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Deixo o desejo

por Closet, em 02.06.10

 

«Deixo-te porque te desejo»

e atirou a pedra contra o mar revolto, na fronteira do meridiano onde se encontrava. Podia vê-lo ao longe, noutro meridiano mais afastado.

Atirou-a com força, para a obrigar a afundar-se rapidamente, sem perdão. Atirou-a tão longe quanto conseguiu, que até o seu braço lhe doía. Doía também o peito por dentro, numa espécie de aperto, entre a memória e a solidão. O abandono de um desejo antigo, amarrado, reprimido, fulminante…que lentamente a consumia, desesperado.

Como chagas que se alastram devagar pelo seu corpo moribundo. Como a pedra que se afogava entre as correntes que a empurravam para o fundo. Perdida e esquecida naquele mar. Assim é o desejo que sente, escravo maltratado, numa eterna falta de ar.

«Deixo-te, porque não quero desejar-te mais». Chega! Repetia, enquanto as ondas embatiam raivosas contra as rochas. Iradas, nervosas, num movimento agreste acelerado. Como o seu coração batia, desorientado, ao vê-lo atravessar o meridiano mesmo ao lado.

Que ironia.

«Deixo-te porque não aguento, nem mais um dia, o teu olhar». O desejo híbrido, o impulso voraz, irreflectido, o desejo queima quando não se satisfaz.

«Deixo-te, porque ao ver-te desejo-te, loucamente» Como um golpe infectado, que sangra abundantemente. Precisa de se curar. E imagina a  pedra que se afoga no mar, quebrada, ferida. Morta de vida.

«Deixo-te hoje e enterro todo o desejo de uma noite tardia». Segue em frente. Rasga-se por dentro mas enfrenta-o, com uma frieza e distância que nela desconhecia.

Cruzam-se no meridiano de um olhar perdido. As palavras saem vazias, ecoam difusas, sem sentido. Num cortejo demente, num jogo ridículo encenado. Repete baixinho.

«Deixo-te hoje, e o desejo morre contigo, por ti mesmo envenenado».

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publicado às 22:12


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