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Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.01.10

Amarrotado em seda preta

Estava naqueles dias em acordei revirada... 8 da manhã de um Domingo e rebolava na cama sem conseguir dormir mais...

Lá fora a chuva jorrava de um céu negro que não convidava a sair e a minha vontade era ficar enterrada no endredão o resto da manhã, o resto do dia se  fosse possível. A minha casa estava um caos, a roupa empilhada em cima de uma cadeira desde que o Sr. José me trouxe passada a ferro na terça-feira.. olhava para ela e depois para gavetas da cómoda mal fechadas com roupa a sair por frechas. O roupeiro, com a porta entreaberta pelo Picá que gostava de dormir lá dentro em cima de uma manta, tinha os cabides sobrelotados. «Aquele quarto estava uma lástima» pensava enquanto me enterrava ainda mais no endredão.

Uma mensagem faz-me saltar da cama. Era a Marta a lembra-me de lhe levar segunda-feira a clutch preta para um casamento que vai ter no outro fim-de-semana... «ainda mais essa...o raio da clutch», já nem me lembrava onde a tinha colocado naquele quarto atravancado de roupa... Senti um impeto súbito de arrumação... tinha de ser...quanto mais não fosse até encontrar a clutch prometida.

Comecei a tirar os cabides do roupeiro e a coloca-los em cima da cama, tirei as camisas, as calças, e acabei a dar comigo a vestir e despir uma série de roupa que já não vestia há séculos. Fiquei radiante ao ver que algumas calças estavam mais largas, coloquei-as de lado, ía dá-las ou arrumá-las na arrecadação.

Passei à porta dos vestidos, tinha alguns cabides ainda com o invólucro da lavandaria, outros nos sacos de embalagem protectores... «a clutch devia estar pendurada em algum» pensei abrindo um a um os fechos das embalagens. Ri-me ao ver o vestido de ramagens verde secas que levei ao casamento da Rita. Já tinham passado 4 anos e parecia que foi ontem. Depois abri outro e encontrei o vestido preto com debruns a prateado que levei a um cocktail da empresa que tinha organizado há 2 anos. Estava lá pendurado a clutch preta. Claro, agora lembrava-me perfeitamente. Nunca mais o tinha vestido e, na verdade, acho que o enclausurei naquela embalagem de plástco opaco de prepósito para não o ver mais. Não tinha boas recordações dessa noite. Tirei a clutch e voltei a puxar o fecho, dois anos ainda não tinham sido suficientes para ultrapassara a desilusão. Esperei por ti toda a noite. Os empregados já arrumavam as cadeiras, os copos, a sala ficou deserta e só eu, a ultima pessoa. De um relance aquela sala pareceu-me tão vazia quanto eu... segui num taxi para casa e atirei com esta roupa para a embalagem que ainda hoje a faz refém. A clutch de alguma forma também ficou por lá esquecida.

É uma malinha simples de seda preta, com uma alça feita de missangas pretas reluzentes, e por dentro tem uma bolsa com um fecho. Ainda tinha lá no fundo um batom Channel rosa e um papel amarrotado. Tirei o batom com entusiasmo, ainda estava em perfeito estado. O papel amarrotado era, ao que parecia, um post it, tinha um pedaço de cola ressequida num lado. Ía deitá-lo no caixote mas decidi abri-lo, à vezes tenho a mania de guardar números de telefone em papéis em vez de os gravar nos telefone, sei lá porquê.

O que li paralisou-me por instantes, depois aproximei-me da janela  para ver melhor, não era a minha letra. Mas era uma letra que eu conhecia bem. Aquele papel jazia na minha clutch há dois anos, incrível, ainda me perguntava como foi lá parar. Provavelmente colado a algo que eu coloquei lá dentro e depois ao tirar ele ficou por lá amarrotado.

Agarrei-o e atirei-me para cima da cama violentamente. O Picá foi ter comigo e lambeu-me a mão com a língua áspera, própria de um felino. «Áspera». Lembro-me de como eu fui áspera contigo ao telefone depois daquela noite. Nada fazia sentido. Olho agora novamente o papel e penso «porque não te escutei antes de falar? porque disse aquele monte de disparates irónicos e mordazes?...porque te afastei?». O orgulho tomou conta de mim estes dois anos. E fui eu que me fechei com ele numa embagem de plástico opaco, num esconderijo forrado a seda preta. Mas agora nada mais importa. és um caso encerrado no meu roupeiro. Foste para Londres, perdi-te do rasto, não quis saber sequer para onde ías... A vida é feita de encontros e desencontros, que não são mais que momentos únicos. De certa forma temos o hábito de os estragar com uma racionalidade que ofusca a emoção.Para cada momento, cada escolha, há uma única oportunidade na vida. Se não agirmos deixamos esse momento passar e fugir-nos para sempre.

Voltei a olhar o papel amarrotado e reli as palavras que tentaste dizer-me por telefone. Aquelas que pintavas em tons vários, a tua linguagem que eu nunca quis escutar «Vesti o fato que me compraste. Olhei-me no espelho e vi um vulto estranho que me assustou. Desculpa. Delvovi-o à loja. Não esperes por mim. Sabes que não pertenço a esse mundo. O meu é feito de telas e tintas. Mas ainda assim acho que os nossos mundos podem tocar-se da mesma forma que se tocam os nossos corpos. Se as nossas almas compreendem-se só com o olhar, será que isso não te basta? Se sim, vem ter comigo esta noite. E não questiones mais

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Texto escrito para a Fábrica de Histórias

publicado às 23:06


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