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Fábrica de Histórias

por Closet, em 06.05.12

 

 

Escadas

 

Costumo pensar que ser mãe é estar sempre a subir escadas.

 

Sou mãe há 10 anos e tenhos dois rapazes. Tem sido uma boa escalada, admito!

Não pelo cançado, que não me vence, mas raros são os dias em que não me questiono sobre a minha capacidade de ser mãe. Talvez porque a minha mãe tenha morrido cedo e eu não tenha dela qualquer imagem, talvez porque olho em redor e percebo que nem todas nós, mães, sabemos o que ser mãe significa. Esta capacidade que me aterroriza ultrapassa a genética, o ADN ou o grupo sanguíneo. Ser mãe é tão mais do que isso...

Quando me falam do parto, das primeiras semanas, das noites em branco por dormir ou dos choros a fio, eu sorrio. Nada, nessa altura, me assustava. Ainda estava nos primeiros degraus, demasiado concentrada na sua sobrevivência, em dar-lhes de comer, pô-los a dormir, pega-los ao colo horas a fio para não chorarem. Chamam-lhe instinto, e talvez seja, não existiu em mim uma racionalidade efectiva, não precisei de balanço, posso dizer que eles apoderaram-se de mim e me puxaram. 

 

Hoje são autónomos, ou quase. E até parece, por vezes, que fazem tudo melhor do que eu. Verdadeiros perfeccionistas, saltam degraus sem avisar, e eu, nem sempre preparada, tenho de correr, para os alcançar.

Agora, e cada vez mais, assumo a minha maior fragilidade em ser mãe. As exigências são muitas, demasiadas. Detectam cada erro, reclamam cada falha. Ou porque estou atrasada, ou porque não consegui ligar a nova box XPTO da televisão, ou porque não percebo as instruções de um jogo da consola, ou porque não sei ligar o quadro da electricidade... Um universo de dificuldades onde me sinto tantas vezes apavorada. «Sou só uma, não sei fazer isso, não consegui chegar antes...» justifico-me com uma aparente calma, mas de quem no interior se sente pressionada. Por vezes mesmo aprisonada, da necessidade de saber fazer, de conseguir chegar. E aproveito cada momento em que abrandam o passo para respirar fundo, descansar o corpo que treme e focar-me novamente na escalada.

 

Porque no meio dessa luta vem outra ainda mais íngreme, sim, porque ser mãe é mesmo isso, é estar sempre a subir escadas. 

 

E agora que já decidem, têm opinião, força e vontade? Como os irei conquistar? Será que me vão ouvir? Porque não acredito em regras autoritárias para educar. E é nessa brincadeira que levo com eles, em que falho tanto ou mais do que eles, que me sinto muitas vezes uma criança. De mamy, passo a nany e sou uma espécie de irmã, companheira de gargalhadas, de danças e músicas esquisitas, de festas com os amigos cá em casa, de passeios onde vai um, outro e depois já são vinte, de trambolhões em patins em linha no meio da estrada. Eu e eles, não somos diferentes e peço-lhes tantas vezes para não se afastarem, acompanharem-me lado a lado. 

 

Eles estão sempre lá, vejo-os no degrau acima do meu, persigo-os desenfreada no pânico de os perder de vista. E sei que nada me vai arrastar daquela caminhada. Quais ventos fortes? Qual  piso escorregadio? Seguro-me firme, porque a minha vida é agora aquela escada onde subo, passo a passo, os degraus prioritários de os fazer felizes.

 

Costumo dizer que ser mãe, é subir escadas. Por vezes ando triste, cansada, mas tudo se evapora quando abraço os seus sorrisos.

 

 

Texto escrito para a Fábrica de Histórias.

 

 

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publicado às 23:16


1 comentário

Sem imagem de perfil

De the scientist a 23.05.2012 às 22:12

rgds from dusseldorf

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