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Fábrica de Histórias

por Closet, em 28.01.10

 

A distância laranja

 

Vivemos numa rotunda enorme com muitas faixas de rodagem.Abrandamos, aceleramos, repetindo ciclicamente os mesmos erros, os mesmo embates.

No início detestava-te.  Achava-te convencido e arrogante, não conseguia sequer perceber o que a minha amiga viu em ti. Eras feio de antipático e sisudo, com um ar superior, de quem sabe tudo e melhor que ninguém. Nem um sorriso. Entre nós havia uma proibição de passagem. Um sinal vermelho que obrigava a parar.

Mas um dia entrámos na mesma faixa sem reparar. Algo de estranho se passava com o meu carro e tive de sair para a berma e encostar. Não sei se por simpatia encostaste o teu também. Não tínhamos pressa e o tempo diluiu-se numa eternidade, diria como se fosse uma semana inteira a conversar... tu percebias de carros, e eu deixei-te comandar. Acho que entre nós abriu-se um sinal laranja de tolerância. Aprendi a conhecer-te e, sem dar conta, a apreciar-te.

Sempre que nos cruzávamos havia um gesto, um sorriso, uma conversa, um olhar. Entre nós abriu-se, de repente, um sinal verde que subitamente nos fez aproximar.

Primeiro arrancámos devagar, com os médios acesos, mas aos poucos fomos ganhando velocidade, de tal forma que, por vezes, sentia-me a derrapar. Fiz peões, ultrapassei os limites de velocidade permitida... nem sempre percebi se me estavas a acompanhar. Mas a adrenalina do perigo é viciante e foi impossível abrandar.

Numa noite de nevoeiro, atravessei-me na faixa errada e encontrei-te. Já não consegui travar. Havia em ti uma luz verde brilhante. Como um farol que conduz no alto mar. Entrei pela tua faixa apaixonante onde o piloto automático passou a comandar. Confesso, foi impossível ultrapassar. O nevoeiro intenso ofuscava-me, atraiu-me para a berma escorregadia e encostei-me ao teu carro de mansinho. Fiquei lá  abrigada até o sol raiar.

Foi uma noite confusa, invadida por sinais intermitentes, gestos apaixonados embebidos em palavras indiferentes. Assumi um laranja, que não proibia a passagem, mas fazia-me abrandar. As palavras vazias, orgulhosas, criam distância. Que ironia, não te consegui alcançar... e naquela distância laranja foi mais seguro abrandar.

Chegou a madrugada e com ela uma chuva intensa e enraivecida, misturando-se com lágrimas de uma despedida. Segui o meu caminho pelo chão molhado, onde senti-me a derrapar. Não me lembro de mais nada. Dizem que tive um acidente, passei um vermelho sem parar. Embati no teu carro estacionado na berma. Perdi os sentidos, entrei num sono profundo de onde só muito tempo depois consegui acordar. 

Os carros ficaram amolgados, os pára-choques destruídos, mas ainda conseguiam andar. Meti-me de novo na rotunda, procurando em todas as faixas, uma explicação, um gesto, o teu olhar. Mas deparei-me de 5 em 5 metros com sinais abertos vermelhos, que constantemente me obrigavam a parar. 

Andei aos círculos por tanto tempo, naquele arranca e pára infernal... até que saí da rotunda, e apanhei uma recta onde não havia sinais para me condicionar. Senti-me livre, das cores que comandam a vida, do laranja dúbio da tua distância, entre partir e ficar.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:09

Personagens

por Closet, em 27.01.10

Hoje foi dia de curso! E não foi propriamente uma aula, mas um exercício prático na busca de um personagem. Confesso que adoro, vejo com cada um diariamente... Mas desta vez era diferente, lá fomos em grupo para o Chiado, sentarmo-nos na zona de restauração, para escolher a "nossa vítima" !! Quando dei por mim tinha sentados na mesa ao lado 3 velhos, sim... velhos mesmo...e eu já tinha dito a mim mesma "Velhos não, please... mas parece que me perseguem...". Bom lá descobri alguém mais interessante para observar.

Por coincidência ou destino, enquanto descíamos para o Chiado eu e a minha amiga encontrámos não um, mas dois personagens familiares... E se ontem leveia-a numa viagem 20 anos atrás, hoje recuámos... 18 anos... sim, tínhamos 18 anos, for sure!

Curiosamente os personagens estavam ... iguais... bem um tinha barba mas o mesmo ar intelectual, ou não fosse super hiper doutorado... e o outro, que se previa careca no alto da cabeça... afinal, tinha mais cabelo do que nos lembrávamos...

Demos por nós num flash back de 18 anos, naquele campo de férias em... Sernancelhe! O francês loiro que ruminava sem se entender uma palavra, o argelino que corria todas as manhãs e não comia carne de porco,... e aqueles 3 personagens que conhecemos a 200 Km e afinal viviam a 2 Km de nós!!

Tivémos muitos episodios divertidos com eles, demais... e ainda hoje choramos a rir a lembrar-nos de alguns...

A vida é um filme, e ás vezes acho que se constroi em mosaico, como histórias soltas que, de alguma forma, se acabam por interseccionar algures no tempo...

Ao fim de, talvez, 12 anos, voltámos a encontrar estes 2 personagens, por acaso... e pareciam exactamente iguais, como que estagnados num tempo e num espaço...  nós, também na baralhação de resumir 12 anos de vida... parecíamos as alucinadas de 18 anos a falar ao mesmo tempo e a rir sem parar "ai que já perdemos a nosssa turma, temos de ir, temos de ir observar alguém" e eles sem perceber patavina, que turma? e onde tínhamos de ir? Just Us...!! Foi bom "voltar" :)

Mesmo que o resumo da minha vida para o personagem que supostamente melhor conheço tenha sido "é casada e tem 2 filhos"... e assim se define a minha vida aos seus olhos... uns olhos de quem "vive junto com a namorada" mas onde não encontrei qualquer brilho no olhar...

Anyway, Personagens... somos todos, uma ou várias em constante mutação, corpos deambulantes vestidos por detrás de máscaras, enigmáticas almas por decifrar...

Logo se vê o que inventarei para a minha personagem, tenho de me inspirar ;)

 

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publicado às 00:03

Fábrica de Histórias

por Closet, em 24.01.10

Segunda-feira, 25 de Janeiro

Deixei os miúdos na escola à hora habitual e segui em direcção a Lisboa, cantando músicas em volta alta, esquecendo o trânsito à minha volta que não iria interferir com a minha boa disposição daquele dia. Como combinado, dei-lhe um toque para o telefone mal cheguei à sua porta. Ela acenou da janela um "vou descer". Era o dia de anos dela, da minha melhor amiga, e íamos tomar o pequeno-almoço juntas. Mas o que ela não sabia era que os meus planos eram diferentes, muito diferentes.

Ela entrou no carro e abraceia-a logo com "aquele nosso abraço apertado". Disse que tinha escolhido outro local «não tens pressa, certo?» perguntei sorrindo. «Não, eu não tenho pressa, mas tu não vais trabalhar?» perguntou admirada. Abanei a cabeça e soltei um «Logo se vê».

Conduzi em direcção a sul e fingia não reparar na expressão de espanto espelhada na sua cara. Continuava a falar sem parar para não lhe dar qualquer hipótese de me questionar. Admito que é algo que faço com bastante facilidade!

Passámos a ponte e na saída segui um desvio à direita, num caminho de terra batida com arbustos e silvos a ladearem-nos. «Mas onde vamos?» perguntou-me já impaciente. Parei o carro e os meus olhos sorriram para ela com evidente felicidade. Não lhe disse nada. Ela fixou o meu olhar demoradamente e, ainda confusa, acenou que sim. Prossegui.

Entrámos num parque com vários carros e estacionámos. Tudo aquilo nos era agradavelmente familiar. Reconhecemos o caminho até à nossa tenda "a famosa Iglo azul e amarela". Lá estava ela, um pouco torta, como habitual, com algumas espigas mal enterradas. Era a "nossa Iglo", sem dúvida. O fecho tinha um cadeado pequeno. Não que fosse grande coisa, mas era a única forma que tínhamos para proteger as nossas coisas. «A chave? Onde é que pusemos a chave?» perguntei-lhe ... Ela levantou um pouco a tenda junto à porta, lá estava ela! Tinha-me esquecido que a deixávamos sempre ali.

Naquele dia de Janeiro estava "o calor daquele Agosto". Despimos os casacos e encontrámos radiantes lá dentro os nossos fatos de banho, os calções e os tops para a praia. «Anda, não temos tempo a perder!» disse-lhe enquanto já me contorcia dentro da tenda enquanto me despia e vestia . Passei-lhe as roupas dela e ela seguiu os meus movimentos sem questionar.

Este é um hábito que temos, há quem lhe chame telepatia, vidência, ou outros nomes similares... Eu nunca pensei muito nisso, apenas sei que, com ela, nem sempre preciso falar. Um olhar ou um gesto é suficiente. Confiamos, reconhecemo-nos. Da mesma forma que uma criança aprende a andar, nós apoiamo-nos uma na outra e seguimos os passos certas que nos irão segurar.

Agarrámos as toalhas e saímos em direcção à praia que nos esperava à saída do parque. O mar estava brilhante, o sol quente, corremos descalças pela areia até junto do mar. Mergulhámos na água tépida da costa alentejana e depois esticámo-nos como lagartos ao sol. Conversámos sobre tudo, sobre nada, e rimos muito das nossas aventuras e desventuras. Até que surgiu um rapazinho de 16 anos, aproximou a convidar-nos para ir com ele ao bar. No meu estilo descontraído balbuciei qualquer coisa em alemão que o fez recuar de atrapalhação. Não controlámos o riso ao vê-lo aflito afastar-se com um "tchau". Fazíamos muitas destas. Inventávamos, inventávamo-nos, éramos muitas, éramos o que queríamos e quando queríamos. Aquele era o nosso mundo intemporal. Foi por aquela janela de tempo que a consegui levar naquele dia mágico. Porque eu e ela acreditámos nela e conseguimos lá entrar.

O sol foi baixando em direcção ao mar. Voltámos para o carro. Já com as roupas e casacos novamente vestidos reparei desolada ao espelho o meu cabelo comprido todo encaracolado... o dela estava esticadinho, como sempre. Torci a boca e suspirei. Ela olhava-me abanando a cabeça sorrindo e, de repente, nos seus olhos senti-me a pessoa mais bonita do mundo. Com 16 anos, ou com 36 anos. Não interessava. Na essência somos seres infinitos, genuínos.

Ela escreveu-me um dia citando António Ramos Rosa  "(...) Navegamos nas veias verdes de um ócio apaixonado, para um país onde cada gesto desencadeia um nascimento onde em cada coisa brilha o lume da origem". E foi este poema que abriu aquele caminho de terra batida e que, com toda a certeza, nos fará encontrá-lo sempre que o procurarmos.

Quando a deixei à porta de casa recebi "aquele nosso abraço apertado", aquele instante onde as almas se encaixam numa melodia impossível de compor em notas musicais.

No seu banco ficou caído um papel dobrado, mas já não fui a tempo de a chamar.

Abri e li " Vejo a mestria da nossa amizade, num parágrafo simples da vida. S."

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

Dedicado à minha Best Friend que faz anos nesta 2ª feira, 25 Janeiro! 

  

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publicado às 22:56

Amarras

por Closet, em 20.01.10

Comecei ontem um novo curso de Escrita Criativa. Não é bem um curso, é um Workshop, whatever...comecei!

É um curso novo, cheio de gente nova (mas com a minha best friend claro!), num local novo (ok, o prédio é centenario no Bairro Alto, mas é novo para mim!)...só a palavra "novo" agrada-me de uma forma inexplicável... é uma pena ser apenas uma vez por semana...

Bom...e até as pessoas são novas...e aqui refiro-me à idade... na verdade, num grupo de 15 sou a 4ª mais velha...oh God... não estava à espera, confesso!  Mas pronto... há factos contra os quais não posso remar!

Anyway, estou lá para me divertir, inventar histórias, personagens, o que me pedirem...para quem já fez de nuvem...acho que estou preparada para (quase) tudo!!

E o 1º exercício era escolher uma foto de um leque que nos apresentaram e escrever um texto sobre ela em 30 minutos. Quem me segue por aqui sabe que de qualquer foto me sairia rapidamente uma história, na verdade até várias e na confusão que se instala na minha mente sobre "escolher" tomo (quase) sempre a mesma decisão - escolho a primeira que me veio à cabeça. Percebo muitas vezes que não é a melhor, não é aquela da qual eu poderia tirar mais partido, ser mais eloquente, ou comovente...mas é a minha história compulsiva... e às vezes "convulsiva"...que é bem diferente, apercebi-me hoje nas minhas conversas inexplicáveis para a maioria dos mortais...adiante!

Gostei dos textos de todos, diferentes estilos, bem escritos, criativos... é tão bom ter um fim de dia assim!

Quanto à minha foto... escolhi esta mesmo, encontrei  aqui http://ipt.olhares.com/data/big/89/892275.jpg

 

Acho que a escolhi porque não me identifiquei logo com ela... porque me repele a ideia de estar amarrada... na verdade podia ter escrito sobre isso mesmo, sobre a vontade de nos libertarmos de nós mesmos, de querer ser mais, ser muitos, ser paralelos... havia muito para dizer sobre este tema...mas lá está, fugiu-me a cabeça para uma história com personagens, simples, e...não, ele não está a suicidar-se a mandar-se para o mar (lá está, também podia ser)...e não, ele não é um aprendiz de marinheiro que se enrolou nas cordas do seu barco (lá está outra história...and so on...)... ele é um teenager tímido, incapaz de se soltar e dizer o que sente... more or less like this in a small story tale !!

 

Mas como aqui sou "mais eu" quero escrever algo diferente, algo que dificilmente escreveria numa 1ª aula onde teria de ler o meu texto ao grupo... confesso ... por algum motivo tenho pavor a psicólogos!!!

 

Aqui fica a versão "não-me-internem-por-favor-porque-eu-gosto-de-ir-às-compras" porque eu sou mesmo assim!

 

Amarras

Cruzam-se, desencontrados, por entre olhares fugidios, 

aqueles que um dia puxaram as pontas soltas 

e com nós ataram em surdina as suas vidas. 

Fogem agora desenfreados, de um memória híbrida, gelados.

E rumam, ao seu lugar seguro.

Doridos, cansados, feridos.

Soldados vencidos.

Fingem, ignoram, calam, numa encenação contida,

que a liberdade os obriga.

Soltam-se as cordas, desfazem os nós, 

seguem em frente num caminho escuro e frio.

Estão livres, perdidos num imenso vazio.

Soltos num campo de batalha.

Sem vida. Sem emoção.

Seriam as amarras paixão pela força com que prendiam?

E pensando-se soltos, eles caem de repente.

Como uma ferida antiga que abre e sangra abundantemente.

Perplexos olham os pés, aquela sensação dormente.

Encontram cordas. Envoltas, com nós repetidos,

e sentem-se novamente atraídos pelas amarras que os prendiam.

Curioso o destino errante de quem vive amarrado

a um instante de vida esquecido.

 

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publicado às 23:55

Fábrica de Histórias

por Closet, em 17.01.10

Amarrotado em seda preta

Estava naqueles dias em acordei revirada... 8 da manhã de um Domingo e rebolava na cama sem conseguir dormir mais...

Lá fora a chuva jorrava de um céu negro que não convidava a sair e a minha vontade era ficar enterrada no endredão o resto da manhã, o resto do dia se  fosse possível. A minha casa estava um caos, a roupa empilhada em cima de uma cadeira desde que o Sr. José me trouxe passada a ferro na terça-feira.. olhava para ela e depois para gavetas da cómoda mal fechadas com roupa a sair por frechas. O roupeiro, com a porta entreaberta pelo Picá que gostava de dormir lá dentro em cima de uma manta, tinha os cabides sobrelotados. «Aquele quarto estava uma lástima» pensava enquanto me enterrava ainda mais no endredão.

Uma mensagem faz-me saltar da cama. Era a Marta a lembra-me de lhe levar segunda-feira a clutch preta para um casamento que vai ter no outro fim-de-semana... «ainda mais essa...o raio da clutch», já nem me lembrava onde a tinha colocado naquele quarto atravancado de roupa... Senti um impeto súbito de arrumação... tinha de ser...quanto mais não fosse até encontrar a clutch prometida.

Comecei a tirar os cabides do roupeiro e a coloca-los em cima da cama, tirei as camisas, as calças, e acabei a dar comigo a vestir e despir uma série de roupa que já não vestia há séculos. Fiquei radiante ao ver que algumas calças estavam mais largas, coloquei-as de lado, ía dá-las ou arrumá-las na arrecadação.

Passei à porta dos vestidos, tinha alguns cabides ainda com o invólucro da lavandaria, outros nos sacos de embalagem protectores... «a clutch devia estar pendurada em algum» pensei abrindo um a um os fechos das embalagens. Ri-me ao ver o vestido de ramagens verde secas que levei ao casamento da Rita. Já tinham passado 4 anos e parecia que foi ontem. Depois abri outro e encontrei o vestido preto com debruns a prateado que levei a um cocktail da empresa que tinha organizado há 2 anos. Estava lá pendurado a clutch preta. Claro, agora lembrava-me perfeitamente. Nunca mais o tinha vestido e, na verdade, acho que o enclausurei naquela embalagem de plástco opaco de prepósito para não o ver mais. Não tinha boas recordações dessa noite. Tirei a clutch e voltei a puxar o fecho, dois anos ainda não tinham sido suficientes para ultrapassara a desilusão. Esperei por ti toda a noite. Os empregados já arrumavam as cadeiras, os copos, a sala ficou deserta e só eu, a ultima pessoa. De um relance aquela sala pareceu-me tão vazia quanto eu... segui num taxi para casa e atirei com esta roupa para a embalagem que ainda hoje a faz refém. A clutch de alguma forma também ficou por lá esquecida.

É uma malinha simples de seda preta, com uma alça feita de missangas pretas reluzentes, e por dentro tem uma bolsa com um fecho. Ainda tinha lá no fundo um batom Channel rosa e um papel amarrotado. Tirei o batom com entusiasmo, ainda estava em perfeito estado. O papel amarrotado era, ao que parecia, um post it, tinha um pedaço de cola ressequida num lado. Ía deitá-lo no caixote mas decidi abri-lo, à vezes tenho a mania de guardar números de telefone em papéis em vez de os gravar nos telefone, sei lá porquê.

O que li paralisou-me por instantes, depois aproximei-me da janela  para ver melhor, não era a minha letra. Mas era uma letra que eu conhecia bem. Aquele papel jazia na minha clutch há dois anos, incrível, ainda me perguntava como foi lá parar. Provavelmente colado a algo que eu coloquei lá dentro e depois ao tirar ele ficou por lá amarrotado.

Agarrei-o e atirei-me para cima da cama violentamente. O Picá foi ter comigo e lambeu-me a mão com a língua áspera, própria de um felino. «Áspera». Lembro-me de como eu fui áspera contigo ao telefone depois daquela noite. Nada fazia sentido. Olho agora novamente o papel e penso «porque não te escutei antes de falar? porque disse aquele monte de disparates irónicos e mordazes?...porque te afastei?». O orgulho tomou conta de mim estes dois anos. E fui eu que me fechei com ele numa embagem de plástico opaco, num esconderijo forrado a seda preta. Mas agora nada mais importa. és um caso encerrado no meu roupeiro. Foste para Londres, perdi-te do rasto, não quis saber sequer para onde ías... A vida é feita de encontros e desencontros, que não são mais que momentos únicos. De certa forma temos o hábito de os estragar com uma racionalidade que ofusca a emoção.Para cada momento, cada escolha, há uma única oportunidade na vida. Se não agirmos deixamos esse momento passar e fugir-nos para sempre.

Voltei a olhar o papel amarrotado e reli as palavras que tentaste dizer-me por telefone. Aquelas que pintavas em tons vários, a tua linguagem que eu nunca quis escutar «Vesti o fato que me compraste. Olhei-me no espelho e vi um vulto estranho que me assustou. Desculpa. Delvovi-o à loja. Não esperes por mim. Sabes que não pertenço a esse mundo. O meu é feito de telas e tintas. Mas ainda assim acho que os nossos mundos podem tocar-se da mesma forma que se tocam os nossos corpos. Se as nossas almas compreendem-se só com o olhar, será que isso não te basta? Se sim, vem ter comigo esta noite. E não questiones mais

.

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 23:06

Tinta

por Closet, em 15.01.10

Tenho andado num estado catatónico...confesso...o que quer que seja que isso signifique...

Na verdade o ano começou bem e em breve muita coisa se irá (re)compor na minha vida, o que será um alívio enorme...bem sei.

Mas, há sempre um "mas", individualmente, no meu ser mais egoísta, sinto-me vazia, apática, por isso tenho evitado escrever... uma amiga disse-me há pouco tempo "vê lá se tropeças numas escadas, se cais no colo de alguém ou te acontece algo hilariante" ... bom, efectivamente não deixei de tropeçar, na verdade ando a aprimorar-me na arte de ler enquanto subo e desço as escadas do metro o que... já causou alguns incovenientes... confesso... para além de uma nódoa negra num joelho... adiante, não estamos no verão, who cares??

Apenas não estou "in the mood" para escrever episódios para rir, sorry...

Como a minha Best Friend me disse, a vida é como um grande quadro por pintar, e nós temos de lhe atirar com bastante tinta...Há dias em que consigo pintar tudo de amarelo, que é a minha cor e toda eu sou EU, há outros em que aparecem pinceladas mescladas que ofuscam a visão, como um "olá" desgarrado de quem nunca se conheceu ...e ainda há outros, como agora, em que olho o quadro e só vejo a tela em branco...  um branco imenso e deserto, e sinto que estou à espera de algo para começar a pintar...

Enquanto espero, ando a ler, nas minhas viagens diárias para aquele edificio que me encerra horas infindáveis do meu dia, o livro "Kafka à beira-mar "de Haruki Murakami. É um nadinha de nada muito grande para transportar no comboio, mas who cares, lá vou eu a ler sobre um homem que fala com gatos, peixes que caiem do céu, cabeças de gatos cortadas por um homem que come os seus corações, e de um adolescente que foge de casa numa viagem tresloucada à procura não sabe bem do quê...whatever...parece estranho, mas na verdade, para quem se sente "em branco" o surreal faz curiosamente sentido, e até sabe bem...

Anyway, tenho estado "à beira-mar", que aliás é um local que aprecio bastante (embora a chuva insiste a teimar demover-me), mas estou por lá, de pés descalços enterrados na areia à espera de uma onda que me envolva e me alegre o espírito. Está para vir, eu sei, sou óptimista...é que entre mim e o tempo não há mal entendidos... e talvez para a semana, quando começar um novo curso de escrita, certamente encontrarei novo alento e motivação pessoal para enfrentar as correntes adversas do dia-a-dia!

Dizem que não se avança sem derrubar obstáculos, e bem sei que às vezes eles nem existem, são produto da nossa mente, fantasias que inventamos para nos agitar a alma, preencher buracos dentro de nós para nos sentirmos vivos... Mas derrubar obstáculos é sempre um acto que cansa... caímos várias vezes, levantamo-nos, voltamos a cair para, finalmente, conseguimos saltar... depois precisamos desta paz e descanso, como que um luto em espaço e tempo vazio, branco... eu estou a precisar, para que possa novamente pintar Arco-íris de cores alegres, com um amarelo tão forte capaz de me iluminar.

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publicado às 00:28

Fábrica de Histórias

por Closet, em 10.01.10

Mistura de sabores

Abriste a porta e com uma vénia teatral fizeste sinal para entrar. Fitei-te por segundos eternos. Não te via há algum tempo e, admito, estavas incrivelmente atraente, com o cabelo mais comprido meio desalinhado. Mas ainda assim entrei com a sensação de um vazio a percorrer-me por dentro, o vazio que também mergulhava a tua casa. Fiquei parada, sem proferir palavra, enquanto me atiraste o casaco que tinha na mão para o sofá e perguntaste "queres beber alguma coisa?". Confesso que me interroguei se seria mera gentileza ou porque não sabias de facto mais o que dizer. Fitei-te novamente, desta vez raspei apenas os meus olhos nos teus para que não mos aprisonasses e acenei que sim. Voltei as costas contemplando as paredes nuas e aquela estranha sensação de ausência que me incomodava. "Posso escolher?" perguntaste timidamente. Volto a acenar que sim e sigo-te os passos para a cozinha. Uma divisão moderna, em tons frios de inox, dou por mim a pensar se alguma vez aquela placa encastrada terá conhecido a chama do fogo. Abano a cabeça indiferente ao que possas pensar, tenho a certeza que não. O fogo não arde naquela casa. Abres o congelador do teu elegante combinado em inox e retiras uma couvette de gelo. Reparo que as duas ultimas gavetas se encontram vazias, e na primeira apenas uma refeição pronta, lasanha talvez, e gelo, vários sacos de cubos de gelo... não pude deixar de pensar em como o nosso meio é um espelho de nós...

Colocas os cubos de gelo num aparelho em inox que decorava a bancada. E num barulho que arrepia picas o gelo bem fino durante segundos assutadores. Depois retiras uma lima dentro de um recipiente para fruta, que apenas continha limas e limões. Partes a lima em 4 partes com uma faca afiada. Reparo que saltam uns esguinchos de sumo para a tua mão que imediatamente absorves com os lábios e, curiosamente, pareces gostar. Lembro-me do sabor dos teus lábios, ou talvez já não, e não acho estranho gostares daquele sabor acído... colocas 2 metades em cada um dos dois copos de vidro largos e baixos dispostos lado a lado na bancada. Estavam tão juntos que se roçavam, como já estivemos nós em tempos. Perco-me a pensar, mas limito-me a comtemplar-te ao longe.

Abres um armário e retiras uma embalagem já aberta de açucar de cana. Nem sabia que conhecias tal ingrediente. Colocas 2 colheres de sopa de açucar em cada copo e retiras de uma gaveta um pilão de madeira. Esmagas em cada copo as limas e o açucar, deixando o sumo amargo dissolver os grãos doces de açucar. Os teus movimentos são ritmados, precisos, como se os tivesses ensaiado vezes sem conta. O resultado é perfeito e o açucar rende-se, disolve-se, mistura-se. Naquele momento, como em flash back, vivi aquela nossa estranha noite e percebi que a vida nos empurra para as misturas mais impossiveis.

Abres uma garrafa de cachaça que já vai a meio e colocas a olho o que corresponde a 1 cálice em cada copo. Depois vertes o gelo picado e mexes bem com a ajuda de uma palhinha.

Fico a olhar-te colocar 2 palhinhas baixas em cada copo, envolveres um deles com um guardanapo e estenderes-me com um sorriso triunfal nos lábios. Procurei o mesmo sorriso nos teus olhos e não o encontrei, mas aceitei na mesma o copo que me estendias. Devolvi-te uma palhinha. "Já só preciso de uma" respondi sem mais justificações. Pegaste no teu copo e fizeste um sinal de brinde. Não percebi bem porquê mas sorri por cortesia e provei a bebida. Estava tristemente amarga e gelada, aliás...como tu. Na verdade não gosto de cachaça, tem algo para mim de azedo.

Pousei o copo e disse "Desculpa, mas prefiro caipiroska, o vodka torna a bebida mais doce e quente, a cachaça arrepia-me, azeda-me". Ficaste parado, sem saber o que dizer ou fazer... gaguejaste algo como "posso fazer outra", mas eu já tinha virado as costas. Ter ído a tua casa foi um erro tão inevitável com inexplicável, como um julgamento de um assassino que sempre admitiu a sua culpa.

A verdade é que o teu sabor e o meu já não se misturam. Talvez nunca se tenham mesmo misturado. E talvez naquela noite, em que já não sei se foi sonho ou realidade, tu tenhas bebido cachaça e eu tenha bebido vodka.

 

Caipirinha

 

Caipirinha

 

Ingredientes

Gelo
Cachaça 1 cálice por copo
lima: 1 por cada 2 copos
Açucar de cana: 2 colheres de sopa por copo
 

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

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publicado às 22:38

I see You

por Closet, em 03.01.10

 

 

Nestes primeiros dias do ano fui ver dois filmes "Avatar" e "Alvin e os Esquilos 2".

Ainda que o primeiro tenha ído um pouco de pé atrás... ficção científica não é o meu género, e muito menos depois de dormir apenas 4 horas... admito, o filme é lindo!  Para quem não viu, aconselho a ver em 3D, vale a pena! E gostei de tal forma que estou a pensar seriamente em emigrar para aquele Planeta... I don't care se eles são azuis e têm orelhas inestéticas pontiagudas... são todos altos, magros, (ok, não usam roupa fashion, who cares!) e voam em pássaros enormes...que inveja!!

Anyway, "I see You" pode significar muito mais. A união de espíritos, algo que nós, pobres humanos, nos esquecemos ou ainda não sabemos encontrar.

 

 

Quanto aos esquilos... bom, encontram esquilas...e guess what? O trio passa a sexteto! Recomendo vivamente a crianças e adultos! Os meus ninjas adoraram.

 

E agora aqui estou em vésperas de voltar ao trabalho, com o frio do mês de Janeiro à porta e a sensação de que a única parte de mim que funciona é ... a preguiça!! no big deal!

 

Venha 2010 com energia positiva para nos contagiar!

 

Para o "velho" 2009 deixo o recado:

Ruptura

Tínhamos evitado admitir o nunca mais

dissimulando-o com sonhos e projectos magníficos...

Desci os degraus, um por um,

lentamente.

Lembras-te?

Virei-me antes de sair.

Ía dizer qualquer coisa,

qualquer frase oca, falsa,

protocolar.

Os teus olhos fixaram-me longamente

deixando transparecer a angústia de uma felicidade

impossível de ser vivida.

Não disse nada. Saí...

As ruas estavam desertas.

Por onde andei? O que bebi?

(escrito algures em 1991, mas pareceu-me apropriado...)

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publicado às 19:04


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