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Fábrica de Histórias

por Closet, em 11.10.09

Onde o tempo parou

Aqui, de onde te escrevo o tempo parou. Os pássaros azuis que nos davam os bons dias a chilrrear no beiral da janela deixaram de me visitar. O gato gordo cinzento permanece deitado no cadeirão preto de pele junto à escrivaninha, num sono eterno, profundo. Até os ponteiros do relógio colonial de parede pararam, num pronuncio de solidão.

Recolho-me no sofá e seguro a minha almofada de tricot, aquela que tantas vezes me arrancavas dos braços para me poderes abraçar... curioso, como agora dava tudo para te poder abraçar de novo, e não esta almofada velha tricotada há mais de vinte anos pela minha avó... Estou também parada, inerte, soturna, a olhar pela janela o mar irado. As ondas de espuma branca que embatem e desgastam um rochedo enorme que se ergue incólume no meio da água. Aquela explosão de raiva e impotência, aquela luta incansável, um pouco de mim.

Já não me preocupo com o braço do sofá que está descosido, ou com o pires desta chávena que tem uma lasca. Bebo o chá de maçã e canela bem quente e recosto-me de lado neste mesmo braço do sofá, de pernas encolhidas, tapadas com a manta de xadrez que trouxemos de Marrocos. Como tudo é efémero e relativo.

Olho de esguelha, mais uma vez, para a tua carta largada, por entre livros e jornais antigos, em cima da arca. Estico-lhe a mão e contemplo-a, mais uma vez... Porque a mandaste? Porque pediste para te escrever? Porque não consigo derrubar-te de mim?

Uma imensidão de dúvidas atravessam a minha mente, num jogo perigoso que já não quero jogar. Desisti de ti. Mesmo que este sofá ainda me recorde o cheiro fresco do teu perfume, que a almofada de tricot me lembre os teus braços à volta da minha cintura e o chá de maçã e canela me deixe na boca o sabor doce do teu beijo.

Ergo-me do sofá todos os dias e piso descalça estes dois metros de tijoleira que separam o sofá da janela. Sento-me no parapeito de madeira para ver o sol caminhar em direcção ao mar. Como uma dança de enamoramento, aproximam-se devagar. Depois beijam-se demoradamente, em diferentes tonalidades mescladas de azuis e laranjas. Tocam-se. Amam-se. Fundem-se. Como tudo deveria ser assim tão simples.

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias

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publicado às 22:36


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