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Fábrica de Histórias

por Closet, em 08.02.09

A Escolha

- Só precisas dizer sim ou não – disse com o habitual olhar franzido e impaciente.
As minhas pernas tremiam e sabia que tinha de tomar uma decisão. O meu contrato acabava esta semana e não podia ter mais renovações, ou entrava para o quadro ou ficava desempregada.
- Deixa-me ver se posso – disse-lhe com a voz sumida
- Luísa, não compliques, é só um jantar. Espero até às 15h.
Só um jantar, dizia ele com aquele sorriso no canto dos lábios. Todas sabíamos como acabavam os seu jantares, num motel de estrada com direito a taxi de volta para casa. Algumas tinham direito a repetições, normalmente seguidas de aumentos ou pequenos prémios de "produtividade". Outras ficavam arrependidas, outras pavoneavam-se, sem qualquer pudor, com as promoções que tinham conseguido. Mas não se conhecia uma que se tivesse negado e que tivesse continuado na empresa. Ou se despediam ou o seu contrato não era renovado por “não preencher os requisitos”.
Já havia meses que me pressionava, e nitidamente foi aumentando à medida que se aproximava o prazo do contrato. Eu tínha-me divorciado há pouco tempo e isso tinha sido mais uma acha para o desejo dele. Não que se tivesse alguma vez coibido com mulheres casadas, na verdade eram as suas favoritas pelo simples facto de serem as mais discretas, terem um lar para onde voltar obrigatoriamente e não quererem compromissos. Talvez por esse motivo apenas conhecessemos uma presa destas, Directora de Realização, uma verdadeira víbora que todas asseguram que subiu na horizontal.
Fui para a minha secretária com o sangue a fervilhar-me nas veias e nem ouvia o telefone que tocava insistentemente.
- Atendes ou queres que puxe? – gritou-me a Sara do outro canto.
- Hã? Atende por favor e diz que não estou...
Não me apetecia falar com ninguém. Todas sabiam que ele andava em cima de mim, já quase todas as solteiras e divorciadas com um aspecto minimamente aceitável tinham "jantado" com ele... umas até deixam escapar sem vergonha que foi uma noite espectacular... o Ricardo era um homem atraente, 42 anos, alto, loiro, um solteiro convicto que se divertida nestes jogos de sedução. Mas era o Director Geral da Produtora, um negócio que pertencia ao seu pai. Motivo suficiente para ele fazer o que bem queria.
- Era o Jorge, pediu para lhe ligares – interrompeu-me a Sara já à frente da minha secretária. – O que é que o Ricardo te queria?
- O de sempre. Mas hoje foi o ultimato final...
- E o que lhe respondeste? – perguntou já inclinada sobre mim para que ninguém nos pudesse ouvir.
- Disse que ía pensar, tenho até às 15h.
- Estás louca? Se dizes Não já sabes que não ficas cá. É a tua única oportunidade de seres efectiva. É só uma noite, garanto-te que ainda te divertes...e depois esqueces e continuas como se nada fosse.
Sabia que naquele ramo era preciso cunhas, mas achava que a minha criatividade e dedicação seriam suficientes. Desenhei programas originais, adaptei outros estrangeiros que revelaram boas audiências... e mesmo assim estava agora entre a espada e a parede... o meu Director Geral estava a chantagiar-me da foma mais assustadora.
- Não penses nisso... vais ver que depois ele não te chateia mais – continuou ela afastando-se para atender o telefone. Aproveitei para telefonar ao Jorge, um amigo antigo com quem saía há um mês e por quem estava-me a apaixonar. Dei-lhe uma desculpa esfarrapada para cancelar o programa para essa noite e voltei ao turbilhão de ideias que me assaltavam. Tinha arrendado uma casa há pouco tempo, o dinheiro era apertado e ultimamente nem tinha tempo para fazer as traduções que me davam uns trocos extra. Trabalhava 10 horas por dia. Aquele emprego era um sonho realizado e não me imaginava novamente de volta às avenças em revistas ou jornais. Já tinha conseguido iniciar uma carreira. Por outro lado, a ética profissional era algo que me orgulhava de ter, nunca me apropriei de ideias alheiras e sempre que apresentava adptações fazia questão de mostrar os originais e explicar o porquê e como considerava que iria funcionava. Mas o mundo é podre e, pelos vistos, ser eficiente não é tudo.
Quando o conheci o Ricardo até me senti atraída por ele, envolvida pelas suas palavras e o seu olhar. Mas todas as histórias que me contaram dele foram cavando uma desilusão enorme e hoje é uma pessoa que me repugna tanto psicologicamente como me atrai fisicamente. Um duelo com desfecho imprevisível.
Na minha cabeça comecei à procura de soluções se não renovasse o contrato. O que poderia fazer ? Como irira enfrentar a situação?
Tinha um e-mail do Ricardo no meu computador...abri e lia-se “Marco às 21h no Chez Gabriel?”. Num ápice escrevi “Sim. Vou lá ter. E saio mais cedo para me arranjar.” Fechei o computador e saí desenfreada para não dar azo a quaisquer perguntas. Fui ao cabeleireiro, tomei um banho de imersão, escolhi um vestido vermelho curto e decotado, uns saltos veriginosos e apanhei um táxi. Ele já lá estava à minha espera e pelo seu olhar superei as expectativas. Estava obviamente provocadora e durante o jantar larguei toda a sensualidade que habitava algures em mim.
- Estava a pensar irmos para um lugar mais reservado – lançou ele no final do jantar.
Acenei com a cabeça e sorri. Seguimos para um motel onde se entrava para os quartos directamente da garagem. Muito conveniente. Ele avançou com as mãos para as alças do meu vestido. Ronronei um “espera” e disse:
- Vai à casa-de-banho por 2 minutos e terás uma surpresa na cama – e dei-lhe uma mordidela na orelha. Ele foi com um sorriso malicioso no rosto. Estava a gostar.
Tirei rapidamente a Carta de demissão da minha mala e coloquei em cima da cama. Fugi dali para casa do Jorge que já me esperava. Tinha concordado em deixar-me viver lá até assentar a minha vida outra vez.  Aconteça o que acontecer, vou continuar a lutar.
 
Texto escrito para a Fábrica das Histórias

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publicado às 23:53


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