenção, Acho que eram as mãos, a maneira como falavas com elas. Compridas, de dedos esguios e bem cuidados. Elas pareciam falar também, dançando ao som das palavras.

A primeira vez, puxaste-me para ver de perto um quadro. Seguraste-me a mão como se fosse uma criança e não tive reacção senão acompanhar-te.

- Vou mostrar-te o meu preferido – e levaste-me por entre as mesas do bar.

No fim do corredor estava uma tela quadrada, talvez 90x90cm, com traços e relevos irregulares, “provavelmente uma mistura de técnicas”, pensei. À primeira vista parecia-me um jogo de sombras abstracto.

- O que vês? – Os teus olhos brilhavam de uma forma que até então desconhecia.

- Ahh… não sei bem… - Hesitei nervosa.

- Vê com atenção, podes tocar - E foi então que por trás de mim tapaste-me os olhos com uma mão e com a outra agarraste na minha mão esquerda e seguraste-a contra a tela. Nunca consegui esquecer aquele momento mágico, onde a pele suave das tuas mãos nos meus olhos fechados contrastava com o rugoso da tela que tocava ondulando com a tua mão por cima da minha.

 - O que viste? – Perguntaste novamente, destapando-me os olhos e largando-me a mão.

- Pele, pele suave. – Saiu-me assim sem pensar.  teu peito colado às minhas costas e a tua respiração junto ao meu pescoço.

 

Contemplaste-me por minutos que pareceram eternos.

- É isso mesmo. São corpos deitados, vestidos apenas de pele - sorriste deixando-me espantada com a minha capacidade de apreciação artística.

(...)

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