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Olhar Sem-abrigo

por Closet, em 25.06.10

 

Entrou no café distraída, directa ao balcão. Deparou-se de  frente com o seu vulto, sentado, sozinho.

Mexia um café, e divagou nos seus ombros largos numa camisa que não recorda a cor.

Recorda o olhar que desajeitada desviou e fingiu não reparar. Sentiu o peito a sufocar.

- Um café - disse ao empregado, sentindo uns olhos percorrerem-na, ansiosos de um confronto violento.

Aqueles jogos ridiculos de quem tem medo de falar. As palavras matam. Mata também aquele olhar. Profundo e viciante.

Evitou-os torturando-se, esmagando-se por dentro. Daria tudo para olhar, invadi-lo loucamente, toca-lo, vê-lo sorrir. Mas já não tem forças para pedir, mendigar nem mais um gesto. Não quer saber.

 

Engoliu o café, quente, a ferver. E sentiu-se arder, contornando a mesa dele sem respirar.

- Olá - disse ele baixinho - Tudo bem?

Que hipocrisia. Ele não quer saber o que ela sentia, para onde vai ou de onde vem. 

 

Que sim, mumurou num passo apressado, e acenou-lhe um olá amargo. De costas voltadas.

Continuou o seu caminho. Não olhou para trás.

Claro que ele não a seguiu.

Sempre fora ela a insistir, a sonhar no vazio.

 

Hoje evita o choque corrosivo dos seus olhos, vai esquecer.

Esquecer o travo dos lábios, o toque da pele, o encaixe dos corpos, perfeitos, insatisfeitos sem perceber.

 

Murmurou "tudo bem" ao longe de costas voltadas. E quase voltava atrás, num impulso voraz. 

Fingir mais uma vez. Mas não o fez. Foi capaz.

 

Encenou um olhar cego envidraçado

E escondeu o seu olhar sem-abrigo, carente, ausente

que sobrevive abandonado.

 

publicado às 01:23


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