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Eu e o spaceshutel

por Closet, em 30.03.10

Há dias em que me sinto...como hei-de dizer... freak, weird...bem, estranha... Hoje foi um dia!

Para começar dormi com dois homens. Quero dizer, um já está morto. Quero dizer, já estava, não fui eu. Na verdade até estava embrulhado. Não em mim, num papel... bom, isto está a ficar estranho. Começando de novo, a ver se me explico, o meu marido comprou-me ontem um livro e fez-me a surpresa de o esconder dentro da cama. Surpreendido ficou foi por eu ter-me deitado depois dele e nem reparar no dito até de manhã. É que deitei-me mesmo às escurinhas e durmo como uma pedra... até devo ter esmagado o coitado... e só de manhã quando me viro para o lado sinto algo macio, liso, rectangular mesmo ao meu lado... what?? era o Pablo Neruda! Eu tinha comprado os Poemas de Amor na 6ªfeira em edição bilingue e devorei-os no fim-de-semana e ele, romântico, comprou-me a Antologia de Poemas! Hoje o senhor já vai dormir na minha mesa de cabeceira, sei que não é tão confortável, mas também ele já está morto naõ sente, right?... e eu sou de gostos convenciais, dois é bom, três é demais!

 

Para continuar o dia em beleza, depois da gafe de romantismo... Hoje fui fazer a dita ressonância magnética ao punho (é assim mesmo que se chama, se bem que para mim punho ou pulso c'est la même chose). By the way tinha uma reunião de um novo projecto exactamente à mesma hora, às 14h30... e como na minha cabecinha loira o tempo estica, tive a brilhante ideia de ir mais cedo "aquilo é rapidinho, e estou cá às 14h50"... by the way, o meu paizinho assegurou-me estar a postos lá à porta do hospital às 14h30 para eu chegar rapidinho à reunião "sim, porque aquilo é só ao punho, 10 minutos e já está" expliquei eu como se fizesse aquilo todos os dias... obviamente nem sabia para o que ía... pfff.

Pois que eram 14h30 e ainda estava a preencher um inquérito sobre palavreados dignos de um curso de medecina.... se tinha isto e aquilo, se autorizava a administrarem-me qualquercoisa intrevenosa...what??... é só um pulso... ok, injectem...disse que sim.

Às 14h45 finalmente aparece um enfermeiro com ar de quem toma alucinogénitos (ou então é mesmo aquelas coisas intravenosas que falavam) que pelo caminho me pergunta novamente aquele rol de coisas esquisitas mas desta vez já de uma forma mais abreviada, do género "tem cá dentro placas, parafusos?"... confesso que quase me saltou "costumo comer uma caixinha de pregos ao pequeno-almoço...mas hoje não me apeteceu" ... mas contive-me e disse "NÃO...sou de carne, osso e celulite, just it"!

Pois que para uma ressonância magnética tive, para além das duas horas de jejum, de vestir uma bata e ficar só de cuecas e meias... tira brincos, tira relógio, tira anéis "ahhh a aliança é de ouro? se sim, pode ficar" Just in case, tirei tudo, who cares!

E lá fui eu naquele belo traje azul escuro, tal qual presidiária, de chinelo descartável, em direcção à spaceshutel que me esperava... oh God...

Deitei-me na marquesa e o lunático do enfermeiro lá me colocou almofadas na cabeça, nas pernas, nos pés, "tinha de estar confortável"... Hellooo?? é o punho... "mas isto vai ser rápido?" perguntei-lhe já impaciente com tanta almofada e nada do punho... "Nãooo... como é para ver as artérias e tendões é mais demorado, aí uns 20, 25 minutos"... respondeu-me o médico, novo e até giraço, loiro de olho claro que apareceu de repente... que tinha é de estar quietinha por isso tinha de estar confortável...Oh God...ali, naqueles trajes, esganada de fome e com uma reunião a decorrer... pffff . Lá me colocaram o braço numa espécie de adereço robocop, whatever, I don't care ... e perguntaram-me que musica queria ouvir...simpáticos (by the way, o meu mp4 estava fora de hipótese...). Pedi-lhes Coldplay, não tinham...mas tinham Kizomba "obrigadinha, tem tudo a ver"... lá fiquei com a  música que se estava a ouvir na sala, que nem sei bem o que era mas já nem queria saber.

E foi assim que entrei para a spaceshutel de phones nos ouvidos... Na verdade senti-me na própria Guerra das Estrelas porque volta e meia ouvia-se trtrtrtrtrtrt...que pareciam naves a disparar... e como era na zona do meu punho, bem... foi uma espécie de realidade virtual, lá estava eu ao comando das tropas de Krypton a combater os inimigos... oh God...

Pois que lá estive muito tempo, não sei quanto já que a dita nave tapava-me até ao fundo da cabeça e um relógio era coisa que não se via naquele buraco... bom, na verdade acho que passei pelas brasas, não me lembro bem, mas acordei com uma valente dor no outro braço (o que não tinha adereço robocop mas que segurava uma bola qualquer para os chamar em caso de emergência...). Tinha essa mão completamente dormente e doía-me até ao cotovelo, e como foi o pulso que já parti só pensava "querem ver que ainda tenho de vir aqui repetir a coisa para este também??" (no way, não me apanham ali outra vez).

Finalmente lá fizeram o obséquio de me retirar da nave e pedir desculpa porque durou mais um bocadinho "JURA??" ah e tal porque eu mexi-me um bocadinho... pois quando saí de lá já eram 16h00 e pelas minhas estimativas estive lá desterrada pelo menos uns 40 minutos... ou aqueles dois esqueceram-se de mim e foram beber uma cervejola enquanto eu ficava para la aos tiros sozinha, ou então andaram a espionar-me a mioleira (o que segundo a minha amiga até é aconselhável :P). Anyway... o alucinado ainda me queria reter mais uma bocadinho, porque podia ter tonturas... no way, tinha tonturas era de fome, queria sair dali e engolir qualquer coisa...pffff.

E lá fui eu, pedindo aos céus que não me apanhem noutra tão cedo...

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publicado às 21:27

Fábrica de Histórias

por Closet, em 28.03.10

 

Fotografia desfocada

 

Numa manhã, quando o sol entrou no quarto, ela tropeçou numa fotografia antiga.

Uma fotografia desfocada, gasta e descolorida. Perdida, não sabe como, da sua vida. Não sabe quando, numa espécie de acto vândalo, apagou-o da memória. As fotografias, as cartas, toda a história.

Apagou os olhos cor de avelã, que a beijavam com o perfume do deslumbre. 

As mãos que arrancaram o seu coração, num golpe certeiro e profundo. Desorientaram os ponteiros do seu mundo, envolto em sonhos e paixão. As palavras embriagadas, em suave espuma de cerveja, toldavam-lhe a razão. Palavras confusas, sem sentido, como as músicas que lhe cantava ao ouvido. Apagou o caminhar desengonçado e os braços que a enlaçavam rendida. Apagou a imensa alegria de chegar, a constante dor na despedida.

Apagou a inocência irreverente, a intensidade de sentir, apagou as palavras “para sempre”.

Agora, tantos anos depois, imagina onde estarão aqueles dois. Numa qualquer dimensão da vida. Distante, secreta, escondida. Ali nada mais havia, do que aquela fotografia. Antiga, desfocada, descolorida. Que apareceu assim sem aviso, sedenta de recordações. E ao vê-la, mesmo gasta pelo tempo, sente um tormento de emoções. Quase que pode de novo senti-la. Sentir-se a ela, como era, em tudo o que fazia. O ímpeto de agarrar o que desejava e o que sentia.

Não sabe como nem quando, mas um dia enterrou-o no baú da sua vida.  Aparece agora, perdida, aquela fotografia desfocada, gasta, descolorida, tal fénix renascida. Encandeou-lhe o olhar, como se falasse consigo. Ou talvez fosse o sol a atravessar o postigo? Não, era ela, triunfante! Arrebatou-a, caiu na cama, indefesa e ferida. Já não sabia, se sonhava se vivia. Mas naquele momento, não existia nada que recordasse mais que a paixão ardente daquele amor. Nada que desejasse mais, do que aquela fotografia, desfocada e gasta, ganhasse cor.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias sobre o tema Saudade.

 

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publicado às 23:39

eu - professora!

por Closet, em 25.03.10

Eu sei que estavam à espera de algo hilariante... tive alguns momentos, confesso...talvez o melhor foi a criancinha cuja unica resposta que dava era "Continente"... o hipermercado mesmo.

Foi uma experiência gira, divertida! Ensina-se e também se aprende. Sempre.
No 1º dia disse-lhes que o sucesso deles era a minha inspiração para estar ali e, por isso, o cartaz que tinha com isso escrito era para mim.
Hoje foi o último dia e disse-lhes que o deixava lá, com eles. Para que sintam que o sucesso deles diário inspira todos aqueles que os ajudam a
aprender e a crescer. Ficaram surpreendidos!
Falei-lhes de coisas que não sabiam:
- o que é um voluntário?...não sabiam!
"mas já viram pessoas nos supermercados a recolher alimentos nuns sacos próprios que as pessoas dão? já ouviram que é preciso dar sangue? já alguém ajudou um animal ferido, deu de comer a um animal abandonado?"?... sim, isso eles já sabiam... todos, em uma ou outra situação, já foram voluntários! Que bom! Afinal eu não era alguém diferentes deles!
- o que é uma comunidade? hummm...
... começámos pela palavra "comum" e chegámos ao conceito, um grupo de pessoas que se organiza com as mesmas regras para o bem de todos (confesso, não avancei qual era "o bem" porque também não sei!!)
- que profissões estão nesta comunidade (do cartaz que tinha)?
 "café" respondem de imediato! "Conheces alguém que é um café?" perguntei a rir. E aqui começámos a descascar a diferença entre negócio e profissão.
Novidade: empregados de balcão, empregados de mesa, empregados de caixa de supermercado e empregados de loja... são profissões!
- E quem são as profissões que ajudam a comunidade?
ahh...essas eles sabiam: os polícias, os bombeiros...bom, ajudei-os com os funcionários da câmara que limpam as ruas, os funcionários dos hospitais, e... grande novidade, os professores das escolas como aquela onde estão! É que eles pensavam que quem pagava o ordenado da professora eram... os seus pais! Correcto...eles, e todos nós também, claro! E assim perceberam o papel do Estado que paga estes profissionais com o dinheiro de todos nós, e ouviram um palavrão chamado Impostos... (pois que fiz a crueldade de lhes pagar um ordenado e depois recolher 2 notas a cada um...igualmente, vá!)
- E quem é que escolhe as pessoas que vão "tomar decisões" na comunidade?
Todos. Em grupo tiveram de defender uma "escolha" ou uma "decisão", ver as vantagens e as desvantagens de escolher qual a loja melhor a abrir para a sua comunidade. Apresentaram as razões e no fim... todos foram á urna votar! A maioria ganhou e decidiu-se que a loja a abrir seria uma loja para abrigar animais abandonados! Boa causa!
- Produção em série e unitária era algo que não distinguiam...
Foi através de um jogo em que nos organizámos, ora em pasteleiros em nossas casas a fazer sozinhos Donuts para vender, ora em duas unidades fabris, com 5 elementos cada uma, onde iriam produzir Donuts como numa linha fabril. Não foi fácil ver a tristeza nos olhos dos pasteleiros solitários, que no máximo conseguiram produzir 10 Donuts, comparativamente com as fábricas que produziram mais de 100 cada! Tirámos as nossas conclusões em grupo, as vantagens e características de cada método.
- por fim, tive de explicar como circula o dinheiro.... e com apenas 0,50€ conseguimos, em jeito de teatro, fazê-la percorrer vários negócios. Eu
levantei a moeda no banco e como era hora de almoço tive fome, fui à Pizzaria do Giorgio comer uma Pizza, o queijo acabou na Pizzaria e o
Giorgio foi comprar queijo à  Charcutaria do Manuel... Como estava tanto calor, o Manuel foi comprar um gelado na rua. O Rapaz que
vendia gelados estava apaixonado e foi comprar flores para a sua namorada à Florista, a Florista tinha um filho com os ténis rotos e foi comprar uns ténis novos à Loja de desporto... no fim, o empregado da Loja de desporto ficou com a moeda na mão... perguntei-lhe: então e tu? onde vais gastar a tua moeda? No cinema! Muito bem! o dinheiro serve para comprar aquilo que necessitamos, como comida e produtos de higiene, mas também o que desejamos, como os brinquedos, as flores para a namorada ou ir ao cinema
Muitos mimos, muitos abraços e saí de lá de lágrima no olho com os pedidos para voltar.
Passei-lhes o Diploma. Deixei-lhe umas canetas e umas gomas e pedi-lhes para aprenderem o máximo que conseguirem, para serem pessoas úteis e boas para a comunidade.
E ser bom é também ser amigo para o colega, trabalhar em grupo, ouvir outras opiniões, aceitar o diferente, respeitar o outro. Bom, eles
respeitaram-me a mim, ouviram-me, abraçaram-me, beijaram-me... espero ter cumprido a missão!

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publicado às 23:08

Anatomia de...mim

por Closet, em 22.03.10

Ontem fui fazer uma aula de yoga. Corrijo, Hatha Yoga (pois que não me podia ficar por algo brejeiro!).

Na verdade foi um dia complicado, tínha-me deitado tarde, tinha um almoço de aniversário no Pinhal Novo, tinha um jantar em Lisboa...e pelo meio a aula de Hatha Yoga das 17h às 19h algures no Bairro Alto...Mas confesso, não era feliz se não fosse! Não pela aula e si mas porque foi um convite de uma amiga que adoro, na verdade ela podia ter-me convidado até para fazer judo, taekawdo, andar de patins na lua ... o que fosse que eu ía, só para partilhar um pouco daquela parte da vida dela! (Adorei amiga!)

Claro que tenho a sorte de ter uns sogros e um marido únicos, magníficos, que me suportam nas mais mirabolescas combinações, e isto sem me internarem num hospício!! Not bad!

Voltando à aula... Embora eu não fizesse a mais pálida ideia ao que ía, fiquei satisfeita ao ver uma professora exactamente como imaginamos, simples, bonita, zen... aora o que já não foi zen foi termos de tirar as meias e eu não ter as unhas pintadas, shame on me! E lá fiquei eu a aula toda focada num ponto como a professora queria... nas minhas unhas dos pés claro!(é que nem um brilhosinho...).

Anyway, rapidamente me apercebi que para fazer aulas daquelas é preciso de um estudo prévio intensivo sobre anatomia...e na verdade eu tinha mesmo estudado na véspera era astronomia, o nome parece parecido...mas n'um é! as omoplatas não fazem parte do sistema solar... ainda... que eu saiba (embora o meu filho me fale de um planeta qualquer esquisito que parece que descobiram mas não está nos livros "querido, não compliques" digo-lhe logo). "Afasta os ombros e roda as omoplatas" foi algo que me questionei a aula toda, primeiro porque os ombros já estão afastados, tenho a cabeça no meio, certo? E depois porque não percebi bem onde eram as ditas omoplatas para rodar, era lá para trás nas costas, isso era certo... De qualquer forma nem me atrevia a perguntar, bastava ver o ar sério e compenetrado da minha parceira em frente para me por em sentido (n'um ri, concentra!).

Pois que aquela modalidade, o Hatha Yoga, "ha" de sol e"tha" de lua, talvez por serem ambos lá em cima, passamos a aula quase toda de rabo virado para o ar, numa posição algo...inestética... e agradeci sinceramente o facto de ter ficado de costas para uma parede...

A musica era zen, apenas interrompida por duas vezes pelo Runnaway da Avril Lavigne do meu telefone que me esqueci de desligar... shame on me twice! Não me acusei...confesso!

E com tanto rabo empinado e apoio nos pulsos, pensei seriamente que iria sair dali de ambulância... mas incrivelmente saí de lá como se tivesse feito uma sessão de fisioterapia, de tal forma que hoje nem precisei de alnalgésicos... viva as terapias alternativas, com visões vedântics e energias Kundalini!!

É bem verdade que hoje doi-me cada milimetro que mexe do meu corpo...mas é saúde e bem estar! what else?

No fim tapámo-nos com um cobertor, colocámos um saquinho perfumado nos olhos e uma almofada em baixo das pernas. Admito, aquela foi a minha parte preferida ... e na verdade ficaria ali o resto da noite se me deixassem... mas tinha um jantar, claro!!

Foi com tristeza que abandonei o local... prometendo regressar...repetindo aquelas posturas Siddahasana, Padmassana, e outras acabadas em "assana" em busca do equilibrio das forças solar e lunar!!

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publicado às 23:26

Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.03.10

Arriscar

 

Dirigia-se para mim com aquele ar cabisbaixo, puxando para trás o cabelo que caía para os olhos, num movimento lento, pausado. Caminhava devagar, como se os próprios passos fossem pensados, um a seguir ao outro.

- Um duplo - pediu-me, empurrando o copo vaziu de whisky que trazia.

- Para aquecer ou para esquecer? - perguntei-lhe agarrando o copo com firmeza.

Olhou-me de lado, desconfiado.

- Conhecemo-nos? perguntou cravando os seus olhos embriagados nos meus.

Demorei a responder. De propósito. Como que a testar a sua curiosidade.

- Talvez - disse revirando os olhos e servindo-o de whisky - isso importa?

- Não - responde baixinho. Nada lhe importava. Os amigos foram embora depois de mais uma noite de copos. Mais uma. Uns flirts, um jogo de snooker, copos, cigarros. No final todos voltavam para as suas casas. Para uma cama partilhada com um corpo quente, que se moldava ao deles.

Tinha sido mais uma noite dessas, mais uma despedida de solteiro, mais um amigo que no fim-de-semana passaria a jogar pelos casados... Já só restavam dois solteiros no grupo, ele e amigo baixinho, aquele que ainda vivia com os pais...

Conhecia-os a todos, há mais de dez anos que se encontravam ali... uns já eram pais, mas continuavam um grupo unido. Mas ao chegar aquela hora, a hora em que, em tempos ídos, apanhavam uma borracheira e deabulavam para uma pensão qualquer com a primeira miúda que engatavam no bar, agoram despediam-se ainda sobrios e seguiam para casa.

Francisco tinha ficado sozinho no bar desta vez. Até o Miguel se arranjou com uma estrangeira e desapareceu com ela para o hotel onde estava hospedada.

Francisco tinha tido a oportunidade de ficar com a amiga dela, uma belga alta e vistosa, um pouco magra demais talvez. Não lhe importava, e isso até lhe passou pela cabeça quando ela se sentou na sua frente com um decote povocante a bebericar um Malibu. Mas hoje Francisco não lhe apetecia. Podia ler-lhe nos olhos, ao ver os amigos casados partirem. Ele que sempre se vanglorizou da sua vida descomprometida, sem dar satisfações a ninguém. Ali estava ele, ao balcão do meu bar.

- Acho que é para aquecer - respondeu-me bebendo um gole do seu whisky.

Já eram 5h da manhã e o bar estava praticamente vazio. Havia apenas um casal enrolado num sofá a um canto. Servi-me também, coloquei 2 pedras de gelo e sentei-me ao seu lado ao balcão.

- Afinal, tens medo de quê? - perguntei recebendo em troca um silêncio de morte.

Bebeu mais um gole e retorquio.

- De...nada.

- Nada. Talvez seja esse o problema - disse-lhe - Quem não procura, é apenas isso que tem: nada. Um nada que se transforma numa casa vazia, num frigorífico com comida fora de prazo, numa cama por fazer enorme, gelada. É isso que queres a vida toda? É para isso que afastas qualquer possibilidade de relação? É isso que fazes a ti próprio, não é?

 Francisco ficou pensativo, olhando-me vagarosamente justificou:

- E para quê mais? se depois todos separam-se...

- Sim, é verdade...muitos. Sabes, nada é eterno... alguns acabam por separar-se - sorri-lhe, continuando - eu diria mesmo que só acontece àqueles que um dia tiveram a coragem de se juntar, de partilhar, de aceitar o diferente, de prescindir de si mesmo a toda a hora...

Sim, assusta... alguns não conseguem deixar de lado o conforto egoísta que a solidão nos trás. Mas a maioria, como os teus amigos, tenta. Às vezes cai, depois levanta-se. Mas vive. Vive cada momento a dois como se fosse o primeiro, não há espaço vazios, e claro que há dúvidas, hesitações, medos... mas mesmo assim arriscam cegamente, apaixonam-se e entregam-se.... porque é nesse arriscar que descobrem o verdadeiro prazer de estar vivo.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 00:31

á distância

por Closet, em 19.03.10

Se é possível amar à distância? perguntaram-me um dia. Respondi que sim.

Não apenas a distância física, de cidade, país, continente... distância, só por si... ausência de contacto... um vazio preenchido pelos poderes mágicos da nossa imaginação.

Amamos sim, mesmo quem não conhecemos.

Como o sujeito que vejo todos os dias entrar no comboio com uma bicicleta. Não é giro, nem feio, nem alto, nem magro, nem reparei ainda como se veste por debaixo do colete ... mas a imagem dele cativa-me, ilumina o meu dia... porque não deverei amar aquele momento? Imagino-o sempre a pedalar pela Baixa junto ao rio, que sorte.

Amamos um pouco de cada pessoa que nos faz sorrir, mesmo que ela não saiba, não nos conheça, nunca sequer venha a falar connosco. Mesmo que não goste de nós, que nos ignore. Se nos fizer feliz ama-la, porque não? Não é um negócio, não tem obrigatoriamente de ter retribuição. Amar. Só. Simplesmente. É sentir. Depende unicamente de nós.

Eu tenho para mim que é mais importante saber apreciar a beleza do que ser belo.

A vida é curta, passa rápido demais... temos de agarrar todos os pequenos, unicos e preciosos momentos onde encontramos beleza, que nos apaixonem, que nos façam amar e sentir amados. Sejam eles quais forem. Um quadro que nos dá prazer pintar, um livro que queremos ler ou escrever, algo que queremos aprender, uma paisagem que gostamos de contemplar, até um ser humano desconhecido que nos faz sorrir. Viver, não é só respirar... há uma imensidão para amar.

 

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publicado às 01:05

Terapia de grupo

por Closet, em 16.03.10

Em Janeiro comecei um curso de Escrita Criativa numa escola no Bairro Alto. Na verdade não conhecia o local, na verdade foi-me recomendado por uma pessoa que eu também propriamente não conhecia... nos conceitos socialmente definidos, whatever... adiante. 

Na verdade nunca me tinha passado pela cabeça inscrever-me em cursos destes, não vou ser escritora, tenho este blog para me entreter, a Fábrica de Histórias para me puxar pela imaginação... Mas, ainda assim, pareceu-me boa ideia. Acima de tudo para estar à 3ªfeira com a minha melhor amiga, quem sabe às vezes ficarmos a beber um copo no BA, pôr a conversa em dia...

Na verdade, ela acabou por desistir... e o único copo que bebi foi com o meu amigo louco que às 3ªfeiras enviava-me mensagens a dizer que ía lá ter comigo. Sim, ele que estava sempre ali algures nas redondezas, rua Bucarest, e coisas assim... pois que lá andei um dia às voltas à procura da dita rua Bucarest... na Roménia, claro...oh God...just me! Mas no último dia fez-me a surpresa e, depois de um dia caótico em que me sentia a pessoa mais infeliz do mundo, foi tão bom ter um amigo à minha espera na Travessa das Mercês... (adorei os Mojitos e principalmente saber que, mais uma vez, se lembrou de mim!).

Anyway, voltando ao curso... confesso que entrei em pânico ao verificar que era a 4ª mais velha (contando com a minha amiga)... até a professora era mais nova que eu...«no panic».... respirei fundo e deslumbrei-me com a transparência de uma colega de 16 anos, linda, loira de olhos claros...

Na verdade, aquele curso revelou-se para mim mais um "Clube de Leitura"... algo que nunca tinha experimentado - ler os meus textos...M-E-D-O... E, como se não bastasse, tínhamos de comentar... assim, dizer coisas sobre os textos uns dos outros... oh God... senti-me numa espécie de terapia tipo Alcoolicos Anónimos.... "Eu, Closet, confesso..." Giiiro!

By the way, ouvir revelou-se um prazer fantástico, e mesmo os comentários desembocavam em conversas soltas, histórias desfiadas, experiência partilhadas...

Terapia ou não... hoje era a última aula, um extra que nos foi oferecido, e como foi adiada... já sinto falta daqueles rostos, das vozes de onde saíam histórias inesperadas. Desde a "locutora profissional" com a sua voz rouca possante que fazia inveja a qualquer leitura, à universitária que lia a 1000 à hora e todos suplicávamos "please, respira", à minha parceira grávida com descrições que nos guiavam por ruas repletas de cores, cheiros e sabores, ao único homem do curso, que pacientemente nos aturava a todas ansiando pelo intervalo do cigarro (pfff, desculpa esfarrapada para fugir dali um bocadinho!!), e nos envolvia em histórias de multiplas personagens, numa mistura de real e fantasia....  

Sim...confesso. Tenho saudades daqueles rostos, das suas vozes... e não sei se hoje estou mais sensível porque fui ao ortopedista e ele acha que eu tenho uma lesão no triangulo xpto, bom, é um afastamento em dois ossos do pulso, whatever... eles estão afastados, poor them... E só vi coxos, e ainda por cima a senhora que fez a minha ficha frisou-me por duas vezes que eu não pagava ali nada com o meu sistema de saude "excepto psiquiatria"... respondi "não preciso disso"... e ela repetiu "mas já sabe que paga"...ok, enough... tive saudades do meu grupinho de terapia das terças-feiras, pronto.

Na verdade, vou fazer um novo curso de escrita a partir de Abril... já que estou embalada, why not? Numa escola que não conheço, com pessoas que não conheço, sem qualquer recomendação... I don't care... a surpresa e o imprevisto sempre me fascinou! Let's do it :)

 

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publicado às 21:11

Ao lado

por Closet, em 15.03.10

 

É um dia como outro qualquer. Mais um dia. Repete num turbilhão, enquanto deambula cegamente, indiferente à multidão. Ao barulho que a rodeia, alheia do mundo. Parte sozinha num silêncio profundo.

Nas esquinas depara-se com o rosto que não quer ver. E apetece-lhe desaparecer. No palco finge não reparar e segue o seu caminho, em frente, sem parar. Mesmo sem perceber se ele está sozinho. Não quer saber. Nem se ele a vê também. Já não importa, sequer se está com alguém.

Há naquele cenário fúnebre a tristeza da desilusão. De quem desistiu de ver, de entender. Desistir é morrer. E ela morreu também. Morreu para ele no tudo-nada que lhe deu. Para ela, ele também morreu. Tornou-se um rosto anónimo, desfigurado. Já nem se lembra ter-se apaixonado. Como? Nem porquê... talvez seja algo que não se vê. Sem lógica, ou sentido. O mistério de um sem-abrigo que encontra o conforto num olhar cativante. Errante, investe no perigo de amar só um pouquinho. E num passo de dança, entrega-se como uma criança que age sem pensar. Não devia ser assim amar? Espontâneo e natural? Mas as máscaras fazem-lhe mal. As palavras pensadas e manipuladas. Envenenadas. Não as entende e ficou tanto por dizer. É mais fácil esconder. Há quem viva assim a vida inteira sem saber. E no abismo vê que já passou. O momento acabou. Há apenas um vazio naquele imenso espaço. Entre rostos que se cruzam, há um vidro baço, que os separa sem ilusões.

Nunca existiu um depois. A vida passou, brutalmente, ao lado dos dois.

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publicado às 23:41

Whatever Works

por Closet, em 14.03.10

Este fim-de-semana não me apetece escrever uma história para a Fábrica, não tive nenhuma ideia interessante sobre o tema que não seja um "manisfesto", e na verdade nem tenho uma opinião formada sobre o assunto ... pronto, sorry, não participo desta vez e desculpo-me com as dores de tendinites que me têm assombrado nos últimos tempos, e que me levarão amanhã ao ortopedista... mais a preparação das aulinhas de voluntariado na escolinha, amanhã sobre "a tomada de decisão"... by the way, excelente tema para mim... adiante, faço uma crónica das 5 aulas no fim !... e tenho andado um caco de trabalho e correrias... I'll survive! 

 

Fui ver dois filmes sobre esse fenómeno estranho que é ... amar!!

E se um dos filmes diz que amar é complicado, o outro assume que o que interessa é que funcione, sem mais complicações!

Confesso que pensava que o 1º era menos realista, depois de ter lido na sinopse que o amor é mais belo numa segunda oportunidade... tststs... será? bom, na verdade conheço um único caso que comprova essa possibilidade (e só talvez por isso acredito em segundas oportunidades) mas mais belo?? é um tema complicado...

Mas nada como ver depois o filme "Tudo pode dar certo" do Woody Allen, que definitivamente estava feliz e de bem com a vida no dia em que escreveu o argumento!!

"whatever love you can get and give, whatever happiness you can provide, every temporary measure of grace, whatever works"

Num ambiente de loucura contangiante, a lógica e o racional pouco coincidem com o amor e a felicidade. O mais importante nas relações é, acima de tudo, que "funcione" e nos traga momentos felizes... and so let it be :)

 

 

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publicado às 22:43

Fábrica de Histórias

por Closet, em 07.03.10

Quando o Amor acaba

 

 

Quando o amor acaba

Acaba tudo.

As expressões do rosto, os gestos, o brilho do olhar.

Acaba o encantamento que perturba a alma.

A vontade incontrolável de te beijar.

Acabam as recordações de conversas embrulhadas,

Do sorriso rasgado e as cumplicidades a dois.

É quando o amor acaba

que tudo desaparece, num ápice arrepiante.

A vontade desesperada de te ver,

Aquele desejo viciante

De falar contigo sobre um tudo-nada sem parar.

Só mesmo... falar.

A loucura de prender-me nos teus braços,

Enreda-los à minha volta numa teia

Dar-lhes nós, laços

E seguir os teus olhos colados aos meus.

Quando acaba. Não resta nada.

Das mãos que deslizaram sobre as minhas

Percorrendo-me com a suavidade de um deus,

Do meu corpo enfeitiçado, descontrolado, infiel

Do mordiscar dos lábios, com sabor a mel.

Ainda pergunto, em horas embriagadas,

Como deixámos tudo acabar?

Se foste tu ou eu?

Mas já não interessa para nada.

Quando o amor acaba, acaba.

Deixamos de dormir de noite,

Por um tempo interminável, assustador.

O vazio que afaga os meus braços

O silêncio incómodo do sorriso a desvanecer,

A ironia das palavras inacabadas, abandonadas.

Quando o amor acaba,

Alguém tem de perder.

Eu procuro, deambulando, pedaços de vida

que deixei espalhada em becos onde me perdi.

Numa rua escura, incerta, inebriada pelo sonho que vivi

Procuro-te agora com uma estranha calma

Mas só  vejo um vulto, de costas,

De frente, não há nada. Não tem rosto nem alma.

Acabou de morrer.

Percebo que é mesmo assim.

Quando o amor acaba

acaba tudo, deixamos de ver.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 22:24

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