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Fábrica de Histórias

por Closet, em 15.01.12

 

 

Debaixo de Fobos e Deimos

 

Aqui a terra é vermelha, porque pulsa vida.

Do chão vem o calor que nos aquece. Não temos frio, andamos descalços e não usamos roupas. Quando temos fome, colhemos os alimentos das estufas que construímos e onde cultivámos. Se temos sede retiramos água do fosso que escavámos. Quando estamos cansados, deitamo-nos na primeira cratera que acolhedoramente nos recebe. Não temos um lugar fixo para dormir, para comer, não precisamos de possuir nada. Somos nómadas, deslocamo-nos em grupo, com o tempo, perseguindo sempre a primavera e evitando as tempestades.

Não somos muitos, mas os suficientes para compreender que a vida é limitada, que um dia o nosso coração deixa de bater e o sangue deixa de pulsar. Nas minhas primaveras, já vi alguns morrer na minha frente. Mas nunca chorei. Acreditamos que eles renascem nos outros que vimos nascer com felicidade.

Somos verdadeiramente uns dos outros, vivemos uns para os outros, sem nenhum ser apenas de alguém. Não conhecemos outra forma de viver. Nem compreendemos aquelas de que nos falam os anciões. De violência, ambição, ganância, medo, ódio, mentiras, falsas intenções.

Somos naturalmente simples.

Se estamos felizes dançamos descontrolados ao vento até cair de exaustão. Se nos apetecer falar, falamos. Numa linguagem que sai da boca, dos olhos, do coração e das mãos. Outros são os momentos que reservamos ao silêncio puro de quem não precisa dizer nada, noites em que olhamos extasiados Fobos e Deimos, os deuses inseparáveis que nos acompanham e nos guardam. Fazemos amor, debaixo dos seus olhos, com os corpos colados junto à terra, porque é nela que encontramos o ardor e a magia da paixão. Depois descansamos em abraços prolongados, numa entrega serena, de quem não esconde nada de ninguém.

Dizem, os anciãos, que este era um planeta virgem e foi colonizado. Que descendemos de seres de outro planeta, que aqui, não existia ninguém. Dizem ainda, que quem aterrou cá sentiu uma espécie de chamamento e nunca mais quis voltar. Mesmo com dificuldades de adaptação, largaram a ciência, a cultura, a tecnologia. Deixaram tudo o que os prendia na outra vida. Aqui não tinham qualquer utilidade, nem justificação. Ainda encontramos por cá algumas naves, agora enferrujadas, empoeiradas. Olhamos para elas, atónitos, nem nos atrevemos a entrar. São de ferro, cinzentas, geladas. Como puderam lá habitar? Dizem que esses nossos antepassados encontraram aqui a verdadeira liberdade. Do tempo que contavam pelo sol, do pedaço de terra pelo qual lutavam escravizados. Perceberam aqui, neste planeta deserto e desabitado, que a liberdade é não ter nada, é tão simples como enterrar os pés na terra e caminhar.

Ultimamente tenho acordado com o barulho de naves que sobrevoam o nosso céu, não sei ao certo de que lado vêm, não imagino se vão aterrar. Tenho acordado sempre em sobressalto, porque dizem, os mais velhos e sábios, que o meu planeta vai acabar.

 

História escrita para a Fábrica de Histórias

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publicado às 22:27


2 comentários

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De Natacha a 16.01.2012 às 23:43

Este discurso contido no teu texto é-me tão familiar...


E depois, magnífica a forma como dás vida a uma ideia e nos deixas, como percebeste, deliciados :)


Beijos galácticos ;)
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De Closet a 19.01.2012 às 00:34

Gostas? olha que as crateras são assim um pouco rochosas... mas habituamos o corpo com facilidade :) Agarraste-te ao T. é vêm os dois, boa? 
Beijos marcianos!

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