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Partir

por Closet, em 19.05.10

 

 

 

Naquele dia ele tomou o café da manhã, como fazia sempre. Os gestos automatizados, com os olhos pousados na torrada e o pensamento ausente. Já não era ele que estava ali à sua frente. Era apenas um corpo frio, despojado de vida, inexpressivo. Sem sangue a bombear-lhe as veias, sem o perfume de uma noite ardente de prazer. Habitava nele um silêncio profundo, como se tivesse caído num abismo infinito, rochoso, impossível de sobreviver. 

Talvez por isso não era difícil vê-lo partir. 

Os seus olhos cruzaram-se pela última vez à sua porta. Recorda, como se atravessasse um deserto imenso na sua mente, como antes eles a invadiam insaciáveis, percorriam toda a sua pele, arrepiada, que explodia de desejo. Desejo... ironicamente ele desejou "bom dia", por entre os lábios que asfixiavam uma vontade de partir. Uma vontade incessante, transparente e crua. "Porque não parte?" pensava enquanto acenava um adeus moribundo. Um ritual desprovido de sentido, dorido, insano. Talvez o último adeus, pensava ao vê-lo afastar-se pela janela.

Naquele dia ele não regressou. O seu corpo retomou vida.

Ainda assim ela esperou. Porque tinha saudades daquele olhar antigo. Penetrante, que sorria poesia.

Esperou pelas mãos que há muito não a tocavam, desapertando lentamente botão por botão a sua alma, rendida de respiração descompassada. Esperou para saciar a sede de o ter de volta, de o possuir novamente. Inteiro, voraz, improvisado. 

Ele já não voltou. "Partiu", convenceu-se. Desistiu cobardemente. Não quis arriscar.

Partir sempre foi a forma mais fácil de desamar.

 

 

publicado às 01:20


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