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Fábrica de Histórias

por Closet, em 01.03.10

 Vidas aos pecados

 

Augusto comia a sua tosta mista acompanhado por um copo de leite morno, enquanto Dora preparava-lhe o café. Curto e com 2 colheres de açucar.

- Esta gravata nova que comprei ontem fica aqui mesmo bem! - comentou ajeitando o nó.

Dora acena que sim, com o seu habitual sorriso, enquanto lhe serve o café.

- Aquele lugar já cá canta. Não há lá ninguém melhor do que eu. Vais ver. E tem direito a um carro até 50.000€, sabias?

- Mas achas que essa reunião foi marcada para comunicar-te isso? - perguntou timidamente Dora comendo em pé a sua torrada.

- Claro? - respondeu enquanto lhe fazia sinal para lhe passar o cinzeiro - que mais? Ouve este teu marido sabe muito, era a mão direita do ex-director, todos sabem disso...

- Sim, mas já tens 48 anos, às vezes vão buscar pessoas mais novas, com MBA, sei lá...

- Achas que eu não sirvo Dora? Eu sou a pessoa mais elogiada daquela empresa, tenho a certeza que ainda vou negociar o aumento de salário que me vão propor - resmunga levantado-se da mesa e deixando o cigarro por apagar ainda a metade - olha, deixa-me ir que ainda tenho muitas coisas para fazer. Arruma isto tudo antes de saires...ahh... e deixei uma camisa em cima da cama que achei que não ficava bem, arruma-a também.

Augusto saiu apressado para o seu carro, com um sorriso onde transparecia a sua alegre confiança.

 

Enquanto arrumava a cozinha Dora foi interrompida por um toque de mensagem. Correu para o telefone e leu. Já estava atrasada. Enfiou com a loiça na máquina, e correu para a banheira. Secou o cabelo ondulado ruivo, deixando-o solto e volumoso, pintou-se, colocou o seu D&G e vestiu um vestido que lhe evidenciava o peito generoso e a fina cintura. Não era muito alta, por isso os sapatos tinham invariavelmente um salto alto fino que lhe alongava as pernas.

Era um encontro já adiado há demasiado tempo. Não que a descrição lhe parecesse algo especial. Na verdade era mesmo banal, mas o facto de ter sido desmarcado já 3 vezes aguçou-lhe a curiosidade "quem é que ele pensa que sou?  Há cinco anos que nunca lhe tinham falhado um encontro, já tinha 38 anos, não era uma inexperiente... " pensava enquanto chamava um táxi

- Hotel Valeflor, sff - disse enquanto voltava a consultar a mensagem com o código habitual  "visita às 10h00 - casa 24 em Miraflores" nº desconhecido. À medida em que se aproximava do local a adrenalina palpitava-lhe nas veias. Senti-se excitada com a imagem do seu corpo despido e um olhar que a desejava mais do que a própria vida. Dora sentia-se poderosa, divina. A sua profissão de vendedora imobiliária permitia-lhe um horário flexível Marcar encontros pela internet com desconhecidos tornara-se um vício que não conseguia evitar, tomara posse dela e agora já nem sentia peso na consciência. Era sexo, apenas. Nem sempre bom, é certo Mas a sensação de prazer do fruto proíbido, do desejo do desconhecido, era algo que lhe dava uma satisfação incomparável com qualquer noite de amor com o seu marido. Cumpria apenas, imaginando na sua cabeça muitas vezes corpos desconhecidos que despia na rua com o olhar, mãos de estranhos que imaginava a tocarem-lhe os seios.

É aqui, certo? - perguntou o taxista impaciente depois de já ter estacionado.

Dora pagou e saiu. Sacudiu o cabelo e ajeitou o vestido antes de entrar. Subiu ao 2º andar, quarto 24, como combinado. Bateu ao de leve na porta, mas estava entre-aberta. Com a pulsação acelerada resolveu entrar.

 

Eram 19h30 e Augusto toca à porta. Não tinha paciência de procurar as chaves  dentro da sua mala do portátil que trazia quase sempre consigo. Dora já estava na cozinha a finalizar o jantar e dirigiu-se à porta recebendo o habitual beijo na testa. 

- Estás bonita! - comentou, passando a mão pelo seu cabelo apanhado num rosto ao natural. Dora vestia uns jeans de ganga justa e um casaco comprido sobre um camiseiro. Ajudou-o a tirar o casaco e perguntou

- Então, que tal a reunião?

Augusto coninuou a caminhar até à sala fingindo nem ouvir.

- Trazes-me um whiskey?

Depois de servi-lo sentou-se na sua frente pacientemente.

- Sabes, eles nem sabem no que se vão meter...Imagina que meteram um miúdo de 33 anos como director Financeiro.... - suspirou.

- Mas veio de algum lado, recomendado? - indagou Dora enquanto passava-lhe um cigarro e acendia-lhe o isqueiro.

- Claro! Deve ser filho de algum amigo do presidente, só pode. - ripostou mandando uma baforada - Afinal que experiência pode ter? Vou ter de lhe ensinar tudo... isso é que era bom!

Dora acenou-lhe sem dizer palavra, ele também já não a ouvia.

- Mas soube pela secretária da administração que ele não se vai aguentar por muito tempo... para começar logo hoje telefonou a dizer que chegava atrasado, com uma desculpa qualquer que anda à procura de casa, e tinha uma visita lá para os lados de Miraflores... olha, até pensei em dar-lhe o teu contacto.

 

 Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

 

 

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