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Fábrica das Histórias

por Closet, em 11.01.09

Brilho das estrelas no Olhar

Hoje está uma das nossas noites... ainda digo "nossas" como se te tivesse visto ontem...

No céu escuro as estrelas brilham com a intensidade de um farol, como que a indicar-nos um caminho.
Tinha 17 anos quando mudei para o Porto com os meus pai, tinha deixado em Lisboa todo o meu mundo, os meus amigos, a minha escola...sentia-me sozinha.
Foi numa noite como a de hoje que te vi pela primeira vez da janela do meu quarto, com o teu enorme telescópio azul. Tinhas um ar de cientista louco, misterioso, com uns óculos de armação de metal, o cabelo desgadelhado, um corta-vento largo por cima de umas jeans descaídas e uns ténis verdes com uma lista amarela. Ainda tenho gravada na memória esta tua imagem. Achei-te graça. E fui-te espreitando na varanda da tua casa, noite após noite. Até que um dia reparaste em mim, acenaste-me e sorriste. Fiquei envergonhada por estar ali plantada a olhar... mas no momento não me ocorreu nada mais do que acenar também e sorrir...
Aos poucos fomos começando a falar na rua, na entrada do prédio, e houve um dia em que me perguntaste de repente quando eu já ía a entrar.
- Gostas de ver estrelas?
Fui apanhada de surpresa e soltei um simples
- Sim, claro, mas não percebo nada.
- Vem hoje a minha casa depois de jantar e vais passar a perceber.
Disseste com um sorriso nos lábios e um piscar de olho dengoso que me apunhalou. 
Às 21h lá estava eu a tocar à campainha e a ser conduzida ao teu quarto... “estavas na lua” como dizia a tua mãe a rir.
Conversámos sobre as estrelas, os planetas, os cometas, as galáxias e todas essas coisas que te fascinam. Eu espreitava pelo teu telescópio e ía acenando enquanto me apresentavas cada pontinho do céu. Mesmo com os quatro anos que nos separavam, ficámos amigos viciados na companhia um do outro. Quase todas as semanas passávamos uma noite a conversar sobre tudo e sobre nada debaixo do céu estrelado.
Naquela sexta-feira de Junho estavas à minha espera ao final da tarde, disseste-me que tinhas novidades, tinha mesmo de ir a tua casa logo à noite... parecias nervoso, ansioso e eu desmarquei um jantar só para te ouvir. Quando cheguei tinhas o brilho das estrelas no teu olhar e pegaste-me ao colo delirante
- Ganhei aquela bolsa de investigação por 3 anos em Massachusetts, vou já em Julho...
A tua voz estava tão feliz que não tive dúvidas: estavas a seguir o teu sonho, a tua estrela. Abracei-te forte e disse-te para comemorarmos juntos naquela noite. Estava uma noite quente de Verão, eu sentei-me na tua frente e enrosquei-me nos teus braços que me envolviam como uma luva. Nessa noite prescindimos do telescópio e ficámos apenas a vaguear os olhos pelo céu distante. Mas ficámos demasiado perto, demasiado juntos, demasiado sós. Tudo se baralhou naquele noite, talvez porque senti que seria o nosso último momento. Talvez porque não consegui compreender o limiar da nossa amizade. E deixei-me levar pelo prazer de estar contigo. Não resisti mais, num impulso beijei-te enquanto falavas. Tu afastaste a cara. Não me surpreendeu, sabia que não gostavas de mim dessa forma e conformada levantei-me rapidamente. Mas não me deixaste ir, puxaste-me o braço e beijaste-me de volta. Nem me questionei porquê. Ficámos abraçados até de madrugada, lutando contra o relógio, como se o mundo fosse acabar no dia seguinte.
E ía mesmo. Nos dias seguintes evitaste-me e quase não nos cruzámos até ires embora. Ficou um buraco enorme entre nós. Às vezes é mais fácil fugir. Nunca chegámos a falar sobre aquela noite nem sobre o que sentimos.Talvez porque não houvesse uma explicação lógica traduzível em palavras. Talvez simplesmente não fizesse parte dos nossos planos apaixonarmo-nos, não fosse o nosso destino. Ficou a saudade sufocada, que vai corroendo por dentro. Ás vezes penso se o teu telescópio conseguirá atravessar o oceano e decifrar o que estou a sentir neste momento, questiono-me sobre o prazo de validade deste mal estar que luto diariamente para que passe...

Já passaram 3 meses, sem uma única notícia. Em noites como as de hoje, ainda olho para o céu e procuro, nas estrelas que te levaram, qual o caminho que devo seguir.

 

Texto escrito para a Fábrica das Histórias

E a música do texto...

"I can't waste time so give it a moment
I realized nothing's broken
No need to worry about everything I've done
Lived every second like it was my last one
Don't look back, got a new direction
I loved you once needed protection
You're still a part of everything I do
You're on my heart just like a tattoo
Just like a tattoo
I'll always have you"

 

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publicado às 22:34


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