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O que não se perde

por Closet, em 11.05.09

Sara já não conseguia ouvir o que estavam a dizer. Estavam fechados há 4 horas naquela sala de reuniões e não chegavam a nenhum consenso. O tempo estava a ficar apertado. Ela tinha mesmo de sair às 18 horas, nem mais um minuto.

Nervosa, batia na mesa com as unhas arranjadas à hora de almoço, nem tinha almoçado mas também não se importava. Agora só queria acabar aquela reunião e correr para o aeroporto.

O Rui estava em Munique em trabalho e tinha-lhe pedido para ir ter com ele passar o fim-de-semana. Nem sempre a convidava quando ía para fora. Já estavam juntos há três anos, mas o Rui não era uma pessoa de cativeiro, não queria assentar e ter filhos. No seu estilo de vida de trintão solteiro não entrava a palavra casamento. Sara sabia-o bem e enganava-se a ela própria pensando que um dia ele ía mudar, que iria querer viver com ela, partilhar a sua vida. Tinham-se conhecido numas férias no Brasil onde os seus destinos se cruzaram em noites quentes. Foi uma paixão fulminante e Sara nunca mais o conseguiu tirar da cabeça. Mesmo sabendo que era apenas uma amiga especial, que ele só queria estar com ela de vez quando e que, muito provavelmente, ía tendo outras pessoas. Continuou a alimentar esta paixão, fechou-se para o mundo e fantasiou um relacionamento que só existia na cabeça dela.

18h30 e continuavam todos numa alegre discussão...era sexta-feira, "será que ninguém quer sair daqui hoje?" pensava Sara batendo inquieta com o pé no chão. Levantou-se e despediu-se dos colegas com um "Tenho mesmo de apanhar um avião" e saiu porta fora. Correu até ao seu gabinete para buscar a mala quando ouviu um assobiu "Uau...onde vais?".

Era o seu colega Ricardo, olhava-a de alto a baixo com um sorriso trocista.

"Olha vou apanhar um avião, estou atrasadíssima" - respondeu-lhe já a apagar a luz.

"Queres que te leve ao aeroporto? Vou para aqueles lados."

"Humm... não é transtorno?"

"Não. Ía sair mesmo agora"

"Então está bem. Obrigada."

Sairam pela garagem. O Ricardo trabalhava na empresa há um ano e apenas falavam de vez em quando a tomar café. Trabalhava em informática e Sara pouco sabia da vida dele, apenas que era bastante simpático. Quando entraram na 2ª Circular o trânsito estava todo parado. Ouviam na rádio que era um acidente com 3 carros.

"Oh meu Deus, já só faltam 30 minutos, e eu nem fiz o check-in online..." Sara estava a perder a cor de tão nervosa que estava. Olhava para o relógio de segundo a segundo.

"Não te serve de nada ficares assim, calma" dizia-lhe Ricardo mas ainda a enervava mais.

Chegaram ao aeroporto, Sara correu a tirar a mala e desnorteada despediu-se com um "Tchau". Ricardo ficou a vê-la correr pelos tapetes rolantes.

Chegou aos balcões do check-in e ouviu aquilo que temia - o avião já tinha descolado... não havia mais nenhum aquela noite. Nada.

Sara sentou-se em cima da sua mala e pensava em alteranativas. Perdeu o voo mas não queria perder o Rui, ele estava à espera dela naquela noite... ficaria sozinho... Sara também ficava sozinha muitas noites. Nas noites em que ele não podia estar com ela, ou não queria, mas inventava sempre uma desculpa aceitável, nem que fosse uma gastroentrite que o obrigava a ficar na cama. Sara nunca ía verificar se ele estava de facto doente. Preferia acreditar que sim. Era feliz com aquela mentira e agarrava-se a ela de tal maneira que nem queria ouvir quando uma amiga lhe dizia que o tinha encontrado num bar naquela noite.  Sara sabia perfeitamente que o Rui não era dela. Ela é que era dele. Mas ainda não tinha tido forças para o deixar. Sabia que ele não iria atrás dela, que abriria os braços, como já o tinha feito tantas vezes quando ela gritava "assim não aguento mais", e lhe diria com o seu olhar meigo "não te prendo, quando quiseres vais". E ela nunca foi. Até aquela noite tinha corrido sempre atrás dele, a qualquer convite, qualquer pedido, nunca disse que não.

Curiosamente tinha a sensação que o tinha perdido naquela noite. E um vazio enorme instalou-se no seu corpo que deambulava pelo atrio do aeroporto à procura de uma saída.

De mãos trémulas, enviou-lhe uma mensagem "Perdi o avião e já não há mais esta noite. E agora?". Ficou presa a olhar para o telefone como se dele dependesse a sua vida.

"Sara" ouviu ao longe. Era o Ricardo a acenar-lhe da porta e a chamá-la. Sara foi ter com ele e explicou-lhe que tinha perdido o vôo. Que não sabia o que ía fazer.

"Queres vir jantar?" pergunta-lhe Ricardo como que indiferente à aflicção dela.

"Jantar? Eu ía para Munique... " respondeu-lhe perplexa e quase irritada. Ricardo parecia viver em outro planeta. Estava sempre bem, não se chatiava com nada, vivia de bem com a vida...

"Mas já não vais pois não? Vem jantar e dpois podes vir comigo a um Bar onde eu vou tocar" disse-lhe de rompante.

Ricardo contou-lhe que tocava guitarra e era vocalista de um grupo que tocava às sextas-feiras num bar de Cascais. Sara ficou boquiaberta, nunca o imagiou a tocar e muito menos a cantar. Mas achou graça ao seu ar descontraído e riu-se.

"Com um bocado de sorte ainda troco Munique por um jantar numa tasca a comer uma bifana e a beber uma cerveja".

"Nem mais. Era mesmo isso que me apetecia. Alinhas?"

O telefone de Sara apitou. Era o sinal de mensagem. Abriu ansiosa "Não faz mal. Fica por aí e diverte-te". Leu e releu. Ler ainda era pior do que ouvir. Não havia espaço para dúvidas. Ricardo espreitava a mensagem também "Ora aí está uma pessoa sensata e que gosta de ti". Mas Sara não tinha vontade de rir, os olhos transbordavam lágrimas que imediatamente começaram a escorrer pela face. Ricardo segurou-lhe os cabelos atrás da orelha e deu-lhe um abraço forte, afagando-lhe a cabeça.

"Não se perde o que nunca foi nosso" sussurrou-lhe ao ouvido.

Sara acenou limpando os olhos. Foi com Ricardo jantar numa tasca de Cascais. Depois foi com ele ao Bar, conheceu os seus amigos e ficou a ouvi-lo cantar e tocar. Ricardo tocou uma musica para ela, com um sorriso aberto, sincero. Há três anos que Sara não reparava no sorriso de ninguém. Afinal tinha aquele sorriso todos os dias ao seu lado. Ricardo levou-a a casa, já era tarde, mas os seus olhos tinham um brilho diferente.Ou talvez fosse ela que nunca tinha reparado no seu brilho. Despediu-se dela com um abraço longo e roubou-lhe um beijo rápido, envergonhado. Piscou-lhe o olho e colocou-lhe na mão um pedaço de papel amarrotado. Sara ainda embaraçada entrou em casa e abriu o papel "amanhã... que tal almoçarmos umas sandes na praia??!! telefona 93 9768745".  

 

Texto escrito para a Fábrica de histórias.

 

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