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Desabafos

por Closet, em 18.05.09

Recebi há pouco tempo um e-mail a elogiar o meu blog, que o leu quase todo num fim-de-semana (bolas...) e que eu a fiz pensar na vida com mais alegria... Fiquei feliz, claro, inchada até...e na verdade esforço-me por ter boa disposição e alegrar quem está á minha volta (mesmo que este ano não me esteja a correr particularmente bem...whatever).

Como Churchill dizia "Sou um optimista. Também não me serve de nada ser outra coisa qualquer". E eu subscrevo.

Mas sou humana, tenho um monte de defeitos. Digo o que não devo, faço coisas sem pensar, arrependo-mo, volto atrás, e nem sempre mostro o que sinto, mostro mesmo às vezes o que não sinto numa ridícula encenação necessária.

Na verdade, tenho dias piores, em que estou mesmo farta de mim, apetece-me desligar e fugir ..." não sejas assim" dizem-me...mas sou, como uma criança endiabrada que olha de esguelha o passeio e corre feliz pela estrada.

 

Insisto em usar sandálias de cunha com 10 cm, mesmo com a minha tendência inata para escorregar e cair. Insisto em não olhar para o chão nem me segurar no metro, absorta a ler os papeis que levo nas mãos. Hoje torci um pé e desequilibrei-me algures na linha azul, aterrei no colo de um senhor que estava sentado. "que tinha de ter cuidado" disse-me enquanto ajudava-me a levantar. Pedi-lhe desculpa. Acho que já não o reconhecia. Para mim foi um colo, ainda que de um estranho, que me amparou neste dia.

publicado às 22:18

Fábrica de histórias

por Closet, em 17.05.09

 Porque não?

Já estava atrasada. Todas as manhãs era uma correria. Tinha de deixar o Tomás na escola às 8h30, nem mais um minuto.

O portão do colégio teimava em não abrir… Empurrava com toda a minha força enquanto voltava a tocar à campainha.

- "Posso?" – perguntou uma voz atrás de mim.

Voltei-me. Era o pai do Manuel, alto de cabelo castanho claro a cair desalinhado por uns olhos verde claros. Já o tinha visto  algumas vezes de manhã, quando apressados os nossos olhos se cruzavam num sorriso esquivo. Trocávamos sempre um "Bom dia" sumido, tímido, embatido num "até logo"  que nunca acontecia.

Ía responder-lhe quando fui interrompida.

- “Olha Tomás os nossos ténis são iguais” – dizia uma criança junto a ele.

- “Pois são, Manuel, os meus são novos” – dizia o Tomás contente.

Rimos-nos os dois, com uma empatia fora do vulgar.

- “Eu sou o pai do Manuel. Chamo-me Pedro. Parece que os nossos filhos são amigos.

Esbocei um sorriso atrapalhado e disse:

-“Sou Teresa, o Tomás fala-me bastante do Manuel sim. Olhe, estou atrasadíssima, ainda vou apanhar imenso trânsito até à Expo, consegue abrir este portão?

Pedro abriu o portão e fomos juntos levar as crianças à sala. Perguntou-me onde trabalhava e por coincidência também trabalhava lá perto.

Voltámos juntos e despedimo-nos junto ao portão com o habitual “até logo”. Desta vez Pedro piscou-me o olho e os seus lábios rasgaram um sorriso inebriante.

Entrei no carro ainda atordoada com aquele olhar que me incomodou. Ía a arrancar quando Pedro bateu no vidro e gesticulou para o abrir.

-“Estava a pensar se podíamos almoçar juntos hoje lá pela Expo. Gostava de falar consigo sobre o Manuel. Perguntar-lhe uma opinião...”.

Fui apanhada completamente desprevenida e balbuciei um imediato

- "Não sei se posso, se tenho coisas marcadas lá no escritório..."

Aquele convite assim, vindo do nada, parecia tão estanho quanto apetecível. Sabia bem que não o devia aceitar. Devia recusar, inventar uma desculpa, qualquer uma era mais que aceitável...Eu era casada e ele muito provavelmente também. Seria estranho combinarmos assim um encontro...Que opinião minha poderia ele querer? Estaria a atirar-se a mim com uma desculpa esfarrapada ou teria algum problema com o filho?

Questionava-me  enquanto ele me esticava um cartão com os seus contactos.

- "Combinamos por volta das 13h? Telefone-me se puder."

Agarrei o cartão com um sorriso que teimava em sair, comprometido, envergonhado. "Bonito. Agora ficou a bola do meu lado" pensava eu irritada comigo mesma...

Arranquei e fiquei a vê-lo desaparecer pelo espelho retrovisor. Tinha uma figura estupidamente atraente nuns jeans escuros e uma camisa por fora, demasiado atraente.

"Director Comercial" podia ler no seu cartão. "Óbvio. Por isso tinha aquela conversa fácil, aquele piscar do olho..." resmungava comigo mesma.

Na minha cabeça agitavam-se um turbilhão de ideias.

Será que precisávamos de querer alguma coisa um do outro para ir almoçar? Seria assim tão estranho conhecermo-nos? Afinal os nossos filhos eram amigos... E se fosse a mãe do Manuel ninguém iria achar estranho, que sociedade preconceituosa...Tentava a todo o custo encontrar razões para aceitar. Tinha uma vontade imensa de o conhecer, saber o que fazia, onde cresceu,...Definitivamente tinha simpatizado com ele, mas desconfiava que aquele almoço poderia ser diferente, poderia ser mais do que um simples almoço...  a nossa empatia foi imediata e assustadora. Deveria arriscar?

Cheguei ao escritório e procurei na minha agenda uma reunião que impossibilitasse a minha hora de almoço. Nada. Estava escrito no destino...

Coloquei o cartão na minha frente. Fiquei a olhar para ele à procura de um sinal. Tinha 3 horas para pensar.

 

História ficcionada para a Fábrica de Histórias.

publicado às 21:28

Fuschia Hype

por Closet, em 14.05.09

 Tenho um mau humor matinal terrível.

Não o nego, não o escondo e é uma característica que até assinei no acordo pré-nupcial.
Por isso, de manhã, e mais naquelas em que o céu cinzento dá-me uma neura desgraçada, não se cheguem perto, não falem comigo, e principalmente não me façam perguntas… (ok, abro uma excepção para os meus filhos logicamente).
Mas por que raio têm a mania de meter conversa comigo??
- "Gosto imenso desse verniz. Como se chama?"
Nesse momento já tinha metade da carruagem do comboio a olhar para as minhas mãos…
Olhei a teenager esbugalhada e disse-lhe o meu nome.
- “Não, não…queria saber o nome do verniz
Ah… pronto, pois está claro, o meu nome não interessava para nada…dahhh
- “Fuschia hype da bourjois”
- “Ahhh esse…”
A teenager continuou a falar que gostava muito da bourjois, que a sephora não tinha esta cor nem a risqué, que só tinham rosas ou muito claros ou muito escuros, blá blá blá…aumentei o som nos meus phones.
Thank God saiu em Algés “tinha de ir para as aulas”…com muita pena dela, e minha, está claro…
Continuei a viagem com as mãos escondidas por debaixo da mala, just in case...
Na verdade também me apetecia comentar a gravata amarela do senhor de fato cinzento sentado à minha frente “ah tão gira, toda amarela piriquito, nunca tinha visto, gosto muito dessa cor, por acaso não fica aí muito bem, blá blá blá”…Mas não disse.
 
 
 
Aqui fica o dito verniz, devia ter ficado com o mail da teenager...oohhh....
foi-me emprestado pela minha amiga Lua (sim, sim, os vernizes também se emprestam...só para ver se ficava bem na minha pele LOL, e fica! Must Have!)

publicado às 20:19

Rotundas

por Closet, em 14.05.09

O meu filho de 3 anos descobriu à pouco o que é uma "rotunda".

No caminho para a escola passamos por vária rotundas, ao que ele não perde UMA oportunidade de me perguntar "mommy, mommy, isto aqui é uma rotunda, pois é?"..."pois é" respondo-lhe eu infinitas vezes.

No meio do disco riscado sobre rotundas o pequeno avança com uma pergunta nova "mommy, porque há tantas rotundas?"...bem, a minha cultura rodoviária não é propriamente o meu motivo de orgulho, mas avancei com uma explicação que, no momento, me pareceu perfeita. "É para ser mais fácil andar". wrong...o petiz responde logo "é mais fácil andar às voltas? ai não é não. É mais fácil andar em frente"...

Contra factos não há argumentos e a criança encurralou-me entre um discurso filosófico ou uma mentira rodoviariamente correcta... venceu a filosofia, pois claro, que de carros eu não percebo nada!

Ir em frente é mais fácil e mais rápido sim, mas às vezes as coisas são mais complicadas, todos querem andar mais rápido, passar à frente, às vezes nem sabem para onde querem ir...e é preciso andar à volta, com cuidado e paciência, para não haver acidentes. Bom...e isto aplica-se a muita coisa na vida ;-)

publicado às 00:05

freakbook

por Closet, em 13.05.09

Tenho andado entretida com o Facebook...não é que seja propriamente fã da coisa, na boa verdade ainda não percebi bem para quê que aquilo serve, mas que começa a ficar...crowded..lá isso anda...

E como me acusam de nunca estar online, de não ter "actividade"...ora, ora,..subo até ao 8º andar todos os dias no trabalho...what else?? bom, ok, ok, lá fiz um quiz, lá postei "o que estou a pensar", comentei umas fotos,... e lá procurei amigos...

e não é que encontrei ??? brrr...aquilo está mesmo na moda, e até se vê quem se quer...e quem não se está à espera, whatever...

"Encontrei" (sim, porque aquilo é como se fosse ir a um café) um colega meu da faculdade que, por acaso, até vou encontrando de vez em quando, já que trabalha mesmo perto de mim. Mas temos horários diferentes e chegamos a estar meses sem nos vermos...na verdade, nestes últimos 11 anos apenas almoçámos 1 vez...shame on me! 

Este meu colega é assim meio artista, idealista, super inteligente.... admirava-o bastante, ele também gostava de mim e até costumavamos trocar poemas que gostavamos...

Na minha habitual nostalgia por tempos ídos, fui vasculhar o meu caderninho e não pude deixar de sorrir ao ler um dos poemas que me deu...é que começa mesmo bem...

"Quando fores velha

Quando fores velha, grizalha, vencida pelo sono,

Dormitanto junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos do teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o seu rosto numa imensidão de estrelas"

W.B.Yeats

 

Bom...e este era o mais simpático...havia outros, um começava por "Ele desejava que a sua amada estivesse morta (...)"...oh God...e eu ainda o convidei para almoçar...help me!

publicado às 22:59

Loira

por Closet, em 12.05.09

Lá vinha eu estoirada do trabalho a folhear a Lux Woman especial Beleza quando reparo nuns olhos fixados em mim de alto a baixo do senhor que se sentava à minha frente. Enquanto disfarçava a folhear as páginas do erudito Diário de Notícias, eu podia facilmente ler-lhe a passar pela testa em letras gigantes LOIRA LOIRA LOIRA.

É uma verdade que para algumas pessoas que se cruzaram na minha vida eu tive o rótulo de loira, mas para ser sincera nunca me importei com isso. Confesso que em certas situações até é uma posição confortável, não me fazem muitas perguntas porque certamente pensam que não tenho nada de interessante para dizer. Chega a ser um alívio...

Talvez à excepção dos colegas de escola e faculdade, onde as minhas notas sempre derrubaram o estatuto de loira burra, eu sempre fui associada à feliz louca por roupa, sapatos e cosmética, sempre a par dos looks trendy e com uma invejável cultura sobre a vida de todas as manequins internacionais. By the way, programas como o Project Runaway fazem as minhas delícias televisivas, no matter what.

Na verdade nunca me importei com o que pensam sobre mim, talvez porque nunca fui  pessoa de pensar o que quer que seja sobre alguém, detesto rótulos e ideias pre-concebidas e tenho o terrível defeito de não desgostar de ninguém. E assim, sempre vivi entre os dois mundos, tanto gosto de cremes como de poesia, tanto gosto de ir a uma galeria de arte como de experimentar roupa da nova colecção da Mango, tanto gosto de dançar raggae na praia como de dançar valsa num baile clássico. Nem tudo é comparável ou hierarquizável...e quem quiser isolar os comportamentos em universos paralelos do "fútil" ou "ecléctico"... passe à frente, sff.

Eu sempre me dei bem com gregos e troianos, por vezes tenho até a mania de querer juntá-los mesmo indo contra a sua natureza, mas nesta dicotomia sempre fui encontrando o meu ponto de equilibrio.

 

Aqui fica a minha loira preferida que adoptei há 6 meses, a minha Avril!

 

 

publicado às 22:46

Lata

por Closet, em 12.05.09

Costumo estacionar o carro num parque de um jardim municipal perto da escola dos miúdos. Subimos umas escadas de madeira na encosta, apanhamos umas folhinhas… e tudo seria hoje assim perfeito não fosse uma criatura abominável que se atravessou à minha frente.

Pois que ía hoje no melhor dos meus atrasos habituais, pois que a área de estacionamento está em obras, pois que havia poucos lugares disponíveis… Mas…o meu carro é pequeno e cabia mesmo bem num buraquito perfeito, feito mesmo à medida.
Havia uma criatura com ar serrano, de fato-macaco e braços cruzados a olhar para mim. Por momentos ainda pensei que queria uma moedinha. Saí do carro e a criatura mal humorada rosna:
A senhora já viu onde estacionou o carro?
Confesso que só a palavra “senhora” tira-me do sério, e logo pela manhã quando o meu humor não está propriamente em alta…Mesmo assim respondi-lhe
Já. E está muito bem estacionadinho”, sorri-lhe satisfeita e orgulhosa.
O senhor franze o sobrolho com as sobrancelhas serranas
Então não vê que está a tapar uma máquina?”.
Máquina?? Confesso que tinha olhado de relance para qualquer coisa que estava para ali, até pensava que era uma pedra gigante, sei lá? Whatever. Olhei para a coisa com atenção e na verdade pareceu-me um monte de lata enferrujada…
 “Olhe, não reparei. Mas a máquina está ali bem arrumadinha, não vai sair dali não é? Aquilo também parece que já não funciona…
E comecei a tirar as crianças do carro.
O homem já punha as mãos na anca e soprava
Não funciona? O que é que a senhora percebe disso? Aquilo é para um tractor que tenho ali. Eu posso precisar de tirar a máquina minha senhora, eu posso precisar dela e o seu carro está á frente, eu posso mandá-lo rebocar”…
No way que já tive um episódio de reboque pouco interessante…
Olhe, e eu posso um dia ir à Lua… Acha que vou já comprar o fato espacial?” criatura insolente e possessiva, com paixão estranha por lata em estado decadente.
Entrei para o meu bólide e ainda pensei dar um encontrãozinho aquele monte de lata ferrugenta, usurpadora de lugares…

publicado às 20:43

O que não se perde

por Closet, em 11.05.09

Sara já não conseguia ouvir o que estavam a dizer. Estavam fechados há 4 horas naquela sala de reuniões e não chegavam a nenhum consenso. O tempo estava a ficar apertado. Ela tinha mesmo de sair às 18 horas, nem mais um minuto.

Nervosa, batia na mesa com as unhas arranjadas à hora de almoço, nem tinha almoçado mas também não se importava. Agora só queria acabar aquela reunião e correr para o aeroporto.

O Rui estava em Munique em trabalho e tinha-lhe pedido para ir ter com ele passar o fim-de-semana. Nem sempre a convidava quando ía para fora. Já estavam juntos há três anos, mas o Rui não era uma pessoa de cativeiro, não queria assentar e ter filhos. No seu estilo de vida de trintão solteiro não entrava a palavra casamento. Sara sabia-o bem e enganava-se a ela própria pensando que um dia ele ía mudar, que iria querer viver com ela, partilhar a sua vida. Tinham-se conhecido numas férias no Brasil onde os seus destinos se cruzaram em noites quentes. Foi uma paixão fulminante e Sara nunca mais o conseguiu tirar da cabeça. Mesmo sabendo que era apenas uma amiga especial, que ele só queria estar com ela de vez quando e que, muito provavelmente, ía tendo outras pessoas. Continuou a alimentar esta paixão, fechou-se para o mundo e fantasiou um relacionamento que só existia na cabeça dela.

18h30 e continuavam todos numa alegre discussão...era sexta-feira, "será que ninguém quer sair daqui hoje?" pensava Sara batendo inquieta com o pé no chão. Levantou-se e despediu-se dos colegas com um "Tenho mesmo de apanhar um avião" e saiu porta fora. Correu até ao seu gabinete para buscar a mala quando ouviu um assobiu "Uau...onde vais?".

Era o seu colega Ricardo, olhava-a de alto a baixo com um sorriso trocista.

"Olha vou apanhar um avião, estou atrasadíssima" - respondeu-lhe já a apagar a luz.

"Queres que te leve ao aeroporto? Vou para aqueles lados."

"Humm... não é transtorno?"

"Não. Ía sair mesmo agora"

"Então está bem. Obrigada."

Sairam pela garagem. O Ricardo trabalhava na empresa há um ano e apenas falavam de vez em quando a tomar café. Trabalhava em informática e Sara pouco sabia da vida dele, apenas que era bastante simpático. Quando entraram na 2ª Circular o trânsito estava todo parado. Ouviam na rádio que era um acidente com 3 carros.

"Oh meu Deus, já só faltam 30 minutos, e eu nem fiz o check-in online..." Sara estava a perder a cor de tão nervosa que estava. Olhava para o relógio de segundo a segundo.

"Não te serve de nada ficares assim, calma" dizia-lhe Ricardo mas ainda a enervava mais.

Chegaram ao aeroporto, Sara correu a tirar a mala e desnorteada despediu-se com um "Tchau". Ricardo ficou a vê-la correr pelos tapetes rolantes.

Chegou aos balcões do check-in e ouviu aquilo que temia - o avião já tinha descolado... não havia mais nenhum aquela noite. Nada.

Sara sentou-se em cima da sua mala e pensava em alteranativas. Perdeu o voo mas não queria perder o Rui, ele estava à espera dela naquela noite... ficaria sozinho... Sara também ficava sozinha muitas noites. Nas noites em que ele não podia estar com ela, ou não queria, mas inventava sempre uma desculpa aceitável, nem que fosse uma gastroentrite que o obrigava a ficar na cama. Sara nunca ía verificar se ele estava de facto doente. Preferia acreditar que sim. Era feliz com aquela mentira e agarrava-se a ela de tal maneira que nem queria ouvir quando uma amiga lhe dizia que o tinha encontrado num bar naquela noite.  Sara sabia perfeitamente que o Rui não era dela. Ela é que era dele. Mas ainda não tinha tido forças para o deixar. Sabia que ele não iria atrás dela, que abriria os braços, como já o tinha feito tantas vezes quando ela gritava "assim não aguento mais", e lhe diria com o seu olhar meigo "não te prendo, quando quiseres vais". E ela nunca foi. Até aquela noite tinha corrido sempre atrás dele, a qualquer convite, qualquer pedido, nunca disse que não.

Curiosamente tinha a sensação que o tinha perdido naquela noite. E um vazio enorme instalou-se no seu corpo que deambulava pelo atrio do aeroporto à procura de uma saída.

De mãos trémulas, enviou-lhe uma mensagem "Perdi o avião e já não há mais esta noite. E agora?". Ficou presa a olhar para o telefone como se dele dependesse a sua vida.

"Sara" ouviu ao longe. Era o Ricardo a acenar-lhe da porta e a chamá-la. Sara foi ter com ele e explicou-lhe que tinha perdido o vôo. Que não sabia o que ía fazer.

"Queres vir jantar?" pergunta-lhe Ricardo como que indiferente à aflicção dela.

"Jantar? Eu ía para Munique... " respondeu-lhe perplexa e quase irritada. Ricardo parecia viver em outro planeta. Estava sempre bem, não se chatiava com nada, vivia de bem com a vida...

"Mas já não vais pois não? Vem jantar e dpois podes vir comigo a um Bar onde eu vou tocar" disse-lhe de rompante.

Ricardo contou-lhe que tocava guitarra e era vocalista de um grupo que tocava às sextas-feiras num bar de Cascais. Sara ficou boquiaberta, nunca o imagiou a tocar e muito menos a cantar. Mas achou graça ao seu ar descontraído e riu-se.

"Com um bocado de sorte ainda troco Munique por um jantar numa tasca a comer uma bifana e a beber uma cerveja".

"Nem mais. Era mesmo isso que me apetecia. Alinhas?"

O telefone de Sara apitou. Era o sinal de mensagem. Abriu ansiosa "Não faz mal. Fica por aí e diverte-te". Leu e releu. Ler ainda era pior do que ouvir. Não havia espaço para dúvidas. Ricardo espreitava a mensagem também "Ora aí está uma pessoa sensata e que gosta de ti". Mas Sara não tinha vontade de rir, os olhos transbordavam lágrimas que imediatamente começaram a escorrer pela face. Ricardo segurou-lhe os cabelos atrás da orelha e deu-lhe um abraço forte, afagando-lhe a cabeça.

"Não se perde o que nunca foi nosso" sussurrou-lhe ao ouvido.

Sara acenou limpando os olhos. Foi com Ricardo jantar numa tasca de Cascais. Depois foi com ele ao Bar, conheceu os seus amigos e ficou a ouvi-lo cantar e tocar. Ricardo tocou uma musica para ela, com um sorriso aberto, sincero. Há três anos que Sara não reparava no sorriso de ninguém. Afinal tinha aquele sorriso todos os dias ao seu lado. Ricardo levou-a a casa, já era tarde, mas os seus olhos tinham um brilho diferente.Ou talvez fosse ela que nunca tinha reparado no seu brilho. Despediu-se dela com um abraço longo e roubou-lhe um beijo rápido, envergonhado. Piscou-lhe o olho e colocou-lhe na mão um pedaço de papel amarrotado. Sara ainda embaraçada entrou em casa e abriu o papel "amanhã... que tal almoçarmos umas sandes na praia??!! telefona 93 9768745".  

 

Texto escrito para a Fábrica de histórias.

 

publicado às 01:12

6 Maio

por Closet, em 07.05.09

Este era para ter sido ontem...mas não deu.


Foi há 13 anos atrás.
 Andava eu, mais uma vez, desencantada com o amor. Tinha-lhe   virado as costas, farta, cansada, não queria saber dele para nada.
Por nada, ou por tudo, naquela noite decidi sair com uns amigos, entre eles alguns que já não via há anos. 4 ou 5 anos, talvez, passaram desde que nos vimos pela última vez.
Fomos colegas de carteira, tivemos amigos comuns, ía às vezes a minha casa, sempre o achei incrivelmente lindo, mas os nossos santos nunca se cruzaram.
Cruzaram-se naquela noite como que por magia. Lá estava ele, um moreno  escultural, com um invejável bronze da neve e um estonteante sorriso nos lábios.
Uns lábios que me beijaram e convidaram para ir no seu carro. Fui atrás, porque os seus lábios tipicamente não me dirigiam mais do que um “sim” ou “não” e o co-piloto tinha mais interesse sobre…snowboard. Fui com a minha melhor amiga atrás, e ainda investi um “que é feito?” mas arranquei a custo um “nada de especial”…give up!
Não sei se pelo calor da noite, se pelo poder da lua, dizem que faz milagres, a noite foi inesquecível e dançámos até de madrugada.
Uma madrugada que se repetiu com outras noites a dois. Encontrámo-nos numa outra noite a seguir, quando ele aceitou o meu despropositado convite para dançar salsa. Dançámos salsa, ou talvez não, mas tentámos.
Tentámos encontrarmo-nos mais outra vez, e outra depois, e outra…na garraiada das festa da universidade em que participou, nos jogos de futebol que fazia, num cinema, encostados a uma parede na rua abrigados da chuva que caía.
A chuva caía há 13 anos atrás, no dia 6 de Maio. Não me lembro do filme que vimos, nem sequer se jantámos juntos nesse dia…só me lembro daquela parede em que nos encostámos abraçados. Lembro-me do sabor daquele primeiro beijo, do olhar meigo e do abraço apertado.
 
The Kingdom Come - Coldplay
 
Steal my heart... and hold my tongue
I feel my time... my time has come
Let me in... unlock the door
I never felt this way before

And the wheels just keep on turning
The drummer begins to drum
I don't know which way I'm going
I don't know which way I've come

Hold my head... inside your hands
I need someone... who understands
I need someone... someone who hears
For you I've waited all these years

For you I'd wait... 'Til Kingdom Come
Until my day... my day is done
And say you'll come... and set me free
Just say you'll wait... you'll wait for me

In your tears... and in your blood
In your fire... and in your flood
I hear you laugh... I heard you sing
I wouldn't change a single thing

And the wheels just keep on turning
The drummers begin to drum
I don't know which way I'm going
I don't know what I've become

For you I'd wait... 'Til kingdom come
Until my days... my days are done
Say you'll come... and set me free
Just say you'll wait... you'll wait for me
Just say you'll wait... you'll wait for me
Just say you'll wait... you'll wait for me

 

publicado às 23:07

Cansaço

por Closet, em 07.05.09

Ando cerebralmente cansada...e o meu peomário, que está em cima da minha secretária, soberbamente decorado com um postal de Kandinsky, resolveu ser gentil e compreendeu-me com este poema :)

 

"Ah, as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro…
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada."
Álvaro de Campos, Poesia

 

Vale-me os fins de dia fantásticos a passear com os meus filhos e o maridão no paredão  junto ao mar....  já disse que adooooro patinar???

O meu filho mais novo, que me tem em elevada consideração, olha para o pai estupefacto "a mommy vai patinar? ela consegue?"...grrr é um facto que já não ando há muito tempo...e, confesso, ando com um bocadinhozinho mais de medo do que antes de partir o pulso mas... NO WAY, o medo não vai tomar conta de mim :P

publicado às 22:45



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