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Fábrica de Histórias

por Closet, em 08.03.09

Viagem - Entre Partir e Ficar

Entrei de rompante mal ouvi o som do apito de partida. Procurei um banco à janela sem ninguém. Ali ao fundo havia um, sem ninguém ao lado nem à frente. Era esse mesmo. Coloquei a mochila ao meu lado e recostei-me com os phones nos ouvidos. Senti o comboio partir, primeiro devagar e depois foi ganhando velocidade. Tinha-me sentado no banco virado de costas. Preferia sempre esses. Gostava de ver de frente o que vai ficando para trás.
A cidade onde vivi estes últimos 3 anos, uma casa alugada, um emprego de circunstância, uma relação que se foi tornando cada vez mais absorvente, um medo antigo de clausura. Fugi. Mais uma vez.
Na 1ª estação entrou um senhor de idade, talvez 80 anos, cabelo grisalho, testa enrugada. Perguntou se podia sentar-se à minha frente. Acenei com a cabeça e endireitei-me no banco.
Olhei pela janela e vi um casal a discutir violentamente, ele segurava-lhe o braço, ela gesticulava com o outro e apontava-lhe o dedo com os olhos carregados de raiva. Fiquei presa aqueles dois, que motivos teriam para uma discussão tão acesa? De repente, abraçaram-se e beijaram-se como se o mundo fosse acabar naquele instante.
-“ É mesmo assim, não se surpreenda” disse, com uma voz rouca. Olhei para ele espantada. Bateu com mão no vidro e continuou:
-“É na explosão que se descobre os nossos desejos mais profundos.” Fiquei a olhar para aqueles dois abraçados, íam desaparecendo ao fundo, cada vez mais pequenos.
Recostei-me e fechei os olhos para pensar naquilo que o velho me tinha dito. Eu nunca tinha explodido com ninguém. Em vez de discutir fugia.
Senti um abalo estranho, um baloiçar, e abri instantaneamente os olhos. Dei um salto no meu banco. O que era aquilo? O vidro estava salpicado de água... só conseguia ver mar.
-“Onde estamos?” perguntei ao velho que permanecia calmamente à minha frente.
-“No mar” respondeu sem olhar para a janela
-“No mar? Mas estávamos num comboio? Onde está a terra?”
Apontou para a janela e disse:
Está ali ao fundo, o barco anda ao seu redor
-“Mas... é para ali que vamos?”
-“Se quiser... cada um é que escolhe. O que vê interessa-lhe?”
O barco aproximava-se mais da terra e eu começava a ver mais nitidamente corpos de jovens a dançarem na areia, alegres.
-“Parece o paraíso não é?”
Acenei com a cabeça incrédula.
-“Depende de nós construir a nossa felicidade. Basta saber o que se quer ver e o que se quer ocultar.”
O velho olhava-me com uns olhos pequenos, cheios de rugas, mas incrivelmente expressivos. Incomodavam-me tanto como me atraiam. Fugi deles, encostei-me no banco e fechei novamente os olhos. Caí num sono profundo.
Um arranque fez-me deslizar no banco e acordou-me. Era um barulho de motores. Olhei para a janela e já não via água. Não via nada, absolutamente nada.
-“Lá em baixo. Está lá em baixo” disse-me o velho pacientemente.
Debrucei-me mais sobre a janela e vi lá em baixo casas, árvores, estradas.
-“Não estávamos num barco?”
-“ Estamos a voar, não vê?”
-“Mas para onde vamos? Diga-me, para onde vamos?”
-“Já lhe disse... para onde quiser.
- "Mas estou longe. Cada vez estou mais longe...
Via a terra a desaparecer cada vez mais pequena. Rompíamos o ceú e só via nuvens ao redor.
Ás vezes pensamos que estamos longe e estamos perto, outras parece que estamos perto e afinal estamos tão longe.” Dizia o velho limpando o vidro que tinha ficado embaciado.
-“ E vamos deixando andar...só quando vemos as coisas ao longe, a fugir do horizonte, quando achamos que já não podemos voltar, é que vemos se estamos realmente perto ou longe de ficar
O velho tinha-se chegado para a frente e falava quase em cima de mim. Perguntei-lhe assustada:
-“Está a dizer-me que já não posso voltar?”
-“Não minha filha, és tu que decides a tua viagem. Poisa a cabeça e deixa o teu coração guiar-te.”
Encostei-me novamente a pensar em tudo aquilo: explodir para descobrir o que se deseja, decidir o que se quer ver para ser feliz, saber estar presente quando se está perto. Palavras ridículas oriundas da boca de um velho, embalavam-me com uma serenidade invulgar.
Acordei com um apito. Olhei em volta e já não vi o velho, não estava ninguém na carruagem. Pela janela vi a estação de comboios onde parti. Agarrei na minha mochila e corri até à porta. As pessoas corriam apressadas, ao longe vi um homem alto a acenar-me. Era o João. Corria na minha direcção. Senti uma estranha sensação de conforto a percorrer-me por dentro. Saltei do comboio e abracei-o loucamente. Pensei que estava a partir e, afinal, estava a chegar.
Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

 

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