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Fábrica de Histórias

por Closet, em 18.01.09

 

A Carta

Era sexta-feira à tarde e já se ouvia os zumbidos de todos a combinar saídas.

-  Anda, vem connosco ao Ritmos, ver gente gira, dançamos, bebemos um copo – mais uma tentativa da minha amiga Paula para me animar. Todas as sextas-feiras era o mesmo convite...e quase sempre a minha resposta era igual.

- Não sei se me apetece, depois logo telefono – dizia eu sem qualquer intenção de telefonar.
A sexta-feira era o dia em que ficávamos até às 4 da manhã a olhar para o céu, enrolados em cobertores na varanda. Passaram 4 meses e ainda não tinha conseguido esquecer.
Entrei no prédio e fui directa à caixa de correio para ver se já tinha chegado o certificado do curso de inglês que fiz no Verão. No meio da confusão de folhetos publicitários e correspondência de bancos, deparei-me com um envelope diferente, manuscrito. Não era hábito recebermos cartas e aquela tinha selos estrangeiros. Curiosamente vinha para mim. E sem remetente... estranho.
Entrei em casa e pousei as restantes cartas em cima da mesa da cozinha. Corri para o meu quarto e já deitada em cima da cama abri o envelope que tinha lá dentro uma folha branca escrita a tinta preta:  
“Ana      
Não sei por onde começar, talvez por um “Desculpa”, talvez por “Fui um idiota”.
Podes escolher.
De tanto olhar para o céu nunca fui capaz de descobrir que afinal tenho andado sempre de cabeça para baixo, como numa montanha russa. Não sei se por medo do abismo, se pelo gozo de ver o mundo de pernas para o ar. Tenho andado assim sem perceber.
Era capaz de dizer “quero-te”, vezes sem conta, mas nunca disse. Fuji de mim.
Os nossos diálogos ficaram mudos, fantasmas suspensos no tempo.
Mas quis-te sempre, muito, à minha maneira, e senti medo...
Nunca reservei lugar ao meu lado para outra pessoa, nunca imaginei sequer esse espaço na minha vida... Achei que sabia o que queria. Todas as explicações são ridículas...eu sei.
Mas a distância faz-nos pensar, a saudade corroi-nos e tu escavaste um buraco que agora está vazio. Sinto tremendamente a tua falta. A tua imensa alegria, a vontade electrizante de viver, o sorriso dos teus olhos distraídos, o sabor dos teus lábios, os impulsos que não consegues esconder.
Há quem procure a vida toda para sentir um pouco do paraíso. Há quem nunca o sinta e há quem opte por nunca sentir.
Viver é escolher. Não tenho dúvidas: as estrelas não brilham sem ti.
Volto no fim do mês.
João.”
Telefonei de imediato à Paula
- Sou eu, vou com vocês sair hoje, quero dançar!
- Ena, que boa notícia, aconteceu alguma coisa?
- Estou viva, pronto. E ainda bem. Contem comigo.
E desliguei com um sorriso rasgado  e o coração cheio.
Ele escolheu-me a mim.
 
Texto escrito para a Fábrica de Histórias

 

 

 

 

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