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Cativeiro

por Closet, em 28.04.10

 

 

Assim são as palavras que nunca dissemos

Presas, encarceradas,

num vidro grosso, transparente

esbarram, matam-se, gastam-se,

num fio de voz que não se ouve, nem se sente.

Assim são as palavras, outrora belas

que nos seduziram, viciaram

e no dia, na hora certa,

nos faltaram

refugiaram-se, enclausuradas

numa máscara poderosa,

firme, orgulhosa,

de palavras usadas, ensaiadas.

Assim são as palavras que nunca dissemos

porque não gritei?

porque entrei no jogo e não quebrei?

Dizia-te tudo o que sentia

naquele crepusculo de dia, no ponteiro acelerado

Aquele espectaculo encenado.

Jogo ridiculo sem vencedor

és um parvo, sabias?

se pensas que morro de dor...

A beleza foi o instante que vivemos,

a lúcida embriaguez

só por mim, num egoísmo,

vivia tudo outra vez,

e no momento final,

Dir-te-ía que o dícifil não sabe melhor

Que as palavras estranguladas, 

num vidro sufocadas em meu redor.

Aquelas palavras que não dissemos,

belas, solitárias,

Ainda as sei de cor.

 

 

 

 

publicado às 01:34

Fantasmas

por Closet, em 27.04.10

 

 

Nunca tive nada que fosse meu. Não procurei, não quis saber. Tudo o que fiz foi só viver, um dia e outro de cada vez.

Talvez por isso nunca encontrei, aquilo que procuram e eu nunca encontrei. Se é importante, juro que não sei. Nunca encontrei, nem quis saber.

Nunca tive nada, mas sempre amei. De abraços abertos nas tempestades, corri o mundo, neguei verdades. Eu juro que nunca sequer pensei, sobre aquilo que eu nunca encontrei.

Segui o instinto e ignorei a razão, essa foi sempre a sensação. Nunca ganhei, mas já perdi, nunca encontrei o que persegui.

Nunca pensei ir mais alem, o amanhã nunca mais vem, o hoje é tudo e eu sempre quis mais. O amanhã fugiu para o cais. Embarcou algures em parte incerta, e sei que anda a navegar, aquilo que eu nunca encontrei, aquilo que não vou procurar.

Carrego sempre os meus fantasmas, aqueles que já não vão fugir, que me escutam e não questionam, tudo o que falo eles vão ouvir.

Com eles persigo em passos rápidos, aquele momento dos abraços, de beijos roubados sem arrependimento, o olhar fixo e o sorriso rasgado. Nunca foi meu, nem um bocado.

Foi como o vento que rodopia, as hélices de um moinho antigo. Num dia calmo, a meu lado, voaste para longe do meu abrigo.

Eu nunca te procurei neste mar alto, nunca mais fui ter contigo.

Agora és também um fantasma, que me acompanha sem saber, que me acalma ou exalta, faço-te o que me apetecer. Shiuu não posso dizer.

Neste mundo de fantasmas, eu não preciso de ter nada. Caminho sempre acompanhada, por aquilo que nunca me pertenceu. Nunca tive nada que fosse meu. Nunca quis ser mais do que eu.

 

 

publicado às 01:23

Vida de Copo

por Closet, em 23.04.10

Este é o primeiro trabalho que escrevi para o meu novo curso... um outro ponto de vista, neste caso, o de um copo! Why not??

Estou a gostar, bastante... na verdade acho-o completamente "speedado" mas bom! na verdade, em 3 aulas já tive 3 dos 4 formadores e, por isso, em cada aula parecia que entrava numa nova sessão dos AA..."Olá, eu sou a... e estou aqui porque" já estou a ganhar prática!!

Bom, aqui fica o "meu" copo! Just to share!

 

Vida de copo ou um copo de vida

 

“Não, não, por favor” gritava enquanto era transportado pelo irritante empregado que balançava desajeitado a bandeja, provocando-me enjoos como se estivesse em alto mar.

E pronto, lá estava eu na mesa de um sujeito de bigode farfalhudo. Já não bastava o cheiro nauseabundo daquele whisky velho que ardia nas minhas entranhas. Ele devia ter alguns 56 anos, olhava-me de sobrolho carregado, como se eu fosse a solução para as frustrações da sua vida... já conhecia aquele olhar e adivinhava até os seus movimentos seguintes, segurava-me com força e trás… ia tudo de penálti.

O roçar daquele bigode peludo, era uma verdadeira tortura. Pior mesmo só quando era acompanhado de uma barba que me escovava e picava sem dó nem piedade.

Mesmo assim, não era assim tão mau viver num bar onde melancólicos acordes de jazz embalavam as nossas noites. Desde que me recordo vivia ali, dormindo encarcerado num armário bafiento, entre prateleiras rectilíneas, num silêncio cansado e soturno. Pudera. Certas noites chegávamos a rodopiar por 10 bocas diferentes. Batiam-nos com os dentes, arranhavam-nos com a barba por fazer, deixavam-nos colado um creme pegajoso, viscoso avermelhado, bafejavam-nos de fumo... Fui experimentando todas as formas de viver. Uns saboreavam, beijando-me demoradamente, outros apressados, ou desesperados, simplesmente engoliam de um só trago como se estivessem numa competição.

Para além dos sabores amargos a whisky, cachaça ou rum, quase sempre despejavam-me pelas costas uma pedra gelada que ia desfazendo-se lentamente deixando-me enregelado...

Havia uns sortudos que apenas experimentavam misturas doces e coloridas, às vezes até tinham direito a uma palhinha amaricada...

Pelo menos não sentiam o odor das bocas quentes a salivarem e a sorverem-nos até não haver réstia de líquido cá dentro...

Todas as noites ansiava desesperado pelo momento em que o empregado desmazelado viesse buscar-me para me entregar aos cuidados do salão de beleza. Uns não aproveitavam aquilo à séria, mas a mim deixava-me como novo. Gostava mesmo daquilo. Um relaxante banho de água quente, massajado por uma espuma macia e perfumada e no final um vento quente que me deixava a brilhar. Saía de lá sempre revigorado, ou não tivesse um porte atlético e robusto. Já aqueles tontos das palhinhas amaricadas iam para uma bacia e eram esfregados à bruta com uma esponja e depois pendurados de cabeça para baixo a pingar. Até tinha pena deles, eram frágeis, muitos partiam a perna e nunca mais lhes punha a vista em cima. Provavelmente iam para um hospital distante e depois já não os traziam de volta. Iam para outro bar qualquer. Às vezes até lhes invejava a sorte. Saíam daquela rotina, conheciam o mundo. Eu estava confinado àquele lugar sombrio de sofás de pele escura comida pelo tempo. Valia-me o jazz e, quando tinha sorte, o aroma de um bom charuto.

O homem de bigode pousou-me na mesa com determinação, fazendo sinal ao empregado que veio com o seu habitual trejeito de andar abanando o rabo. Pousou-me na bandeja e lá fui eu a baloiçar por entre burburinhos de conversas desconhecidas. Até que algo se passou, acho que ele tropeçou, a bandeja virou-se e eu caí. Não me lembro de mais nada.

Acordei dormente num lugar com muita gente, entre copos e garrafas, até vidros. Era desconfortável, uns até estavam por cima de mim, outros debaixo, desarrumados. Mas vi com agrado a luz do sol espreitar por uma frecha lá no cimo, iluminando de imediato o imenso salão verde. “Devem ser as urgências”, pensei. Que confusão! Afastei um estilhaço de vidro, incrivelmente parecido comigo, e deixei-me ficar a contemplar um repentino raio de sol que veio abraçar-me.

 

publicado às 18:47

Paisagem dos sentidos

por Closet, em 22.04.10

 

Na paisagem dos meus sentidos

Já não te consigo encontrar

és um rosto invisível

um corpo inacessível

impossível de tocar

 

Na paisagem dos meus sentidos

Onde te escondes sozinho

ouvi com os olhos a tua voz

no silêncio que há entre nós

as palavras ecoam baixinho

 

Na paisagem dos meus sentidos

Onde um dia me perdi

Caminho num jogo de espelhos

e já rastejei de joelhos

numa desesperada ânsia de ti

 

Na paisagem dos meus sentidos

Que um dia pintei para mim

Com a aroma quente do por-do-sol

O marulhar do mar num farol

e a paixão sem princípio nem fim

 

Na paisagem dos meus sentidos

enterrei-te vivo, numa sombra por ali

apaguei-te da minha memória

Recorda apenas quem tem história

E eu nunca te conheci

 

Essa paisagem sem sentidos

Mergulha-me por vezes na ilusão

do esquivo olhar que já me sorrio

mas que hoje dorme num apagão frio

De palavras-fantasma no chão.

 

 

publicado às 02:47

Fábrica de Histórias

por Closet, em 19.04.10
Bom...ontem tive um bug aqui no blog (anyway, ainda não consegui por isto normal...se é que algum dia foi...whatever) e não consegui publicar...mas como já tinha escrito aqui vai o que me surgiu sobre o tema "6º sentido -Intuição"
 

Na hora marcada eu apareci.

Eras amigo de uma amiga. Qualquer coisa assim. Nunca fomos apresentados, nunca ouvi falar de ti.

Entraste na minha vida de modo pouco usual, talvez destino, talvez acidental.

Isso importa? Perguntei. “Não” respondeste, “não faz mal”.

Falámos por falar, conversas de ocasião, daquelas que não precisam de explicação. Às vezes é bom apenas falar…assim, com alguém distante. Desencontrados, em diálogos dispersos, num tempo e espaço gigante. De alguma forma fizeste-me sorrir, não é assim tão fácil de conseguir e acreditei em ti.

Talvez por isso, naquele dia apareci.

Por destino, ou talvez não,  disseste assim de raspão, que estavas de partida. Deixaste-me surpreendida.  Não sei se triste, se perdida, presa a um futuro-ausente. É que de repente, achei-te parecido comigo e tomei-te por amigo. Trocámos contactos sem medo, aquele era o nosso enredo, tu partias eternamente.

Na hora marcada eu apareci.

Sem qualquer medo de ti. Virava o mundo do avesso, só para conseguir estar ali.

Tinha que te conhecer. Gesto por gesto, o teu olhar. A vida é tão rápida se a deixarmos passar. Aquele era “o” momento. Não podia esperar.

O único que podia ter. Não, não é para compreender. E eu nunca te tinha visto. Tudo em nós foi imprevisto, impossível de acontecer. Mas não é esse o tempero de viver? Não te perguntei, mas sei o que irias responder.

Na hora marcada eu apareci.

Como se fosses meu amigo. Não te estranhei, não me estranhaste, parecias-te comigo.

Como num sono sem fim. A alquimia dos sentidos, as palavras interditas. Eu falei pouco de mim. E embalei no teu silêncio perturbante. Cúmplice, deslumbrante. Tocaste-me, com a mudez daquele instante e massagaste a minha alma, estranhamente adormecida. Senti que tinhas de entrar na minha vida.

Porquê? Não sei dizer. Isso importa? Claro que não. Nem sei se me vais escrever. Se te volto a ver.  

Mas nos monólogos da tua ausência, aqueles que travo no vazio, pressinto-te, com dormência, e logo a seguir...sorrio.

publicado às 23:58

Arriscar

por Closet, em 15.04.10

 

O que pensa alguém lá no alto, no céu, que vai saltar de pára-quedas? Nada. Muito provavelmente. E isso interessa?

A paixão, a adrenalina, o desejo, comandam a razão – eles arriscam.

 

Há 10 anos atrás estava eu a preparar o meu pára-quedas para saltar. Coloquei-o ás costas às 10h30 da manhã descontraída e feliz e fui tomar o pequeno-almoço com a minha melhor amiga e o meu pai. Depois fui com ela ao cabeleireiro e mais outra nossa amiga e posso dizer que no cabeleireiro não me queriam deixar sair de lá com a chuva que caía… No way, era o meu dia de saltar! Ainda fomos as três tomar um café assim todas penteadas e maquilhadas e eu no meu melhor com flores no cabelo, so what? Há quem tenha piercings nas sobrancelhas, quanto a mim as flores ficavam-me bem melhor!

 

Depois equipei-me em casa da minha irmã, e na azáfama de quem espera a família que vem de Coimbra, dei por mim a ajeitar o corpete com o próprio do fotografo e sua mulher, na verdade tive dificuldade em perceber naquele casal quem era o homem e quem era a mulher mas… whatever works…does it matter?? Fiquei apetrechada :)

Na verdade aquele fato, em que me revia num bolo suspiro gigante, não era propriamente a minha perdição… na verdade era apenas um “must have" apropriado que tive de comprar e as recordações melhores que tenho dele é mesmo a sua compra com a minha amiga que também se ía casar e com o seu pai! Lá fomos os 3 para Badajoz e enquanto vestíamos, despíamos e desfilávamos quilos de vestidos e corpetes, o pai da minha amiga (by the way é aqui meu leitor assíduo, olá Luís!!) sorría satisfeito e hablava español com as guapas empregadas da loja! E lá rachámos ao meio uma estola e um saiote armado whatever que inventavam!!

  

E pronto, às 16h00 lá entrei de braço dado ao meu super-pai (ok, com um pequeno tropeçar na Igreja…ou não fosse eu pfff…) e o sorriso rasgado com os amigos de sempre a cantarem para nós…(sim porque decidimos sermos nós próprios o coro nos casamentos uns dos outros e não, ninguém tinha antes tentando tal feito, 1st time, 1st wedding, brrrr…mas todos temos dentro de nós um bocadinho de artista, right??!).

Apesar do Padre ser da minha idade e mostrar muito pouca vontade em nos casar (há quem diga que teve um desaire amoroso e era um revoltado, eu prefiro pensar que ele teve um crush por mim… why not? Para quê por defeitos?) … a missa foi fantástica com as inesquecíveis vozes dos nossos amigos a acompanhar … não há coro melhor!

O jantar também, toda a festa em família…bom, eu sei que nos dias que correm já não se fazem casamentos destes, aos 25 anos muito menos… mas eu sempre tive medo de morrer cedo e não nunca tive vertigens por isso…Saltei, e voltaria a fazê-lo sem dúvidas!

 

Tenho dois filhos lindos (e dois gatos e duas tartarugas, ok,… isso não interessa)... uma família maravilhosa e... a vida a dois é isso mesmo – Um Salto a Dois. Não é só rosas, nem é só espinhos… mas se nos agarrarmos forte ao equipamento, acreditarmos nele com aquilo que se chama de Fé, se quando um tiver medo fechar os olhos e segurar-se ao a outro com força… Funciona. E podemos sempre puxar o fio se sentirmos que estamos ir depressa demais… o fio que não é mais que a compreensão, o respeito, a vontade de desculpar, de aceitar e de recomeçar. Porque acredito que esse voo pode ser eterno, que podemos estar juntos para sempre a planar.

publicado às 15:53

Beijo

por Closet, em 14.04.10

 

Um olhar que se toca

num magnetismo vibrante

a pele transpira, sufoca

num desejo alucinante.

 

Tudo rodopia em volta

numa dança sem razão

qualquer força nos transporta

em erotismo e sedução.

 

O vento emana o teu cheiro

os lábios irradiam calor

deslizam pelo corpo inteiro

incendiados com o teu sabor.

 

Aproximam-se lentamente

e a respiração acelera

mordiscam-se desesperadamente

não aguentando mais a espera

 

Agarro-te assim de repente

Para dizer-te o que não vês

de rostos colados bem rente

peço-te "Beija-me - só esta vez"

 

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publicado às 01:39

Fábrica de Histórias

por Closet, em 12.04.10

Encruzilhada

 

Não me orgulho da minha condução. Na verdade - nada. Por algum motivo não passei o 1º exame por entrar numa rua de sentido proibido. Confesso que ainda hoje o faço. Por vezes sem perceber, outras intencionalmente. Porque me apetece, ou porque é mais fácil. Não sei.

A vida também sempre me pareceu uma enorme estrada por onde tenho de conduzir. A vários ritmos e eu nem sempre consegui acertar na mudança certa. Com muitos atalhos, encruzilhadas, demasiadas rotundas.

 

Naquele dia em que vieste ter comigo estavas com aquele ar de quem andou várias vezes às voltas para encontrar lugar e nem reparou que havia um mesma à porta. Não era costume telefonar-te. Muito menos pedir-te para vires ter comigo, assim a meio da manhã, a um café. Mas vieste. Não me fizeste perguntas e eu não adiantei pormenores, simplesmente desliguei como se puxasse um travão de mão.

Pediste um café à empregada e olhaste-me nitidamente nervoso. Já não te via há mais de 1 mês. Tinhas ído fazer uma viagem com um grupo de amigos para umas ilhas algures no Pacífico e eu não tinha feito mais perguntas.

Sorri-te enquanto mexia o meu café "estás com o cabelo mais comprido" - disse em jeito de quebrar o gelo, embora sentindo-me a derrapar como numa estrada de piso molhado. Abanaste a cabeça que sim. "Tu estás bonita, como sempre"- disseste na tua mudança habitual, aquela 3ª que aguenta o carro mas não o deixar acelerar. Jogavas sempre à defesa. Menos naquele último encontro que tivemos, em que fomos longe demais.

 

Lembro-me bem como nos conhecemos. Apareceste meio envergonhado para fazer uma massagem, não sabias bem de quê, que te tinham oferecido. Quando entrei na sala já estavas deitado e não escondo que te achei graça, mas mantive-me serena e pedi-te para deitares-te de costas e relaxares. Antes de perceber a cor dos teus olhos, senti a textura da tua pele, o calor do teu corpo e os meus dedos percorreram-te antes de saber sequer o teu nome. (De certa forma ainda acho que a nossa história começou como uma corrida de karts, quando vamos pela primeira vez, com toda a adrenalina apesar de não dominarmos o carro e no dia seguinte temos vontade de repetir mesmo sentindo o corpo todo dorido).

Assim voltaste tu na semana seguinte. E depois outra vez, e outra e mais outra. Durante as massagens nunca trocámos palavras para além de um "olá" e um "adeus". A linguagem gestual era o nosso único território e a simbiose de movimentos começou a tornar aquelas sessões estranhas e confusas. A certa altura parecia que era a tua pele que tocava em mim, que me procurava e conduzia os movimentos.

Foi no dia em que não fui eu a fazer a tua massagem que foste procurar-me, com aquele ar de miúdo mimado. Expliquei-te que tinha tido outra marcação de uma cliente antiga, que não era eu que decidia, era apenas uma empregada.

- "Então e para jantar com a Sara-não-empregada, também é preciso fazer marcação?"- perguntaste ironicamente. Foi a primeira vez que disseste o meu nome.

Respondi com um "depende".

- "Das vagas?" - perguntaste amuado.

-  "Depende do restaurante, mas por mim um cachorro quente à beira mar é perfeito" - respondi e desapareci para a sala interdita a clientes. 

Ao final do dia estavas lá com um saco com cachorros quentes e cervejas na mão. Foi assim o nosso primeiro jantar à beira mar numa praia da margem sul numa noite quente de Verão.

 

Naquele dia enfrentei a custo o teu olhar e a voz tremeu quando te disse "Não vim para te pedir nada. Apenas quero que me digas o que pensas sobre o assunto - estou grávida e só pode ser teu".

 

Um silêncio medonho apoderou-se de nós, a tal ponto que quase conseguia ouvir a loiça na cozinha, a travagem dos carros lá fora, barulhos, apenas. Uma surdez de palavras.

 

Foi nessa altura em que me lembrei da minha estranha vocação em estacionar de marcha a trás. Parecia mais difícil, mas habituei-me a ver pelos espelhos e nunca directamente. Também tu fizeste marcha atrás naquele beco sem saída. Sem enfrentar os meus olhos, disseste-me que precisavas de apanhar um pouco de ar, que já voltavas, e saíste num arranque brutal.

 

Fiquei ali sozinha, a pensar se virava para a esquerda ou para a direita. Sabendo de antemão que, para onde quer que virasse, ía ter de continuar em frente, mesmo sem mapas ou direcções, já não podia parar. Claro que estava assustada, como se estivesse a entrar num deserto com o depósito quase vazio. Não tinha os bens essenciais, nem estava preparada para aquela estrada, mas já não podia voltar.

Não sei quanto tempo demoraste, mas entraste de novo no café como um furacão. Parecia que tinhas corrido uma maratona, com a t-shirt colada ao peito e podia ver a tua respiração ofegante.

Pegaste nas minhas mãos sobre a mesa e tocaste suavemente cada dedo. Depois voltaste ao anelar e disseste apenas "falta aqui qualquer coisa, queres tratar disso agora?".

 

Naquele momento senti-me em piloto automático, inerte, sem reacção. Tínhamos 26 anos. Tu trabalhavas só para viajar. Eu trabalhava... por trabalhar. No fundo eu era um simples Opel Corsa diante de um Porshe, desportivo, sabia bem que não te conseguia acompanhar.

 

A Leonor nasceu saudável e linda e tu fizeste questão de passar lá a noite na maternidade, tratar da papelada toda, levaste-nos a casa e pediste-me para ficar os primeiros dias, que querias ajudar. Eu aceitei, fui aceitando e tu foste ficando. Mais um dia, depois outro. A cada dia surpreendias-me com uma nova aptidão, acordavas sempre que ela chorava, compravas roupa, chuchas, ías ás vacinas e ao pediatra. Durante seis meses dormiste naquele sofá mal amanhado, lavavas e passavas a tua roupa, compravas e fazias comida. Questionava-me várias vezes quem eras tu.

 

No dia do teu aniversário fiz-te um jantar e comprei-te uma camisa de uma marca que sabia que gostavas. Desembrulhaste e disseste desconsolado "Estava à espera de outra coisa". Seguraste-me nas mãos e percorreste suavemente um a um os meus dedos. Paraste outra vez no anelar "ainda falta aqui qualquer coisa, achas que já podemos tratar disso?".

 

Abracei-te como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Beijei-te como se fosse a primeira vez, com o coração a 200km/h. Nessa noite, e nas seguintes, dormiste comigo. Ainda dormes. E em noites de insónia como hoje eu fico deliciada a olhar para ti.

Nunca chegámos a casar, mas deixei-te comprar um anel bonito.

A Leonor já tem seis anos e quando eu vejo-te com ela ao colo, a contar-lhe histórias inventadas pela tua cabeça, percebo claramente como estava enganada. Que não importa a diferença de cilindrada, a velocidade somos nós que controlamos e cada um decide o seu ritmo.

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

 

 

publicado às 01:48

Eu - Aspirina

por Closet, em 10.04.10

Estou a fazer um novo curso de escrita criativa... há quem vá ao ginásio, há quem vá correr, há quem não faça nada... eu ando numa de cursos de escrita, pronto! é um facto que não fico com o físico torneado...pfff... mas a cabecinha voa!

Na 1ª aula treinámos olhar sobre outro ponto de vista, e já tenho um belo trabalho para fazer de uma página sobre "uma vida de vidro" - tenho de imaginar que sou um copo... onde estou, como sou, o que faço, penso e sinto...whatever... confesso que ando a olhar para vários copos cá em casa, nos cafés.. para ver se me inspiram... sei lá... se em alguma encarnação possa ter sido um deles e me reconheça...confesso que o mais parecido que encontro é um copo túlipa de Bohémia!! Logo se vê o que sai!

 

Para treinarmos na aula fizemos m textinho em 10 minutos sobre "uma aspirina efervescente que vai mergulhar num copo"... just it, o que ela pensava e o que sentia. Pois que nunca tinha pensado nisso... e prometo na próxima vez que recorrer a uma sra. aspirina olhar bem para ela e perguntar-lhe "olha lá? o que pensas? o que sentes? queres mergulhar de cabeça ou de pés?...ahh não tens disso... pois... então... queres falar antes um bocadinho???" eheh crazy me :)

 

Aqui fica a doideira...

 

ASPIRINA - EU???

 

«Achei que não ía aguentar aquele aperto muito mais tempo. Aquela maldita falta de ar, comprimida, sem espaço.
Estava já nauseada com o baloiçar irritante da mala, de ser constantementa esmagada por um frasco de perfume que embatia contra mim.
Foi com um alívio enorme que naquele dia ela decidiu libertar-me. Abriu-me a porta com as suas mãos esguias de unhas compridas irrepreensivelmente pintadas de vermelho claro. A minha nudez não pareceu incomoda-la, ainda que me senti tímida assim despida, completamente branca a ser pressionada entre os seus dedos. Estava um sol maravilhoso e ao longe ouvi o barulho do mar.
De repente ela largou-me. Caí. 

Um susto enorme. Onde iria? Mas a emoção disparou também uma inebriante sensação de liberdade que se apoderou de mim. Foi um salto magnífico, em queda livre, brilhante... nunca tinha experimentado nada assim. Terminei com um mergulho exemplar numa piscina de água cristalina. Onde a frescura da água na minha pele agitou aquele mar como uma explosão incontida. Num frenesim de loucura sacudi-me, em gritos roucos, emergi à tona de água calma, devagarinho. Aos poucos comecei a perder toda aquela força e vitalidade... perdi-me de mim. Será que mergulhar de cabeça é assim?
Oiço-os dizerem que me fundi com a água, transformei-me... que desapareci. Enganam-se, os ignorantes coitados, eu não estaria agora a falar aqui. A forma que tenho não me interessa para nada, sei que existo na cabeça de quem precisou de mim.»

 

 

 

 

Ilustração do meu amigo Nuno Lema :) Thanks! Aspirina smile :)

publicado às 22:41

Não ser visto

por Closet, em 07.04.10

Hoje enquanto fazia... tempo, para...o tempo... deambulei pelo centro comercial e aterrei na Bulhosa. Curiosamente ultimamente apetece-me vestir de...livros. Pelo menos deve ser menos criticável do que estar em casa no facebook... não sei, nunca pensei nisso, sinceramente nem tenciono fazê-lo. Mas a verdade, por incrível que possa parecer a alguns, é que gosto de lá estar mesmo sozinha, beber um café e folhear uns livros e, de facto, não tenho muitas oportunidades de o fazer.

Deparei-me com um livro no top de vendas sobre a morte (não vou dizer o título pois corro sérios riscos do autor descobrir este meu canto e eu ter de me desculpar de não ter escrito algo interessante...). O tema repele-me, confesso. Na verdade, acho que não lido bem com a idade porque tenho este pânico de morrer cedo, não propriamente de morrer, de sentir dor, mas antes talvez de causar dor aos que me rodeiam ...sei lá. Dei por mim a pensar que era de facto narcisista em ter esta preocupação. De qualquer forma, desde que sou mãe esta situação agravou-se consideravelmente, admito. Adiante...lá estava o livro com um poema de Fernando Pessoa como mote de abertura:

 

«A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.»  Fernando Pessoa

 

E lá fiquei eu a pensar nisto...

Em como estamos mortos para tanta gente que não nos vê ou quer ver como somos...

Na verdade, há dias em que me apetece mesmo estar "morta" e não ser vista. Ficar no meu canto. Com todos meus defeitos. Imensos, luto e convivo com eles diariamente. Não sou melhor nem pior que os outros. Mas esforço-me por aceitar cada um como é e, acima de tudo, não critico nem me permito a fazer juízos (mesmo quando não compreendo... e se há muita coisa que não compreendo, tantas). Mas quem sou eu?

Gosto de muita gente, é um facto. Em diferentes degraus naturalmente, mas raramente antipatizo com alguém. Tento sempre encontrar em cada pessoa o que considero positivo, e geralmente dou-lhes tempo porque nem tudo é o que parece à primeira vista, quase sempre arrisco, dou o benefício da duvida. Não tenho preconceitos. Falo com estranhos (definam "estranho") e se gostar deles aceito-os como amigos. Devo ser de outro planeta, muito provavelmente... Ainda assim, às vezes sinto-me a morrer aos poucos, ao curvar as estradas que sigo no meu caminho.

Quem quiser segue-me, outros perdem-me de vista. Mas, não tenho dúvida, com tudo o que a vida já me reservou (e não tive uma infância propriamente normal e fácil), sou eu que decido, pela minha cabecinha loira, o meu caminho. E não o vou justificar a ninguém.

Graças a Deus que tenho a meu lado um homem maravilhoso que me aceita, mesmo sem compreender muita coisa do que digo, gosto ou faço, mas que é sem dúvida o meu porto de abrigo.

publicado às 23:23

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