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Anatomia de...mim

por Closet, em 22.03.10

Ontem fui fazer uma aula de yoga. Corrijo, Hatha Yoga (pois que não me podia ficar por algo brejeiro!).

Na verdade foi um dia complicado, tínha-me deitado tarde, tinha um almoço de aniversário no Pinhal Novo, tinha um jantar em Lisboa...e pelo meio a aula de Hatha Yoga das 17h às 19h algures no Bairro Alto...Mas confesso, não era feliz se não fosse! Não pela aula e si mas porque foi um convite de uma amiga que adoro, na verdade ela podia ter-me convidado até para fazer judo, taekawdo, andar de patins na lua ... o que fosse que eu ía, só para partilhar um pouco daquela parte da vida dela! (Adorei amiga!)

Claro que tenho a sorte de ter uns sogros e um marido únicos, magníficos, que me suportam nas mais mirabolescas combinações, e isto sem me internarem num hospício!! Not bad!

Voltando à aula... Embora eu não fizesse a mais pálida ideia ao que ía, fiquei satisfeita ao ver uma professora exactamente como imaginamos, simples, bonita, zen... aora o que já não foi zen foi termos de tirar as meias e eu não ter as unhas pintadas, shame on me! E lá fiquei eu a aula toda focada num ponto como a professora queria... nas minhas unhas dos pés claro!(é que nem um brilhosinho...).

Anyway, rapidamente me apercebi que para fazer aulas daquelas é preciso de um estudo prévio intensivo sobre anatomia...e na verdade eu tinha mesmo estudado na véspera era astronomia, o nome parece parecido...mas n'um é! as omoplatas não fazem parte do sistema solar... ainda... que eu saiba (embora o meu filho me fale de um planeta qualquer esquisito que parece que descobiram mas não está nos livros "querido, não compliques" digo-lhe logo). "Afasta os ombros e roda as omoplatas" foi algo que me questionei a aula toda, primeiro porque os ombros já estão afastados, tenho a cabeça no meio, certo? E depois porque não percebi bem onde eram as ditas omoplatas para rodar, era lá para trás nas costas, isso era certo... De qualquer forma nem me atrevia a perguntar, bastava ver o ar sério e compenetrado da minha parceira em frente para me por em sentido (n'um ri, concentra!).

Pois que aquela modalidade, o Hatha Yoga, "ha" de sol e"tha" de lua, talvez por serem ambos lá em cima, passamos a aula quase toda de rabo virado para o ar, numa posição algo...inestética... e agradeci sinceramente o facto de ter ficado de costas para uma parede...

A musica era zen, apenas interrompida por duas vezes pelo Runnaway da Avril Lavigne do meu telefone que me esqueci de desligar... shame on me twice! Não me acusei...confesso!

E com tanto rabo empinado e apoio nos pulsos, pensei seriamente que iria sair dali de ambulância... mas incrivelmente saí de lá como se tivesse feito uma sessão de fisioterapia, de tal forma que hoje nem precisei de alnalgésicos... viva as terapias alternativas, com visões vedântics e energias Kundalini!!

É bem verdade que hoje doi-me cada milimetro que mexe do meu corpo...mas é saúde e bem estar! what else?

No fim tapámo-nos com um cobertor, colocámos um saquinho perfumado nos olhos e uma almofada em baixo das pernas. Admito, aquela foi a minha parte preferida ... e na verdade ficaria ali o resto da noite se me deixassem... mas tinha um jantar, claro!!

Foi com tristeza que abandonei o local... prometendo regressar...repetindo aquelas posturas Siddahasana, Padmassana, e outras acabadas em "assana" em busca do equilibrio das forças solar e lunar!!

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publicado às 23:26

Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.03.10

Arriscar

 

Dirigia-se para mim com aquele ar cabisbaixo, puxando para trás o cabelo que caía para os olhos, num movimento lento, pausado. Caminhava devagar, como se os próprios passos fossem pensados, um a seguir ao outro.

- Um duplo - pediu-me, empurrando o copo vaziu de whisky que trazia.

- Para aquecer ou para esquecer? - perguntei-lhe agarrando o copo com firmeza.

Olhou-me de lado, desconfiado.

- Conhecemo-nos? perguntou cravando os seus olhos embriagados nos meus.

Demorei a responder. De propósito. Como que a testar a sua curiosidade.

- Talvez - disse revirando os olhos e servindo-o de whisky - isso importa?

- Não - responde baixinho. Nada lhe importava. Os amigos foram embora depois de mais uma noite de copos. Mais uma. Uns flirts, um jogo de snooker, copos, cigarros. No final todos voltavam para as suas casas. Para uma cama partilhada com um corpo quente, que se moldava ao deles.

Tinha sido mais uma noite dessas, mais uma despedida de solteiro, mais um amigo que no fim-de-semana passaria a jogar pelos casados... Já só restavam dois solteiros no grupo, ele e amigo baixinho, aquele que ainda vivia com os pais...

Conhecia-os a todos, há mais de dez anos que se encontravam ali... uns já eram pais, mas continuavam um grupo unido. Mas ao chegar aquela hora, a hora em que, em tempos ídos, apanhavam uma borracheira e deabulavam para uma pensão qualquer com a primeira miúda que engatavam no bar, agoram despediam-se ainda sobrios e seguiam para casa.

Francisco tinha ficado sozinho no bar desta vez. Até o Miguel se arranjou com uma estrangeira e desapareceu com ela para o hotel onde estava hospedada.

Francisco tinha tido a oportunidade de ficar com a amiga dela, uma belga alta e vistosa, um pouco magra demais talvez. Não lhe importava, e isso até lhe passou pela cabeça quando ela se sentou na sua frente com um decote povocante a bebericar um Malibu. Mas hoje Francisco não lhe apetecia. Podia ler-lhe nos olhos, ao ver os amigos casados partirem. Ele que sempre se vanglorizou da sua vida descomprometida, sem dar satisfações a ninguém. Ali estava ele, ao balcão do meu bar.

- Acho que é para aquecer - respondeu-me bebendo um gole do seu whisky.

Já eram 5h da manhã e o bar estava praticamente vazio. Havia apenas um casal enrolado num sofá a um canto. Servi-me também, coloquei 2 pedras de gelo e sentei-me ao seu lado ao balcão.

- Afinal, tens medo de quê? - perguntei recebendo em troca um silêncio de morte.

Bebeu mais um gole e retorquio.

- De...nada.

- Nada. Talvez seja esse o problema - disse-lhe - Quem não procura, é apenas isso que tem: nada. Um nada que se transforma numa casa vazia, num frigorífico com comida fora de prazo, numa cama por fazer enorme, gelada. É isso que queres a vida toda? É para isso que afastas qualquer possibilidade de relação? É isso que fazes a ti próprio, não é?

 Francisco ficou pensativo, olhando-me vagarosamente justificou:

- E para quê mais? se depois todos separam-se...

- Sim, é verdade...muitos. Sabes, nada é eterno... alguns acabam por separar-se - sorri-lhe, continuando - eu diria mesmo que só acontece àqueles que um dia tiveram a coragem de se juntar, de partilhar, de aceitar o diferente, de prescindir de si mesmo a toda a hora...

Sim, assusta... alguns não conseguem deixar de lado o conforto egoísta que a solidão nos trás. Mas a maioria, como os teus amigos, tenta. Às vezes cai, depois levanta-se. Mas vive. Vive cada momento a dois como se fosse o primeiro, não há espaço vazios, e claro que há dúvidas, hesitações, medos... mas mesmo assim arriscam cegamente, apaixonam-se e entregam-se.... porque é nesse arriscar que descobrem o verdadeiro prazer de estar vivo.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

publicado às 00:31


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