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Retalhos

por Closet, em 25.02.10

René Magritte "Os Amantes" 1928

 

Estava eu no Domingo completamente em bloqueio para terminar a minha história da semana para a Fábrica, quando me deparo no FB com um post de um amigo com este quadro e a "estranha"(pareceu-me) legenda "Homenagem ao amor. Mesmo o que se esconde por detrás de máscaras".

Confesso que não resisti... perguntei logo se poderíamos chamar a "isso"... "amor"??

- Boa pergunta - respondeu ele - depende das perspectivas.

Quanto a mim, uma máscara impede qualquer perspectiva... ainda lhe respondi. E lá continuou o ping-pong.

 

Na verdade foi este quadro com amantes de cabeças tapadas que me inspirou para o eixo da minha história... don't ask me why... mas a verdade é que tenho andado a pensar nele e até começo a acha-lo... familiar. Tenho um livro de Magritte com a maior parte da sua obra, e mesmo não tendo este quadro, encontrei logo no início outro dos mesmos Amantes tapados... Houve alguns dentro desta linha. Claro está que as interpretações mais imediatas destes seus quadros levam para explicações como "a cegueira do amor"...mas segundo o pintor nada tem a ver com cegueira. A verdadeira razão do "tapar" era porque considerava o oculto mais importante do que o revelado... strange... anyway, isto não me tem saído da cabeça...

 

Confesso que para o meu amigo brinquei que não gosto de máscaras (só boinas)... mas na verdade ultimamente sinto uma vontade avassaladora de tapar a minha cabeça, quer para protege-la do que não me apetece ver, quer para também não me verem a mim, ficar lá sossegada no meu cantinho oculto.

Às vezes pergunto-me se já não tenho andado há algum tempo com um pano sem me aperceber...  muito provavelmente, sim. (Talvez até seja a verdadeira explicação para as constantes quedas que tenho dado, que aliás originou um deslocamento no osso do meu pulso, algo que amanhã irei clinicamente diagnosticar...whatever).

 

Voltando aos panos (e não a máscaras, cuja conotação é distorcida e evoca um comportamento de metamorfose premeditado) questiono: terá alguém um melhor conhecimento do outro sem o "ver"? Conseguirá amar sem o poder da visão, sem o toque da pele, num oculto que abre um imenso caminho para a imaginação?

Well... como diz uma colega meu "é assim, mas não é bem assim"... ou seja, Não sei. Nem tenho opinião... mas estou certa que eu não preciso de "ver" para gostar, que mesmo vendo sou, consciente ou inconscientemente, capaz de filtrar o que quero ver e por isso mesmo distorcer a realidade... e acabo por gostar do que vejo através da lente dos meus olhos. No fundo, é como se estivessemos todos cobertos de panos, retalhados por quem os vê e não por quem os enverga...

E para quem nem é fã de Magritte... dei por mim a folhear o catrapázio de mais de 200 páginas que tenho sobre o pintor...

 

 

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publicado às 00:16

Fábrica de Histórias

por Closet, em 22.02.10

Destapar a Vida

Pareceu-me uma brecha de luz invadir por entre as persianas. Tacteei por cima da mesa de cabeceira o despertador. Cego, mudo, sem vida. Não tocou.Ou será que fui eu que o desliguei? Não sei...
Enterrei-me na cama mais um pouco. Devia ser cedo. E eu não tinha pressa. Nunca tinha. Talvez até fosse Sábado e nem precisava de me levantar. Não sabia. Era de certeza mais um dia. Igual a todos os outros. Banal.
Revirei-me na cama mas nem o sono veio ter comigo. Sonhar era algo que não fazia. Apenas dormia, num apagão de luz, como uma espécie de maldição.
Sem abrir as persianas arrastei o meu corpo pesado e dormente para o frio do quarto. O telefone estava sem bateria. Peguei no comando da televisão. Nada. O LCD cinzento olhava-me de frente. Morto também. O candeeiro não funcionava. A energia tinha abandonado aquele quarto, sombrio, naquela manhã de Inverno. Abri as persianas e uma luz forte encandeou-me, como se trespassasse o meu corpo lento com uma flecha pontiaguda. As paredes ganharam novamente a cor baunilha que pintava semanalmente. A cor que teimava em esmorecer.
Lá fora era dia. Um sol brilhante que aquecia as ruas desertas. Ninguém para absorver na pele os raios de sol. Carros parados. Vazios. Lojas de portas fechadas. Pensei se seria Domingo. Ou um feriado qualquer. Não sabia. Não importava. Era mais uma dia.
Voltei-me para o interior do meu quarto, as roupas espalhadas, os livros com páginas marcadas, empilhados na mesa de cabeceira, um CD na aparelhagem que hoje não falava comigo.
Percorri aquele quarto de paredes vazias e apenas na cama, por fazer, jazia uma sombra antiga, aquela que nem o raio de sol mais intenso conseguia apagar. Um corpo perfeitamente delineado, deitado de costas em forma de concha, onde o meu se encaixava todas as noites para adormecer. Ficava ali, inerte, gelado, sem se mexer todos os dias. E ainda assim, sem o calor da vida, noite após noite eu procurava-o incessantemente, num labirinto infinito.
O silêncio ensurdecedor daquela manhã transportou-me para tudo aquilo que me estrangulava há tanto tempo. Um tempo que já não sei contar. Um ano. Talvez dois. Ou será cinco? Perdi a noção e o tempo passou a ser aquele lugar, onde a tua sombra se perpetuava na minha cama e eu abraçava-a num gesto diário, repetido.Não sei sequer se estou vivo. Se apenas espero que a tua mão volte a acariciar o meu cabelo ao acordar e o teu beijo me devolva o batimento cadíaco para enfrentar o dia.
Lá fora o sol brilha, mas não vejo ou oiço um grito de vida. Ao fundo, a um canto tapada com um pano, está a viola em que tocavas as músicas que compunhas. Não a levaste contigo. Deixaste-ma como um presente envenenado de um futuro que não mais voltaria. Tu partiste. E eu tapei-a. Não para a esconder, mas porque o oculto assumiu uma importância maior. Era lá que vivias. 
Naquele dia não faltou apenas a energia, agudizou-se em mim uma ausência de sentido... berrei, com toda a força. Uma vez. Outra. E mais outra. Respirei e destapei a viola há muito adormecida. Levei-a para a cama connosco, afagando o seu corpo ondulado. Reparei em como tinha formas perfeitas, como as tuas. Depois deslizei os dedos pelas cordas já desafinadas. Como se acariciasse de novo cada fio do teu cabelo dourado. Experimentei-as uma a uma. Em cada som produzido, algo em mim se desvanecia numa espécie de despedida, como a memória das malas com as tuas roupas em cima desta cama. Continuei a tocar aleatoriamente as cordas, libertando-me da tua imagem a secares o cabelo de cabeça para baixo, de como barravas o pão com manteiga e colocavas doce por cima.
Toquei a tua música preferida, aquela que eu campus um dia para ti, na mesma noite em que decidiste ficar comigo. Chamei-lhe "Acordar" porque foi isso que senti. E tu escreveste a letra, enquanto eu tocava. Vejo que ao fim deste tempo todo eu ainda me lembro de cada palavra, de cada nota...
Não sei durante quanto tempo fiquei hoje a tocar. Mas vi que o sol já se despedia no horizonte, anunciando o final de mais um dia... 
Pousei a viola e voltei-me para o lado, era aquele vício de te ver. A tua sombra que jazia nos meus lençóis. Mas um buzinar de automóvel lá fora fez-me saltar. Voltei-me novamente e, de repente, não te encontrei mais, a tua sombra desaparecera da nossa cama. Talvez estivesses agora tão destapada como a viola que, em paz, descansava encostada à parede.
Fui até à janela e vii com espanto carros a circular, pessoas a andar apressadas e, ao fundo, num banco de jardim, um casal de pernas entrelaçadas beijava-se demoradamente. Depois sussurravam qualquer coisa, numa linguagem mágica, sorrindo. Havia o brilho do sol no seu olhar. Havia vida naquele mundo.
Tapei a minha cama desfeita, vazia e saí. Era para ali que eu ía caminhar.
 
Texto escrito para a Fábrica de Histórias 

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publicado às 00:00

Já alguém???

por Closet, em 19.02.10

Já alguém andou ás cavalitas de um estranho sem permissão??? Eu já!

Ontem de manhã deparei-me com um mar de gente amontoado na estação da CP de Oeiras. Estavam demasiado calmos para ser uma manifestação e, com o frio que estava, não quis acreditar que se tratasse de algum grupo organizado em algo semelhante a uma prova de meditação… sim, porque Oeiras é sempre muito á frente nestes eventos… you never know…
Entrei dentro da estação, até onde consegui ir, tirei um phone do ouvido e perguntei o que se passava a um velhote encostado à parede. Não que tal figura tivesse ar de quem ía apanhar algum comboio, nem que parecesse sequer preocupado com a situação… mastigava algo que parecia um…palito… e lá me disse “caiu uma cantoneira, já há mais de 1 hora que está tudo parado” … “Ahhh” disse-lhe esboçando um sorriso de agradecimento. Não que fizesse um boi de ideia o que seria a dita cantonára, ou cateneira, ou… whatever…(aliás fui rapidamente corrigida e baralhada no facebook, e ainda tive a ajuda de um colega que me assegurou a explicação mais técnica da coisa descrita num Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea… o engenheiro cá de casa elucidou-me sobre o processo energético pelo qual se transporta a locomotiva …)don’t care… é um poste que caiu na linha. Far enough for me!
Lá esperei, enquanto tivesse carga no mp4 e com o meu livro em punho… aguentava-me por ali nos meus belos saltos de 7 cm.
Os comboios começaram a circular, parece que a dita cantonária lá saiu do caminho (eu pelo menos não a vi passar), deixei passar uns dois porque Pressoterapia integral grátis, apesar de ser cara… não me apetecia fazer assim logo pela manhã.
Chegando ao Cais do Sodré, mais um mar de gente à minha espera e, melhor ainda, mesmo a seguir às escadas rolantes (isto dos torniquetes por tudo quanto é lado foi a melhor coisa que inventaram para o aquecimento nestes dias frios, quiçá alguma medida preventiva para aumentar a natalidade, proporcionando encontros corporais inesperados). Pois que não consegui galgar os degraus para trás com duas criaturas coladas às minhas costas e não tive outro remédio senão aterrar drasticamente em cima das costas de um senhor no final das escadas rolantes, e assim se seguiram as criaturas atrás de mim, tal qual carrinhos de supermercado arrumadinhos… what a wonderful morning… thank god alguém parou as escadas rolantes… as é sempre agradável ver do outro lado alguém a tirar fotos nossas com o telefone, nas posições mais interessantes e inestéticas, muito provavelmente para o isto só vídeo …. ou algo do género.
Just great...

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publicado às 12:34

About love

por Closet, em 18.02.10

 

Whe you find... just marry her...

 

 

"Love is the only shocking act left on the Planet"

 

 

"About Love... don't think... just do it"

 

 

LOVE can´t be planned

 

 

 

Não fui ver no Dia dos Namorados, não fui ver com o meu "namorado" (mas fui com uma pessoa especial, por quem também sinto amor no seu sentido mais lato), nem foi um serão romântico, mas uma bela matiné de Sábado! Mas...soube-me mesmo bem!

Sou fã do Ashton, so true... e esta personagem dele simplesmente... corta-me a alma...!!

E das 10 histórias, cada uma com o seu "prisma", fico-me pela destes 3... triste mas surpreendente... onde afinal a felicidade pode estar mesmo ao nosso lado sem darmos conta!

 

Comprei um livro aconselhado por um amigo. Achei que seria um excelente pesente de São Valentim para nós os dois, cá para casa, "Ensaios de Amor" de Alain Botton questiona exactamente esse "ser estranho" que se desenvolve em nós sobre o designío de Amor. Desde o encantamento à 1ª vista, à paixão ou obssessão, o 1º beijo, as discussões,a intimidade, o desgosto e as reconciliações.

Ainda não o li todo, confesso, sou rebelde e vou saltando páginas...apesar de existir uma história base bastante simples e agradável que vai demostrando toda a experiência destes sentimentos... mas para não vos cansar (e de facto, já devia estar a dormir há muito, juro que pedi para este ano os dias passarem a ter 30 horas)... deixo aqui uns parágrafos que adorei:

"Os teóricos do Amor sempre desconfiaram, e bem, da fusão, desconfiança essa que advém da impressão de que é mais fácil detectar a semelhança do que descobrir a diferença. Apaixonamo-nos com base em provas insuficientes e depois completamos a nossa ignorância com desejo. Porém (...) o tempo encarrega-se de nos mostrar que a pele que separa os nossos corpos não é apenas uma barreira física, mas a materialização de contradições mais profundas, psicológicas, que seria um disparate tentarmos transcender. Assim sendo (...) ninguém se deve apaixonar á1ª vista". ....

dá que pensar... mas, como o próprio diz "Desde quando é que alguém se apaixona objectivamente?"

"O amor revela a sua insanidade quando se recusa a reconhecer a normalidade inerente do ser amado"

"Visto o corpo ser acessível à vista, a esperança é que a alma seja fiel ao seu invólucro."

 

E com isto vou mergulhar no mundo dos sonhos :)

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publicado às 01:36

Fábrica de Histórias

por Closet, em 15.02.10

Conheces?

Carolina atravessou a rua em passos apressados, no seu conjunto executivo saia casaco acintado, em direcção ao centro comercial. Sentia-se cansada e, apesar de ser quase meio-dia, apenas tinha bebido um café que a sua secretária lhe tinha trazido ao gabinete. Entrou na Perfumara, agarrou no que queria e ficou na fila à espera da sua vez. Não sabe se foi da misturas de fragrâncias, se da sua fraca condição física, mas começou a sentir tonturas.

- Calma! Eu ajudo. Sou médico - Pedro agarrou a sua cabeça e pousou-a nos seus braços. Os longos cabelos loiros de Carolina caíam desmaiados. Pedro abriu-lhe a boca, deitou um pouco de açucar de um pacote que tinha no bolso, e gritou “Tragam um copo de água”.

Uns olhos verdes enormes fitavam-na de perto. Carolina assustou-se e meteu a mão à boca ainda açucarada. Estava deitada no chão da Perfumaria mas não se lembrava de mais nada. Tentou levantar-se mas o homem que a agarrava disse-lhe

- Calma, desmaiou. É melhor deixar-se ficar mais um pouco deitada.

Carolina acenou-lhe ainda confusa, tentando com a mão compôr a saia e o casaco. Nesse momento estava rodeada de pessoas a olharem-na fixamente.

- Deve ter sido uma quebra de tensão - disse ainda em voz sumida enquanto se sentava encostada ao homem alto, de olhos verdes que a segurava. “Foi isso mesmo que o Doutor disse” alvitrou uma empregada com um copo de água na mão.

Pedro sentiu-se corar. - Já se sente melhor? Posso ajuda-la a levantar? - perguntou-lhe enquanto ela já se levantada ainda segurando as suas mãos.

- Sim, acho que tenho de me sentar um pouco. Já me sinto bem. Obrigada. E o senhor é o médico, presumo? Pedro assentiu com a cabeça.

- Sabe, acho que devia comer alguma coisa, pode ser fraqueza, quer juntar-se a mim para almoçar?

Perante o convite inesperado, Carolina ficou muda. Gaguejou  "hum...deixe-me ver, tenho algumas coisas para terminar no escritório" mas foi interrompida.

- É só qualquer coisa rápida, também tenho outras pacientes à minha espera - brincou com um sorriso nos olhos.

Depois de pagar o perfume e telefonar à secretária, seguiram para um restaurante do centro comercial.

Carolina desfez-se em desculpas pelo transtorno que causou, e que nunca lhe tinha acontecido nada igual.

Pedro ria-se, vestia calças de sarja azuis e camisa de riscas, tinha um ar jovem e descontraído. Há um ano que a via chegar ao seu restaurante, sempre elegante, de fato saia-casaco ou com um vestido, realçando as sua fina cintura num tronco esguio e umas pernas longas bem torneadas. Acompanhava-se de homens e mulheres vestidos também de fatos cinzentos, almoçavam enquanto discutiam assuntos de negócios e era o seu cartão de empresa que pagava habitualmente a conta. Apenas falava com a sua secretária que tratava das reservas e da ementa, Carolina era directora executiva e fora esses almoços de negócios, raramente saía para almoçar. Contou-lhe uma vez Sofia, a sua secretária, quando Pedro convidou as duas para almoçar lá um dia sem marcações especiais.

Enquanto almoçavam Carolina recebeu 3 chamadas, mas mesmo assim conseguiram falar um pouco dos seus gostos pessoais de musica e cinema. Pedro ainda arriscou:  

 Posso fazer uma pergunta indiscreta?... Esse perfume é um presente para o Dia de São Valentim?

Carolina riu-se.

- Nãooo. É o presente de anos atrasado do meu irmão.

- Boa escolha!

- Não tenho namorado, nem marido, ou seja, não vai haver presente de São Valentim, senão olhe, já estava a escolha feita - continuou Carolina divertida.

- Posso ajudar no seu presente ou já comprou aguma coisa?

- Bom, na verdade também não tenho namorada, nem mulher, portanto não tenho presente de São Valentim para comprar...mas acabei de salvar uma mulher há pouco numa perfurmaria e pensei se isso não seria um...sinal!

- Um sinal aromático pelo menos – deixou escapar Carolina com uma gargalhada.

Riram-se os dois. Um telefonema interrompeu a boa disposição de Carolina que se despediu apressada com um...

- Obrigada por tudo. Gostei mesmo de almoçar consigo. Afinal é médico onde e de quê?

Pedro gaguejou um “Ortopedia em ... Santa Maria”.

- Ai sim? Talvez precise dos seus serviços, dizem que tenho um problema qualquer na coluna mas nunca tive tempo para ver o que é...posso ficar com o seu telefone?

Pedro sentiu que estava a perder o controlo do barco... mas mesmo assim deu-lhe o nº de telemóvel, apontado num pedaço de papel ainda com as mãos a tremer. Ela sorriu e estendeu-lhe o cartão dela e saiu a correr novamente com o telefone no ouvido.

Pedro passou a tarde toda a pensar em como se tinha metido naquela embrulhada. Como o desejo de a conhecer o transformou numa mentira, e ao mesmo tempo questionava-se se ela teria aceite almoçar com ele sabendo que era um vulgar gerente de restauração... Carolina era uma mulher sofisticada, devia ter mais 3 ou 4 anos que ele, sempre com roupas de marca e acompanhada por sujeitos com fatos Boss, camisas Gant... O seu sorriso cativara-o da primeira vez que a viu e a partir daí prontificou-se em descontos e ementas especiais só para os seus almoços de trabalho. Ao contrário do que fazia com alguns grupos, Pedro nunca a quis receber pessoalmente, ficava apenas a observa-la ao longe, por detrás de um vidro espelhado que escondia o seu pequeno escritório composto por uma secretária, um PC e um telefone.

Mas agora que tinha-a conhecido pessoalmente, agarrado nos braços, afagado a cara serena e o cabelo dourado, agora que tinha conversado com ela sobre música, cinema e acabram a rir sobre o dia de São Valentim, Pedro tinha ficado tão mais apaixonado quanto confuso... Tinha o telefone dela na mão. Dela verdadeira. Mas ela tinha ficado com o telefone de um médico que a tinha salvo, não com o telefone do Pedro do Restaurante da esquina... a máscara que ele próprio inventou infantilmente estava a torturar-lhe a alma, só de pensar que ela podia ligar-lhe não por ser ele, mas por aquilo que ele não era, causava-lhe maior dor do que ser objectivamene rejeitado por ela... Num impulso, ligou. Atendeu a secretária dizendo que estava em reunião. Pedro disfarçou a voz e deixou recado que queria falar com ela, e deu o telemóvel.  

- Ele ligou? Agora? Humm... Deixa Sofia, eu sei o telefone – disse Carolina fechando a porta do gabinete.

Marcou o nº directamente do seu telemóvel.

- Estou? –responde Pedro.

- Eu também estou, não se preocupe que não voltei a desmaiar – brincou Carolina.

Pedro não resistiu a rir ainda que aos poucos voltou a sentir-se mal.

- Peço desculpa telefonar-lhe já, mas na verdade queria dizer-lhe algo importante. Tenho mesmo de falar consigo.

- Bom, nesse caso parece-me que agora cabe a mim salva-lo – e abafou um risinho que teimava em sair – se estiver disponível esta noite, podemos jantar. Conheço um restaurante aqui perto muito agradável que posso marcar.

Pedro ficou atordoado com a descontracção dela e apenas conseguiu proferir um “Claro”.

- Então fica combinado, o restaurante chama-se Magnífico e fica na rua por detrás do centro comercial, tem um toldo verde à entrada. Vou pedr à minha secretária que marque uma mesa para 2 ás 21h, pode ser?

Sem palavras, Pedro anuiu um “sim, fica combinado”.

Carolina passou por casa, tomou um duche rápido e deixou o cabelo secar ao natural, com mais volume do que era habitual usar. Vestiu umas calças de ganga, uma camisa acintada e um casaco de cabedal. Pedro esperava-a à porta do seu restaurante, e mal ela saiu do seu BMW ficou deslumbrado com a sua figura jovial. Pouco encontrava da Carolina-executiva a não ser o sorriso que trazia nos olhos.

Entraram e dirigiam-se à sala mais recatada, uma mesa posta para dois com uma pequena vela. Carolina quebrou o gelo e indagou:

- Então em quê que te poderei salvar? Posso tratar-te por tu, certo? afinal devemos ser mais ou menos da mesma idade...

- Claro, tenho 30 anos, e... tenho de dizer-te que hoje comportei-me como um adolescente de 15...

- Hummm... – Carolina bebericava um martini que o empregado lhe tinha servido – por vezes as infância toma conta de nós, somos impulsivos, não pensamos, mas, em todo o caso, talvez seja quando somos mais genuínos, não achas?

Pedro não aguentava mais, baixando os olhos verdes disse:

- Não sou médico, sou licenciado em relações internacionais e sou gerente deste restaurante... mas fiz um curso de primeiros socorros se isso ainda abonar em meu favor...

Carolina enfrentou-o de cara séria e olhos bem abertos, esperando pacientemente que os olhos dele se cruzassem com os seus.

- Eu sei - afirmou instalando-se um silêncio incómodo - Já te vi aqui uma ou outra vez de raspão e a minha secretária confirmou o teu telemóvel. Não me interessa se és médico, professor ou jogador de andebol, hoje agarraste-me quando desmaiei e convidaste-me para almoçar, foste agradável e divertido. Isso basta-me. Agora diz-me só porque motivo fingiste ser médico?

Pedro tinha sucesso entre as mulheres, era autoconfiante, decidido....mas naquele momento sentiu-se um miudo de 12 anos na 1ª vez em que está sozinho com a rapariga que gosta.

- ...não sei. Estava lá e quis ser eu a agarrar-te, talvez fosse a única oportnidade que ía ter na vida, e para afastar os outros disse que era médico... depois já não consegui sair daquela mentira ridicula. E, para ser franco, tive medo que não quisesses almoçar comigo se te dissesse que trabalhava aqui... acho que foi isso... tive medo da verdade.

Carolina sorriu-lhe com os seus olhos castanhos mel brilhantes.

- Só estou aqui, neste momento, porque hoje finalmente conheci um homem divertido e simpático, que curiosamente já há algum tempo tenho visto passar de raspão. Tem olhos verdes grandes, é alto e um cabelo castanho assim meio despenteado...sabes acho que trabalha neste restaurante? Conheces?

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

(ps: quem conseguir ler esta história toda...eu dou umas gomas!! sorry, estiquei-me)

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publicado às 00:06

Uma aventura em...

por Closet, em 10.02.10

Para quem já tinha saudades de um post para rir (não é que eu tenha andado a rir muito ultimamente mas... vendo de fora)...

 

Como se não bastasse ter passado um fim-de-semana brutal... desde ficar sem a manhã de sábado para uma reunião de trabalho, a ter passado a noite inteira em branco com o meu caçula a vomitar o que tinha e o que não tinha... e depois de 2 horas seguidas de sono acordar para ir a um compromisso... e depois de 2 horas de sesta, acordar para ir a outro compromisso... bom... estão a imaginar... foi, como hei-de dizer... estimulante!

 

Como se já não bastasse ontem ter chegado atrasada ao meu curso de escrita porque ía absorta a ler e quando dei por mim já estava no Cais do Sodré em direção ao comboio para ir para casa (definitivamente, agimos assustadoramente como máquinas... ), lá dei a volta para a Baixa Chiado... e como se não bastasse as escadas rolantes estarem paradas...quando galguei os 400 degraus ate lá cima, guess what?? estava do lado errado... toca a descer os 400 desgraus, atravessar a estação e guess wat? as escadas rolantes também estavam paradas... mas pronto, deste lado eram só mais 200 degraus que as anteriores... so what? afinal já não vou ao ginásio há muito tempo, há que manter o físico!! E lá fui eu a galgar os 600 degraus no meu sprint better than ever! Got there!

 

E como se não bastasse o meu caçula estar em casa doente (relaxem, é apenas uma outite, ok em ambos os ouvidos, e o piqueno nunca tem nada, até achamos estranho... bom, tem andado com febre e dorzinhas... mas faz parte, e nada que um antibiótico não cure).

 

Como se não bastasse a agitação (a)normal do meu dia-a-dia... ainda fui arranjar um trabalhinho extra promovido pela minha empresa... nada mais que 5 aulinhas de voluntariado numa escola sobre o bonito tema "A Comunidade" para alunos da 2ª classe... Hoje era o dia da reunião com a professora para marcarmos as aulas e discutirmos as actividades e lá fui eu de pasta recheada de folhetos, autocolantes, cartazes, and so on, depois de deixar o mais filho mais velho na escola, em direcção à bonita localidade Pai do Vento, algures por Cascais, algures em Alcabideche... whatever...

Tinha estudado cuidadosamente o caminho no google map, aquela coisa jeitosa que quase nunca falha... quase... guess what??  para além daquela escola ainda nem existir no mapa.... o dito caminho também não tinha nada a ver... just great!

Chovia a potes, e confesso que o limpa párabrisas (nem sei se é assim que se escreve...agora é que vi que palavra estranha... pára brisas?? devia ser limpa párachuva...adiante) aquilo de um lado para o outro em rotação máxima mexe com o meu sistema nervoso... depois de 45 minutos à nora, quando dei por mim já só via indicações para Sintra e foi aí que tive um pressentimentozinho que não estava a ir na direcção certa... oh God... volta para trás, pergunta a mais uma pessoa que, para variar, diz "ahhh isso é muito longe daqui".... "Não??Jura??"...

Até que no deserto se vislumbra um oásis em forma de placa que diz "Pai do Vento"... Naquela altura podia ser Pai, Mãe, Avó, tanto se me dava, desde que encontrasse a dita escola....e acreditem...conheci aquele "Pai de lés a lés" e guess what??? não há lá escola nenhuma...ah e tal diz uma senhora de um café "é um bocadinhozinho muito longe daqui.."  "Não??? Jura??"... e lá vou eu novamente...completamente à deriva seguindo as fabulosas indicações "direita esquerda, direita esquerda, direita direita, esquerda, direita"... Oh God... baralhei-me toda e só decorei que era perto do Centro de Deficientes qualquercoisa... anyway... rico lugar para entrar, com um pouco de sorte ficava internada na ala psiquiática...

Anyway... don't ask me why... dei com o dito Centro... deve ter sido um "chamamento" qualquer ... brrr... e logo a seguir deparo-me com uma escola... guess what?? é a minha!!

Depois de tentar explicar a minha aventura, não foi fácil pois a professora consegue falar mais do que eu, na verdade mete o turbo e por cada palavra minha ela interrompe com dez... adiante... lá me explicou em como é facilimo ir ali dar... claro... eu nem tive dificuldades nenhumas...quaisquer 45m a fazer um caminho que deveria demorar 5 minutos é... normalissimo no GPS da minha cabeça... e o facto é que demorei apenas 5 minutos a voltar ao local da marginal que conhecia com as indicações a 1000 rotações que ela me deu....not bad... e de facto... era pertíssimo!!

Não fosse ter ído com o meu filho à Clinica e depois ter voltado para o trabalho à tarde (porque se há uma santa na minha vida é a minha sogra-amiga-mais-que-tudo com quem eu posso sempre, mas sempre, e em qualquer situação, contar, para ficar com o meu filho e ainda levar-me ao trabalho, para não falar em muitas, tantas, infinitas coisas mais que faz) ...  e até tinha voltado a Pai do Vento mais uma vez ...assim só para... passear!!

 

 

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publicado às 23:23

Fábrica de Histórias

por Closet, em 07.02.10

São Nunca..é tarde

Conceição acordou de repente. O despertador não tinha tocado e já eram 8h00...

Ainda na penumbra do quarto, apalpou o despertador para ver melhor e agarrou um papel qualquer que estava por cima. Acendeu a luz do candeeiro da cabeceira e esfregando os olhos, ainda encadeados com a luz súbita, viu espantada que se tratava de um bilhete de comboio. Dizia "Lisboa-Coimbra, 30 de Fevereiro 2010, Partida 9h30".

«Não podia ser» pensou, esfregando os olhos, «este ano Fevereiro só tem 28 dias, que raio de bilhete é este?». Levantou-se rapidamente da cama, abriu o estore e procurou na mesa de cabeceira o telemóvel. Lá estava ele por debaixo do livro. Ligou-o e atónita viu no visor "8h05, Sábado, 30 Fevereiro 2010". Sacudiu a cabeça como que para organizar as ideias.... que se lembrasse não tinha dado nenhuma pancada que lhe provocasse nem amnésia, nem loucura, e hoje deveria ser sexta-feira... Dirigiu-se ainda incrédula à sala e acendeu a TV, ligou o teletexto e caiu redonda no sofá "30 Fevereiro 2010". «Pronto, desisto, pelo menos é Sábado, e sei lá porquê decidi ir até Coimbra».

O som de uma mensagem tocava no seu telemóvel. "Espero-te cá, no café do costume". Conceição leu e releu a mensagem, não conhecia o número de telefone e nesse momento questionava-se se realmente tinha batido com a cabeça algures durante a noite. Estava em branco... «que dia era aquele? de onde apareceu aquele bilhete? Mas pelo menos era Sábado e tinha um programa em Coimbra, seja com quem for, tanto se me dá» pensava enquanto tomava um banho com a água quente e se entregava ao seu pensamento mais imediato, o que ía vestir, «quem quer que seja que estiver à minha espera não ficará desiludido».

Conceição escolheu um vestido curto com umas leggings e umas bota altas, secou o seu cabelo longo preto liso e brilhante, um pouco de base, eyeliner e rimel completaram a maquilhagem. Borrifou o seu Dolce Gabanna e enfiou na mala o seu livro e o inseparável i-pod. «Enough» pensou enquanto vestia o casaco acintado e saía de casa no seu Golf em direcção a Santa Apolónia.

Entrou na estação e reparou o quanto estava diferente desde a última vez que tinha ali estado. Na verdade, ir de comboio para Coimbra trazia-lhe recordações antigas. De um passado já distante mas que agora se atravessava como flashes pela sua memória. Mas aquela mensagem não podia ser dele. Naquela altura tinham 16 anos, nem sequer tinham telemóvel, e perderam completamente o contacto.Conceição fez o seu curso, começou a trabalhar numa consultora e, com excepção de viagens que fazia com duas amigas, pouco mais fazia. Tinha a sua casa e era uma mulher de 28 anos independente, com uma carreira profissional ascendente e com fins-de-semana bem passados entre amigos.

Sentindo-se a verdareira Alice a entrar no País das Maravilhas, entrou no comboio Intercidades Lisboa-Coimbra à hora marcada. Reparou apenas nesse momento que o bilhete era só de ída. «Estranho» pensou «querem ver que é para lá ficar e não trouxe mais nada?»... Afastou aqueles pensamentos da sua cabeça, «qual ficar? chego lá e compro logo o bilhete de regresso e pronto».

À medida que se aproximava mais de Coimbra a curiosidade sobre quem estaria à sua espera agudizou-se mais do esperava... ainda pensou enviar um sms a dizer "estou a caminho, onde é que estás mesmo?" para ver se percebia quem era... mas decidiu deixar-se levar pela loucura daquele dia inesperado. «Se tinha o bilhete na minha mesa de cabeceira foi porque o pus lá, embora não me lembre quando nem porquê». E ouviu repetidas vezes a música "Just say Yes" inebriada em lembranças antigas de momentos bons que passou naquela cidade na sua adolescência.

Chegou a Coimbra e sentiu repentinamente o seu coração bater acelerado, aliás, esta era também uma sensação estranhamente familiar naquele lugar. Por momentos Conceição sentiu-se viajar no tempo e ficou paralizada à saída do Comboio. «E agora?»

Inconsientemente dirigiu-se ao café que ficava mesmo na rua abaixo da estação. Estava diferente, um toldo novo, vitrinas mais modernas. O interior estava cheio e sentiu-se perdida. «Afinal estou à procura de quem já não existe». Voltou-se para a porta quando o seu telefone tocou. Atendeu e uma voz familiar disse "Vira-te, na última mesa no canto à direita". Conceição voltou-se e viu ao longe um homem com a barba por fazer a levantar-se e a acenar-lhe. O sorriso dos seus olhos castanhos avelã eram inconfundíveis. Era ele, alto, despenteado, desengonçado, não tinha dúvidas. Avançou até à mesa e não sabia sequer como cumprimentá-lo. Ele abraçou-a, com aqueles braços enormes que desvanecem qualquer dúvida. Olhou-a nos olhos e segredou-lhe ao ouvido

"You're lost little girl, You're lost little girl
You're lost, Tell me who are you?

I think that you know what to do,
Impossible? Yes, but it's true.
I think that you know what to do, girl
I'm sure that you know what to do
."

Conceição não conseguiu esconder uma lágrima que lhe escorreu pela face e que ele rapidamente beijou. Afastou-o, sacudindo a cabeça, baralhada. Deixou-se cair na cadeira, ainda de pernas a tremer, só conseguiu dizer "Mas como? Nunca mais soube de ti..."

Ele entregou-lhe a útima carta que lhe escreveu, a mesma que ela lhe devolveu. A carta estava amarrotada mas no final tinha uns riscos por cima da letra da música que a terminava

Love me two times, baby
Love me twice today
Love me two times, girl
I'm goin' away  stay

Love me two times, girl
One for tomorrow
One just for today
Love me two times
I'm goin' away stay

- "São, Nunca... é Tarde".

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 21:15

Ciberespaço

por Closet, em 06.02.10

 

Hoje tive uma manhã de Sábado diferente, qualquer coisa parecida com um paradigma monolítico de mainframes algures no ciberespaço... ou não houvesse estrelinhas a brilhar no escuro da sala (wrong, não foi no Planetário), ao longe via-se algo parecido com o Planeta Terra (aí apercebi-me que não estaríamos definitivamente por lá) e um gigantesco astronauta a pairar assustadoramente na nossa direcção.. brrr... MEDO...

Bom, o positivo é que o ar era respirável e... sobrevivi à experiência!

Agora tenho um leve presentimento porque nestes dois ultimos dias estatelei-me de joelhos consecutivamente (sim, repetio-o ontem aparatosamente nas escadas da Baixa Chiado, don't ask)... era um sinal... i got a feeling...

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publicado às 20:14

Cratera

por Closet, em 04.02.10

Hoje

adormeci e acordei quase à hora de sair de casa

escorreguei e cai de joelhos no corredor do colégio, tenho um joelho deitado abaixo

fui de comboio em pé, a comer, a ler o livro, a anotar frases e ouvir música

cheguei ao trabalho invariavelmente atrasada 15 minutos

tive um dia improdutivamente estupidificante

cheguei a casa invariavelmente tarde, e já com o meu filho mais pequeno a dormir...

Hoje

o meu marido foi jogar à bola e eu decidi gravar no meu telemóvel o novo nº de telemóvel dele.Consegui!

E descobri, no fim do contacto, que ele tinha escrito lá uma nota "AMO-TE". Uma única palavra mágica vinda de quem está a meu lado há 14 anos...

Esbocei um sorriso ainda sozinha e neste momento

esqueci-me que o dia foi tão vazio e desinteressante, 

que tenho um joelho negro e que, muito provavelmente, amanhã irei ter um dia parecido ( ok, espero não me estatelar de novo)...

mas...aquele instante de surpresa, preencheu a cratera que fervilhava no meu peito...há pequenos grandes gestos que fazem milagres!

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publicado às 23:32

Trapos Velhos

por Closet, em 04.02.10

Hoje passei por ti na rua de raspão.

Tu não me viste, acho que não.

ías a olhar para o lado a conversar

Eu fiquei inerte, gelada

a seguir-te com o olhar.

As pernas ficaram presas ao chão

fingi que foi o salto que me fez parar

e não a aceleração

o nó na garganta, saliva da réstia de paixão.

Naquele instante vi-te a afastar

Ías feliz, com outra a teu lado a conversar

a inveja invadiu-me por não estar no seu lugar.

Sacudo a cabeça, digo a mim mesma, "basta"

Há muito que te apaguei da memória,

nem sei como te reconheci.

Entre nós não houve história

só um princípio e um fim.

No meio houve um vazio incómodo

que desisti de questionar.

Baixei os braços e deitei fora

como trapos velhos

que já não dá para remendar.

Agora tanto se me dá,

deixaste de me apetecer

e se pudesse te evitar

preferia a cegueira de não ver

a tua presença incolor a passar.

Porque já há muito que não te vejo.

És apenas um reflexo no meu espelho

pequeno, partido e gasto de tanto olhar.

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publicado às 00:41

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