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Fábrica de Histórias

por Closet, em 15.02.10

Conheces?

Carolina atravessou a rua em passos apressados, no seu conjunto executivo saia casaco acintado, em direcção ao centro comercial. Sentia-se cansada e, apesar de ser quase meio-dia, apenas tinha bebido um café que a sua secretária lhe tinha trazido ao gabinete. Entrou na Perfumara, agarrou no que queria e ficou na fila à espera da sua vez. Não sabe se foi da misturas de fragrâncias, se da sua fraca condição física, mas começou a sentir tonturas.

- Calma! Eu ajudo. Sou médico - Pedro agarrou a sua cabeça e pousou-a nos seus braços. Os longos cabelos loiros de Carolina caíam desmaiados. Pedro abriu-lhe a boca, deitou um pouco de açucar de um pacote que tinha no bolso, e gritou “Tragam um copo de água”.

Uns olhos verdes enormes fitavam-na de perto. Carolina assustou-se e meteu a mão à boca ainda açucarada. Estava deitada no chão da Perfumaria mas não se lembrava de mais nada. Tentou levantar-se mas o homem que a agarrava disse-lhe

- Calma, desmaiou. É melhor deixar-se ficar mais um pouco deitada.

Carolina acenou-lhe ainda confusa, tentando com a mão compôr a saia e o casaco. Nesse momento estava rodeada de pessoas a olharem-na fixamente.

- Deve ter sido uma quebra de tensão - disse ainda em voz sumida enquanto se sentava encostada ao homem alto, de olhos verdes que a segurava. “Foi isso mesmo que o Doutor disse” alvitrou uma empregada com um copo de água na mão.

Pedro sentiu-se corar. - Já se sente melhor? Posso ajuda-la a levantar? - perguntou-lhe enquanto ela já se levantada ainda segurando as suas mãos.

- Sim, acho que tenho de me sentar um pouco. Já me sinto bem. Obrigada. E o senhor é o médico, presumo? Pedro assentiu com a cabeça.

- Sabe, acho que devia comer alguma coisa, pode ser fraqueza, quer juntar-se a mim para almoçar?

Perante o convite inesperado, Carolina ficou muda. Gaguejou  "hum...deixe-me ver, tenho algumas coisas para terminar no escritório" mas foi interrompida.

- É só qualquer coisa rápida, também tenho outras pacientes à minha espera - brincou com um sorriso nos olhos.

Depois de pagar o perfume e telefonar à secretária, seguiram para um restaurante do centro comercial.

Carolina desfez-se em desculpas pelo transtorno que causou, e que nunca lhe tinha acontecido nada igual.

Pedro ria-se, vestia calças de sarja azuis e camisa de riscas, tinha um ar jovem e descontraído. Há um ano que a via chegar ao seu restaurante, sempre elegante, de fato saia-casaco ou com um vestido, realçando as sua fina cintura num tronco esguio e umas pernas longas bem torneadas. Acompanhava-se de homens e mulheres vestidos também de fatos cinzentos, almoçavam enquanto discutiam assuntos de negócios e era o seu cartão de empresa que pagava habitualmente a conta. Apenas falava com a sua secretária que tratava das reservas e da ementa, Carolina era directora executiva e fora esses almoços de negócios, raramente saía para almoçar. Contou-lhe uma vez Sofia, a sua secretária, quando Pedro convidou as duas para almoçar lá um dia sem marcações especiais.

Enquanto almoçavam Carolina recebeu 3 chamadas, mas mesmo assim conseguiram falar um pouco dos seus gostos pessoais de musica e cinema. Pedro ainda arriscou:  

 Posso fazer uma pergunta indiscreta?... Esse perfume é um presente para o Dia de São Valentim?

Carolina riu-se.

- Nãooo. É o presente de anos atrasado do meu irmão.

- Boa escolha!

- Não tenho namorado, nem marido, ou seja, não vai haver presente de São Valentim, senão olhe, já estava a escolha feita - continuou Carolina divertida.

- Posso ajudar no seu presente ou já comprou aguma coisa?

- Bom, na verdade também não tenho namorada, nem mulher, portanto não tenho presente de São Valentim para comprar...mas acabei de salvar uma mulher há pouco numa perfurmaria e pensei se isso não seria um...sinal!

- Um sinal aromático pelo menos – deixou escapar Carolina com uma gargalhada.

Riram-se os dois. Um telefonema interrompeu a boa disposição de Carolina que se despediu apressada com um...

- Obrigada por tudo. Gostei mesmo de almoçar consigo. Afinal é médico onde e de quê?

Pedro gaguejou um “Ortopedia em ... Santa Maria”.

- Ai sim? Talvez precise dos seus serviços, dizem que tenho um problema qualquer na coluna mas nunca tive tempo para ver o que é...posso ficar com o seu telefone?

Pedro sentiu que estava a perder o controlo do barco... mas mesmo assim deu-lhe o nº de telemóvel, apontado num pedaço de papel ainda com as mãos a tremer. Ela sorriu e estendeu-lhe o cartão dela e saiu a correr novamente com o telefone no ouvido.

Pedro passou a tarde toda a pensar em como se tinha metido naquela embrulhada. Como o desejo de a conhecer o transformou numa mentira, e ao mesmo tempo questionava-se se ela teria aceite almoçar com ele sabendo que era um vulgar gerente de restauração... Carolina era uma mulher sofisticada, devia ter mais 3 ou 4 anos que ele, sempre com roupas de marca e acompanhada por sujeitos com fatos Boss, camisas Gant... O seu sorriso cativara-o da primeira vez que a viu e a partir daí prontificou-se em descontos e ementas especiais só para os seus almoços de trabalho. Ao contrário do que fazia com alguns grupos, Pedro nunca a quis receber pessoalmente, ficava apenas a observa-la ao longe, por detrás de um vidro espelhado que escondia o seu pequeno escritório composto por uma secretária, um PC e um telefone.

Mas agora que tinha-a conhecido pessoalmente, agarrado nos braços, afagado a cara serena e o cabelo dourado, agora que tinha conversado com ela sobre música, cinema e acabram a rir sobre o dia de São Valentim, Pedro tinha ficado tão mais apaixonado quanto confuso... Tinha o telefone dela na mão. Dela verdadeira. Mas ela tinha ficado com o telefone de um médico que a tinha salvo, não com o telefone do Pedro do Restaurante da esquina... a máscara que ele próprio inventou infantilmente estava a torturar-lhe a alma, só de pensar que ela podia ligar-lhe não por ser ele, mas por aquilo que ele não era, causava-lhe maior dor do que ser objectivamene rejeitado por ela... Num impulso, ligou. Atendeu a secretária dizendo que estava em reunião. Pedro disfarçou a voz e deixou recado que queria falar com ela, e deu o telemóvel.  

- Ele ligou? Agora? Humm... Deixa Sofia, eu sei o telefone – disse Carolina fechando a porta do gabinete.

Marcou o nº directamente do seu telemóvel.

- Estou? –responde Pedro.

- Eu também estou, não se preocupe que não voltei a desmaiar – brincou Carolina.

Pedro não resistiu a rir ainda que aos poucos voltou a sentir-se mal.

- Peço desculpa telefonar-lhe já, mas na verdade queria dizer-lhe algo importante. Tenho mesmo de falar consigo.

- Bom, nesse caso parece-me que agora cabe a mim salva-lo – e abafou um risinho que teimava em sair – se estiver disponível esta noite, podemos jantar. Conheço um restaurante aqui perto muito agradável que posso marcar.

Pedro ficou atordoado com a descontracção dela e apenas conseguiu proferir um “Claro”.

- Então fica combinado, o restaurante chama-se Magnífico e fica na rua por detrás do centro comercial, tem um toldo verde à entrada. Vou pedr à minha secretária que marque uma mesa para 2 ás 21h, pode ser?

Sem palavras, Pedro anuiu um “sim, fica combinado”.

Carolina passou por casa, tomou um duche rápido e deixou o cabelo secar ao natural, com mais volume do que era habitual usar. Vestiu umas calças de ganga, uma camisa acintada e um casaco de cabedal. Pedro esperava-a à porta do seu restaurante, e mal ela saiu do seu BMW ficou deslumbrado com a sua figura jovial. Pouco encontrava da Carolina-executiva a não ser o sorriso que trazia nos olhos.

Entraram e dirigiam-se à sala mais recatada, uma mesa posta para dois com uma pequena vela. Carolina quebrou o gelo e indagou:

- Então em quê que te poderei salvar? Posso tratar-te por tu, certo? afinal devemos ser mais ou menos da mesma idade...

- Claro, tenho 30 anos, e... tenho de dizer-te que hoje comportei-me como um adolescente de 15...

- Hummm... – Carolina bebericava um martini que o empregado lhe tinha servido – por vezes as infância toma conta de nós, somos impulsivos, não pensamos, mas, em todo o caso, talvez seja quando somos mais genuínos, não achas?

Pedro não aguentava mais, baixando os olhos verdes disse:

- Não sou médico, sou licenciado em relações internacionais e sou gerente deste restaurante... mas fiz um curso de primeiros socorros se isso ainda abonar em meu favor...

Carolina enfrentou-o de cara séria e olhos bem abertos, esperando pacientemente que os olhos dele se cruzassem com os seus.

- Eu sei - afirmou instalando-se um silêncio incómodo - Já te vi aqui uma ou outra vez de raspão e a minha secretária confirmou o teu telemóvel. Não me interessa se és médico, professor ou jogador de andebol, hoje agarraste-me quando desmaiei e convidaste-me para almoçar, foste agradável e divertido. Isso basta-me. Agora diz-me só porque motivo fingiste ser médico?

Pedro tinha sucesso entre as mulheres, era autoconfiante, decidido....mas naquele momento sentiu-se um miudo de 12 anos na 1ª vez em que está sozinho com a rapariga que gosta.

- ...não sei. Estava lá e quis ser eu a agarrar-te, talvez fosse a única oportnidade que ía ter na vida, e para afastar os outros disse que era médico... depois já não consegui sair daquela mentira ridicula. E, para ser franco, tive medo que não quisesses almoçar comigo se te dissesse que trabalhava aqui... acho que foi isso... tive medo da verdade.

Carolina sorriu-lhe com os seus olhos castanhos mel brilhantes.

- Só estou aqui, neste momento, porque hoje finalmente conheci um homem divertido e simpático, que curiosamente já há algum tempo tenho visto passar de raspão. Tem olhos verdes grandes, é alto e um cabelo castanho assim meio despenteado...sabes acho que trabalha neste restaurante? Conheces?

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

(ps: quem conseguir ler esta história toda...eu dou umas gomas!! sorry, estiquei-me)

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