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«Há tanta, tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, irremediavelmente afastados« Haruki Murakami

É um dia como outro qualquer. Mais um dia. Repete num turbilhão, enquanto deambula cegamente, indiferente à multidão. Ao barulho que a rodeia, alheia do mundo. Parte sozinha num silêncio profundo.
Nas esquinas depara-se com o rosto que não quer ver. E apetece-lhe desaparecer. No palco finge não reparar e segue o seu caminho, em frente, sem parar. Mesmo sem perceber se ele está sozinho. Não quer saber. Nem se ele a vê também. Já não importa, sequer se está com alguém.
Há naquele cenário fúnebre a tristeza da desilusão. De quem desistiu de ver, de entender. Desistir é morrer. E ela morreu também. Morreu para ele no tudo-nada que lhe deu. Para ela, ele também morreu. Tornou-se um rosto anónimo, desfigurado. Já nem se lembra ter-se apaixonado. Como? Nem porquê... talvez seja algo que não se vê. Sem lógica, ou sentido. O mistério de um sem-abrigo que encontra o conforto num olhar cativante. Errante, investe no perigo de amar só um pouquinho. E num passo de dança, entrega-se como uma criança que age sem pensar. Não devia ser assim amar? Espontâneo e natural? Mas as máscaras fazem-lhe mal. As palavras pensadas e manipuladas. Envenenadas. Não as entende e ficou tanto por dizer. É mais fácil esconder. Há quem viva assim a vida inteira sem saber. E no abismo vê que já passou. O momento acabou. Há apenas um vazio naquele imenso espaço. Entre rostos que se cruzam, há um vidro baço, que os separa sem ilusões.
Nunca existiu um depois. A vida passou, brutalmente, ao lado dos dois.